Lenin: "A Chantagem Política"

15/08/2018

 

Chama-se chantagem à extorsão de dinheiro sob a ameaça de se revelar quaisquer fatos ou “histórias” intentadas que podem ser desagradáveis para a pessoa em causa ou sob a ameaça de lhe causar quaisquer outros aborrecimentos.

 

Chantagem política é a ameaça de revelar ou a revelação de “histórias” reais, mas mais frequentemente inventadas, com o objetivo de prejudicar politicamente, caluniar, impedir ou dificultar ao adversário a possibilidade de atividade política.

 

Os nossos burgueses e pequenos burgueses republicanos, desculpem-me a expressão, ou mesmo democráticos, revelaram-se heróis da chantagem política, movendo uma “campanha” de difamações, mentiras e calúnias contra os partidos e personalidades políticas que não lhes convém. O czarismo perseguia de modo grosseiro, selvagem, feroz. A burguesia persegue de modo sujo, tentando manchar o revolucionário proletário e internacionalista que odeia com a calúnia, a mentira, as insinuações, as difamações, os boatos, etc., etc.

 

Os bolcheviques em particular tiveram a honra de experimentar em si estes métodos de perseguição dos imperialistas republicanos. O bolchevique em geral poderia aplicar a si a conhecida máxima do poeta:

 

Ele ouve a voz de aprovação

Não no doce murmúrio do louvor

Mas nos gritos selvagens de indignação [1].

 

Quase imediatamente depois do começo da revolução russa são lançados gritos selvagens de indignação contra os bolcheviques a partir das páginas de toda a imprensa burguesa e de quase toda a pequeno-burguesa. E o bolchevique, o internacionalista, o partidário da revolução proletária, pode com justiça “ouvir” nestes gritos selvagens de indignação as vozes de aprovação, porque é o ódio furioso da burguesia que muitas vezes serve de melhor prova de justo e honesto serviço ao proletariado da parte daquele que é caluniado, caçado, perseguido.

 

Podemos ilustrar com particular clareza o caráter chantagista dos métodos caluniosos da burguesia com um exemplo que não diz respeito ao nosso partido, com o exemplo do socialista-revolucionário Tchernov. Caluniadores notórios, membros do partido democrata-constitucionalista, com Miliukov e Guessen à cabeça, querendo assustar ou expulsar Tchernov, lançaram contra ele uma campanha por causa dos seus artigos supostamente “derrotistas” escritos no estrangeiro e por causa dos seus contatos com pessoas que pretensamente teriam recebido dinheiro de agentes do imperialismo alemão. A campanha começou a inflamar-se. Toda a imprensa burguesa a retomou.

 

Mas eis que os democrata-constitucionalistas e os socialista-revolucionários se “reconciliarem” com uma determinada composição do governo. E – oh milagre! – o “caso” Tchernov desapareceu!! Em alguns dias, sem julgamento, sem inquérito, sem publicação de documentos, sem interrogatório de testemunhas, sem conclusões de peritos – o “caso” desapareceu. Quando os democrata-constitucionalistas estavam descontentes com Tchernov, surgiu um “caso” calunioso. Quando os democrata-constitucionalistas, ainda que temporariamente, se reconciliaram politicamente com Tchernov, o “caso” desapareceu.

 

Aí têm, clara como água, a chantagem política. A campanha contra pessoas nos jornais, as calúnias, as insinuações, servem nas mãos da burguesia e de celerados como os Miliukov, os Guessen, os Zaslavski, os Dan, etc., de instrumento de luta política e de vingança política. Uma vez atingido o objetivo político, o “caso” contra X ou Y “desaparece”, demonstrando desse modo a natureza suja, a vil desonestidade e o chantagismo daquele que suscitou o “caso”.

 

Porque é claro que não um chantagista, quaisquer que fossem as mudanças políticas, não interrompia as revelações se nessas revelações ele se guiasse por motivações honestas, que não um chantagista levaria em qualquer caso as suas revelações até ao fim, até uma sentença do tribunal, até ao completo esclarecimento do público, até à recolha e publicação de todos os documentos ou até à admissão aberta e franca de que do seu lado houvera erro ou mal-entendido.

