Wallon: "Psicologia e materialismo dialético"

11/07/2018

 

A Psicologia é uma ciência? Esta pergunta foi colocada frequentemente pelos teóricos burgueses. Ela tem dois possíveis significados: a Psicologia tem um objeto correspondente no mundo real? O objeto da Psicologia é compatível com o determinismo científico? 

 

Auguste Comte, o pai do positivismo, respondeu à primeira pergunta negativamente. Para ele o indivíduo não era mais que um ser biológico cujo estudo era de propriedade da Fisiologia, e um ser social, explicável coletivamente pela Sociologia - dois determinismos nos quais a pessoa humana é reduzida a nada.

 

A segunda resposta é aquela de Bergson e seus adeptos e, em nossos dias, dos existencialistas. A ciência, eles sustentam, é uma coleção de construtos que bem pode ter uma certa utilidade prática mas que distorce, adultera, e perverte a realidade. A realidade é o imediatamente experimentado, ou vivido, por cada pessoa; a percepção, nos revelando a nós mesmos, também revela o mundo a nós. O universo que nós nos imaginamos capazes de reconstruir com base nesta percepção não seria mais que uma coleção de sistemas arbitrários que sufocam nossa espontaneidade. Deste modo, nós somos alienados de nossa liberdade. A única verdade é aquela que expressa a essência de nosso ser - quer dizer, a perpétua, imprevisível, única, e incomparável recorrência de impressões, sentimentos, ou imagens que aparecem em uma sucessão interminável em nossa consciência. Como esta sucessão engana qualquer forma de determinismo, o irracional se torna a fundação mesma da existência. Em nome da liberdade absoluta, cada pessoa é abandonada ao destino- um destino ligado, bem entendido, ao ser particular de cada um, mas nem por isso menos inevitável. Esta posição também insinua um tipo de participação passiva na existência das coisas que emanam da nossa própria existência- um tipo de responsabilidade desamparada e terrível por tudo aquilo poderia ser o resultado de nossas ações sob as quais nós não temos nenhum controle definitivo. Estas consequências desesperadoras do existencialismo foram desenvolvidas particularmente pelo escritor francês Sartre. Elas são uma indicação da auto-negação do declínio da classe burguesa e evidência de sua decadência final. A auto-negação é relacionada a ideias de grandeza: na patologia da mente, entram sempre de mãos dadas ideias de negação pessoal e grandeza pessoal.

 

A característica comum à concepção  positivista e à existencialista é a noção da ineficácia do indivíduo, esmagado debaixo das necessidades duais da ordem natural e da ordem social, dotado de uma certa grandeza com respeito ao universo, mas sem poder mudá-lo. Embora o indivíduo o contenha e o contemple, ele também é governado por este universo e não pode intervir sobre ele como uma força ativa dentre todas as outras forças das quais o universo está composto. As pretensões do individualismo burguês se afundam assim finalmente em uma impotência absoluta. 

 

Estas implicações derivam consistentemente das duas falhas expostas por Lênin (Materialismo e Empiro-criticismo) da concepção burguesa de ciência que às vezes é mecanicista às vezes idealista, e às vezes as duas coisas. O mecanicismo retrata o mundo, no final das contas, como redutível a elementos e efeitos básicos e invariáveis, a leis eternas que não permitem nem a mudança, nem a novidade, nem o progresso, e a uma necessidade inelutável de previsibilidade de qualquer evento por uma inteligência abrangente o bastante para contemplar o universo em sua totalidade. O idealismo postula que a cognição subordina a realidade a ela, que a consciência existe antes de matéria, concebe o pensamento como princípio da existência, buscando destarte acorrentar o mundo a suas definições e assim conter as revoluções em uma bolha. A afirmação de um mundo que basicamente é sempre idêntico a si mesmo é o ponto ao qual mecanismo e idealismo convergem. 

