"A universidade dos pobres"

31/08/2018

 

Senhor Diretor do La Nación:

 

O patriota, se quer bem a sua pátria, não começará a ler o jornal pelo editorial, que retrata uma opinião, e sim pelos anúncios, que retratam o que se faz. Ver todos a trabalhar é mais belo que ver um a pensar. Só existe um espetáculo mais imponente que o das cabeças dos homens tomadas pela palavra do orador justo e bom: é a tarde na cidade quando os trabalhadores voltam para casa. “Qual a coisa mais bela que viste na montanha?”, perguntaram de surpresa a um pobre montanhês que estava a pensar onde pudesse voltar a espalhar flores e a estender os braços até onde se pode tocar o céu. “Pois nem a tempestade, nem as cataratas, nem o pico dos pinheiros me tocaram a alma como o vagão da rabeira do trem no qual voltava o trabalhador, a olhar o teatro de montes, sentado ao entardecer em meio às ferramentas e provisões que levava para casa, até que, sob o claro das estrelas, chegou a seu vale, com a casinha branca ao fundo, e de um: adeus!, desceu do vagão”. Pelos anúncios se vê a vida pública, o bem e a pessoa de todos, que é a base de cada um, porque não há prazer a não ser onde todos o têm, e cada qual é criador e corresponsável por si, e vê crescer seus frutos em abundância e ordem. Do trabalho contínuo e cadenciado nasce a única felicidade, porque é o sal das demais venturas, sem o qual todas as demais cansam, ou não se parecem nem têm a liberdade de todos mais que uma raiz, e é trabalho de todos. Aqui, no verão, as revistas mensais são uma verdadeira festa porque aos anúncios de produtos [...] se juntam os anúncios das escolas, que nestes meses vão da montanha ao litoral aprendendo a verdade natural, ao ar livre. Uma página é para livros, e para as escolas a página da frente. “Quem for ao campo leve a novela de Howells, A sombra de um sonho, na qual se ensina calmamente que não é bom que com os casados viva a toda hora um amigo de fora, que foi o que disse um argentino de Buenos Aires que anda pela Alemanha num fragmento de Pensamentos”. “Leve os livros de Thoreau quem for ao campo, se for onde haja pequenos roedores;  os de Thomson vão onde existir rios; os de Burroghs onde existir flores os de Lubbock se quer saber de microfísica e estudar nos escaravelhos e nas aranhas o universal que há no pequeno”. “O que tiver filhos e os retira dos ventos da montanha, compre para eles o melhor romance, que é o livro de Arabella Buckley, no qual a ciência nova irradia e entretém, e se aprende o quanto de fato se sabe, na Breve história da ciência natural, ou nos Contos de magia da ciência”. E na página de frente convidam-se os estudiosos a irem à escola de “Curtis”, “porque a formação do caráter é o primeiro”; à “Casa e Escola”, que é “lugar seguro e original”; ao “Instituto de Amigos”, “onde cada qual pode adorar o deus que lhe agrada”; à “Escola de Crianças Carentes”, que “fortalece a inteligência dos que a têm naturalmente frágil”; ao “Colégio de Cayuga”, “que veste seus alunos de uniforme cinza e botões dourados”; à “Academia de Greenwich”, com “aquecedor a vapor e luz elétrica”.

 

Mas há uma escola que não se faz anunciar nos diários, não gasta recados, não tem cercas e muros, nem ensina aos yanques contemporâneos – e às mulheres yanques – a viverem como médicos enfermiços ou advogados de salão, e sim a que, às margens do lago e ao sopé do monte, do florescimento das árvores em junho ao amadurecimento dos frutos em outubro, explica em plena luz do sol como o raio de luz flutua e ondula, e pinta ou retrata, e estuda o céu nas próprias estrelas, e na pedra que há um mês caiu de uma estrela apagada, e fala sobre as nuvens aos pés delas.