 

O exemplo de Tchernov, que não é bolchevique, mostra-nos claramente a verdadeira natureza da campanha de chantagem contra os bolcheviques da parte da imprensa burguesa e pequeno-burguesa. Quando o objetivo político destes cavaleiros do capital e dos seus lacaios lhes pareceu atingido, quando os bolcheviques tinham sido presos e os seus jornais encerrados – então os chantagistas calaram-se! Tendo nas mãos todos os meios de revelar a verdade – a imprensa, o dinheiro, a ajuda da burguesia estrangeira, a cooperação da “opinião pública” de toda a burguesia da Rússia, o apoio amigável do poder de Estado de um dos maiores Estados do mundo –, tendo tudo isto nas mãos os heróis da campanha contra os bolcheviques, os Miliukov e os Guessen, os Zaslavski e os Dan, calaram-se.

 

Fica claro para qualquer pessoa honesta aquilo que de imediato ficou claro para os operários conscientes – toda a vida dos quais os prepara para compreender rapidamente os métodos da burguesia –, a saber: que os Miliukov e os Guessen, os Zaslavski e os Dan, etc., etc., são chantagistas políticos. É preciso afirmar isto, explicar isto às massas, publicar isto para um livro, boicotar os chantagistas, etc., etc. São estes os métodos de luta contra a calúnia e a chantagem dignos do proletariado!

 

Um dos últimos a sofrer a chantagem foi o nosso camarada Kamenev. Ele “afastou-se da atividade social” até ao exame do caso. Em nossa opinião isto é um erro. Era precisamente isso que os chantagistas queriam. Eles não querem examinar o caso. Bastava a Kamenev opor aos celerados a confiança do seu próprio partido – que depois ladrassem os cães do Retch, do Birjevka [2], do Den, do Rabotchaia Gazeta e de outros jornais igualmente infames.

 

Se o nosso partido concordasse com o afastamento da atividade social dos seus chefes devido ao fato de serem caluniados pela burguesia, o partido sofreria gravemente, prejudicaria o proletariado, causaria alegria aos seus inimigos. Porque a burguesia tem muitos jornais, penas chantagistas a soldo (como a de Zaslavski e cia.) ainda tem mais, para ela seria facílimo “afastar” os nossos funcionários de partido! Ela não pensa o exame do caso, na busca da verdade.

 

Não, camaradas! Não cederemos aos gritos da imprensa burguesa! Não daremos satisfação aos celerados da chantagem – os Miliukov, os Zaslavski. Confiaremos no veredito dos proletários, dos operários conscientes, do nosso partido, composto por 240.000 internacionalistas são perseguidos pela burguesia em aliança com os defensistas por meio da mentira, da calúnia, da chantagem.

 

Seremos firmes a estigmatizar os chantagistas. Seremos inflexíveis no exame das menores dúvidas pelo juízo dos operários conscientes, pelo juízo do nosso partido, confiamos nele, vemos nele a inteligência, a honra e a consciência da nossa época, vemos na união internacional dos internacionalistas revolucionária a única garantia do movimento libertador da classe operária.

 

E nenhuma cedência à “opinião pública” daqueles que estão no mesmo governo que os democrata-constitucionalistas, que estendem as mãos aos Miliukov, aos Dan, aos Zaslavski!

 

Abaixo os chantagistas políticos! Desprezo e boicote para eles! Desmascaramento incansável dos seus nomes infames perante as massas operárias! Devemos seguir firmemente o nosso caminho, salvaguardar a capacidade de trabalho do nosso partido, salvaguardar os seus chefes mesmo de perderem tempo com os enlameadores e com as suas sujas calúnias.

 

Publicado no Proletari, nº 10, 24 de agosto de 1917

 

Escrito por V. I. Lenin

 

 

 

Notas

[1] Lenin cita o poema de Nekrássov “Abençoado o Doce Poeta”.

[2] Birjevíe Védomosti (Notícias da Bolsa): jornal burguês publicado em Petersburgo de 1880 a 1917. O jornal começou por publicar-se três vezes por semana, depois quatro, depois diariamente, e a partir de 1902 duas vezes por dia. O oportunismo, a venalidade e a falta de princípios fizeram do nome do jornal um substantivo comum (birjevka). Depois da revolução democrática burguesa de Fevereiro o jornal levou a cabo uma agitação persecutória contra o partido bolchevique e contra Lenin.  

 

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