"Como engordei na URSS à procura de quem passasse fome"

28/07/2018

Fui um dos 12 operários e camponeses eleitos pelos respectivos sindicatos e organizações de confrades, sob os auspícios da Associação de Amigos da União Soviética, para visitar a URSS e relatar como funciona o socialismo na prática. William Randolph Hearst e a sua cadeia de jornais, como o Boston American, o Boston Advertiser, o New York Evening Journal e outros, têm difundido informações de que não existem verdadeiros sindicatos na União Soviética, de que os cidadãos soviéticos passam fome, de que a União Soviética é governada por um ditador. Fomos enviados por operários e camponeses para apurar se o que Hearst diz é verdade ou mentira. Fomos enviados para ver como os cidadãos soviéticos trabalham e se divertem, o que comem, como funcionam os seus sindicatos e explorações agrícolas colectivas, se há desemprego, que protecção têm na velhice e na invalidez, como são tratadas as mulheres e as crianças, e muitas outras questões.


Entre nós estavam representantes de vários sindicatos, cooperativas e outras organizações.[1] Quatro de nós somos membros do Partido Socialista. Havia um pequeno agricultor do Michigan, um produtor de leite, um professor de escola e um médico. Estavam também representadas várias nacionalidades: lituana, italiana, polaca, judaica, afro-americana e franco-canadiana. E havia entre nós quer católicos quer protestantes.


Eu fui eleito num encontro realizado em New Bedford, Massachusetts, por operários têxteis e outros, e apoiado pelo Sindicato dos Tecelões.[2] Várias organizações ligadas à igreja e clubes religiosos ajudaram a reunir o montante necessário para a viagem.


Sou ajudante de operário de fiação e trabalho no processo final do fio de algodão, reunindo e aparando as extremidades antes de entrarem nos teares. Ganho 16,70 dólares por semana. Sou católico praticante, membro activo do Partido Socialista e ex-membro da Guarda Nacional. Frequentei a escola paroquial e deixei de estudar no sexto ano para começar a trabalhar. O meu pai é um operário têxtil, membro do sindicato há 45 anos. Sou de ascendência franco-canadiana e em casa sempre falámos tanto inglês como francês.


E é tudo sobre quem somos. O mais importante é o que se segue: o que vimos na União Soviética.

Marinheiros franceses e marinheiros russos
Viajámos em terceira classe até Londres no transatlântico francês Ille de France, e de Londres até Leningrado no navio russo Cooperatsia. Marinheiros do Ille de France disseram-nos que todos membros da tripulação eram do Partido Socialista Francês. Ao saberem que havia entre nós quatro socialistas, incitaram-nos a unirnos numa frente com os comunistas, tal como eles tinham feito em França. Os marinheiros franceses estavam sempre a trabalhar e quase não tinham tempos livres. A disciplina era muito rigorosa e os oficiais instruíam os passageiros para não falarem com os marinheiros.


No navio soviético a atmosfera era estranhamente diferente. Os marinheiros não prestavam continência aos oficiais, mas tratavam-os de «camarada». Fiquei surpreendido ao ver o capitão e membros da tripulação fora de serviço caminhando de braço dado e cantando sonoramente. Na grande sala comum para marinheiros e oficiais havia um «recanto vermelho» com um busto de Lénine, livros e jornais. A tripulação disse-me que o trabalho não era muito pesado. Na próxima viagem do Cooperatsia ficariam em terra com salário completo, só faziam uma em cada duas viagem, o que lhes permitia ficar metade do tempo em casa com as suas famílias. Reparei que a disciplina era rigorosa quando estavam de serviço, e tanto os oficiais como os marinheiros pareceram-nos competentes nas suas funções.

Leningrado
Fomos recebidos no cais de Leningrado por representantes dos sindicatos, repórteres e fotógrafos da imprensa. Também estava uma banda de operários de uma oficina que era muito boa. Depois dos discursos em russo e em inglês fomos para o hotel onde jantámos. A comida era muito boa, mas o serviço modesto. Explicaram-me que não havia empregados suficientes, porque as pessoas preferiam outros trabalhos.


