"A História do Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels"

31/05/2018

 

O Manifesto do Partido Comunista veio à luz do dia pouco antes da Revolução de Fevereiro de 1848. Neste brilhante trabalho escrito há 90 anos – setenta anos antes da vitória obtida em 1917 pela grande Revolução de Outubro -, Marx e Engels anunciaram a revolução proletária vindoura, colocaram as razões estritamente científicas de sua necessidade histórica, e previram a inevitável derrota da burguesia e a vitória do proletariado.

 

Marx e Engels demonstraram cientificamente sua doutrina sobre o papel histórico universal do proletariado, a classe gerada pelo desenvol­vimento do capitalismo industrial e a classe de maior capacidade revoluci­onária da história mundial.

 

A tarefa histórica do proletariado é destruir as classes, criar uma sociedade comunista e assegurar o desenvolvimento das forças produtivas sociais a um grau desconhecido até agora. A estrutura secular da sociedade capitalista pode ser destruída e a dominação da burguesia, que agora é incompatível com a existência e o desenvolvimento da sociedade, pode ser varrida, unicamente com a condição de que o proletariado, líder de todos os oprimidos e explorados, conquiste o poder e instaure sua ditadura. Somente sob a ditadura do proletariado, sob a direção do proletariado, os trabalhadores podem construir uma sociedade comunista.

 

Em 1914, sobre o Manifesto do Partido Comunista, Lenin escreveu:

 

Esta obra expõe com uma clareza e brilhantina geniais, a nova concepção de mundo, o materialismo consequente aplicado também ao campo da vida social, a dialética co­mo a mais completa e profunda doutrina do desenvol­vimento, a teoria da luta de classes e do papel revolucionário histórico mundial do proletariado como criador de uma nova sociedade, da sociedade comunista. [1]

 

Aqui Lenin também destaca o supremo significado revolucionário do Manifesto do Partido Comunista e o profundo conteúdo teórico deste trabalho, sua enorme importância cientifica. No Manifesto do Partido Co­munista, Marx e Engels anunciaram a chegada de uma nova época na his­tória da humanidade, e ao mesmo tempo sua obra abria uma nova época no desenvolvimento da ciência.

 

A base teórica

O Manifesto foi fruto de um extraordinário trabalho de investiga­ção cientifica preliminar, de um enorme trabalho preparatório.

 

Quando ainda era um estudante universitário (1836-1837), Marx começou a estudar filosofia, história e direito, e para 1847 havia submetido à crítica os melhores estudos do desenvolvimento do pensamento teórico e cientifico precedente, nas obras da filosofia clássica alemã, a economia política inglesa e o socialismo francês (e inglês).

 

A evolução de Engels também seguiu a mesma linha que a se­guida por Marx. A partir do ano de 1844, se estabeleceu entre eles uma amizade e colaboração inalteráveis. Engels, como Marx, passou pela escola da filosofia hegeliana, e teve uma aproximação absolutamente indepen­dente à elaboração dos pontos de vista expostos no Manifesto. Em 1845, publicou seu esplêndido livro A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. Nesse mesmo ano, visitou Marx em Bruxelas, e juntos analisaram e sub­metere à crítica a herança teórica da burguesia.

 

Marx depurou o método dialético de Hegel do seu conteúdo ide­alista, e passou a aplicá-lo de uma forma materialista. Realizou este traba­lho durante os anos 1843-1846, seguindo Feuerbach até o ponto de vista do materialismo. Contudo, Marx foi mais além que Feuerbach. Não se conformou com o materialismo contemplativo de Feuerbach, e assim criou o materialismo dialético revolucionário, combinou a ciência com a prática revolucionária, e aplicou o materialismo ao estudo da história da sociedade humana, algo que Feuerbach não pôde fazer.

 

Marx criticou a filosofia jurídica hegeliana (Crítica a Filosofia do Di­reito de Hegel, 1843) e, em colaboração com Engels, estudou criticamente a filosofia idealista de Hegel e seus discípulos – os hegelianos de esquerda (A Sagrada Família, 1844) e o ponto de vista idealista da filosofia de Hegel acerca da história da evolução da natureza, da sociedade humana e o pen­samento (A Ideologia Alemã, 1845).

