"Entrevista com Jorge Moreno sobre o governo do PCdoB no Maranhão"

12/06/2018

 

Entrevista com Jorge Moreno, o Juiz do Povo, a respeito do governo de Flávio Dino (PCdoB) no estado do Maranhão. Entrevista fora realizada em janeiro de 2018 por Gustavo Guimarães, do Nova Pátria.

 

1ª parte

Do ponto de vista político, o Flávio Dino (Governador do Maranhão pelo PCdoB) seguiu exatamente a cartilha que já havia sido seguida pelos governos do PT a nível federal: fazer acordo com setores de centro e da direita. É a reprodução dessa lógica. Só que no Maranhão ele fez com setores mais atrasados ainda, tipo, gente que o Sarney não queria, que ele dizia “rapaz, esse cara é marginal, ele vai me matar”, o Flávio Dino fez aliança com essa turma. Ele fez com as pessoas mais violentas, mais ladronas, mais atrasadas, mais envolvidas com roubo de carga, com grilagem de terra, com assassinato de lavrador. É essa a turma que ele fez acordo. É a banda podre do sarneysismo, é com quem ele fez aliança.

 

Agora a questão que você perguntou, é o porquê que ele ganhou, é o seguinte, ninguém aguentava mais o Sarney. Quando o Flávio ganhou não teve comemoração, não teve entusiasmo, todo mundo estava aliviado. No Maranhão todo mundo que não prestava e dizia que é contra o Sarney, as pessoas diziam “pelo menos ele tem uma coisa boa”. Quando você tem uma coisa dessa é uma situação de não política. Você não consegue discutir o que vai ser o estado, porque você tem uma família que domina as estruturas estaduais, as nacionais, e ela se articula com o que pior existe nas estruturas municipais. Ela inviabiliza qualquer debate. Era porque ninguém mais aguentava, não era o Flávio Dino, era qualquer um que vencesse no Maranhão.

 

Ele ganhou por conta desse sentimento, pela família Sarney não conseguir ter candidato, e porque ele não participou de um processo eleitoral. Só para você ter uma ideia, o Flávio Dino concorreu contra “ninguém”, ou seja, o filho do Lobão, e “ninguém” teve 33% dos votos. Ele teve 67%. Flávio Dino foi a circunstância.

 

E teve que se aliar com tudo que não presta. Ele nacionalmente é aliado do Gilmar Mendes, só para ter uma ideia, e no local ele se alia com tudo. Bem, ele fez campanha pra Dilma, pro Aécio Neves, pra Marina, e até para o Eduardo Campos antes. Ele tinha todos esses em sua base política. Ele se aliou com todo mundo para poder ganhar as eleições.

 

Esse é o primeiro fator. As pessoas não aguentavam mais. Além do mais, o governo anterior tinha sido cassado, havia um sentimento de mágoa, revanche.

 

Bem, quem já atuou em Movimento Estudantil sabe como é o PCdoB e sua juventude. Na UNE, o PCdoB sempre se aliou com qualquer um, com o que não prestasse. Eles têm um pensamento de se aliar com o que pior existe e “depois a gente dá uma rasteira”. Isso é o PCdoB. Ele pega a UNE e coloca ela a serviço do projeto dele. Eu fiquei impressionado quando na primeira vez que sai do Maranhão para um congresso da UNE, e chegando lá havia pessoas de cinquenta ou sessenta anos, tudo do PCdoB. Eles dominavam os diretórios acadêmicos das universidades privadas, universidades privadas! Eles quando ganharam a UNE, foi porque a maioria da sua base existia nas universidades privadas. Agora me diz, como é que o partido comunista tem diretórios acadêmicos em universidades privadas. Não vai encontrar explicação. É a mesma explicação de ter um cara como o Aldo Rebelo que faz um código florestal que favorece o latifúndio, o agronegócio. E depois vai pegar quem é que financiou a eleição do PCdoB no Brasil: foi o agronegócio.

 

No processo eleitoral de municípios em 2016, ele ativamente participou da eleição distribuindo asfalto em vésperas de votação, elegendo as piores pessoas para ter aliados em 2018.

