O discurso ideológico de Ciro Gomes

22/09/2018

 

“Vamos unir o Brasil que produz com o Brasil que trabalha”, diz um dos jargões preferidos de um dos principais candidatos à Presidência da República, Ciro Gomes, do Partido Democrático Trabalhista (PDT). Comumente colocado à esquerda no espectro político nacional, é o candidato com mais chances de enfrentar Jair Bolsonaro em um eventual segundo turno, disputando diretamente, neste sentido, com o indicado de Lula, Fernando Haddad [1]. Com um discurso que oscila entre a agressividade e a cordial bajulação, o candidato apresenta toneladas de dados e referências, pesadas lições acadêmicas e afiadíssima retórica ao expor seus projetos para solucionar a grave crise pela qual passa nosso país. Deste modo, tem conseguido angariar uma boa parcela do eleitorado progressista que insiste na ritualidade “democrática”, mesmo após todo e qualquer resquício da mais estreita democracia ter sido abolida diante de nossos olhos após o impeachment de 2016 [2].

 

Mais do que analisar a dimensão do erro que consiste na obsessão eleitoral da esquerda brasileira e de praticamente toda a esquerda mundial, pretendemos analisar mais brevemente algumas ambiguidades flagrantes – verdadeiros ardis ideológicos – nas falas de campanha e em aspectos do programa do senhor Ciro Gomes. Não que a crítica ao eleitoreirismo não fundamente todo nosso raciocínio, afinal, trata-se de constatar, conforme advogam todas as evidências, o caráter servil às elites exploradoras que o Estado brasileiro e suas instituições ditas democráticas irredutivelmente possuem. Ademais, em um contexto de ruptura institucional como o que vivemos atualmente em nosso país, em que o candidato com mais intenções de votos é retirado no tapetão do pleito e com Generais fazendo ameaças públicas que interferem nos rumos políticos da nação, o caráter reacionário deste Estado torna-se mais sólido e sua relativa abertura às representações democráticas se fecha [3]. Assim, sustentar e insistir neste tipo de caminho para supostamente buscar saídas viáveis ao povo trabalhador, como faz Ciro Gomes e outros candidatos ditos de esquerda, levantam-nos suspeitas e merecem nossa atenção.

 

Ao colocar-se como uma espécie de “sucessor legítimo” de um projeto nacional-desenvolvimentista abortado, com tudo que ele representaria – incluso um certo pacto de conciliação de classes, ideia que muito recentemente já custou caro ao nosso povo –, e como alguém que seria capaz de impor-se contra o Golpe de Estado e restaurar a ordem institucional brasileira, Ciro Gomes revela muito do que seria um eventual governo pedetista a partir de 2019. Em seus dois principais jargões de campanha, repetem-se, ainda que apareçam de formas distintas, as mesmas fórmulas utilizadas pelas cúpulas petistas em seus anos de governo: a fórmula (ou o mito ideológico) da grande e harmônica conciliação nacional de todas as classes sociais, que no caso de Ciro seria garantida pela força e carisma de um “líder forte”; e a fórmula (ou mito) da ascensão social das classes trabalhadoras por meio do consumo, ou seja, a ideia de um crescimento social amplo, harmônico e sustentável para todas as classes sociais nos âmbitos do capitalismo.

 

“Não se preocupe, eu vou tirar o seu nome do SPC!”. É uma frase de efeito que dialoga imediatamente com milhões de brasileiros que, de fato, como afirma o candidato, são humilhados por bancos parasitários que extorquem nosso povo com juros abusivos. Mas ao propor comprar essas dívidas, Ciro acena não apenas aos devedores, mas também aos credores – em grande medida, os mesmos agiotas financeiros que ele critica em outros momentos –, ao garantir-lhes que o Estado arcará com uma parcela satisfatória do montante total desta dívida, lhes assegurando alguma remuneração e reproduzindo, na prática, o detestável “hábito” de transferir riqueza pública para a esfera privada.