 

Cozinhando, ensina a cozinhar. Andando, ensina a desenhar. Ensina a assar batatas e a medir as ondas da luz. É a Escola Livre de Chantanqua [1], que no verão abre suas avenidas, seu templo de filosofia, suas cátedras itinerantes, seu lago e seu anfiteatro silvestre a quantos queiram, por centavos que cabem nas mãos de uma mulher, viver naquelas casas pitorescas, e estudar, recordar e ensinar ou ginástica, ou comércio, ou habilidades caseiras, ou pintura, ou música. Ali não há mais matrícula que a vontade, nem mais lista que o afã de saber, nem mais obrigação que as de uma boa criança. É a universidade do povo, aberta no seio da natureza. Muitos homens e mulheres, quando querem dizer “madre”, dizem “Chantanqua”.

 

Chantanqua é uma vila camponesa, com seus dez mil habitantes nesses meses de calor, e o colégio está por todo o povoado, pois os que não assistem os cursos os leem em suas casas, e os mil transeuntes diários vão onde gostam, para ver os prédios, o vapor do lago onde se dá a aula de meteorologia, à avenida Palestina, onde se juntam e descrevem as folhas os cem alunos de botânica. A professora vai à sala de professoras para aprender como se domesticam os alunos intratáveis, o aficionado vai à aula de declamação que tem um professor para os comediantes e outro para os oradores políticos. Ao cair da tarde, todos se dirigem ao anfiteatro encravado em uma clareira natural, onde um filólogo que não crê em Miller fala das origens das línguas, ou um evolucionista explica ao Mivart [2] que as espécies são obra preconcebida do plano divino do universo, ou um entomólogo demonstra que é certa aquela observação de Emerson de que aquele que vive engarrafando animais acaba por engarrafar a si mesmo. Porque do que ele fala não se encontra luz nem dado próprio sobre a formação das novas espécies, ainda que o entomólogo conheça algo como cento e cinquenta mil insetos, mas o que ele conta da astúcia dos insetos, pela mesma aspereza, como a história mais divertida, e os ouvintes se põem atentos, porque o professor “está falando de insetos ou de homens e mulheres?”.

 

“Obrigado, senhor” – disse um homenzinho careca e ossudo, do alto da galeria –, “eu sempre disse em meu povoado que os poetas veem a verdade antes de todos, e esta conversa prova isso, porque os homens não são mais que larvas crescidas, que foi o que disse Emerson antes de Darwin, quando luta para ser homem, a larva sobe, de figura em figura, até que fique ossudo e careca como eu, ou passa a vida como você, engarrafando outras larvas”. E então outro fica de pé e recita, entre o alvoroço dos pássaros à porta, a poesia inteira de Emerson. Logo o coro voluntário da plataforma rompe em um hino cantado por cinco mil ouvintes. O anfiteatro, com seus bancos de cedro, postos em círculo no estreito da terra dura, vai de fila a fila ficando vazio. E os que os vê sair escondido à porta, como lacrimejam os olhos! Noivos e noivas são, entre os honrados, que trabalham antes de casar-se e juntos aprendem o que não sabem, para que seu amor não acabe por ignorância ou miséria. São os filhos dos camponeses, de espelhinhos e costas redondas, que vêm aprender Horácio e Virgílio e sobre o tempo em que eram considerados magos na Itália, antes que saia a lua dupla, a lua que se junta ao sol na semana da colheita. São ombros de pouca roupa e olhos enfiados na cabeça que vêm com umas poucas moedas de meio peso para estudar mecânica, guarda de livros, política, declamação, estilo, fotografia. São criados de hotel que trazem um livro de Goethe, ou um tomo amarelado de Ibsen, ou a gramática hebraica. É a multidão de mulheres de toda idade, mães que vieram a passeio, prostitutas, professoras em descanso, gente elegante do povoado, mulheres empavonadas, feias de óculos. Levam cadernos de notas, bolsas de bordar, romances de verão, caixas de aquarela. Vê-se um provérbio alemão, uma palavra francesa, um verso de Homero, uma citação latina.

