“O novo espírito e a escola”

17/08/2018

 

I

 

Um dos fatos que comprovam de maneira mais confiável a lenta, porém segura elaboração de uma nova consciência nacional, como acredito já ter enfatizado mais de uma vez, é o movimento de renovação que se afirma cada vez mais entre os professores. O professor peruano quer ocupar seu lugar no trabalho de reconstrução social. Não se conforma com a sobrevivência de uma realidade ultrapassada. Propõe-se contribuir com seu esforço para a criação de uma nova realidade.

 

Este movimento é apresentado, em parte, como um eco dos movimentos análogos da Europa e da América. Alimenta-se de uma ideologia amplamente internacional. É inspirado nos princípios de Dewey, Kerschensteiner, Lunatcharsky, Ingenieros, Unamuno, etc. Mas recebe seu impulso de nosso próprio processo histórico.

 

O jovem professor mostra, em geral, um desejo vivo de reforma que, em vez de uma afiliação ideológica moderna, depende de uma reação espontânea contra as deformidades e as antiguidades que persistem no ensino no Peru. Sua atitude não representa, como supõem alguns observadores superficiais, a consequência fácil de um simples ato de adesão intelectual às ideias de vanguarda. O fenômeno é melhor explicado inversamente. O desejo de mudança radical decorre diretamente da necessidade dessa mudança. Você começa sentindo o problema e termina adotando a doutrina que garante a melhor solução.

 

Precisamente, o que ainda falta no Peru à corporação dos professores primários é uma orientação ideológica definida: há núcleos bem orientados e doutrinados; mas esses núcleos ainda não representam a consciência da corporação. Por outro lado, o desejo de novos métodos, o desejo de novos caminhos são categóricos, embora difusamente sentidos por quase todos os jovens professores. Na mesma velha guarda, espíritos sensíveis a essa sede de renovação não são incomuns. O trabalho ou processo que tem que ser realizado gradualmente é o de transformar esse estado mental em um estado de consciência.

 

II

 

O novo espírito dos professores começa a se expressar mais claramente. Três professores inteligentes, estudiosos e dinâmicos da Escola Normal - Carlos Velásquez, Amador Merino Reyna e César Oré - fundaram uma revista três meses atrás – a Revista Peruana de Educação – que em seus três números iniciais credita seu direito e sua aptidão à constituição do órgão central do movimento renovador. Esses três mestres não estão sozinhos. Eles são apoiados pela simpatia e solidariedade dos melhores elementos de sua corporação.

 

Saudando a primeira edição da revista, um professor de Trujillo, C.J. Galarreta, depois de constatar que “é urgente levantar o problema da educação dentro de um ambiente ético e idealista”, define a missão do órgão criado por seus companheiros da Escola Normal de Lima: “Precisamos de uma revista que vá além do quadro negro e da sala de aula, que seja projetada para a sociedade, para o meio ambiente, que sugira, que modifique, que discipline energias, que voe sobre as injustiças, sobre as rotinas e sobre os nivelamentos”.

 

Tudo isso não é apenas uma promessa, mas uma realização desta revista que, embora não tenha merecido da imprensa diária os comentários habitualmente concedidos a qualquer charlatanismo e a qualquer palhaçada, significa uma das manifestações recentes mais válidas da cultura peruana. Merino Reyna, expondo o objeto da revista, pronunciou esta frase que revela o valor e a honestidade do grupo que a publica: “Colocaremos nessas colunas, junto com nossas convicções, a responsabilidade de nossas assinaturas”. Tem sido essa a linguagem das revistas de alma burocrática e servil que a precederam no tempo, sem precedê-la absolutamente no espírito, à Revista Peruana de Educação?

 

Nas instituições de ensino peruanas tem subsistido há muito tempo o mesmo que no artesanato, o espírito que condensa e representa as velhas “sociedades de auxílio mútuo”, com seus grandes elencos de presidentes e sócios honorários, com seus ritos, seus diplomas, suas medalhas e seus uniformes.

 

III

 

E não é a Revista Peruana de Educação o primeiro nem o único representante do novo espírito dos professores. Um grupo de professores de Arequipa fundou recentemente outra revista: Idearium Pedagógico. Esta revista não pôde ser desenvolvida materialmente. Atualmente, Idearium Pedagógico é apenas uma pequena folha modesta. Mas essa pequena folha modesta vale, como voz da época, mais do que um volume pedante e publicações tão acéfalas que, sem qualquer título intelectual ou moral, costumam chamar a atenção do público.

 

Jauja é outro centro de interessante inquietude. Duas revistas pedagógicas são publicadas nesta província: a Revista de Educação e A Revista do Professor. Ambas recomendam a inteligência e o entusiasmo dos professores jaujinos. Carlos Velásquez, julgando a primeira, observa que seu diretor soube dar-lhe “o caráter que hoje é mais necessário no Peru: o doutrinário, que traz consigo o brilho dos ideais, novos propósitos, nobres explosões, vozes de encorajamento e estímulo necessário para obter uma grande parte de nossos professores fora uma conformidade perigosa”.

 

IV

 

A Revista Peruana de Educação defende a reunião de um congresso nacional de educadores. “Acreditamos ser indispensável – declara – a celebração de um Congresso Nacional de Educação, Pedagogia ou de Professores, como quiser chamar, para indicar os ideais que deve perseguir a Escola Primária, para que haja unidade de ação no ensino e para que o resultado destes esforços seja uma educação em harmonia com as tendências do tempo e do progresso da Pátria”.

 

Este congresso não produzirá, nem deve produzir, um programa definitivo, mas inaugurará uma nova etapa em nossa vida educacional. Desde sua tribuna os professores de vanguarda dirão a todas as instituições de ensino sobre a boa doutrina. E formulará os princípios de uma revolução de ensino.

 

Seria prematuro dizer que os professores peruanos em geral estão realmente interessados em um debate de ideias. A maioria ainda é composta de indiferentes e conformistas. Mas a mera existência de uma minoria volitiva, que quer e exige uma renovação, anuncia o despertar de todo o corpo de professores.

 

Ninguém que esteja ciente da história da pedagogia moderna pode se surpreender com o fato de que esse movimento recruta seus adeptos, quase que exclusivamente, entre os professores do ensino primário. Todas as ideias que estão transformando o ensino no mundo surgiram no fértil campo de experimentação e criação da escola primária. As escolas normais constituem, em toda parte, o lar natural da nova ideologia pedagógica. As do Peru não precisam ser uma exceção.

 

Publicado em Mundial, Lima, 29 de maio de 1925

 

Escrito por José Carlos Mariátegui

 

Traduzido por F. Fernandes

 

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