Chu En-lai: "Sobre o surgimento da Oposição Trotskista e seu futuro na China"

26/07/2018

 

Como se destaca na circular Nº 44 do Comitê Central(1), embora não devamos exagerar no que se refere a influência política e organizativa que a oposição exerce no Partido, de maneira alguma devemos permanecer indiferentes diante de suas crescentes atividades e manifestações antipartido.


A derrota da Grande Revolução e o surgimento de uma ressaca revolucionária, constituíram a causa principal da aparição desta oposição na China, tanto que os atrasados “companheiros de estrada” pequeno-burgueses que estavam no Partido viriam a compor a base de seu crescimento. Há aqueles que afirmam que a responsabilidade de sua presença na China correspondia aos “estudantes que haviam retornado de Moscou”. Tal argumentação é errônea, pois estes não tem cumprido mais do que um papel catalizador. Agora, vamos destacar as principais causas objetivas de sua aparição.


Primeiro. Nos tempos iniciais depois de sua instauração, o governo de Nanjing se preocupava muito em introduzir na China o ideário da oposição da Rússia a fim de dividir o Partido Comunista. A oposição trotskista é apreciada como um “tesouro” não somente pela burguesia da Europa, mas também pelas classes dominantes da China. Quando a oposição no seio do Partido Comunista da Rússia era teimosa com sua própria linha, a burguesia da Europa lhe prestou suma atenção e pretendeu utilizá-la para dividir o Partido Comunista da Rússia e liquidar sua linha correta. Na China, Hu Han Min(2), Dai Jitao(3) e Zhou Fohai(4) trataram de desmembrar o Partido Comunista fazendo uma propaganda a favor da oposição. As classes dominantes da China acabavam por aproveitarem-se dela como um instrumento no seio do Partido Comunista para aniquilar esta força dirigente da revolução chinesa. Assim, pois, o ambiente político da China tem sido favorável para as atividades da oposição. Esta tem sido a primeira causa objetiva de sua aparição.


Segundo. O fracasso de uma revolução traz inevitavelmente fortes sentimentos de derrotismo e produz, como é lógico, muitas disputas. Isto sucedeu na Rússia após 1905, e na Alemanha a raiz da derrota de sua revolução. E assim ocorreu também na China, uma experiência semelhante após o fracasso da Grande Revolução(5). A partir da Reunião de 7 de agosto, o Partido Comunista da China obteve muitos êxitos na retificação do oportunismo no organizativo, mas não levou até o fim a luta contra este no aspecto teórico e ideológico. Foi com a realização do VI Congresso Nacional quando se obteve certo êxito nesta luta. Apesar disto, as tendências nocivas de todo tipo existentes no Partido e as distintas correntes políticas oriundas da raiz do fracasso da Grande Revolução, especialmente a oportunista, estavam na espreita para entrar em ação. Esta tem sido a segunda causa do surgimento da oposição na China, e também a causa fundamental da confabulação ideológica e organizativa dos oportunistas e dos opositores no seio do Partido.


Terceiro. Até agora, ainda não se pode dizer que a vida interna de nosso Partido está completamente saudável. Ainda que no organizativo temos trabalhado para desenraizar o oportunismo e admitido no Partido um bom número de operários, não se instituíram práticas saudáveis na vida da célula. Daí as frequentes vacilações na vida do Partido. Em algumas células, a linha correta do Partido não tem sido seriamente discutida por todos os membros, e, por conseguinte, sua linha política não se firmou como é devido no plano organizativo. Frequentemente aparecem células que não podem explicar tal ou qual problema de acordo com a linha correta, o que conduz a sua vacilação. Em Shanghai, certas células chave do setor industrial não estão ainda consolidadas, enquanto que outras possuem uma fraca vida política. Como resultado disso, essas células, mostrando-se ativas no caso de sucesso na luta, acabam desmoralizadas e ainda chegam a se desfazer quando sofrem derrotas. Isto evidencia que a linha política do Partido não foi consolidada em todo o plano organizativo. Assim, não somente a oposição, mas também os oportunistas, podem facilmente explorar este fenômeno para levar a cabo seus planos. Esta tem sido a terceira causa objetiva.