No dia seguinte visitámos a fortaleza de Pedro e Paulo, uma antiga masmorra para presos políticos, do tempo em que os capitalistas russos punham na prisão os operários que lutavam pelos seus direitos e por um governo operário. Agora é um museu. O antigo palácio do tsar é também um museu. Tudo permanece precisamente como foi deixado pela família do tsar. Por toda a parte em que estive na União Soviética vi lugares históricos (antigas prisões, palácios, muitas igrejas) conservados como se fossem museus.


Sabia que fora enviado pelos operários de New Bedford com uma missão mais importante do que visitar museus. Por isso, dediquei os dias seguintes a investigar as fábricas têxteis de Leningrado. Durante a minha estadia na União Soviética concentrei-me nas fábricas têxteis e de vestuário, vendo com os meus próprios olhos como funcionam, que tipo de máquinas usam, como estão organizados os sindicatos e quem os dirige, quais são os horários, salários e condições de vida dos operários têxteis e vestuário.

O trabalho de detective amador na União Soviética
Antes de partir dos Estados Unidos alguns dos meus amigos aconselharam-me a não acreditar em tudo o que me diziam. «Só te vão mostrar aquilo que querem que vejas», avisaram-me. «Por isso mantém os olhos abertos».


De modo que, durante a minha estadia, fiz um pouco de detective amador. As delegações dos sindicatos vieram indicar-nos quais as fábricas têxteis mais apropriadas para visitar. Agradecia-lhes amavelmente, mas depois, com o meu companheiro de viagem, Adam Chada, um mineiro lituano que vivia na Pensilvânia e falava russo, ia investigar uma fábrica que não tinha sido recomendada pelo sindicato. Mais tarde visitávamos também a fábrica modelo. Com frequência deslocávamo-nos em tróleis. Eu puxava Chada pela manga e dizia-lhe: «Vamos descer aqui». Descíamos e dirigíamo-nos logo para a casa de um operário. Chada explicava quem éramos, e o operário mostrava-nos a sua casa. Nunca conseguimos sair sem antes partilharmos uma refeição com o operário e bebermos um bom vinho soviético. Desta forma, fazíamos em média cerca de seis refeições por dia. Nas tentativas que fiz para encontrar uma família com fome na Rússia, de que o sr. Hearst falava, ganhei 15 libras (6,8 kg) de peso.

Fábricas têxteis na União Soviética
Visitei a fábrica «Rosa Vermelha» em Leningrado, que é a maior fábrica têxtil da Europa. Fabricam produtos acabados de algodão e um pouco de lã. Em 1930, o salário médio na fábrica era de 93 rublos. Em 1935 é de 184 rublos e muitos operários ganham bastante mais. A maior parte do trabalho é à peça. Não têm relógios de ponto, mas usam o seu próprio sistema para contabilizar o trabalho, que é supervisionado, cabe dizer, pelos próprios operários. As mulheres recebem o mesmo salário que os homens pelo mesmo trabalho.


Todas as máquinas perigosas estão protegidas. Certos mecanismos, que nos Estados Unidos nem sequer teríamos pensado em proteger, aqui estão cobertos (por exemplo, as poleias das correias inferiores na sala de corte). Na sala de tecelagem, a zona onde a lançadeira trabalha está coberta.


Um operário com família gasta cerca de 168 rublos por mês em comida. A renda de casa representa dez por cento do seu salário mensal e as quotizações sindicais, um por cento.


Assim, se marido e mulher trabalharem, têm dinheiro suficiente tanto para as suas necessidades básicas como para muitos outros gastos. Não surpreende que 70 por cento dos operários na União Soviética tenham contas bancárias.


Um tecelão de seda opera em média três teares, nunca seis como nos Estados Unidos. Um técnico de manutenção tem ao seu cuidado no máximo 40 teares, nunca 100 como no nosso país. Na sala de corte, cada ajudante de operário prepara os fios para o respectivo operário tecelão e está encarregado de uma só máquina. Nos Estados Unidos, um ajudante trabalha com três máquinas.


