"'Naxalbari Zindabad!' quer dizer 'A Rebelião se Justifica!'"

25/07/2018

 

Há 40 anos, a rebelião armada dos camponeses de Naxalbari, uma aldeia no estado de Bengala Ocidental, foi a causa de uma conflagração revolucionária na Índia. Os grilhões seculares da opressão e exploração foram atacados. Os revisionistas apelaram a continuar vivendo obedientemente como escravos, mas foram ignorados com desdém. Os camponeses pobres e pisoteados se atreveram a tomar o poder político e a expropriar os frutos de seu trabalho das mãos dos odiosos latifundiários.

 

Naxalbari fez sacudir o país inteiro. A fúria reprimida dos mais pobres da sociedade, dos adivasis e dos dalits (tribos e “intocáveis” da sociedade de castas), além de outros camponeses pobres e sem-terra, estalou em forma de bravas tormentas de fúria revolucionária em inúmeros lugares em todo o país. As rajadas de vento de Naxalbari arrancaram décadas de fedor revisionista e incitaram a rebelião, a centenas de quadros, presos em partidos como o P.C.I. e o P.C.M[1]. Em Calcutá e em um número de pequenos centros industriais, grandes grupos de trabalhadores e de gente pobre urbana, romperam com os chefes sindicais. Um grande número se lançou para a batalha, lutando na vanguarda da revolução agrária armada como proletários com consciência de classe. Muitos setores sociais, como profissionais, acadêmicos e outros, se uniram ao festival revolucionário das massas. Naxalbari contagiou toda uma geração de jovens e estudantes, e canalizou a força revolucionária de milhares destes jovens, apreendidos dos ideais comunistas de servir ao povo e de se sacrificar pela causa da revolução.

 

Apesar de longos períodos de dominação revisionista anteriores a Naxalbari, o movimento comunista na Índia também teve uma inspiradora história de luta revolucionária. Foram notáveis os cinco anos de luta armada de Telengana a fins dos anos 40, da qual conseguiu estabelecer o poder vermelho em centenas de aldeias durante seu apogeu, mas esta logo traiu a direção do P.C.I. Grupos de revolucionários tomaram partido com Mao Tsetung na luta contra o revisionismo soviético. Mas Naxalbari representou um salto. Isto foi porque se tomou a consciência do pensamento Mao Tsetung como uma nova etapa qualitativa do marxismo-leninismo, e sua aplicação as condições da Índia, para iniciar a luta armada revolucionária das massas. Este é o elemento chave e distintivo que lançou Naxalbari a esta etapa. Dirigido por Charu Mazumdar, um grupo de quadros revolucionários na organização do P.C.M. do distrito de Darjeeling, lutou conscientemente pelo aprofundamento da luta contra o revisionismo e o centrismo. Tirando valiosas lições da luta ideológica guiada por Mao Tsetung contra o revisionismo kruschevista, e outras lições da Grande Revolução Cultural Proletária da China, Charu Mazumdar conseguiu romper radicalmente com o revisionismo (incluindo o reconhecimento da então existente União Soviética sob a direção revisionista como um inimigo), e lançou a revolução agrária armada até a tomada do poder político, pouco a pouco, por meio do caminho da Guerra Popular Prolongada. Naxalbari foi uma parte da revolução proletária mundial: aproveitou a luta revolucionária em outros países na região, e recebeu o apoio entusiasta do Partido Comunista da China e do proletariado revolucionário de todo o mundo.

 

Naxalbari elevou o processo de ruptura com os revisionistas e de forjar uma autêntica vanguarda comunista a uma nova e superior etapa. Em 1969, foi dado um passo audacioso: se formou o Partido Comunista da Índia (Marxista-Leninista), sob a direção de Charu Mazumdar. O congresso de fundação do P.C.I. (M.L.) que foi realizado em 1970 em meio do avanço da luta armada, adotou um programa que caracterizou a sociedade indiana como semifeudal e semicolonial e identificou os alvos da revolução, como o feudalismo, o capitalismo burocrático-comprador, e o imperialismo e o social-imperialismo (este último representado pelo antigo bloco soviético). O congresso fixou as tarefas na etapa de uma revolução de Nova Democracia e o caminho da Guerra Popular prolongada.

 

A revolução não é uma festa, mas sim, como colocou Mao Tsé-tung, é um ato de violência do qual uma classe derroca a outra. A nova vanguarda teve que se forjar em meio a intensa turbulência revolucionária que estava se desenvolvendo em extensas zonas da Índia. Teve que combater constantemente o pensamento e o estilo de trabalho revisionistas profundamente enraizados; teve que remodelar e treinar milhares de jovens como lutadores e líderes proletários; teve que sintetizar a rica experiência ganhada a custo de sangue, para desenvolver a linha e elevar o nível do trabalho partidário. E teve que fazer tudo isso enquanto concretizava audaciosos avanços na luta armada e enquanto combatia a repressão assassina do inimigo. A perde de um número de quadros experientes no início do novo partido, evidentemente tencionou sua capacidade de empreender essas tarefas. Algumas dificuldades sérias, produto de retrocessos, se complicaram com um vento direitista, no qual tratava de revogar a orientação correta do partido, transitando com debilidades reais de sua linha e de sua prática.

