"Universidade e imperialismo"

17/07/2018

 

Temos observado que, por força de sua própria constituição no interior de uma sociedade subdesenvolvida, a universidade mesmo fora da consciência, ou contra a vontade dos seus eméritos mestres, comporta-se como instituição sempre favorável ao domínio imperialista das potências metropolitanas. Este mal é inevitável, enquanto persistirem as atuais divisões sociais, pois é evidente que agentes dos interesses antinacionais, sabendo do indiscutível prestígio da universidade e do seu papel na formação da mentalidade das novas gerações intelectuais do país, tudo farão para se introduzir nesse centro vital e influir nele ao sabor dos seus desígnios. É o que observamos na pressurosa atenção com que se volta para os intuitos e órgãos do ensino superior a solícita e generosa colaboração das fundações estrangeiras, o oferecimento do envio de “missões” e “especialistas” para reorganizar o nosso ensino, o despacho de pedagogos para os nossos institutos de pesquisas educacionais e tantas outras modalidades de infiltração imperialista, todas com o fim de impedir que as nossas universidades adquiram a única autonomia pela qual nunca se interessaram, a de ser expressão dos exclusivos interesses da cultura e da economia brasileira. A tarefa de tais emissários externos é extraordinariamente facilitada pelas condições intrínsecas, próprias e inevitáveis do nosso subdesenvolvimento e pela dependência geral do país. Não é de admirar, pois, que não só receba com efusões e sinceros agradecimentos aqueles que a vêm ajudar a desajudar o povo brasileiro, como até se adiante em convidá-los, solicitando-lhes a benévola e altruística assistência.

 

Este comportamento prático de submissão encontra logo sua “cobertura” ideológica. Não tarda em ser constituída a teoria que justifica o recurso à ajuda metropolitana, para conveniente organização e maior eficiência do ensino universitário. Referimo-nos, aqui, a uma das formas peculiares de alienação cultivada pela universidade: sua pretensão de identificar-se à universalidade. Declara ela própria que o ensino universitário por natureza visa ao universal, à cultura tão superior, especulativa e avançada, que só ela está em condições de ministrar o ensino no grau verdadeiramente universal do saber. Deste modo, monopoliza o direito ao fornecimento do “universal”. Identifica, confundindo-os, o universal com o universitário. Só alcança o saber universal quem frequenta o templo universitário. Como porém, sabemos que a teoria da universalidade, em que crê e de que se utiliza, representa um dos mais refinados espécimes de alienação filosófica, pois equivale a considerar como universal o que é apenas o ponto de vista metropolitano sobre a realidade, percebe-se que a universidade se torna responsável por esta perigosa forma de alienação, que não só adota para si porque lhe exalta a vaidade, como difunde entre a mocidade, ofuscando nesta a possibilidade de vir a compreender o que de falso existe em tal conceito de universalidade. Na fase atual, a universidade para ser idêntica à universalidade precisa exprimir o universal concreto que é cada sociedade em particular, ou seja, precisa exprimir em juízos universais os interesses particulares dessa sociedade, nação ou classe. A identificação da universidade à universalidade constitui um sofisma, um dos melhores exemplos da quase insanável alienação cultural que dizima a mentalidade das nossas elites ministeriais. A universidade tem realmente por objetivo exprimir o conhecimento no plano universal, mas só o poderá fazer quando se tiver convertido ao ponto de vista dos reais interesses do povo brasileiro, pois só então haverá adquirido a condição de identificação com a realidade concreta e única, em virtude da qual o Brasil terá acesso ao campo da autêntica universalidade. Compreenderá que o “universal”, não é o modo de pensar de ninguém, mas exatamente o de “alguém” sobre a totalidade da realidade, e quando se diz alguém, a palavra significa alguém que está situado no tempo e no espaço, que pertence a tal país, a tal classe, etc. Somente quando tiver por finalidade cooperar para a realização dos fins históricos do nosso povo, a universidade, pela obra dos seus pensadores, adquirirá o fundamento necessário para emitir juízos universais sobre a realidade da nação brasileira e sobre o mundo externo, metropolitano ou atrasado, onde nos situamos.

 

Capítulo do livro “A Questão da Universidade”, publicado em 1986.

 

Escrito por Álvaro Vieira Pinto

 

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