“Zeca Afonso, a incessante tentativa de transformar o mundo”

10/06/2018

 

Numa entrevista concedida a Viriato Teles, in “Se7e”, em janeiro de 1986, Zeca Afonso retratava assim o seu ingresso na carreira de docente, suspensa em 1968 após ter sido expulso do ensino oficial, ao qual regressaria em 1983:

 

“A minha primeira aula foi dada de capa e batina e estive para aí uns cinco dias sem dormir, a pensar como a que iria rer lata e sabedoria para enfrentar uma turma, como é que eu poderia empinar e explicar a História do Evangelho Segundo São Mattoso. E creio que nunca cheguei a resolver bem esse problema”.

 

“A minha ação como professor era mais de caráter existencial, na medida em que queria pôr os alunos a funcionar como pessoas, incutir-lhes um espírito crítico, fazer com que exercitassem a sua imaginação à margem dos programas oficiais”.

 

As Memórias de uma aula de Zeca Afonso em Setúbal, em 1967, escritas por Hélida Carvalho Santos, retratam bem como Zeca se negava a ser cúmplice da “fantochada sem interesse” promovida pelo regime salazarista.

 

Sobre o mundo do espetáculo, e a forma de encarar a sua própria produção musical, Zeca Afonso afirmava:

 

“O mundo social da música não me seduz grandemente, como não me seduzem os palcos e todo esse tipo de estruturas sobre que assenta a canção. Seduz-me, sim, aquilo que posso fazer em torno da música: os contatos que estabeleço, os amigos que arranjo, esta ‘irmandade’ progressista que se vai estabelecendo à medida que vamos correndo as terras, descobrindo que nessas terras vivem indivíduos que tem determinado tipo de preocupações”. Entrevista a Viriato Teles, in “Mundo da Canção”, fevereiro/março de 1981.

 

“É necessário que não se perca um certo sentido militante que existia, por exemplo, naquela fase em que um cantor ia aqui a ali, por vezes com poucas condições, o que fazia com que o nosso trabalho se espaIhasse pelos mais diversos lugares. Quando se perder totalmente esse espírito, a nossa música deixará de se distinguir da música que qualquer outro indivíduo faz pelo simples gozo de estar em cima de um palco a cantar”. Entrevista a Viriato Teles, in “O Jornal”, em abril de 1984.

 

“Eu sempre disse que a música é comprometida quando o músico, como cidadão, é um homem comprometido. Não é o produto saído desse cantor que define o compromisso mas o conjunto de circunstâncias que o envolve com o momento histórico e político que se vive e as pessoas com quem ele priva e com quem ele canta”. Entrevista a Viriato Teles, in “Se7e”, em novembro de 1985.

 

Na entrevista a António Macedo, in “Se7e”, de março de 1979, Zeca Afonso deixava, por sua vez, bem clara a sua posição sobre aquele que devia ser o combate contra a “música de mercado” e o espírito acrítico:

 

“As pessoas estão contaminadas por um gosto que lhes é fornecido, que lhes é imposto, e fixa na verdade as preferências da maioria. Toma-se urgente reagir, contribuir para uma higienização desse gosto”.

 

A deficiente informação veiculada pelos media, já no período pós 25 de abril, no que respeitava ao plano internacional, e a sua opinião sobre o modelo social-democrata europeu estão igualmente patentes na entrevista conduzida por Leonardo Cáceres, publicada no “Tiempo”, em outubro de 1982:

 

“Os meios de comunicação progrediram, mas hoje a Europa sabe menos, está menos informada sobre o que acontece fora dela. Só interessam a Polónia e o Afeganistão. Em Paris, 125 organizações de esquerda progressistas, vieram para a rua protestar contra a situação na Polónia. Muito bem! Só que pelo que se passa em Angola, no Líbano, em El Salvador ninguém protesta… Não acredito na social-democracia europeia, na transformação de um continente em consumidores de objetos de consumo. O modelo europeu ocidental e, inclusivamente, o da Europa de Leste, do socialismo por vias administrativas e com representantes vitalícios da vontade popular, não são coisas que me agradem. Espero que o nível de mercantilismo político do PSOE não atinja o do PS português. Aqui, os políticos de direita parecem ser mais coerentes que os dirigentes socialistas. 0 PS cumpre uma missão histórica de traição à causa popular”.

 

Em 1985, numa entrevista a José Amaro Dionísio para o jornal Expresso, Zeca Afonso sublinha que “seria incapaz de ler alguma coisa como ‘O Capital’, no seu conjunto”.

 

“O meu envolvimento nas coisas foi sempre de carácter existencial, a partir da observação direta de situações que me revoltaram e que tem a ver com o mundo do trabalho, da família, ou com noções muito gerais como a luta anti-imperialista, o direito dos povos à autonomia, etc. E algo que passa mais pela sensibilidade, pela maneira como cada um se move no mundo, do que por questões de princípio ou de filosofia”, adiantava.