 

Tem-se falado muito acerca do chamado “sectarismo” e “aventureirismo” de Charu Mazumdar, no qual supostamente “isolou” o partido das massas e causou retrocessos. Sim, elementos unilaterais, espontâneos e subjetivistas que foram contra a posição, ponto de vista e métodos de essência marxista-leninista-maoísta de Charu Mazumdar, eram evidentes em suas obras. Mas o que mais se destaca, quando lemos hoje sua obra, é a resoluta claridade de sua crítica ao revisionismo, sua penetrante compreensão da questão chave de tomar o poder, sua profunda confiança nas massas, e seu robusto otimismo revolucionário. Longe do isolamento, sua liderança enraizou profundamente o partido entre as massas, e criou uma vasta reserva de apoio, da qual seguem usando hoje os autênticos revolucionários. Seu nome segue obcecando as classes dominantes, e inspirando aos revolucionários.

 

Depois do governo ter assassinado covardemente, com a ajuda dos revisionistas do P.C.I./P.C.M., a Charu Mazumdar em 1972, o P.C.I. (M.L.) não seguiu como um partido unido. Desde então, tem havido muita luta para fazer um balanço das experiências e das tentativas de se unificar. Em 1976, o golpe de Estado dos seguidores do caminho capitalista da China causou novas divisões, fortaleceu tremendamente as tendências direitistas no P.C.I. (M.L.), e gerou mais complexidades. Mas esta situação também criou novas e importantes obrigações e oportunidades para aprofundar a compreensão da ideologia, coisa que, por sua vez, deu um novo impulso à luta para fazer um balanço correto e alcançar uma unidade sobre bases corretas. Infelizmente, estas oportunidades foram desperdiçadas ou acabaram desviando-se nos casos onde apenas se aproveitavam. As autênticas forças revolucionárias levam anos elevando sua compreensão sobre o significado da luta internacionalista para defender o desenvolvimento qualitativo do marxismo-leninismo por Mao Tsetung a um nível novo, e para lutar contra os ataques revisionistas contra este, por parte dos usurpadores capitalistas da China dirigidos no começo por Hua Guo-feng e Deng Xiaoping, assim como pelos hoxhaistas. Esta questão, que ainda afeta diretamente as possibilidades de unir as forças maoísta revolucionárias em um único centro, permanece sem ser resolvida por completo.

 

Durante todo esse período, as forças revolucionárias que foram parte do P.C.I. (M.L.) unido, assim como outras, tem continuado com heroísmo mantendo alto a bandeira vermelha de Naxalbari. Em Andhra, Bihar e Dandakaranya [2], lutas revolucionárias armadas tem feito avanços significativos, ganhando um amplo apoio das massas e acumulando importantes experiências.

 

Durante os últimos 30 anos, as condições que tornaram possível e necessária a rebelião agrária armada de Naxalbari, vem amadurando-se ainda mais. A agressiva penetração imperialista em todos os setores da economia, juntamente com a exploração e a opressão por parte das classes dominantes, está causando uma intensificação generalizada da miséria das massas. E, mais importante, esta situação está convocando a resistência e a luta, incluindo a luta armada, em diversas regiões e setores da sociedade. As divisões entre as classes dominantes têm aumentado.

 

Os revolucionários proletários de todo o mundo não podem dar-se ao luxo de mostrar a mínima indiferença aos avanços e as dificuldades de nossos camaradas da Índia. Hoje na Índia se desenvolve um processo revolucionário que todos os autênticos comunistas e revolucionários do mundo têm o dever de apoiar e aprender com ele. Nos diversos idiomas da Índia, “Naxalbari Zindabad! ” quer dizer “Viva Naxalbari! ”. Mas, para os oprimidos da Índia e do resto do mundo, esta palavra de ordem também quer dizer “A rebelião se justifica”.

 

Notas

[1] O Partido Comunista da Índia (P.C.I.) é o partido revisionista pró soviético da Índia. O Partido Comunista da Índia (Marxista) (P.C.M.) surgiu de uma cisão centrista do P.C.I. em 1963, no qual criticou este último e a Kruschev pelo revisionismo, ainda que nunca adotou um programa revolucionário genuíno.

[2] Uma vasta região arborizada que abarca partes de quatro estados da Índia Central.

 

 

do blog Revolución en la India

Tradução de I.G.D

 

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