"Che Guevara e sua viagem à Coreia Popular"

14/06/2018

 

Dos países socialistas que visitamos pessoalmente, a Coreia é um dos mais extraordinários. Talvez o que mais nos impressionou. Tem somente dez milhões de habitantes e tem o tamanho de Cuba, um pouco menos, uns 110 mil quilômetros quadrados. A mesma extensão territorial que a parte sul da Coreia, porém com a metade de população. Foi assolada por uma guerra tão assustadoramente destrutiva que nada ficou de suas cidades, e quando digo nada, é nada. É como os pequenos povoados de guano que Merob Sosa e Sánchez Mosquera e essa gente queimava aqui, e dos quais não restavam nada mais do que cinzas. Assim ficou, por exemplo, Pyongyang, que é uma cidade de um milhão de habitantes. Hoje não se vê nenhuma reminiscência de toda aquela destruição, tudo é novo. A única recordação que fica é, em todos os caminhos, em todos as estradas e em todas as ferrovias, os ocos das bombas que caíam uma atrás da outra.

 

Eles me mostraram muitas das fábricas, todas elas reconstruídas e outras recém construídas, e cada fábrica dessas havia suportado entre 30 e 50 mil bombas. Se nós fazemos ideia do que eram 10 ou 12 bombas atiradas ao nosso redor na Serra, que significava um bombardeio terrível, e era necessário ter sua dose de valor para resistir a essas bombas, o que significavam 30 mil bombas atiradas em um espaço de terra, as vezes menor que uma cavalaria!

 

A Coreia do Norte saiu da guerra sem uma indústria em pé, sem uma casa em pé, até sem animais. Em uma época em que a superioridade área dos estadunidenses era tão grande, e já não tinha o que destruir, os aviadores se divertiam matando o gado, matando o que encontravam. Era, pois, uma verdadeira orgia de morte o que cobriu a Coreia do Norte durante apenas dois anos. No terceiro ano apareceram os Mig-15 e a coisa mudou. Mas esses dois anos de guerra significaram, talvez, a destruição sistemática mais bárbara que já existiu.

 

Tudo o que se pode contar da Coreia parece mentira. Por exemplo, nas fotografias se vê pessoal com ódio, esse ódio dos povos que alcança a mais profunda parte do ser, quando se assassinam ali com fogo e em outras vezes com gás. Os esquartejamentos das pessoas, matar mulheres grávidas com golpes de baioneta para tirar o filho das entranhas, queimar feridos com lança-chamas... As coisas mais inumanas que se pode imaginar a mente foram realizadas pelo exército norte-americano de ocupação. E chegou quase até a fronteira da Coreia com a China, e ocupou, em determinado momento, quase todo o país. Somado a isto o fato de que na retirada destruíram tudo, podemos dizer que a Coreia do Norte é um país que se fez de mortes. Naturalmente, recebeu a ajuda dos países socialistas, sobretudo a ajuda da URSS, de forma generosa e ampla. Mas o que mais impressiona é o espírito deste povo. É um povo que saiu de tudo isso após uma dominação japonesa de trinta anos, de uma luta violenta contra a dominação japonesa, sem ter sequer um alfabeto. Ou seja, era um dos povos mais atrasados do mundo neste sentido. Hoje possui uma literatura e uma cultura nacionais, uma ordem nacional e um desenvolvimento ilimitado, praticamente, da cultura. Tem ensino secundarista, que lá vai até o nono grau, obrigatório para todos.

 

Tem em toda a indústria o problema que oxalá nós tenhamos dentro de 2 ou 3 anos, o problema da falta de mão de obra. A Coreia está mecanizando aceleradamente toda a agricultura para conseguir mão de obra e poder realizar seus planos, e também está se preparando para levar aos irmãos da Coreia do Sul o produto de fábricas de tecidos e outras, para ajudá-los a suportar o peso da dominação colonial norte-americana.

 

É, realmente, o exemplo de um país que graças a um sistema e a dirigentes extraordinários, como é o Marechal Kim Il Sung, pode sair de uma desgraça das mais grandes para ser hoje um país industrializado. A Coreia do Norte poderia ser para qualquer um aqui em Cuba, o símbolo de um dos tantos países atrasados da Ásia. Entretanto, nós vendemos para eles um açúcar semi-elaborado com é o açúcar cru, e outros produtos primários, como o sisal, e eles nos vendem tornos, todo tipo de maquinaria, máquinas de minas, ou seja, produtos que necessitam de uma alta capacidade técnica para ser produzido. Por isso é um dos mais que mais me entusiasma.

 

Informe de uma viagem aos países socialistas, de 31 de dezembro de 1960

Páginas 57 e 58 das Obras Completas de Ernesto Guevara

  

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