A ascensão de López Obrador no México

09/07/2018

 

Antes entrar no assunto das eleições de 1 ° de junho se faz necessário um breve resumo da condição política do México nos últimos anos. “O bom serviçal dos Estados Unidos Enrique Peña Nieto continua dilacerando o povo e o país. Peña Nieto privatizou os campos de petróleo, as minas e os bancos. Durante o seu mandato colaborou com os militares, paramilitares e policiais dizimando os levantes populares contra o seu governo. O massacre dos estudantes em Iguala no ano de 2014 assombrou o mundo, além disso, perseguiu professores, jornalistas, mulheres, indígenas e camponeses. Não contente Peña Nieto permitiu que traficantes de drogas, banqueiros e empresários lavassem bilhões de dólares em contas no exterior para sonegar impostos. A frase de Porfírio Díaz se faz mais atual do que nunca “México, tão longe de deus e tão perto dos EUA”. [1]

 

A retrograda elite mexicana alinhada aos interesses estadunidenses, ceifaram nas ultimas décadas as candidaturas de centro-esquerda e esquerda por meio de uma quantidade infindável de fraudes. Em 1988 colocaram de forma ilegítima Carlos Salinas de Gortari no posto de presidente. Em 2006 e 2012 o prejudicado foi Andrés Manuel López Obrador, eleito agora.

 

Enrique Calderón (PAN) e de Enrique Peña Nieto (PRI) eleitos de forma controversa em 2006 e 2012 respectivamente contribuíram para o acúmulo de insatisfações do povo oprimido. Ambos acirraram a repressão contra os setores democráticos e populares tanto no campo como na cidade, aprovaram reformas trabalhistas que vem assolando o povo, lançaram a fictícia guerra ao narcotráfico – matança de periféricos. Sabemos que os âmbitos locais, estaduais e federais possuem o narcotráfico como importante parceiro, nada muito diferente da Colômbia e do Brasil. A submissão ao capital estrangeiro e ao imperialismo norte-americano, principalmente no que se refere à questão do petróleo, também estão entre os feitos podres das experiências presidenciais do século XXI no país.

 

 “No modelo mexicano, o petróleo é explorado sob a forma de concessão por grandes multinacionais estadunidenses, como Exxon e Chevron, e exportado como óleo bruto para as refinarias localizadas no Texas. Depois, na forma de derivados, é importado pelos mexicanos. O resultado é um superávit comercial de US$ 15 bilhões por ano dos Estados Unidos no comércio energético entre os dois países. Enquanto os mexicanos vendem a matéria-prima, os estadunidenses exportam diesel e gasolina, com maior valor agregado”. Por isso mesmo, AMLO propõe o fim dos investimentos exploratórios no Golfo do México sob esse modelo de concessões e defende a construção de refinarias em território mexicano. Nada muito diferente do que o Brasil pretendia fazer depois da descoberta das maiores reservas de petróleo localizadas no século 21, que estão justamente no pré-sal. [2]

 

Após esse breve resgate podemos falar da trajetória do candidato vencedor. López Obrador entrou na política pelo Partido Revolucionário Institucional (PRI) onde atuou de 1970 até 1988. Governou o estado de Tabasco já na Frente Democrática Nacional (FDN) e foi chefe do governo do Distrito Federal, de 2000 a 2005 quando decidiu se candidatar a presidência, como mencionado acima saiu como derrotado em 2006 e 2012. Em 2011 foi um dos fundadores do Movimento de Regeneração Nacional (MORENA) que desde então vem se apresentando como alternativa ao triunvirato PRI-PAN-PRD.

 