 

Flávio Dino foi financiado pelo agronegócio. E hoje ele encabeça algo como o MATOPIBA, que é um projeto para transformar as terras do Maranhão e mais outros três estados (Tocantins, Piauí e Bahia) em objeto do agronegócio. Em um grande estado do agronegócio.

 

Então, do ponto de vista administrativo, ele é um fracasso. Agora só que ele tem uma propaganda eficiente. A história é muito complicada, o PCdoB foi aliado do sarneysismo no Maranhão, ele participou, ele integrou o governo da Roseana Sarney. Mas hoje eles negam isso, eles negam de pé junto que nunca estiveram, dizem que estavam lá para fazer a diferença, porque sabiam que no futuro, etc., eles sempre encontram uma desculpa.

 

Existe uma quantidade absurda de dinheiro que eles jogam na propaganda, falam através de blogs como o do Luís Nassif, como o Diário do Centro do Mundo, Brasil 247, o Paulo Henrique Amorim, e então eles pautam isso, mas lá (no Maranhão), não se vê nada, é um fracasso.

 

Bem, por terceiro, do ponto de vista econômico, ele melhorou em absolutamente nada o Estado. Não há uma estrutura, não fez nada. Nepotismo escancarado. Aliados envolvidos em escândalos. Agora claro, que temos uma esquerda no Brasil que é complacente com essas coisas, porque tu pensa “ah, porque o Sarney era pior”, é claro que era pior, ninguém está dizendo que não era pior, “ah, mas a gente não tem que falar contra o Flávio Dino porque ele foi um alívio para gente”, é claro, ele foi um alívio, mas foi isso porque ninguém mais tolerava ficar falando do Sarney o tempo todo. Você imagina seu filho de vinte anos, ele cresceu odiando a família Sarney, veja, o Sarney é de 60, eu nasci em 66, eu nasci no ano em que o Glauber Rocha foi fazer o filme no Maranhão.

 

Ou seja, o Sarney dominou a estrutura do estado, onde ele inibiu a sociedade civil, ele inibiu a liberdade de expressão, ele inibiu as estruturas de estado de funcionar. Quer dizer, tu não pode ter um Estado assim, entendeu? Mas ele (Flávio Dino) não se comporta como um alívio, ele quer dizer que está fazendo o melhor governo, ele quer a maior propaganda, ele quer dizer que todo mundo gosta dele. Ele está aliado com as piores pessoas. E olha que é difícil tu ter uma pessoa pior que o Sarney falando sobre alianças, mas ele conseguiu.

 

Quando eu saia do Maranhão para ir para Brasília, as pessoas reclamavam “você está indo contra Sarney, isso é errado, ele ajuda demais o governo Lula, é muito gente boa”. Lá em Brasília, as pessoas todas falavam isso. “Sarney ajuda demais o Governo Lula”, então Lula se ferrou, e o que é que o Sarney fez? “Olha aqui pra ti!”. Classe é classe, meu amigo.

 

Eles se apropriam das terras, inviabilizam a estrutura do Estado, e nacionalmente o Flávio Dino é bem visto. Ele paga todo mundo, tu pode ver, nenhum blog, desses que são financiados, foi no Maranhão pra ver como é que está o Maranhão. Para ver com quem ele é aliado. Nenhum deles. Eles não conseguem ver. Porque todo mundo é a mesma coisa “ah, mas isso aqui tu sabe, a gente é obrigado a fazer isso”, é a mesma história que tu ouvia durante o governo Lula. “É um governo de disputa, que a gente ganhou foi o governo e não o Estado, que se a gente quer ter poder tem que ter revolução e o povo brasileiro não está preparado pra isso”. É a mesma história.

 

Agora vai ser complicado para ele. Porque é o seguinte, o vice dele é o PSDB, ele só conseguiu atrair esse conjunto de gente por causa do PSDB. Quem garantiu a impunidade do Aécio foi o João Alberto, que é do PMDB, ele é tipo o capataz do Sarney, entendeu? Então praticamente o PSDB do Maranhão vai pra linha do PMDB, que é do Sarney, então ele vai ficar numa situação difícil.

 

Segundo, é de que o Roberto Rocha, que é senador que ele elegeu, é do PSB e está saindo. Provavelmente vai estar levando outra parte da base aliada dele.