Constatei que na URSS são utilizados métodos tão eficientes como nos EUA, porém os objectivos são diferentes. Nos Estados Unidos contratam-se especialistas para melhorar a eficiência com vista a aumentar os lucros dos accionistas, enquanto na URSS a melhoria da eficiência é utilizada para aumentar a produção com vista a corresponder à procura dos consumidores, uma vez que há carência de produtos têxteis. O resultado deste aumento da produção é devolvido aos operários sob a forma de salários mais altos, novas máquinas, mais férias, etc.


Posso garantir que o sistema de stretch-out[3] não é usado. Para aqueles que não estão familiarizados com a indústria têxtil devo dizer que o stretch-out é um esquema capitalista de intensificação do trabalho para obter a mesma quantidade de trabalho com um número menor de pessoas e salários mais baixos. Por exemplo, numa sala de tecelagem (secção onde este sistema é mais usado), três homens operaram 60 teares, ou seja, 20 cada um. Porém, o patrão considera que não está a ter lucro suficiente. Despede um homem e põem os outros dois a operar os 60 teares. Isto representa uma intensificação do trabalho de 33,3 por cento. Em muitos casos, os operários vêm os salários reduzidos, sendo-lhes dito que poderão ganhar muito com os teares suplementares. Na realidade cada operário nunca recebe mais do que dez por cento acima do salário que auferia quando operava 20 teares, embora agora produza mais um terço. Juntos, os dois operários ganham mais 20 por cento, caso tenham sorte, enquanto o patrão embolsa o restante.

Condições de trabalho
A iluminação das fábricas soviéticas é muito boa. As janelas estão separadas por cerca de seis pés (1,8 m) e têm seis pés de largura e oito (2,4 m) de altura. A ventilação é tão boa que os sistemas mecânicos de ventilação existentes quase se tornam desnecessários. No entanto, as condições dos sanitários nas fábricas soviéticas são muito deficientes. Quando falei disto, disseram-me que o governo está a destinar anualmente milhões de rublos para resolver o problema.


Os operários têm inspecções de saúde obrigatórias duas vezes por ano, e se alguém não está nas melhores condições vai para casa descansar ou é enviado para um sanatório ou hospital. Nesse período continua a receber o salário completo, bem como assistência médica e internamento gratuitos.


Assim que uma mulher fica grávida, informa o supervisor, e se está no turno nocturno é imediatamente mudada para outro horário. Tem uma licença de dois meses antes de dar à luz a criança e só regressa ao trabalho dois meses depois do parto. Nesse período, a mulher recebe o salário completo, bem como tem assistência médica e hospitalar gratuita. O hospital fornece um conjunto completo para o bebé, constituído por vestuário, berço e roupa de cama. A mulher recebe ainda alimentos especiais durante um certo tempo, antes e depois do nascimento da criança. Cada unidade fabril dispõe de uma creche. Se a mãe está a amamentar o seu filho, é autorizada a ir à creche de três em três horas para alimentar a criança.


Os operários tomam as suas refeições na cantina da fábrica, que é gerida pelos próprios operários. As cantinas são amplas e arejadas, e o preço das refeições é muito baixo.
Todos os operários não escolarizados frequentam a escola da fábrica.

Horários
Os operários têxteis trabalham sete horas por dia e cinco dias por semana. O sexto dia é de descanso. Não podem fumar junto às máquinas, mas existe uma sala de fumo e uma biblioteca. Têm pausas de cinco minutos em cada hora.


Os operários com menos de 18 anos têm uma jornada de seis horas. Destas, trabalham quatro horas na fábrica e estudam duas. No entanto, recebem as seis horas por inteiro. Ninguém com menos de 18 anos é autorizado a trabalhar no turno nocturno.


