Sobre as posições confusas da esquerda em relação as revoluções socialistas

04/07/2018

 

Jovens, nunca se esqueçam: todas as revoluções populares do século XX foram democráticas e nacional-libertadoras. Mas porque chamam parte delas de "socialistas"? Porque, estas revoluções passaram pela etapa democrática e, de maneira ininterrupta, seguiram em direção ao socialismo. A etapa democrática em países atrasados se faz necessária (gostando ou não) para se passar a etapa superior, a socialista. Mas porque é necessária? Porque, em um país que teve o seu desenvolvimento entravado pelo imperialismo (como se espera desenvolver um capitalismo e um mercado interno sem se ter antes acabado com as sobrevivências feudais ou semifeudais, ainda mais com potências estrangeiras alicerçando-se em tais entraves?) A etapa democrática da revolução (onde serão levadas a cabo a reforma agrária e o desenvolvimento industrial), dirigida pela aliança operário-camponesa, criará as bases necessárias para atender as demandas materiais da população e levará a revolução até o socialismo, sem estacionar na etapa democrática. Vejamos um trecho retirado de um documento do Partido Comunista de Cuba:

 

"Em seu programa de 1957, o Partido Socialista Popular afirmava que Cuba era um país de "estrutura semicolonial e conformado por restos feudais", o que exigia distinguir "o que é imediato e o que se há de alcançar depois", traduzido em um programa "para a etapa atual da Revolução, não o programa socialista de desenvolvimento futuro, mas o programa democrático, nacional libertador e agrário de desenvolvimento atual", "até conseguir a plena independência nacional, e a total libertação de nossa Pátria da opressão e exploração imperialista estrangeira e de todo o resto feudal e, posteriormente, conduzir Cuba até o socialismo" (Citado em "El Partido Marxista-Leninista, Algunas cuestiones de la economia socialista", Departamento de Educación Interna del Comité Central del Partido Comunista de Cuba, 1973. Tradução do blog “Fuzil Contra Fuzil”.)

 

Mas então você pergunta para alguns elementos que creem ser "comunistas" (na maioria universitários empolgados que não conhecem de fato o que é o socialismo e dizem defende-lo, mas só porque são, aparentemente, “comunistas”) sobre qualquer das revoluções mais conhecidas do século XX, e eles dirão: "Revolução russa, cubana? Todas foram diretamente socialistas, não há essa questão de etapas, isso é “etapismo”. Aos universitários empolgados, eu digo que é necessário estudar profundamente o caráter dessas revoluções (e o marxismo-leninismo, que pelo visto não fizeram), antes de dizer que os comunistas socializaram os meios de produção de imediato. Pela falta de compreensão do que é de fato uma revolução democrática, alguns chegam ao ponto de alegar que “esses senhores que não defende a revolução saltando etapas, defendem a burguesia! ”.

 

Tal posição, pode ser até comparada com os derrotados mencheviques na Revolução Russa, que diziam que a “revolução burguesa só trará benefícios à burguesia”. Nada mais distante da verdade. De fato, a revolução democrática burguesa não acabará de uma vez com as bases do desenvolvimento capitalista, mas sim, irá aprofundá-las. Mas é sem dúvidas ridículo defender que tal revolução não irá atender em nenhum aspecto os interesses do proletariado, que deveria “saltar” por cima desta. Na esfera da teoria, esta ideia nefasta dos mencheviques (que não compreendiam corretamente a realidade russa, assim como os tais universitários empolgados não compreendem a brasileira) representava o abandono das teses fundamentais do marxismo no que se refere à inevitabilidade das etapas no desenvolvimento dos modos de produção: comunismo primitivo passando ao escravismo, passando ao feudalismo, chegando ao capitalismo e, este último, sendo superado pelo socialismo.

 

Usando o exemplo da Rússia czarista, a classe operária, segundo o camarada V. I. Lenin, “sofre não tanto de capitalismo como de insuficiência do desenvolvimento do capitalismo” (em Duas Táticas da Social-democracia na Revolução Democrática, de 1905). Para o proletariado, a revolução democrática é interessante, pois esta varrerá completamente os entraves feudais no campo e garantirá, do modo mais livre, rápido e completo, o desenvolvimento do capitalismo. Com tal desenvolvimento, a classe operária, em posição vantajosa, já que ela estará dirigindo a revolução, crescer e fortalecer-se-á, passando a lutar contra a burguesia pelo socialismo. Parafraseando o camarada Lenin: “Esta conclusão só pode parecer nova, estranha ou paradoxal para os que ignorem o a-b-c do socialismo científico (em Duas Táticas da Social-democracia na Revolução Democrática, de 1905).

 

Apenas para encerrar este pequeno texto, coloco uma parte do discurso de V. I. Lenin, chamado “Concessões e Estímulos ao Capitalismo”, de 25 de abril de 1921, onde o supracitado dirigente comunista anuncia que o poder soviético está fazendo um convite aos capitalistas estrangeiros para que recebam concessões na Rússia:

 

“Está o Poder Soviético agindo bem, tendo destronado os latifundiários e capitalistas russos, e agora convidando os estrangeiros? Está sim, pois tendo a revolução operária arrefecido em outros países, precisamos fazer alguns sacrifícios, desde que consigamos de modo rápido, ou até imediato, melhorar a situação dos operários e camponeses. Os sacrifícios consistem em cedermos centenas de milhares de toneladas de víveres importantes aos capitalistas durante alguns anos, e a melhora na situação dos operários e camponeses consiste em recebermos de pronto quantidades adicionais de petróleo, querosene, sal, carvão, utensílios agrícolas, etc. Não temos o direito de recusar a melhora imediata na situação dos operários e camponeses, pois ela é indispensável, visto estarmos devastados, e os sacrifícios que citei não vão nos arruinar.

 

Mas não é perigoso convidar capitalistas, não significa estimular o capitalismo? Sim, significa estimular o capitalismo, mas não é perigoso, pois o poder continuará nas mãos dos operários e camponeses, e as propriedades dos latifundiários e capitalistas não serão restituídas. A concessão é uma espécie de acordo de arrendamento. O capitalista se torna arrendatário de parte da propriedade estatal, por contrato, por um determinado prazo, mas não se torna dono. A posse continua com o Estado.

 

O Poder Soviético velará para que o capitalista arrendatário respeite o acordo, que ele nos seja vantajoso e que se dê a melhora na situação dos operários e camponeses. Sob tais condições, o estímulo do capitalismo não é perigoso, e a vantagem para operários e camponeses consiste em receber mais produtos”.

 

Escrito em 16/02/2016

 

por Igor Dias

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