 

Um marido plenamente feliz beija a bochecha de sua mulher, cujos olhos brilham de felicidade: “Mulher, valemos mais do que valíamos!” Os trajes são de algodão ou de lã rude. As mãos, curtidas.

 

Depois de comer, vão ao lago, porque com setenta e cinco centavos que paguem para vir ao povoado, já podem passear, num lindo vapor, por entre as curvas rodeadas de verde do sereno Chantanqua. Ou está aberto, para plásticas cenas da vida grega, o templo da filosofia por onde passeia o auxiliar de arquitetura ensinando a seus discípulos de cabelos brancos sobre as colunas dóricas. Ou vão, aproveitando a lua cheia, conhecer o colégio de artes liberais, que é coisa maior, com mais cúpulas bizantinas do que as que emolduram o teto flamenco, e um pêndulo de claustro sobre outro de quiosque.  Casualmente, de braços dados com sua mulher, passa o filho do bispo Vincent, que desde que o pai se tornou bispo preside todo aquele trabalho, como se fosse um divertimento. Dá gosto vê-lo ir de lá para cá, com sua esposa ao lado, entrando no vizinho, tirando uma margarida do chão, martelando a madeira de uma cerca. A rua é como família, as pessoas conversam e trocam de grupo. Nem cantinas, nem bilhares. Os homens o são; e as mulheres, o são mais. Umas cochicham; outras falam de Tolstoi, criticando-o uma delas, que “não quer nem necessita de intimidades com o varão grosseiro e despótico”; outra fala baixo, sobre física, com seu companheiro; outra indica a um grupo uma receita de pastéis. Gritam os garotos, a plenos pulmões, o conteúdo do jornal do povoado: “Comprem, comprem a chegada dos professores de filosofia natural, comprem a festa do templo das crianças no Assembly Herald”.

 

Cada um paga seu próprio jornal, como tudo o que consome para seu uso e prazer, ainda que ali haja poucas tentações para a gastança, porque a comunidade que possui e administra o povoado não quer “competições saudáveis” que criem rusgas entre barraqueiros ou facções entre os compradores, nem admitem mais barracas que as necessárias e uma de cada espécie de produto. Percebese que a comunidade tem recursos porque o vapor anda e não há folhas mortas no caminho; as ruas são como as da cidade, não há desperdício de água e gás nem custam pouco os professores e os famosos que realizam conferências. Mas o que pode o coração só o sabe quem o põe a trabalhar. Um pressentimento vale uma dinheirama. Para o bem de todos, está implantada Chantanqua, e todos a ajudam. Aquele que ali tem uma casa de veraneio paga o aluguel; o que toma aulas, paga um pouquinho por cada uma delas. O que faltar para cobrir todos os gastos vem dos alunos que não se vê – da universidade onipresente, que tem cadeira à cabeça do enfermo e à mesa de jantar do trabalhador –, dos “cinquenta mil” afiliados ao círculo literário e científico de Chantanqua, ao círculo doméstico.

 

Escreve-se para a caixa de correio 194 a John Vincent, em Buffalo, Nova Iorque, que toma seu lugar como um entre os demais matriculados do círculo. De Buffalo dirige os estudos, que cada um faz em sua casa, com duração de quatro anos: ciências, história, matemáticas, literatura. Os livros indicados pelo círculo são comprados por cada um onde lhe aprouver. Ao fim do curso, o círculo manda as provas, com perguntas que o matriculado responde, para aprovação ou não. O círculo acompanha o estudante, aconselhando-o sobre o que ler, indicando novas leituras, respondendo sem demora a suas consultas e dúvidas, enviando o programa da universidade, o Chantanqua, no qual o que se publica mensalmente está conforme as leituras gerais recomendadas para o mês pelo círculo. E a matrícula da universidade do povo, da universidade doméstica, custa, por ano, cinquenta centavos.