 

Através das suas músicas, Zeca Afonso denuncia essas mesmas situações que o revoltam. É o caso, por exemplo, de músicas como” Cantar Alentejano”, sobre o assassinato de Catarina Eufémia pelas mãos do tenente Carrajola da Guarda Nacional Republicana em 1954 e de “A morte saiu à rua”, que versa sobre o assassinato do ativista político e artista plástico José Dias Coelho pela PIDE, mas também de músicas como “Menino do Bairro Negro” e “Índios da Meia Praia”, “Os Vampiros”, “Os fantoches de Kissinger”, “Gastão era perfeito”, entre outras.

 

As suas músicas servem ainda um ímpeto mobilizador e agitador, próprio de quem se recusa a desistir e defende que “devemos lutar onde exista opressão seja a que nível for”. Esse ímpeto é bem evidente nas letras de canções como “Enquanto à força”, “Canto Moço”, “Traz outro amigo também”, “Eu vou ser como a toupeira”, “Venham mais cinco”, “O que faz falta”, “Viva o poder popular”.

 

Proferidas nos anos 80, as declarações de Zeca Afonso, que apelam à insubmissão, à luta social, à emancipação, não poderiam ser mais atuais. Hoje, tal como defendia Zeca, é preciso enfrentar os Vampiros que comem tudo e não deixam nada, opormo-nos a um modelo de sociedade que nos oprime e que “é imposta aos jovens de hoje, teleguiada de longe por qualquer FMI, por qualquer deus banqueiro”.

 

“O que é preciso é criar desassossego. Quando começamos a criar álibis para justificar o nosso conformismo, então está tudo lixado! (…) Acho que, acima de tudo, é preciso agitar, não ficar parado, ter coragem, quer se trate de música ou de política. E nós, neste país, somos tão pouco corajosos que, qualquer dia, estamos reduzidos à condição de ‘homenzinhos’ e ‘mulherzinhas’. Temos é que ser gente, pá!”. Entrevista a Viriato Teles, in “Se7e”, 27/11/85.

 

“Não me arrependo de nada do que fiz. Mais: eu sou aquilo que fiz. Embora com reservas acreditava o suficiente no que estava a fazer, e isso é que fica. Quando as pessoas param há como que um pacto implícito com o inimigo, tanto no campo político, como no campo estético e cultural. E, por vezes, o inimigo somos nós próprios, a nossa própria consciência e os alíbis de que nos servimos para justificar a modorra e o abandono dos campos de luta”. Em entrevista a Viriato Teles, in “O Jornal”, 27/4/84.

 

"Os jovens, e digo, os jovens de todas as classes, estão um pouco à mercê de um sistema que não conta com eles, mas que hipocritamente fala deles - o 25 de abril não foi feito para esta sociedade, para aquilo que estamos agora a viver. Aqueles que ajudaram a fazer o 25 de abril, imaginaram uma sociedade muito diferente da atual, que está a ser oferecida aos jovens.

 

Os jovens deparam-se com problemas tão graves, ou talvez mais graves do que aqueles que nós tivemos que enfrentar - o desemprego, por exemplo. E, por vezes, não têm recursos, porque o sistema ultrapassa-os, o sistema oprime-os, criando-lhes uma aparência de liberdade. Eu creio que a única atitude foi aquela que nós tivemos - por nós, eu refiro-me à minha geração - de recusa frontal, de recusa inteligente, se possível até pela insubordinação, se possível até pela subversão do modelo de sociedade que lhes está a ser oferecido, com o fundamento da liberdade democrática, com o fundamento do respeito pelos direitos dos cidadãos. É de facto uma sociedade, que é imposta aos jovens de hoje, teleguiada de longe por qualquer FMI, por qualquer deus banqueiro. Tal como nós, eles têm que a combater, têm que a destruir, têm de a enfrentar com todas as suas forças, organizando-se para criarem a sociedade que têm em mente.” Em entrevista para a RTP em 1984.

 

Numa mensagem lida por Francisco Fanhais, em Braga, num espetáculo em sua homenagem, que teve lugar no dia 27 de janeiro de 1984, Zeca Afonso escreveu:

 

"...Esta festa não pode ser só uma homenagem a um homem, seria bem pouco! Tem que ser, também, um encontro de pessoas que recusam a anestesia que o sistema nos quer impingir e sobretudo um apelo à juventude para que mantenha sempre um espírito crítico e uma atitude de esclarecida resistência face aos valores que a sociedade capitalista nos pretende impor. E se é certo que a situação atual não é a mesma de antes do 25 de Abril, importa manter a capacidade de indignação e sermos capazes de rejeitar a hipocrisia dos detentores do poder. Encontrando-me atualmente numa fase de pouca atividade física reafirmo a disposição de me deslocar, mais tarde, a Braga, onde espero reencontrar os amigos e dialogar e conviver com os jovens e com todos aqueles por quem a justiça e a fraternidade são a razão da sua luta. Obrigado companheiros, um abraço do Zeca".

 

Da Esquerda.net

 

 

Please reload

Leia também...

"Necessidade contínua da Revolução Cultural"

18/11/2019

Mao: "À Memória de Norman Bethune"

15/11/2019

Stalin: "A Greve Geral Iminente"

14/11/2019

"O papel das mulheres na defesa de Stalingrado"

13/11/2019

1/3
Please reload

NOVACULTURA.info

  • Facebook
  • Instagram
  • Twitter
  • YouTube