Engels: "Carta sobre a Internacional"

03/07/2018

 

Londres, 12[-17] de Set[embro] de 1874

... Além do mais, com a tua saída, a velha Internacional acabou completamente, chegou ao fim. E isso é bom. Ela pertencia ao período do Segundo Império, quando a pressão dominante em toda a Europa obrigava o movimento operário, que estava precisamente a renascer, à unidade e à abstenção de toda a polêmica interna. Era o momento em que os interesses cosmopolitas comuns do proletariado podiam passar ao primeiro plano. Alemanha, Espanha, Itália, Dinamarca, tinham acabado de entrar no movimento ou estavam a entrar nele. Em 1864, o carácter teórico do próprio movimento era na realidade ainda muito pouco claro em toda a Europa, i. e., entre as massas; o comunismo alemão não existia ainda como partido operário; o proudhonismo era demasiado fraco para poder cavalgar sobre as suas manias especiais; a nova mistela de Bakunin ainda não existia nem sequer na sua própria cabeça; e mesmo os chefes das trade unions inglesas criam poder integrar-se no movimento na base do programa expresso nos Considérants(1) dos Estatutos.(2) O primeiro grande êxito tinha de fazer rebentar esta ingênua conjunção de todas as fracções. Esse êxito foi a Comuna, incondicionalmente filha intelectual da Internacional, embora a Internacional não tenha mexido um dedo para fazê-la, e da qual tem sido, até certo ponto, também com toda a razão, feita responsável. Quando, através da Comuna, a Internacional se tornou uma força moral na Europa, de pronto começou o barulho. Cada orientação queria explorar o êxito a seu favor. Sobreveio a desagregação, que não se podia evitar. A inveja perante a força crescente das únicas pessoas que realmente estavam prontas a continuar a trabalhar na base do amplo antigo programa — os comunistas alemães — empurrou os proudhonianos belgas para os braços dos aventureiros bakuninistas. Com o Congresso da Haia,[ tudo chegou, de facto, ao fim — e para ambas as partes. O único país onde ainda se podia fazer alguma coisa em nome da Internacional era a América, e um feliz instinto transferiu para aí a direção suprema. Agora, também aí o seu prestígio se esgotou, e qualquer esforço ulterior para a galvanizar com nova vida seria um disparate e um desperdício de forças. A Internacional dominou dez anos da história europeia segundo um aspecto — o aspecto em que reside o futuro — e pode olhar orgulhosamente para o seu trabalho. Mas na sua velha forma tornou-se antiquada. Para produzir uma nova Internacional à maneira da antiga, uma aliança de todos os partidos proletários de todos os países, seria necessária uma repressão geral do movimento operário como a que predominou de 1849 a 1864. Mas o mundo proletário tornou-se agora demasiado grande, demasiado amplo, para tal. Creio que a próxima Internacional será — depois de os escritos de Marx exercerem a sua influência durante alguns anos — diretamente comunista e proclamará precisamente os nossos princípios...

Carta de Engels publicada pela primeira vez de forma abreviada no livro: Briefe und Auszuge aus Briefen von Joh. Phil. Becker, Jos. Dietzgen, Friedrich Engels Karl Marx und A. an F. A. Sorge und Andere, Stuttgart, 1906


Notas de rodapé:
(1) Em francês no texto: Considerandos. (Nota da edição portuguesa.)
(2) Ver o presente tomo, pp. 14-15. Estatutos Gerais da Associação Internacional dos Trabalhadores (Nota da edição portuguesa.)
 

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