 

Agora qual é a opção que se tem? Não tem nenhuma. Porque você teve uma ausência de política no Maranhão. Eu quero dizer política como grupos que debatem e disputam, e isso não existiu por muito tempo porque você tinha um cara que passou quarenta e tantos anos no poder. Ele inviabilizava a vida da sociedade.

 

Então você não tem como ter alternativa no Maranhão. Porque tu tem que construir uma alternativa. Ela não nasce, ela se constrói. Através de trabalho de base, de conscientização, de mobilização, de engajamento, de organizações gerais, tu não tem isso no Maranhão. Se ele ficar, a eleição dele é difícil, a não ser que ele faça o seguinte, ele cedeu 55% do governo dele pro PSDB do Maranhão pra ganhar, pra levar de novo agora ele vai ter que ceder 70%. Ai o Maquiavel diz assim, que “é louco quem quer ganhar uma guerra com as armas dos outros, porque você nunca vai ganhar a guerra, as armas são dos outros, a hora que eles quiserem tomar de volta, eles tomam”.

 

Agora é claro, você tem um processo como esse, nacional, em que fica todo mundo pregando a mesma coisa: “a união das frentes, uma frente ampla e tal”. Quer dizer, uma frente ampla em que tu não vai fazer autocrítica, que não vai discutir, tu tem um processo desse de golpe, e tu quer superar com uma eleição? Com uma maioria parlamentar que não vai ser da base popular? Eles querem enganar o povo de novo? Na verdade não, eles querem fazer outro acordo, porque o Brasil só sai de crise através de acordo, de tu provocar acordo.

 

Assim que saímos da ditadura militar, tu teve que fazer um acordo entre os setores progressistas e conservadores pra garantir uma constituinte e a convivência dessas pessoas. Tu não tem mudanças radicais no Brasil. Todas elas são mudanças de faz de conta porque são acordos entre os grupos. O que eles querem fazer agora é um acordo, é um acordão pra que a gente continue daquele jeito, em que os bancos ganhavam, o agronegócio ganhava, todo mundo ganhava, e a migalha que caia da mesa dava para os pobres.

 

É o que eles querem. Mudança estrutural não vai existir. Mudança em nosso país só faz através de uma profunda transformação.  E como é que vai haver uma transformação se tu quer negar ao povo o direito de escolher, de participar, que é o que eles fazem. Então ele é praticamente isso. Está aliado com a pior direita que existe, os setores mais conservadores, mais atrasados e mais violentos.

 

Administrativamente não existe novidade nenhuma no Maranhão. É uma falácia o que ele faz. As mesmas coisas que a Roseana fez, ele está dando continuidade, só que com propaganda. Ela não podia fazer uma propaganda nacional porque sempre é ligada a seu pai. Ele não, apesar de ter sua família sempre relacionada com o sarneysismo, nunca foi uma família de oposição ao Sarney, sempre foi junta dele.

 

Do ponto de vista econômico, no Maranhão não houve implementação de absolutamente nada. Ele faz projetos pontuais de mais IDH, de fazer uma estrada, em que chega lá e o município está arrasado, não tem nada, os camponeses estão saindo porque não tem terra. Quer dizer, a estrutura mesmo do estado, agrária, fundiária, a estrutura econômica de produção, isso não houve nenhum tipo de modificação. Porque isso também não agrada a base dele. Um governo se sintoniza com sua base, por exemplo, porque o Lula não avançou? Porque a base dele era aquela. Tu vai avançar contra a tua base?

 

Setores populares não têm nenhuma chance nisso. Eles fizeram uma eleição em 45 dias para não ter debate, não ter discussão, nem nada, ter pouca campanha.  E agora eles vão fazer no mesmo formato, uma eleição enxuta, com muito dinheiro, público ou privado, num formato mais estreito ainda de setores populares participar, e que tenha pouco debate e pouco tempo. Para nem sentir que teve eleição, que é só pra ter uma formalidade que o Brasil continua democrático.

 

2ª parte (Sobre os “fóruns e redes de cidadania)

Jorge Moreno: O surgimento do Fóruns e Redes está muito ligado ao esfacelamento, o desanimo que se abateu sobre setores mais progressistas de esquerda depois da eleição do governo Lula.

