Fanon: "Furor racista em França"

18/08/2018

 

Há dois anos, na sequência da ação dos comandos do ELN (Exército de Libertação Nacional) em território francês, quer para neutralizar a contrarrevolução então muito ativa, quer para reagir contra certos torcionários da polícia francesa, vimos desenvolverem-se atitudes espontâneas de racismo e de discriminação passional relativamente aos Norte-Africanos — de um modo imediato e global, a desconfiança para com os Árabes torna-se uma segunda natureza. Mais um passo, e a caça foi aberta. É o período, lembramo-nos, em que até um sul-americano era crivado de balas por se assemelhar a um norte-africano.

 

Os cidadãos tunisianos e os cidadãos marroquinos iriam sofrer também com este comportamento racista. Operários tunisianos presos, internados, espancados... estudantes marroquinos apanhados, interrogados na polícia judiciária... Na rua, grosserias, humilhantes tanto para a pessoa visada como também para os jovens Estados.

 

Era o período, bem nos lembramos, em que todo o norte-africano era várias vezes interpelado e em que muitos operários tunisianos ou marroquinos, que trabalhavam em França, decidiam voltar ao território nacional.

 

Nesta altura, tornou-se hábito decretar que apenas os Argelinos eram responsáveis por este estado de coisas e que dependia dos Argelinos fazer cessar essa suspeita generalizada relativamente à população norte-africana.

 

Assim, pois, este comportamento fortemente agressivo e odioso não era uma componente das estruturas sociais e mentais do povo francês, mas simplesmente a reação de autodefesa de um organismo que dificilmente diferenciava entre si os habitantes do Maghreb.

 

Os recentes acontecimentos registrados em território francês merecem ser evocados aqui. Mostrar-nos-ão sem qualquer dúvida que a confusão na percepção do “meteco” não deve ser encarada como uma ignorância lamentável, mas encontrava a sua justificação num princípio, esse banal, que quer que as formas mais brutais do racismo se instalem em França com uma cadência verdadeiramente explosiva.

 

Um escritor apunhalado

O primeiro fato é o atentado dirigido contra o jovem escritor Oyono, há três semanas. O autor de Une vie de Boy saía de um restaurante acompanhado por uma mulher. O casal foi assaltado, a mulher insultada de maneira obscena, esbofeteada, espezinhada. Quanto a Oyono, depois de ter resistido aos seus assaltantes, acabaria por cair, com um punhal cravado entre as omoplatas e entrar de urgência num hospital parisiense. Depois de uma transfusão de sangue, viria a restabelecer-se. Restabelecido atualmente, diz a quem o quiser ouvir que não se sente em segurança em território francês e que está a preparar a partida.

 

Como interpretar este acontecimento? Não se trata de um atentado dirigido contra este homem de cor, nem de uma tentativa de roubo. Trata-se, como proclamaram suficientemente os seus autores, de um corretivo dado à mulher (que era branca) e de um aviso dado ao negro. A matilha lançou-se sobre Oyono gritando: “Morte aos negros!”

 

Oyono antes de desmaiar entregara à polícia um dos seus agressores. Ignoram-se até hoje os nomes dos assaltantes e, apesar de tomadas de posição firmes de várias associações, duvida-se de que este caso venha a ser objeto de resolução judiciária. De assinalar que tudo se passou em pleno Quartier Latin, isto é, em pleno bairro intelectual habituado à presença de estudantes de todas as origens. Ninguém foi em socorro do agredido e, terminada a operação, os assaltantes puderam desaparecer tranquilamente.

 

Um filme antirracista atacado...

Já se fizeram vários filmes com o intuito de lutar contra o racismo que reina nos Estados Unidos e noutros lugares. O mais recente, Tripes au soleil, sobre o qual se poderiam dizer muitas coisas, acaba de ser exibido em Paris. Desde a primeira sessão que jovens parisienses fizeram um barulho extraordinário, partiram cadeiras, sujaram-o e manifestaram a sua hostilidade no final da sessão. Os gritos “Abaixo os negros”, “Morte aos negros”. “Viva Hitler”', fizeram-se ouvir e a policia “dispersou os manifestantes”.

 

Desde há várias semanas, de maneira sistemática, as organizações antifascistas são atacadas. Um dos movimentos mais ativos, o MRAP, contra o racismo, contra o antissemitismo e pela paz, que foi um dos primeiros a tomar posição contra o principio da guerra da Argélia e pelo reconhecimento da nação argelina, e objeto de ataques ininterruptos. As suas sedes são assaltadas quase diariamente, e os seus dirigentes objeto de ameaças e de agressões. Nas paredes de Paris, também desde há algumas semanas, aparecem cruzes gamadas. Estas cruzes em Paris não são senão as réplicas daquelas que se podem ver há mais tempo em Argel e em Constantine.

 

Quando, em França, um filme antirracista é atacado, em pleno dia, por uma organização que não tem medo de proferir o slogan: “Morte aos negros!”, podemos dizer que a democracia vai muito mal em França e que os negros fariam bem em abandonar o navio.

 

Mas então, dir-se-á, não será necessário evitar generalizar a partir destes fatos?

 

Não se tratará apenas de manifestares episódicas reprimidas pela lei e condenadas unanimemente pela consciência nacional francesa? Talvez seja conveniente determo-nos um pouco mais. Talvez semelhantes manifestações não surjam espontaneamente. Para que existam, para que tomem forma, é preciso que numa certa medida, precisamente na consciência nacional, se tenha produzido uma sedimentação suficiente de racismo, de complexo de superioridade, de discriminação. Estas manifestações, vindas diretamente do coração, isto é, do coração do indivíduo, exprimem não só o vício da educação francesa relativamente ao resto da humanidade, como também as consequências de dezenas de anos de dominação colonial.

 

O próprio general De Gaulle, no seu último discurso em Blois, não reencontrou, miraculosamente, esse caminho do coração?

 

Ao falar da necessidade de se chegar a um acordo na Europa, não disse que “nós, brancos e civilizados, deveríamos encontrar um campo de entendimento”?

 

Pensamos infalivelmente nesta passagem do poeta negro Césaire:

 

“O que ele (o burguês humanista do século xx) não perdoa a Hitler, não é o crime em si, o crime contra o homem branco, é ter aplicado à Europa processos colonialistas só aplicados até aqui aos árabes da Argélia, aos coolies da índia e aos negros da África.”

 

Sim, quando o racismo atinge tais dimensões em França, é tempo de os negros abandonarem o navio. Cabe aos membros da “Comunidade Francesa” decidir se o seu lugar continua a ser ao lado daqueles que ainda não se desembaraçaram, frente à raça negra, nem das baixezas nem do ódio.

 

Publicado no EJ Moudjabid, n.° 42, de 25 de Maio de 1959.

 

Escrito por Frantz Fanon

 

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