Quando contei isto a uma amiga minha nos EUA, respondeu-me: «Bem, somos capazes de imaginar condições tão boas, mas não correspondem à realidade nos EUA. Trabalho numa fábrica têxtil das seis da manhã até à uma e meia da tarde. Durante essas sete horas e meia não tenho nenhum intervalo para refeição. Tenho de comer enquanto trabalho.»


Estes bons salários, condições e horários são possíveis graças ao excelente sistema de protecção social que existe na União Soviética. Nós, operários norteamericanos, estamos a lutar duramente para consagrar este tipo de direitos na Lei do Seguro Social Operário (H.R. 2827).

Fábricas de vestuário
Também investiguei o sector das confecções na União Soviética. Uma fábrica de vestuário que visitei em Simferopol dá-nos uma ideia razoável da indústria de confecções na União Soviética. Esta fábrica emprega 2200 trabalhadores – tártaros, judeus, ucranianos, russos e outras 18 nacionalidades. Não existe qualquer discriminação racial ou nacional.


O departamento de corte labora em dois turnos de sete horas. Os operários adultos trabalham sete horas por dia, os menores de 18 anos, seis horas. Os desenhadores ganham 600 rublos por mês. Os salários dos cortadores variam entre os 200 e os 300 rublos por mês.


Os salários não são tão altos nas confecções como na indústria têxtil. No entanto, tal como em todas as outras fábricas, existe assistência médica gratuita, as mesmas férias e baixas por doença pagas, a mesma atenção especial para com as mães e jovens trabalhadores. As fábricas e ateliers têm as suas próprias lojas de produtos alimentares. Uma coisa que notei foi a grande quantidade de fruta e vegetais frescos disponível nestas lojas.


As mesas de trabalho das mulheres operárias estavam construídas em forma de grandes ferraduras. Elas sentavam-se na parte interior com os cotovelos apoiados na mesa. Para levar as peças às operárias, assim como para retirá-las, é usado um sistema rolante.


Dos 2200 trabalhadores desta fábrica, só uma mulher usava luz artificial. Havia muita luz natural para os restantes.


Não há chefes a rondar as mulheres, obrigando-as a trabalhar mais depressa sob ameaça de despedimento. Tão-pouco as mulheres precisam de aceitar os convites dos chefes para manter os seus empregos.


Aqui, como em toda a parte da União Soviéticas, não há desemprego. Um trabalhador pode mudar de emprego sempre que o desejar. Basta-lhe informar o supervisor com sete dias de antecedência do local para onde pretende ir. É então transferido para o seu novo emprego sem perda de salário. Não pude evitar a comparação com os operários norte-americanos, a maioria nem sequer consegue conservar o seu emprego, quanto mais mudar para outro emprego sem perda de salário.

Os sindicatos na URSS
Os operários dirigem os seus sindicatos da mesma forma que dirigem o seu governo. Durante toda a minha estadia na União Soviética não vi greves ou protestos com polícias a agredir operários. Quando fiz esta observação a um operário, ele respondeu-me: «Quando queremos uma melhoria das condições, podemos consegui-las através do nosso sindicato. O governo é o nosso próprio governo, dirigimo-lo através dos nossos sindicatos, não há por isso motivo para fazermos greves contra nós próprios.»


Os sindicatos na URSS organizam-se por sectores e não por profissões. Todas as fábricas laboram na capacidade máxima, a maioria em três turnos de sete horas. Os operários que mostrem alguma inclinação particular – para representar, escrever, para a medicina, ciência, investigação, etc. – deixam de trabalhar na fábrica e são enviados pelo sindicato para uma escola ou universidade, onde são pagos para estudar. Conheci um actor, que participou no filme Tchapáiev, que era um antigo operário têxtil como eu próprio.


O salário médio na União Soviética em 1932 era de 108 rublos por mês. Em 1933, era de 198 rublos, e em 1934, de 217 rublos. E ao mesmo tempo que os salários sobrem, o custo de vida baixa. Antes da revolução, o salário médio era de apenas 27 a 38 rublos por mês. E hoje o poder aquisitivo do rublo é três vezes maior.