 

Ainda que possam dizer que, ao menos, neste tipo de transferência, existe alguma contrapartida para as classes trabalhadoras, que terão seus nomes limpos e voltarão a ter “dignidade”, ou que ela se insere em um planejamento mais amplo de desenvolvimento, esbarra-se no mesmo problema: o de não enfrentar, até as últimas consequências, os interesses dominantes em favor dos trabalhadores, mas tão somente encontrar uma solução de “ganha-ganha”. De fato, do nosso ponto de vista, as imensas massas trabalhadoras brasileiras, mesmo endividadas, sempre possuirão muito mais dignidade do que jamais terá qualquer rentista, banqueiro, latifundiário ou representante deste velho Estado. Assim, cabe esclarecer que na perspectiva colocada por Ciro Gomes enxerga-se dignidade não nos trabalhadores, os autênticos produtores de toda a riqueza material e cultural de nossa nação, mas apenas em cidadãos aptos para o consumo. Em suma, ele quer empregados e consumidores com “nomes limpos”, capazes de auxiliar o capitalismo burocrático brasileiro a retomar sua estabilidade [4].

 

O próprio Ciro Gomes admite esta perspectiva quando afirma que não pretende limpar o nome dos brasileiros endividados por “boa vontade”, mas tão somente por ter consciência de que estimular o consumo das famílias – que ele coloca como um dos “motores” fundamentais para retomada econômica – é uma necessidade imperativa para que as frações da burguesia mais diretamente ligadas à produção industrial consigam esvaziar seus estoques, retomar a produção e a distribuição das mercadorias e assim recuperar suas taxas de lucro. A retomada do consumo das famílias e de alguma produção industrial seria, na lógica do candidato, capaz de amenizar os crescentes conflitos entre o proletariado urbano e a burguesia industrial, especialmente as greves operárias.

 

Além do mais, é bom esclarecer, neste ponto, sobre uma outra ilusão propagada pelo candidato pedetista, que ele seria um representante de uma “burguesia industrial” que se identificaria automaticamente com uma “burguesia nacional”, espremida pelo imperialismo e, portanto, em contradição com ele. Tal associação mecânica é simples demais para expressar a realidade brasileira. Nosso país, após séculos de subjugação colonial e posteriormente semicolonial, é constantemente invadido por capitais estrangeiros, que rapinam nossas riquezas naturais, monopolizam nossas indústrias e mercados, além de explorar brutalmente o trabalho de nosso povo. Nesta situação, temos atualmente no Brasil um cenário onde boa parte da produção industrial, especialmente a produção de bens duráveis, é consideravelmente monopolizada pelo capital estrangeiro (imperialista). Deste modo, ao acenar com as medidas de retorno ao consumo, atende-se aos interesses não apenas de uma burguesia nacional, mas de toda a burguesia industrial, que se identifica em nosso país, em grande medida, com os interesses do imperialismo [5].

 

Contanto, junto das afirmações de fortalecimento de certas políticas públicas e outras medidas voltadas apenas aos interesses mais imediatos das classes populares, Ciro faz declarações enfáticas sobre a baixíssima tolerância que seu eventual governo terá com o movimento sindical e outros movimentos de massa. Ele afirma que “em meu governo, ninguém vai fechar estrada”. Essa postura, vale a pena destacar, não seria mais do que uma repetição daquelas que teve enquanto governador do Ceará, quando em muitas oportunidades pode demonstrar sua intransigência com o sindicalismo mais combativo. É como se o candidato tentasse se antecipar para justificar futuras medidas repressivas, necessárias para “unificar o país” diante de eventuais movimentações de trabalhadores. Estas movimentações, por sua vez, seriam consideradas “excessivas e radicais”, afinal, os trabalhadores não teriam do que reclamar, uma vez que estariam contemplados com as migalhas das políticas públicas e as “soluções” imediatistas (ilusões temporárias) de liberação de crédito e estímulo ao consumo. Por isso, não poderiam fechar estradas (ou ocupar terrenos ociosos, fábricas, quiçá nem cruzar os braços em greve).