 

Este conceito estático de ciência e do universo é contrabalançado por uma distinção específica entre as várias disciplinas de conhecimento e entre seus objetos diversos. Porém, Marx e Engels insistiram no aspecto provisório destas distinções, enquanto as vendo somente como dependentes das limitações de nossa inteligência e dos meios técnicos a nossa disposição para explorar realidade. Realmente, o desenvolvimento e interpenetração das ciências os confirmaram. No entanto, há certos obstáculos que atualmente permanecem e ainda parecem insuperáveis. Assim, a Psicologia às vezes é classificada como um subproduto da Biologia e às vezes como a antessala das ciências humanas. Para muitos, a diferença de natureza entre a Biologia e as ciências humanas parece criar um abismo intransponível entre elas. Por causa deste seu caráter ostensivamente híbrido, a Psicologia é considerada frequentemente como sendo de valor científico desprezível. Mas porque pode unir dois domínios que as metafísicas reacionárias ainda mantêm opostos, a Psicologia se reveste de uma relevância extrema para a dialética.

 

O centésimo aniversário do nascimento de Pavlov forneceu uma ocasião para que os estudiosos soviéticos demonstrassem toda extensão dialética de seu trabalho. Por muito tempo, a Psicologia tinha sido considerada puramente mecanicista. Pavlov pôde elaborar reflexos condicionados pela mera justaposição temporal de estímulos. Porém, ele notou que o seu método foi além dos métodos da Fisiologia tradicional que estudava o organismo a função por função - circulação, digestão, etc. - cada uma com suas reações específicas e estímulos igualmente específicos. Na realidade, o próprio Pavlov seguiu a mesma linha em seus estudos iniciais. Mas com o reflexo condicionado, não só as barreiras interfuncionais foram transcendidas, mas a atividade funcional também foi integrada ao ambiente. Entre o estímulo específico e a reação funcional esperada são enxertados outros estímulos que podem pertencer a qualquer domínio de qualquer atividade relacional.

 

Esta é a consequência de mais longo alcance daquilo que Pavlov chamou atividade nervosa superior que teria lugar no córtex cerebral- onde conexões são estabelecidas entre todo aspecto da vida do organismo e todos os estímulos que do exterior podem vir a incidir sobre ele. Atividade nervosa superior é inerente à organização do sistema nervoso: não é uma atividade adicional ou suplementar; ao contrário, é essencial e integral. Surge da união indissociável entre organismo e ambiente e fornece ao organismo sistemas de sinais que permitem-no responder adequadamente a todas as circunstâncias. Porque o ambiente ao qual o organismo tem que responder não é só o ambiente físico, mas também o ambiente do qual cada organismo depende para sua existência. Para o homem, o ambiente é aquele criado através de sua atividade e no qual é imerso desde o nascimento do ambiente social.

 

Mas nestas interações, entre o organismo e o ambiente, sempre sob o controle seletivo da atividade nervosa superior, o biológico não é completamente distinto do social. A inter-relação dos dois é primária e fundamental. Não é mais válido determinar as propriedades dos dois separadamente de acordo com suas naturezas particulares. Os processos se dão de forma tal que os dois, o biológico e o social, são componentes complementares. Estas substituições: processos em lugar de propriedades, atos no lugar de substâncias, são precisamente a revolução que dialética provocou em nossos modos de cognição.

 

A interação recíproca entre o organismo e o ambiente também é incompatível com o mecanicismo e o idealismo em todas suas formas. É impossível ajusta-la à estrutura relacional geralmente dedutiva que mecanicismo busca estabelecer entre os elementos e suas diversas combinações. Os encontros entre o organismo e seu ambiente demandam respostas que não podem ser preditas com base nos elementos somente, porque eles devem ser frequentemente adaptados a situações acidentais e consequentemente devem ser forçados a evoluir para novas formas de comportamento. 