Como é possível que o custo de vida baixe ao mesmo tempo que os salários sobem? À medida que os operários das fábricas, minas, oficinas aumentam a produção, são produzidos mais e melhores produtos, mais riqueza social. Em resultado do aumento da produção, mais e melhores máquinas podem ser instaladas, e os salários sobem. E como não há lucros e não existem proprietários privados de fábricas ou accionistas, os preços baixam. A produção das fábricas é fixada anualmente pelo Comissariado da Indústria Ligeira, tendo em conta as necessidades das pessoas, os materiais disponíveis e a aptidão dos trabalhadores para produzir. Cinquenta por cento do aumento da riqueza produzida nas fábricas são anualmente destinados ao Fundo de Condições de Vida, que é usado para melhoramento contínuo dos alojamentos e das condições de vida.


Um exemplo interessante da maneira como os operários são protegidos pelos seus sindicatos ocorreu numa fábrica que visitei, onde um médico que passava pelas instalações descobriu uma mulher que se queixava de dores nas costas. Às 10 horas, o médico recomendou que o assento da trabalhadora fosse elevado em um pé (30 cm). Às 11.30 horas, o banco já tinha sido elevado de acordo com as indicações do médico.

A religião na União Soviética
Em Leningrado encontrei-me com um antigo colega de escola, o reverendo padre Leopold Brun, que tinha frequentado comigo a escola paroquial de «Sacred Heart» em New Bedford. É um sacerdote católico romano, de ascendência francocanadiana como eu, que vive na União Soviética e pratica ali a sua fé. Naturalmente, sendo eu um católico praticante, tinha grande interesse em encontrar-me como um amigo de infância que era sacerdote católico na União Soviética.


Disse-me que não houve tentativas por parte do governo soviético de interferir com a sua actividade e dos seus paroquianos, ou impedi-los de praticarem livremente a sua religião. É claro que os sentimentos anti-religiosos estão muito difundidos entre os operários, referiu. O que é natural, segundo me explicou, porque durante o tsarismo a religião era usada pelo governo capitalista para oprimir os operários. Desde que os operários têm o seu próprio governo, e deixou de existir um governo capitalista, a religião foi separada do Estado. A religião é agora o que deve ser: um assunto pessoal. Quando lhe perguntei por que razão tantas igrejas fecharam e são hoje utilizadas para outros fins, explicou-me que as pessoas que seguem os ensinamentos da igreja na União Soviética são idosas na sua maioria e pouco numerosas. As suas contribuições não permitem manter tantas igrejas e pagar os impostos sobre a propriedade da igreja.

O 1.º de Maio em Moscou
Não sou orador ou poeta para poder descrever o 1.º de Maio em Moscovo. O espectáculo de operários livres e felizes, marchando aos milhões, sem preocupações, cantando, apoiando a cem por cento o seu governo, enquanto o Exército Vermelho desfilava e os aviões rugiam lá em cima para mostrar ao mundo a prontidão dos operários soviéticos para defender o seu governo; o espírito da juventude; os mais idosos, com 75 anos ou mais, que conheceram a opressão durante o tsarismo, marchando de braço dado com jovens que cresceram durante o socialismo – tudo isso foi uma experiência tremenda para mim, a qual jamais esquecerei.


O 1.º de Maio em Moscovo faz seguramente do sr. Hearst um mentiroso, assim como os seus escribas a soldo, como Lang, que se auto-intitula de «socialista», Smith, Admiral Stirling, Ripley, e o resto dessa fauna. Depois de viajar seis mil milhas através da União Soviética, incluindo a Ucrânia, não vi um só caso de fome ou malnutrição, pelo contrário, vi um povo saudável e feliz, trabalhando arduamente para construir o socialismo. Enviámos um telegrama aos Amigos da União Soviética e para a sede do Partido Socialista a confirmar isto.

A educação
A União Soviética é o único país do mundo onde os estudantes são pagos para estudar. Por toda a parte onde estivemos vimos novas escolas em construção. As pessoas lêem nas fábricas, nos tróleis, nas ruas. Sempre que é publicado um novo livro sobre os avanços do socialismo na União Soviética, há uma corrida desenfreada às livrarias e é frequente a primeira edição esgotar-se totalmente antes do anoitecer.