 

É fato que o candidato também dá a entender que irá fiscalizar e penalizar os excessos do outro lado, dos patrões. Entretanto, sabemos como pode ser fácil falar grosso com os “de cima” e fino com os trabalhadores em época de eleição, mas sabemos também que o quadro pode ainda mais facilmente se inverter após o pleito, quando o vencedor adentra-se na rede de lobbys que encobre lado a lado da institucionalidade política brasileira (isso tudo sem entrarmos no mérito da pressão militar que está à espreita na penumbra do Estado). Os exemplos de tais giros à direita, sobretudo em candidatos com discursos e programas flagrantemente ambíguos, como é o caso de Ciro, abundam em toda a história da democracia burguesa moderna, tendo acontecido de modo sistemático a partir da década de 80, sendo a eleição de François Mitterrand na França um marco neste sentido.

 

Essa ambiguidade, que está premente, por exemplo, na frase “unir o Brasil que produz ao Brasil que trabalha”, é efeito necessário de toda candidatura em uma democracia burguesa que pretende cumprir seus desígnios de modo mais ideológico do que imediatamente repressivo. Ou seja, enquanto os candidatos mais “à direita”, como o próprio Bolsonaro, dizem sem meias palavras a que vieram, afirmando abertamente que multiplicarão em muitas vezes a repressão policial nas favelas, o armamento das milícias paramilitares dos latifundiários para massacrar camponeses e indígenas e aprovar leis trabalhistas ainda mais medievais que as que já temos; as candidaturas “à esquerda” apostam muito mais na sedução conciliatória, na chantagem moralista pela retomada da normalidade e no apelo emotivo ao fim das divisões políticas. Acontece que a conciliação que se prega é a conciliação de interesses absolutamente inconciliáveis, mais diretamente, os interesses das massas exploradas (“o Brasil que trabalha”) e os interesses das minorias exploradoras (“o Brasil que “produz””). Sabemos que a normalidade que pretende-se retomar é a normalidade do velho capitalismo burocrático brasileiro, semicolonial e semifeudal, absolutamente reacionário e refratário à qualquer tipo de progressismo. E temos igualmente a consciência de que não cabe a ninguém, que de fato defenda os interesses maiores do proletariado e demais classes trabalhadoras, tentar salvaguardar essa velha ordem de coisas, mas sim aprofundar suas contradições para que delas advenha uma ordem nova [6].

 

Enfim, cabe-nos perguntar, afinal de contas, o que significa essa divisão entre os que “produzem” e os que “trabalham”? E mais, o que significa a proposta de “uni-los”? Não seriam justamente aqueles que trabalham exatamente os mesmos que produzem? Assim, os que supostamente “produzem”, no discurso de Ciro Gomes, são os membros da burguesia industrial, exatamente a classe que a tradição marxista categorizou como aquela que não trabalha e que, portanto, necessariamente vive do trabalho alheio. Apenas na ideologia burguesa, onde existe uma completa abstração da história e dos conflitos de classes, que essa burguesia assume imaginariamente a forma daquela classe que “produz”. E a unificação entre esta classe parasitária e aquela que realmente trabalha e produz é exatamente a ilusão ideológica maior, como nos diz Mao Tsé-tung, é uma “harmonia sem princípios”, uma aparência sempre temporária e incapaz de ocultar e impedir os choques de classes por tempo indeterminado. Para nós, trata-se de participar nos momentos decisivos destas lutas de classes, onde encontram-se as condições para realmente solucionar os problemas do povo brasileiro, e que sabemos muito bem, acontecem fora de toda essa esbórnia eleitoral.

 

 

Notas

[1]: Não será neste texto que analisaremos a candidatura de Fernando Haddad, mas esperamos que a análise aconteça em breve. Desde já, afirmamos que é uma candidatura que, à primeira vista, parece-nos, no essencial, muito semelhante à de Ciro Gomes. Ainda que com a diferença de apoiar-se em uma certa mística messiânica em torno da figura de Lula, que sem dúvida é um injustiçado, mas não um messias. Além disso, a escolha do futuro ministro da fazenda de Fernando Haddad parece indicar uma condução programática de um eventual governo petista mais rebaixada que a de Ciro Gomes.