 

Primeiro, antes das eleições existiam muitos setores desanimados no sentido de que o projeto político estava encaminhado para ser esse de centro-esquerda, essas alianças com setores de centro, e no Maranhão, essa aliança com o sarneysismo, que foi praticamente a prioridade das alianças de Lula. E esses setores progressistas de esquerda no Maranhão sempre foram alvos da violência do sarneysismo, principalmente os setores populares e do campesinato.

 

Essa foi a primeira questão.

 

A segunda diz respeito a questão do sindicalismo. O sindicalismo rural se acoplou, se diluiu a agenda do estado, trabalhando só essas questões da aposentadoria, pensões, e esqueceu essa parte da luta e da resistência camponesa que no Maranhão é enorme. Por exemplo, na década de oitenta ele foi um dos estados mais violentos do país nessa questão agrária.

 

E a questão da Igreja Católica, a atuação do Papa João Paulo II, que sufocou as comunidades eclesiais de base, e no Maranhão essas comunidades sempre foram uma força muito preponderante, não só na igreja, mas socialmente, isso criou um baque muito grande. Esses setores populares estavam muito fragmentados e dispersos, ou seja, enfraquecidos.

 

Então a gente começou a discutir com as pessoas desses diversos segmentos, no sentido de fazermos uma agenda comum, uma pauta comum de trabalho, que em primeiro momento foi de criar um espaço de resistência, porque essas pessoas estavam sem locais de atuação em trabalho; em segundo momento, a gente passou a intensificar o processo de formação; e em terceiro, passamos a construir uma agenda em comum, que contemplasse a questão do debate da cidadania, a implementação de políticas públicas, trazer pra agenda do dia-a-dia as questões diárias e urgentes da população, e trazer a situação da reforma agrária como pauta.

 

Que o governo Lula e o governo Dilma nesse sentido foram um desastre pro Maranhão. Eles privilegiaram as pautas do agronegócio. As terras do Maranhão, do sul, dos centros e as mais ao leste foram praticamente todas dadas ao agronegócio e incentivadas não só pelo governo federal, mas por acordo com o governo do estado. E isso gerou uma situação de conflito, mas um conflito exportável: a maioria dos camponeses do Maranhão foram pro Pará, ou foram deslocados como mão-de-obra para outros estados. Então onde você olha trabalho escravo hoje tem maranhense, pra onde você olha esses grandes massacres como o que teve recentemente no Pará, ou na região norte, tem maranhense. Esses que foram expulsos do Maranhão por conta da falta completa de política pública e pelo apoio que o governo federal retirou desses setores que praticamente foram mais marginalizados ainda.

 

Então a gente conseguiu fazer essa pauta, trazer todos esses atores sociais para um debate, para que a gente conseguisse rearticular um movimento com outras características. Um movimento que não tivesse vínculos partidários ou governamentais, que tivesse uma autonomia financeira, que politicamente pudesse fazer sua agenda independente, que acreditasse na resistência de que direito você não conquista se não for através de resistência e luta. Um movimento que não aceita fazer diálogo a não ser através da pressão, porque não dá para você sentar na mesa e fazer essas coisas que acabam as entidades da sociedade civil fazendo, essa falsa ideia de diálogo, que senta para não discutir nada e não resolve nada. Então acaba os movimentos caindo numa certa agenda do estado que tem como finalidade amortecer a luta, retirar o protagonismo das pessoas.

 

A gente começou a refazer toda essa lógica de ocupar, de resistir, de ir pro embate, de não ter medo de autoridade. De que quando o juiz expediu uma decisão de reintegração de posse, a gente ia pra frente dos fóruns e queimava a decisão do juiz. A gente fazia ocupação de espaços públicos no sentido de mostrar não só o sofrimento, mas que aquela população estava exercendo o seu protagonismo enquanto cidadão, ser humano e como militante social, então a gente criou uma lógica no Maranhão não só de rearticular a luta, mas a organizar o povo de forma independente, de forma proativa, protagonista, para que ele pudesse passar para outro patamar de organização no nosso estado.