 

Há um interesse por trás dessa boa obra – o poder incisivo e sutil do dogma – que inibe, nos cursos, o maior benefício que resultaria aos educandos de estudar sob a supervisão daqueles que não tiveram “machado para amolar” nem escada para subir aos palácios do mundo, a não ser o ensino desinteressado, sem por nem tirar quanto à substância do que sabem, sem cair na tolice da formiga que se declarasse proprietária do monte, que é o que fazem os homens que cuidam de Deus na terra. A Igreja Metodista, que em outros lugares fenece, em Chantanqua floresce, porque ali se juntou aos humildes e abriu-se aos tempos, não querem palmatória dominical nem porta fechada, nem compartilham das guerras dos poderosos, por maior ou menor crença, e apenas pedem à natureza os seus segredos. E encontram na comunidade inteligente e livre um prazer mais digno e penetrante, mais humano e religioso que aquele que, para engrandecer a igreja, traz aos homens o aborrecimento e a destruição. As igrejas daqui, para não perecerem, participam com a comunidade. Antes prosperava a mais intolerante, agora só a tolerante prospera. Cada uma, em surdina, arremete suas vanguardas e procura disputar com suas rivais o novo povo, a cadeira vazia, ou o milionário moribundo. Em seu coração sabem, no entanto, que morrerão se não se unirem; são como os advogados, que disputam no tribunal e em seguida, no restaurante do hotel, sentam-se à mesma mesa e tomam champagne juntos. Assim é que em Chantanqua não se pede aos que a ela acorrem que sejam metodistas como o bispo Vincent: entende-se que cada igreja tem seu templo e todas se unem na crença comum da revelação. E no domingo, dia de descanso no povoado, não há outra tenda a não ser a divina, nem teatros que não os religiosos, com seus cantos e conclaves, com oratórios públicos e domésticos; no anfiteatro repleto, de teto rústico e aberto aos céus, não predica um clérigo na acepção do termo, apegado à superioridade de sua palavra, mas um notório orador, de espírito aberto e sagaz, que comove e mobiliza pela simpatia de sua palavra, e não ofende, nestes tempos em que alvorece a religião natural, ao que seja menos livre e belo que a natureza, e a deforme, rebaixe ou contradiga. Pois, o dia em Chantanqua que gente dos lugares mais afastados chega para ver, o dia da religião suprema, em que os homens parecem filhos naturais das montanhas do entorno, é o de reconhecimento dos diplomas, quando de todos os cantos da República vêm os alunos para pegar nas mãos daqueles que, da santa lagoa, trouxeram as luzes do livro de uma forma que não lhes machucasse os olhos, a sua cadeira de inválido, à sua mesa de aldeão, a seu púlpito de clérigo pobre, às caixas de costura da trabalhadora, a sua bancada de ferreiro, a sua cabana de negro do Sul, a sua cela de prisioneiro. E no dia do reconhecimento, no anfiteatro aberto aos céus, todos recebem seu diploma, chorando.

 

La Nación, Buenos Aires, 22 de outubro de 1890

 

Escrito por José Martí

 

Notas

[1] “Chantanqua foi um sistema de educação popular que iniciou com uma assembleia de professores de Escola Dominical, em 1874, que se encontraram na cidade de Fair Point às margens do Lago Chantanqua, no oeste do estado de Nova York. A escola foi organizada por John Heyl Vincent (1832-1920), um bispo da Igreja Metodista e em pouco tempo se transformou num local de conferências e estudos” (Streck, 2008, pp. 85-86).

 

[2] Referência ao naturalista inglês Saint George Mivart (1827-1900), que publicou, em 1871, texto em que, em meio a intensa controvérsia científica, polemiza com Charles Darwin.

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