Quarto. A raiz do fracasso da Grande Revolução, entre os numerosos elementos que haviam se mostrado vacilantes no período da cooperação com o Kuomintang, uns tem desistido de seus postos de trabalho, outros persistem no localismo, e outros mais se recusam a corrigir seus erros, sem que se haja superado estes fenômenos nocivos no organizativo. Estes elementos provocam disputas sem princípios meramente por insignificantes problemas pessoais, de modo que a oposição tem sido capaz de arrastar consigo tais elementos descontentes com a linha do Partido e ainda se aproveitam de tais disputas para levar adiante suas atividades antipartido. Esta tem sido a quarta causa objetiva.


Embora não se haviam conhecido no passado atividades da oposição, as quatro causas mencionadas tornaram inevitáveis por algum tempo as tais atividades no país. Desde então, o retorno de alguns estudantes do estrangeiro e a ressureição do oportunismo foram causa direta de sua aparição.


Em relação a linha tática da oposição trotskista, podemos advertir os quatro seguintes pontos:


Primeiro, inelutável confabulação com as classes dominantes. Em “Vida Nova”(6), já se publicaram artigos escritos pela oposição. Esta seguirá usando os órgãos de propaganda das classes dominantes para ajuda-las em suas atividades anticomunistas. Se caso fracassar na luta que levam a cabo no seio do Partido, sem dúvida se entregará inteiramente a essas classes. Este é seu inevitável futuro.


Segundo, propaganda e atividades ilustrativas de sua linha antipartido em todos os problemas práticos atuais. Com motivo do aniversário do Movimento do 30 de Maio, a oposição trotskista publicou uma declaração em que chamou os militantes a lutar contra o Partido Comunista, concedendo a esta luta uma maior importância do que a luta anti-imperialista. Sem sombra de dúvidas, assim estava fazendo, objetivamente, o jogo do inimigo. Quando celebramos a manifestação do 1º de agosto(7), a considerou como uma ação putchista, deixando passar uma forte dose de derrotismo. Seu ponto de vista demonstra um liquidacionismo pessimista e ultradireitista.


Terceiro, tática de se manter e atuar dentro das células explorando a imperfeição da vida do Partido em algumas delas. Permanece nelas para fazer vacilar as massas, e busca em especial as células que têm sofrido derrotas na luta a fim de aproveitar-se destas para atacar a linha do Partido. Em momentos difíceis de nossa luta, lança palavras de ordem ultra esquerdistas como “confiscação das fábricas”, com o intuito de deixar isolada a classe operária e induzir as massas operárias a adotar ilusões sobre um paraíso futuro e a perder de vista a significação real da luta atual. Por outro lado, formula táticas ultradireitistas nos problemas práticos, levando as células operárias a um beco sem saída e à desmoralização.


Quarto, colaboração com os oportunistas chineses. Obstinados pela sua linha, os oportunistas não conseguem se adentrar nas massas, mas tampouco podem deixar de buscar um novo programa político que lhes sirva para encobrir seus erros. É assim que o programa da oposição lhes cai como uma luva, permitindo encobrir erros cometidos no passado, formular palavras de ordem revolucionárias “esquerdistas”, mas manter na realidade uma apreciação de direita da situação da revolução e aplicar táticas direitistas. Por isso, o programa da oposição tem sido aproveitado pelos oportunistas. E a oposição, por sua vez, recorre a tática de apoiar-se nos oportunistas para levar adiante suas atividades antipartido. Desta maneira a facção oportunista e a oposição estão unidas – são farinha do mesmo saco.