 

Esta reciprocidade de interação também é oposta ao idealismo que procura subordinar o mundo real à consciência porque, ao contrário do que o idealismo postula, a consciência não pode fixar a ordem dos eventos que a confrontam e determinam, ou guiam, suas respostas. Finalmente, o materialismo dialético é oposto ao existencialismo e a seu indeterminismo essencial, porque, na realidade nossa vida mental é perpetuamente condicionada pelas situações nas quais está engajada, estejam elas de acordo com suas próprias tendências ou contrárias a elas.

 

As relações entre o organismo e o ambiente são ainda mais enriquecidas pelo fato do próprio ambiente não ser imutável. Uma mudança no ambiente pode resultar ou na extinção ou na transformação dos organismos que existem em seu interior. 

 

Então, se torna o papel dos diversos ambientes, na medida de suas diferenças, evocar ou trazer à tona capacidades inatas diferentes, já potencialmente presentes, em uma espécie ou em indivíduos. Assim, na história do gênero humano a sucessão de diferentes civilizações deu origem às diversas formas de atividade. O materialismo histórico expande e coroa o materialismo de dialético. Transformando suas condições de vida, o homem se transforma. As técnicas modernas, para serem entendidas, desenvolvidas, e, frequentemente, até mesmo aplicadas, requerem um conhecimento de fórmulas abstratas, sistemas simbólicos nos quais as imagens perceptuais do mundo real são substituídas por pistas que designam operações a serem executadas ao nível do que Pavlov nomeou segundo sistema de sinais - sistema no qual o sinal ou estímulo condicionado não é mais uma sensação, mas a palavra, e os substitutos ainda mais abstratos para as próprias palavras: os símbolos matemáticos. 

 

Na atividade humana a linguagem serviu como o instrumento de uma transformação que modificou gradualmente a fala que passou de uma atividade puramente muscular para uma atividade teórica, requerendo uma reorganização das operações cerebrais. Isto não significa, contudo, que o novo tipo atividade substituiu o primeiro.

 

Através da linguagem, a esfera conceitual adquiriu organização e estrutura baseadas em sistemas estáveis, coerentes e lógicos. Nossas impressões e ações em sua maior parte encaminham-se para, ou procedem desta esfera. Mas embora as governe, não as abole. Sob a dimensão conceitual (representacional) do pensamento ainda se encontram os gestos e as ações que parecem caracterizar o pensamento representacional em crianças ou em deficientes mentais, e que supre o pensamento representacional de seus primeiros contornos primários na forma de rituais ou ritos. Os rituais de povos primitivos normalmente utilizam tremendos recursos emocionais que são dissipados quando a imagem intelectual emerge em seu lugar. A reflexão intelectual refreia a agitação emocional. Mas a emocionalidade persiste. Quando mantida dentro de seus limites, pode agir como um estimulante; mas quando assume o controle restringe ou distorce a reflexão. Assim, essas atividades opostas entram em conflito, apesar de uma sempre poder dar origem à outra. Estas afinidades e oposições são consoantes com as leis da dialética Marxista. 

 

Foi a dialética que forneceu à Psicologia sua estabilidade e seu significado, e que a libertou de ter de optar entre o materialismo elementar ou o idealismo choco, o substancialismo cru ou o irracionalismo desesperado. Com o auxílio da dialética a Psicologia pode ser simultaneamente uma ciência natural e uma ciência humana, abolindo a divisão entre a consciência e as coisas que o espiritualismo buscou impor ao universo. A Dialética Marxista permitiu à Psicologia compreender o organismo e seu ambiente em interação constante, como uma totalidade unificada. E finalmente, na Dialética Marxista, a Psicologia encontra uma ferramenta para explicar os conflitos nos quais o indivíduo tem que evoluir seu comportamento e desenvolver sua personalidade. 

 

A Psicologia de forma alguma está sozinha nesse respeito. O Materialismo Dialético é pertinente a todo domínio de conhecimento, como também a todo domínio de ação. Mas a Psicologia, a fonte principal das ilusões antropomórficas e metafísicas, deve, mais que qualquer outra ciência, encontrar no materialismo dialético sua base e princípios-guia.

 

1942

 

Escrito por Henry Wallon

 

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