 

O Fóruns e Redes nasceu aproximadamente, como organização, no ano de 2006, muito embora desde 2002 a gente tivesse fazendo jornadas, que eu mesmo fiz diversas jornadas, percorri 186 municípios do Maranhão, fazendo assembleias, plenárias, manifestações, marchas, pra poder rearticular o nosso povo para um processo de luta que se consolidou no ano de 2006 quando nós fizemos a primeira experiência numa região do Maranhão que é próxima ao Pará, chamada de Turí, onde a gente conseguiu envolver articuladores sociais de 24 municípios e fazer uma pauta de luta na região.

 

Jornal A Pátria: Além das comunidades eclesiais de base, os antigos sindicalistas, e também setores da esquerda progressista decepcionados com o governo petista, além destes, quais grupos de atores sociais se juntaram para organização do Fóruns e Redes?

 

As pessoas que tinham formação na área de direitos humanos, pessoas que faziam esse trabalho, mas de forma individual e isolada, pessoas que estavam trabalhando na área de controle social, pessoas que trabalhavam essa questão de ir de contra a corrupção, diversos segmentos do campesinato, de comunidades quilombolas, de comunidades tradicionais – que no Maranhão tem bastantes.

 

Então esses segmentos todos começaram a se articular. A nossa lógica era assim, primeiro a gente encontra aqueles articuladores que são os tradicionais, que no Maranhão a gente encontrou em todos os municípios, que é aquele padre, aquela freira, aquele ex-sindicalista, aquele militante partidário, que tem contato com a comunidade e que muito embora tenha desanimado ainda tem uma certa percepção e uma inserção social, a gente entrava em contato com eles pra que eles convocassem uma audiência pública, uma plenária pública, um curso de formação, e a partir daí a gente começava a articular as pessoas.

 

A gente ia nas comunidades e praticamente nosso trabalho era de rearticular a base social do movimento. Não era puxar pessoas que todo mundo já conhecia para trazer para o movimento, não. Era de você ir até a comunidade, até onde estava a pessoal realmente sofrendo, até onde estava a pessoa que muito embora tivesse participado do movimento há um tempo, estava isolado, e trazer essa pessoa de volta pro movimento social.

 

A primeira etapa dessa articulação, nós conseguimos contatar diversos setores populares do Maranhão, muito embora fosse diversificado, mas a estrutura dele era das comunidades eclesiais de base. Que essa comunidade tinha aquela ideia de que você enquanto comunidade tem que criar os seus instrumentos de luta, então é associação, depois o sindicato e depois é o partido.

 

Então a gente encontrava pessoas nessas três esferas de atuação. Essas pastorais sociais também nos ajudaram muito a chegar a ter esse público que nós queríamos alcançar, que era a quebradeira de coco, o pescador, o quilombola, o indígena, o trabalhador rural, o agricultor familiar, o funcionário público; que em muitos locais o funcionalismo público é uma força social bastante forte e era e é muito violentado e humilhado nos municípios, em estados onde predomina o coronelismo como o Maranhão, onde praticamente o gestor se sente o dono, não só da coisa pública mas também do serviço público e das pessoas. E nós conseguimos trazer esse público para que fosse o público principal nesse nosso processo de organização, de formação e de desenvolvimento de protagonismo.

 

3ª parte (sobre conciliação e o refluxo do movimento de massas no Brasil)

O povo em geral recebe essa mensagem (de se organizar politicamente) com muita alegria, com muita esperança, o problema é quem filtra isso para eles. Que são aqueles articuladores tradicionais, que ou estão ligados a partidos ou a governos. Eles é que vão de certa forma colocando medo na cabeça das pessoas, “não faz isso, isso não vai dar em nada, nós precisamos ter paciência”.

Como o que aconteceu com o governo Lula, você ia para os locais e aquele coronel tradicional que impunha medo a população, que a violentava, ele era aliado do governo, então era uma coisa engraçada porque você via aquele coronel tradicional que você lutou durante anos, inclusive os próprios militantes partidários, você via na mesma mesa os dois dialogando. E quando iam para as comunidades, eles diziam isso “ele agora é nosso aliado, você tem que ter paciência, nós chegamos agora, é um governo de disputa”, eles inventam palavras demais.

 

E nisso eles vão, de certa forma, fazendo com que o processo de insatisfação vá se acomodando, vá criando uma certa barreira para receber a mensagem. Acessar outras mensagens de que é preciso a gente avançar, que só a luta que realmente vai transformar a realidade.