Ainda mais, a oposição trotskista mente, difama e calunia deliberadamente, tirando vantagem de problemas e de disputas insignificantes, enquanto deixa de lado assuntos de princípios, com a finalidade de minar a confiança dos camaradas dos órgãos dirigentes do Partido. Isto apenas serve de ajuda ao inimigo na difamação da liderança revolucionária.


As atividades da camarilha da oposição têm sido descobertas em Shanghai, Hong Kong e no norte da China. Eles guardam segredo sobre sua organização do Partido. Precisamente por isso é imperativo expor este problema para as organizações de base e conduzir os camaradas a discutir este e liquidar totalmente com as atividades dos oportunistas e da oposição. Como alguns elementos da camarilha da oposição não expõem publicamente seus pontos de vista, não conhecemos todos eles. Portanto, nós devemos submeter o problema da oposição para as discussões das células, e utilizar esta situação para educar os camaradas e firmar uma sólida base para a linha correta de nosso Partido. A fim de solidificar a linha correta no organizativo, todos os camaradas devem compreender a necessidade da luta entre a linha correta e a incorreta. Por conseguinte, além de aplicar as devidas sanções organizativas, é absolutamente indispensável engajar-se na luta nos campos ideológico e teórico, que é uma arma muito importante para consolidar o Partido na atualidade.

NOTAS
(1) Circular “Sobre a oposição dentro do Partido Comunista da China”, emitida pelo Comitê Central do Partido Comunista da China a agosto de 1929.
(2) Hu Hanmin (1879-1936) exerceu as funções de chefe militar supremo do governo de Guangzhou e foi governador da província de Guangdong durante a Primeira Guerra Civil Revolucionária. Conspícuo líder dos direitistas, foi cúmplice de Chiang Kai-shek no golpe de Estado contrarrevolucionário de 12 de abril de 1927. Mais tarde entrou em uma prolongada disputa com a camarilha de Chiang pelo poder e lucro.
(3) Dai Jitao (1890-1949), fiel seguidor de Chiang Kai-shek antes e depois do golpe de Estado contrarrevolucionário de 12 de abril de 1927. Durante o período da Primeira Guerra Civil Revolucionária, tergiversou o conteúdo revolucionário da doutrina de Sun Yat-sen e propalou absurdos contra o Partido Comunista e o movimento operário-camponês, preparando deste modo o terreno ideológico para o golpe de Estado contrarrevolucionário de Chiang Kai-shek.
(4) Zhou Fohai (1897-1948) assistiu em 1921 ao I Congresso Nacional do Partido Comunista da China, mas renegou este em 1924. Depois da traição de Chiang Kai-shek a revolução, foi chefe do Departamento de Propaganda de Comitê Executivo Central do Kuomintang. Iniciada a Guerra de Resistência contra o Japão, passou ao lado dos invasores japoneses, traindo a pátria. Desempenhou o cargo de vice-presidente do Yuan Executivo no governo títere de Wang Jingwei e outras funções.
(5) Se refere a Primeira Guerra Civil Revolucionária (1924-1927), chamada também de Expedição do Norte.
(6) Revista mensal reacionária, redigida por Zhou Fohai, que teve sua aparição em 1928, em Shanghai.
(7) Em julho de 1919, a Segunda Internacional, que apoiava a guerra imperialista durante a primeira conflagração mundial, decidiu celebrar em 1º de agosto seu congresso em Lucerna, Suíça. O Comitê Executivo da Internacional Comunista convocou os operários de todo mundo a manifestarem-se nesse mesmo dia contra a Segunda Internacional. Em julho de 1929, em sua X Sessão Plenária foi fixado o 1º de agosto como data internacional contra a guerra imperialista; quando chegou este dia, o Partido Comunista da China organizou uma manifestação anti-imperialista em Shanghai.

 

 

Informe de Zhou Enlai ante uma reunião de quadros da célula diretamente subordinada ao Comitê Central do PCCh, em outubro de 1929

 

Do Socialismo na Asia

 

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