Em Gorlovka[4] visitei uma casa de órfãos, onde vivem e estudam crianças dos quatro aos 12 anos, que perderam os seus pais. Com a ajuda do intérprete, entrevistei um rapaz de 11 anos. As respostas prontas e o seu domínio da informação maravilharam-me.


«Que tipo de governo preferias ter, o da Alemanha ou o da União Soviética?», perguntei-lhe.
«Já pensou nos sacrifícios que teríamos de fazer se regressássemos ao capitalismo?», respondeu. «Aqui toda a gente trabalha. Comemos bem, temos roupas e, acima de tudo, liberdade. O que é que existe na Alemanha? Opressão da classe dominante, falta de liberdade de expressão. Um louco chamado Hitler que massacra ou lança nas prisões todos aqueles que discordam dele e contestam a sua forma de governo.»
Fiz-lhe uma pergunta complicada, pensando que ele desconheceria em absoluto a quem me referia. «Que pensas tu de Huey Long?»[5]


«Também temos Huey Longs na Rússia», disse-me o rapaz. «Só que aqui chamamos-lhes pelo verdadeiro nome: balões. Grandes sacos cheios de ar».


Quando terminei de o questionar, começou ele a fazer-me perguntas. Quis saber muitas coisas sobre os nossos sindicatos, sobre as condições de trabalho nos EUA, etc. De repente, perguntou-me: «O que é que pensa da NRA?»[6]


Pisquei o olho ao intérprete. «É uma boa coisa», respondi ao rapaz. «Se for colocada ao serviço dos trabalhadores, conseguiremos tudo o que queremos».


O rapaz olhou-me perplexo, e disse para o intérprete: «Ou este tipo é louco ou é muito ignorante, ou então está apenas a fazer troça de mim. Toda a gente sabe que a NRA só é boa para aumentar os lucros dos patrões à custa dos trabalhadores».


Quero sublinhar o facto de que as crianças russas não são piegas, mimadas ou impertinentes. Têm uma segurança e um autodomínio que só a verdadeira liberdade pode proporcionar-lhes.


De volta à terra do desemprego
No nosso regresso de Leningrado passámos pelo Canal de Kiel[7], onde avistámos com frequência operários alemães. Saudávamo-los e eles respondiam-nos com a saudação nazi, esticando o braço. Depois olhavam cuidadosamente em redor, dobravam o braço e cerravam o punho, saudando a bandeira vermelha com a foice e o martelo que ondulava na nossa proa.


Em Londres duas coisas me chamaram a atenção: a sujidade do metro comparado com o de Moscovo, e o facto de se verem magotes de pessoas junto às vitrinas das lojas, mas quase ninguém entrava. Em Moscovo as lojas estavam cheias de gente, e as pessoas corriam de uma loja para outra, como se receassem que os produtos desaparecessem antes de os poderem comprar.


Não havia nem cinco minutos desde que chegara a Nova Iorque quando me deparei com uma manifestação e polícias a ameaçar os manifestantes.

Não posso relatar muito mais por falta de espaço. Gostaria de ter falado da forma como são tratadas as 168 nacionalidades da URSS e da total ausência de preconceitos raciais; de ter escrito longamente sobre o Exército Vermelho e o seu papel na promoção da paz no mundo; sobre a liberdade de imprensa e a enorme quantidade de jornais e livros que se vendem e são distribuídos aos operários; sobre o extraordinário novo metro de Moscovo, onde, ao deitar para o chão um beata de cigarro, fui repreendido por um operário, que me acusou de estar a sujar o seu metro com uma simples beata; sobre as novas casas, escolas, fábricas e hospitais que estão a ser construídos por toda a parte; sobre a maravilhosa solidariedade dos trabalhadores; sobre como me diverti com eles nos dias de descanso, indo a piqueniques, cantando as suas canções, comendo a sua boa comida, bebendo o seu bom vinho; sobre as explorações agrícolas colectivas, onde o pequeno agricultor da nossa delegação, depois de inspeccionar uma pocilga, disse na sua voz arrastada: «Diabo, aqui tratam melhor os porcos do que nós agricultores somos tratados no Michigan»; sobre os teatros para os operários, museus, parques de recreio e lazer, e muitas outras coisas.