López Obrador é um represente do chamado “nacionalismo revolucionário mexicano” encarnado na figura do lendário presidente Lázaro Cárdenas que governou o México na segunda metade da década de 30. Cárdenas em alguma medida foi para o México o que Vargas e Perón representaram para o Brasil e Argentina respectivamente, pois promoveu reformas no estado e modernizações na política mexicana. Hoje Obrador representa uma saída amena aos problemas do México, está consciente que não conseguirá ir mais fundo que isso. Sempre foi um crítico do modelo neoliberal e propôs nas entrelinhas durante a campanha eleitoral o amortecimento da luta de classes dentro dos marcos vigentes. Por essas e outras eles vem sendo chamado como o Lula mexicano, mas é provável que o governo de Obrador se situará à direita do próprio Lula, vamos esperar para ver. Durante o caminho rumo à presidência as suas posições perante a economia foram as mais avançadas. Adotou um discurso nacionalista colocando que a parte estatal do petróleo não seria vendida. Na teoria é uma oratória bem diferente de seu antecessor que abriu as portas para a atuação de empresas norte-americanas e de outros países, no golfo do México, abundante em petróleo. É bem improvável que Obrador consiga por em prática a sua agenda econômica apresentada em campanha. Ainda defendeu os pequenos produtores rurais e comunidade indígenas. Para conseguir ser eleito Obrador traçou acordos com o mercado financeiro, com os industriais e empresários mexicanos e se curvou a uma aliança com o Partido Encontro Social (PES), legenda evangélica de extrema-direita.

 

Partindo para a questão das eleições de julho de 2018, López Obrador foi eleito com cerca de 53,8% dos votos, superando o segundo colocado, Ricardo Anaya, que ficou com apenas 22,5%. Uma vitoria acachapante incomum para o cenário mexicano. Essa eleição foi considerada como a maior eleição da história do México, com a escolha de mais de 18.299 cargos federais, estaduais e municipais. Por volta de 86 milhões estão aptos a votar nos 156.807 centros de votação.

 

O MORENA de Obrador conseguiu maioria absoluta na Câmara de Deputados e no Senado, e venceu em 5 das 9 eleições estaduais em disputa. O gabinete do presidente recém eleito será composto por sete mulheres e nove homens. As mulheres ocuparão os cargos de: Secretaria de Governo, Secretaria de Desenvolvimento Social, Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Naturais, Secretaria de Economia, Secretaria da Função Pública, Secretaria do Trabalho e da Previdência Social e Secretaria de Cultura. Pela primeira vez a capital do México será governada por uma mulher: Claudia Sheinbaum Pardo. Além desses avanços o êxito do MORENA representa o encerramento de 90 anos de alternância onde o Partido Revolucionário Institucional (PRI) e do Partido de Ação Nacional (PAN) se revezaram no poder.

 

Alguns veículos da grande mídia destacaram demasiadamente a violência no processo eleitoral com o objetivo de desviar o foco da vitória da centro-esquerda porem não devemos deixar de destacar alguns acontecimentos.

O jornalista Jose Guadalupe Chan Dzib foi assassinado na noite de 6ª feira (29 de junho), sabemos que Dzib vinha publicando matérias investigativas sobre o assassinato de políticos regionais durante a campanha eleitoral. Dzib é o sexto jornalista morto no México neste ano. No final de semana das eleições um enfrentamento violento entre integrantes do PRD (Partido da Revolução Democrática) e do PRI (Partido da Revolução Institucional) teve como produto final três mortes. O ocorrido soma-se a morte de 122 políticos assassinados brutalmente durante a jornada eleitoral mexicana, a mais sangrenta campanha eleitoral da história recente do país. Esses números assustadores são a consequência do governo reacionário de Peña Nieto.

 

Em síntese, Andrés Manuel López Obrador prometeu “governar para os pobres e indígenas” e acabar com a narcopolítica que está degradando o México há décadas, como também a valorizar o petróleo e outras riquezas nacionais. Tentará frear a repressão brutal sofrida pela militância política, fato que se consumado pode ajudar a esquerda mexicana se reorganizar. A diminuição de salários no governo, a gratuidade da educação e o incentivo aos estudantes podem ser postos em prática.

 

Obrador se curvou ao grande capital para chegar à presidência, e como Lula propôs uma conciliação de classes. O imperialismo vai tentar deformar o governo de dentro, vamos acompanhar como serão esses próximos anos. As promessas do presidente eleito são migalhas para o povo mexicano, que mergulhados na infelicidade anseiam mais. Mas ainda sim Obrador pode vir a representar um suspiro.

 

Por A. de Lucas

 

Notas

[1] https://www.novacultura.info/single-post/2018/05/14/Conjuntura-atual-da-America-Latina

[2] https://www.brasil247.com/pt/247/mundo/360283/L%C3%B3pez-Obrador-o-Lula-mexicano-tem-vit%C3%B3ria-arrasadora.htm

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