"O problema editorial"

15/06/2018

 

O problema da cultura no Peru, em um dos seus aspectos, e não o mais essencial, é chamado de problema editorial. O livro, a revista literária e científica, não são apenas o índice de toda cultura, mas também seu veículo. E para o livro ser impresso, divulgado e citado, não basta que haja autores. A produção literária e artística de um país depende, em parte, de uma boa organização editorial. Por essa razão, nos países em que atua uma política educacional vigorosa, a criação de novas escolas e a extensão da cultura obrigam o Estado a promover e a direcionar as edições, especialmente aquelas voltadas para a produção nacional. O trabalho do governo mexicano se destaca na América, neste plano, como o mais inteligente e sistemático. O Ministério da Instrução Pública desse país tem departamentos especiais de bibliotecas, edições e bibliografia. As edições do Estado propõem a satisfação de todas as necessidades da cultura. Publicações artísticas como a magnífica revista Forma - a melhor revista de artes plásticas da América - são um testemunho da amplitude e da sagacidade com que os diretores de instrução pública entendem seu papel no México.

 

O Peru, como já tive oportunidade de observá-lo, encontra-se neste aspecto no estágio mais elementar e incipiente. Temos que resolver inteiramente nosso problema editorial: do texto escolar ao livro de alta cultura. A publicação de livros não tem o menor encorajamento. O público lê pouco, entre outras coisas, porque carece, como consequência de uma educação defeituosa, do hábito da leitura séria. Nem nas escolas nem fora delas, há onde formar esse hábito. No Peru existem pouquíssimas bibliotecas públicas, universitárias e escolares. Às vezes, esse nome é dado a meras coleções estáticas ou arbitrárias de volumes heterogêneos.

 

Publicar um livro, nessas condições, é um empreendimento imprudente, do qual poucos se arriscam. Consequentemente, nada é mais difícil para o autor do que encontrar um editor para suas obras. O autor, em geral, decide imprimir seus trabalhos por conta própria, sabendo que ele enfrentará uma certa perda. É para ele a única maneira de suas obras não permanecerem indefinidamente inéditas. As edições são muito ruins, as tiragens são mínimas, o livro é escasso. Um autor não pode sustentar o serviço de administração de um editor. O livro é exibido em algumas livrarias da república. Para o estrangeiro, sai muito raramente.

 

Uma das limitações mais absurdas, um dos obstáculos mais artificiais para a circulação do livro é a taxa postal. A expedição de um pequeno volume para qualquer ponto da república custa pelo menos 34 centavos. Para um editor, essa despesa, que não possui, como outros, prazos ou tempo de espera, pode ser maior do que o custo de imprimir o volume em si. A distribuição de um livro é tão cara quanto sua produção, que não tem garantias muito certas para ser coberta pela venda.

 

Aqui temos, indubitavelmente, um cercado que ao Estado não custaria nada para retirar. O livro deve ser assimilado à condição da revista e do jornal que, dentro da república, desfrutam de franquia postal. O correio perderá alguns centavos; mas a cultura nacional ganhará muito. Em outros países, o correio fornece através da “conta corrente” ou do pagamento de uma soma mensal muito moderada, a divulgação de todos os tipos de publicações. Em um país onde o público não sente a necessidade de ler ou em lê pequena proporção, o interesse nacional em proteger e impulsionar a difusão de livros aparece como algo cem vezes maior.

 

E como também há interesse em que o livro nacional vá para o exterior, para que o país adquira uma presença crescente no desenvolvimento intelectual da América, a taxa postal deve ser igualmente favorável à sua exportação. Autores e editores triplicarão suas remessas a uma taxa reduzida.

 

Não é necessário acrescentar que o Estado e as instituições de cultura têm outros meios de promover a produção literária e artística nacional. O estabelecimento de edições do Ministério da Educação, da Biblioteca Nacional, das Universidades, é, entre elas, indispensável, tanto para a provisão de bibliotecas escolares e públicas, como para a manutenção de serviços de intercâmbio, sem o qual não se concebe relações regulares com Universidades e bibliotecas no exterior.

 

Existe, no congresso, um projeto de lei que estabelece um prêmio nacional para a literatura. A instituição desse tipo de prêmio tem sido proveitosa em todos os países, desde que, naturalmente, tenha sido mantida longe de influências e tendências suspeitas e partidárias. O sistema de competições tão agradável ao criollismo é contrário à criação intelectual e artística livre. Não possui justificativa, exceto em casos excepcionais. É, no entanto, entre nós, a única possibilidade medíocre e avarenta que é oferecida de tempos em tempos para os intelectuais verem seu trabalho ser recompensado. Os prêmios, mil vezes mais eficazes e justos, ao premiar os destacados esforços da vida intelectual de um país, sem propor um tema obrigatório, estimulam autores e editores, pois constituem uma consagração de efeitos seguros na venda de um livro.

 

Embora ainda haja um longo caminho a percorrer para que os problemas vitais da cultura nacional mereçam a consideração das massas no Peru, vale a pena ressaltá-los, de tempos em tempos, em termos concretos, para que pelo menos os intelectuais adquiram perfeita consciência de sua magnitude.

 

Publicado em Mundial, Lima, 13 de julho de 1928

 

Escrito por José Carlos Mariátegui

 

 

Traduzido por I.G.D.

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