 

Mas o povo em geral é muito receptivo, muito embora a situação seja muito cruel e de violência, são muito receptivos.

 

Parte da população que tem esses receios é muito pequena. Agora é claro, quando você tem esses filtros, que é o presidente do sindicato, presidente do partido, o padre, a freira, o conselheiro, aquela pessoa que tem o contato com instancias estaduais e nacionais, e quando ele chega e fala, que ele pega a demanda da pessoa e resolve, que foi uma coisa impressionante, passou do discurso de que você pode organizar a população para defender o seu direito para o discurso de que você pode trazer a demanda que a gente resolve.

 

“Então quando é que você vai resolver?”, “ah, depende de entrar na lei de diretrizes orçamentária, na lei orçamentária, no plano plurianual”, e vai criando um certo prazo pra demanda que não é o prazo da população.

 

Isso acaba desorganizando, desmobilizando, e o povo percebeu muito isso.

 

E o que mais nos alegra, que é uma alegria um pouco que diante da tragédia, é de que a história provou que eles estavam errados. Que o que exatamente estamos vendo hoje é um fruto disso. Qual é o porquê do povo não está indo na rua para defender o governo? Porque eles disseram durante muitos anos que não era para o povo ir para rua!

 

E agora a gente está vendo, as piores pessoas tomaram conta do país e o povo não está conseguindo reagir.

 

Porque durante anos eles disseram isso, que “olha, tem que ter calma, paciência, as coisas não são assim”, então eles criaram a própria cova deles com essa coisa de dizer que o povo tem que ter mais paciência.

 

Temos que ver até quando o povo vai suportar essa quantidade de paciência diante de um governo que golpeou, usurpou e está praticamente vendendo a soberania de nosso país.

 

4ª parte (Sobre os rumos que o Maranhão tomou na gestão do PT)

A gente pode analisar isso de três perspectivas.

 

A primeira, é você analisar o que era: você tinha um estado extremamente pobre, violento, um estado que agia violentamente através da negação de políticas públicas, de direitos básicos como ter uma casa, uma água e uma certidão de nascimento. Então se analisarmos dessa perspectiva, o governo foi melhor para os maranhenses.

 

Você imagina o Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, em São Luís caiu a ponte que liga a ilha ao continente, e passou seis meses sem a ponte, foi um inferno na vida das pessoas. Foi coisa de louco, tinha que passar por uma ponte de uma antiga estrada de ferro. Era um horror, as pessoas chegaram a um limite mesmo. Quando Lula se candidatou, a votação foi estupenda. O FHC em todo período que passou só fez uma obra pública no Maranhão, que foi feita no final do governo, que foi justamente a ponte. Isso para um estado que tem seis milhões e meio de habitantes.

 

Então, sobre o governo Lula, você não vai em um povoado que não tem uma placa do governo. Não tem a obra, mas tem a placa. Tem lá a placa da escola, mas não tem a escola.

 

Essas políticas, de transferência de renda ou dê o nome que for, ele colaborou demais para amenizar o sofrimento das pessoas: bolsa família, aposentadoria e a melhoria salarial do funcionário público, injetou muito dinheiro na economia.

 

Quando eu fiz em Santa Quitéria, aquela campanha para erradicação de registro, era 60% do município sem energia elétrica, isso no ano de 2004! E onde tinha, nos outros 40%, faltava energia 19 ou 20 vezes no dia. Por exemplo, no fórum onde eu trabalhava, tinha um motor lá que era só para o fórum, mas era usado para gerar energia para quinhentas famílias.

 

E quando foi feito o programa Luz para Todos, que foi uma das políticas que nós acertamos com o governo federal, foi levado energia para umas mil e oitocentas famílias, isso em quatro meses. Foi construído uma subestação na própria cidade, para atender o município. Então desse ponto de vista, melhorou. Você não pode dizer que o governo não prestou, não, você precisa separar, tem que entender que existem regiões no Brasil que eram extremamente pobres, que não tinha dinheiro. Não tinha como. No Maranhão as pessoas pegavam uma saca de arroz e trocava por uma lata de óleo, porque ele não tinha dinheiro, não tinha como sair para comprar. Esses atravessadores empobreciam a população, os comerciantes enriqueciam demais.