[2]: É evidente que, mesmo antes de 2016, a chamada “democracia” brasileira, gestada sob a tutela da ditadura militar, estava muito aquém de representar aquilo que afirmava: a “vontade do povo”. Dito de outro modo, tratava-se, desde antes, da mais pura e simples ditadura de classe a serviço do imperialismo, dos latifundiários e demais classes dominantes locais. Não obstante, esta dominação ditatorial se revestia de um manto de legalidade, implicando em certas restrições constitucionais e certas mediações institucionais que amortecem ao mesmo tempo em que mascaram esta dominação. A partir do impeachment, este manto foi desvelado diante de todos – com o vazamentos de áudios e cobertura midiática completa –, e toda e qualquer restrição constitucional e mediação institucional foi abolida. Os “políticos tradicionais”, acuados por todos os lados, entregam, sem restrições ou mediação alguma, não apenas as riquezas da nação, mas também a condução de seu próprio destino para gigantescos monopólios estrangeiros e meia dúzia de capachos locais. A mediação politiqueira dos interesses dominantes foi substituída pelo controle direto do imperialismo, com auxílio jurídico-militar-midiático.

[3]: Chama-nos a atenção a atitude de alguns camaradas do campo progressista e de esquerda, incluso alguns camaradas que consideram-se marxistas ou comunistas, que denunciam o caráter reacionário do Estado brasileiro e que adotam a leitura correta de que há um Golpe de Estado em curso em nosso país, mas que não conseguem tirar as consequências devidas de suas leituras e posições. Afinal, ou critica-se o caráter de classe do Estado e assume-se que o Golpe significou a ruptura da legalidade democrática burguesa de nosso país, ou acredita-se nessa via e apostam-se todas as fichas nela. Ademais, mais danoso do que acreditar e disputar no âmbito democrático-eleitoral neste momento, é fazer a luta quase que exclusivamente por essa via. O estrago causado à capacidade de resistência das massas populares por essa estratégia ainda não pode ser mensurado, não obstante ele está feito.

[4]: Capitalismo burocrático trata-se, em linhas gerais, de um tipo de Capitalismo que se desenvolveu sob a hegemonia do capital monopolista estrangeiro, que acaba por lhe imprimir características “patológicas”, com deformações e atrofias em suas potencialidades. Em poucas palavras, é o tipo de Capitalismo que se desenvolve em países semicoloniais e semifeudais, subjugados pelo imperialismo.

[5]:  Não se trata aqui de negar a existência de uma burguesia nacional, substancialmente ligada à produção, nem mesmo a existência de um caráter potencialmente progressista nesta classe, ao constatarmos suas contradições com o imperialismo e sua virtual vocação à industrialização nacional. Trata-se apenas de negar a existência da possibilidade, na atual conjuntura, desta burguesia nacional dirigir um processo nacional-democrático de modo autônomo e consequente. Com a proeminência do capital estrangeiro e a ausência de uma força proletária para dirigir esse processo, a burguesia nacional tende à capitular ao imperialismo. Ainda que admitamos que existem setores desta burguesia que não capitulam, mantendo-se, neste sentido, como uma ala esquerda desta burguesia, entendemos que atualmente a maioria desta classe e seus representantes hegemônicos pendem à capitulação ao programa de desmonte do imperialismo.

[6]: Igualmente, neste sentido, não se trata de negar a possibilidade de uma aliança tática ou mesmo estratégica com setores da burguesia industrial nas condições de desindustrialização brasileira, no contexto do estrangulamento do desenvolvimento nacional pelo capital estrangeiro e da persistência de traços pré-capitalistas nas zonas rurais. Tampouco negar a contradição entre imperialismo e nação como a principal em nosso país atualmente, em frente mesmo da contradição entre burguesia e proletariado. Porém, sem esquecer que esta contradição continua existindo, mesmo em contextos de eventuais alianças temporárias, queremos mais fundamentalmente explicitar como Ciro Gomes pretende conciliar, em seu discurso, interesses absolutamente inconciliáveis, sobretudo por incluir entre os que “produzem” setores irremediavelmente ligados ao imperialismo, como o agronegócio e mesmo parte da produção industrial monopolizada pelo capital estrangeiro.

 

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