Tudo o que posso dizer é o seguinte: HEARST MENTE. O socialismo funciona; eu vi-o funcionar na União Soviética.

 

Não aceitem o que os inimigos dos trabalhadores, os Hearst, os Lang, a imprensa capitalista, dizem sobre a União Soviética. Conheçam o que é a União Soviética lendo as publicações dos Amigos da União Soviética, ouvindo os irmãos do vosso sindicato, membros das vossas igrejas e de organizações de confrades que estiveram lá, viram o socialismo na prática e concluíram que funciona.

NOTAS
[1] No original são referidas as seguintes organizações: Amalgamated Association of Iron, Steel, and Tin Workers (AFL), United Mine Workers of America (A. F. of L.), United Textile Workers of America (AFL), Wisconsin Cooperative Milk Pool, International Brotherhood of Electrical Workers (AFL), Dyers Local No. 1773, Paterson, N.J. (N. Ed.)
[2] Weavers’ Union UTWA (AFL). (N. Ed.)
[3] A palavra stretch significa literalmente esticamento. (N. Ed.)  
[4] Cidade ucraniana no oblast de Donestk (N. Ed.)
[5] Huey Pierce Long, Jr. (1893-1935), «The Kingfish», foi um político populista dos Estados Unidos, membro do Partido Democrata. Foi governador da Luisiana de 1928 a 1932 e senador pelo mesmo estado no Congresso dos Estados Unidos, de 1932 a 1935. Celebrizou-se pelas suas propostas de distribuição da riqueza, mediante o aumento de impostos sobre as grandes fortunas. Morreu vítima de um atentado em 1935. (N. Ed.)

[6] National Recovery Administration (Administração de Recuperação Nacional) foi um organismo criado em 1933, no âmbito do New Deal, pelo governo de Roosevelt, com o objectivo dinamizar a economia e criar postos de trabalho, mediante o estabelecimento de práticas concorrenciais «justas», designadamente, a fixação de preços dos bens e serviços, de salários mínimos e jornadas máximas de trabalho. As empresas aderentes colocavam o símbolo da NRA, uma águia azul, nas vitrinas e nas embalagens dos seus produtos. A participação era voluntária, mas as empresas que não usavam o símbolo tornavam-se alvo de boicote pelas camadas populares. Apesar de as regras acordadas serem amiúde violadas, sob a égide da NRA chegaram a estar empregados cerca de 23 milhões de trabalhadores. Os seus efeitos na economia foram igualmente sensíveis: em Maio de 1935 a produção industrial cresceu 22 por cento em relação ao mesmo mês de 1933. Todavia, sob pressão dos monopólios, em 1935, o Tribunal Supremo declarou o organismo inconstitucional, determinando a sua extinção, embora parte das suas funções tenham transitado para o National Labor Relations Act (Wagner Act), aprovado no mesmo ano. (N. Ed.)

[7] O Canal de Kiel situa-se na Alemanha, no estado de Schleswig-Holstein. Liga o Mar do Norte, em Brunsbüttel, ao Mar Báltico, em Kiel-Holtenau. (N. Ed.)

 

 

por William H. Duprey, membro da delegação de operários enviada à URSS e do Sindicato dos Operários Têxteis Unidos da América, da Federação Americana do Trabalho (AFL). Este relato foi publicado em 1936, numa pequena brochura de 16 páginas, pela Associação de Amigos da União Soviética do distrito de Nova de Inglaterra (Newbury Street, 12, Boston, Massachusetts), com o título original, How I Got Fat Looking for Starvation in Soviet Russia.
 

Traduzido pelos camaradas do site Para a história do socialismo



 

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