 

Então desse ponto de vista, colaborou muito. Mas do ponto de vista político ele foi, pro Maranhão, um atraso.

 

Ele se aliou com a pior oligarquia que existia no país, que fazia um domínio completo das estruturas do judiciário, do legislativo e do executivo, e sufocava a população, e deu pra eles um poder gigantesco. O Lula, nos oito anos de mandato foi somente uma vez no Maranhão, de avião pra ver uma enchente numa região, mas não desceu porque o Sarney não deixou. Nem campanha ele foi fazer.

 

E do ponto de vista de estrutura econômica, ele foi absurdo, porque praticamente as terras do Maranhão nessa política de commodities, ele jogou tudo na mão da turma mais atrasada que existe no país. A turma que mais atrasa o desenvolvimento do país é essa do agronegócio. Esses empresários e latifundiários da terra, que grilam a terra. Então, praticamente metade do Maranhão é transformado ou em pasto, ou em plantação de eucalipto, ou de soja. É um estado que vive iminentemente de uma política atrasada.

 

É uma política que não gera emprego, renda, imposto para o estado – nem para União! –, é uma política concentradora de renda e que de certa forma prejudica o estado e o país do ponto de vista social, ambiental e econômico, e isso praticamente se consolidou durante o período da gestão do governo Lula.

 

Se a gente analisar só do ponto de vista das melhorias, que deu uma casa, é claro que se você não tem nada e o cara te deu uma casa, você não vai dizer que o cara é melhor? Mas o problema é que nesse local chegou energia para mil e oitocentas famílias, com quatro meses as pessoas não tinham como pagar a energia, e sem a terra para trabalhar, que foi o estado em que mais as terras foram dadas para o agronegócio, muita gente teve que ir embora.

 

Tu chega lá e tem uma casa, tem energia, mas ninguém morando. Onde está o trabalhador? Foi para o Pará, porque no Maranhão não tem como ele trabalhar.

 

É essa estrutura, de deslocar parte da população camponesa para servir de mão-de-obra para o agronegócio, que se consolidou durante o governo Lula. Além do mais, existem indicações e estudos de que nesses lugares onde mais servia essa estrutura do Bolsa Família, das pensões e da aposentadoria, na verdade é para pagar o salário do agronegócio. Que o agronegócio não paga, serviram para garantir a renda, não para o cara se tornar camponês (pequeno proprietário de sua própria terra), mas para garantir o sustento da família dele, e ele como mão-de-obra poder se deslocar para trabalhar quase de graça para o agronegócio.

 

É uma coisa absurda!

 

Por exemplo, aqui, antigamente as pessoas saiam de Pernambuco pro maranhão. Tem uma região toda lá que são só pernambucanos, paraibanos, cearenses. Porque lá era melhor, tinha mais terra, mais campo, mais água. Hoje, o que mais você vê são pessoas saindo do Maranhão para vir para Pernambuco.

 

Se você pega esse porto, essas vias (em Pernambuco), a maioria dessas pessoas que construíram são maranhenses. Muitos são camponeses que foram recrutados como mão-de-obra para essa estrutura de ‘neodesenvolvimentismo’ que eles colocaram na cabeça para fazer a todo custo.

 

Parte da fome que o maranhense começou a ter, é porque nos últimos dois ou três anos, quando o agronegócio se instala no município, a primeira coisa que ele faz é acabar com a reserva alimentar do povo. A primeira coisa que ele destrói é a vegetação alimentar, é o Paqui, o Bacuri, o Cupuaçu, a Manga. A primeira coisa que ele acaba é com isso, para exatamente criar logo o impacto na população de que ela não vai mais ter aquilo.

 

E o segundo grande impacto que ele provoca é a destruição da vegetação geral. Porque tu não vai poder mais criar teu boi, teu boi pequeno, teu porco, ele arrasa tudo. É uma destruição absurda, para um projeto de garantir uma sustentabilidade para uma commoditie que acabou fracassando.

 

Um projeto de fracasso, porque eles não fizeram uma opção política.

 

Que opção era essa? Rever a carga tributária, cobrar mais dos ricos, reverter a situação da dívida pública.

 

Mas eles não fizeram isso, fizeram o que era mais caro. Era transformar árvore em madeira e carvão, e vender o aço.

 

Janeiro de 2018

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