 

O método dialético nos ensina a abordar todos os fenômenos da natureza, a história e o pensamento em seu processo de desenvolvimento, em seu conjunto, em relação com todas as condições que dão lugar aos mesmos. Busca a causa do desenvolvimento não em alguma força exte­rior, mas nos próprios fenômenos, na luta dos contrários, que é caracte­rística de todos os fenômenos. Depois de ter livrado o método dialético do idealismo – que está em flagrante contradição com a própria natureza do pensamento dialético, dado que este exige uma percepção integral e profunda dos fenômenos concretos tal como têm lugar na realidade ma­terial objetiva –, Marx e Engels se propuseram a tarefa de estudar as leis do desenvolvimento da natureza e da sociedade humana.

 

Marx e Engels retiraram o abismo que existia entre a teoria e a prática, ao pôr a teoria e a ciência a serviço da luta revolucionária do pro­letariado pela libertação de toda a humanidade trabalhadora da exploração capitalista e de todo tipo de opressão. Ao pôr a ciência ao serviço da maior revolução de todas, Marx e Engels abriram novas e ilimitadas perspectivas, criando, pela primeira vez, uma base estritamente científica para o estudo dos fenômenos sociais.

 

Os fundadores do marxismo demonstraram de forma clara que a causa motriz do desenvolvimento não reside nas contradições de concei­tos como ensinava Hegel, mas nas contradições existentes no próprio mundo material. A força motriz do desenvolvimento social é a luta revo­lucionária do proletariado na sociedade capitalista. Armado com o método da dialética materialista, Marx elaborou a concepção materialista da histó­ria sobre a base de um estudo da história da revolução da burguesia na França e o posterior desenvolvimento da luta de classes na sociedade bur­guesa, que havia rompido os grilhões do feudalismo.

 

Resumindo a experiência histórica das revoluções, e baseando-se em um profundo conhecimento da essência das relações capitalistas. Marx criou sua teoria da luta de classes e sua doutrina sobre o papel histórico mundial do proletariado.

 

Engels declarou que essa teoria amadureceu na mente de Marx em 1845. A expôs a Engels quando se reuniram em Bruxelas, na prima­vera de 1845. Este é seu conteúdo, exposto de forma sucinta por Engels:

 

[...] a produção econômica e a estrutura social, que neces­sariamente se origina em cada época histórica, constitui a base para a história intelectual e política desta época... em consequência (desde a dissolução da propriedade comu­nal primitiva da terra), toda a história tem sido a história da luta de classes, das lutas entre explorados e explorado­res, entre dominados e classes dominantes nas diversas etapas da evolução social... esta luta, contudo, agora alcan­çou uma etapa em que a classe oprimida e explorada [pro­letariado] já não pode emancipar-se da classe que explora e a oprime [burguesia] sem que ao mesmo tempo liberte definitivamente toda a sociedade da exploração, da opres­são e da luta de classes. [Marx, Obras Escolhidas, t. 1] [2]

 

Depois de convencer-se da falsidade do ponto de vista idealista sobre a sociedade humana, Marx observou que as relações decisivas e fun­damentais da sociedade humana eram as relações econômicas que surgem sobre a base do desenvolvimento das forças produtivas materiais da soci­edade. Em consequência, Marx se ocupou da economia política, a ciência que precisamente estuda tais relações.

 

Em Paris (1843-1844), Marx estudou os trabalhos dos melhores representantes da economia burguesa (principalmente Adam Smith e Da­vid Ricardo) e, continuando seus estudos e sua análise crítica da economia política burguesa, em Bruxelas (1845-1847), Marx desenvolveu sua teoria da mais-valia. [3]

 

Os capitalistas, os donos dos meios de produção, se apropriam do trabalho não retribuído aos proletários, a classe privada de seus pró­prios meios de produção e obrigada a vender sua força de trabalho.

 

A teoria da mais-valia criada por Marx, que resolve a questão de fundo quanto a origem da exploração na sociedade capitalista, se encontra na base da primeira obra de Marx sobre teoria econômica, A Miséria da Filosofia (publicada no verão de 1847) e das conferências sobre Trabalho Assalariado e Capital proferidas na Sociedade Educativa de Operários Ale­mães em Bruxelas, em fins de 1847.

 

Todos estes trabalhos científicos citados foram a base da teoria do socialismo científico elaborada por Marx e Engels.

 

Marx fez uma análise profunda das relações capitalistas e revelou plenamente a natureza revolucionária do proletariado, a que se deriva das próprias condições deste último na sociedade capitalista, do seu papel na produção material.

 

Marx e Engels viram a garantia do triunfo do socialismo, não nas cabeças de indivíduos sábios, mas na luta verdadeiramente revolucionária das massas oprimidas e exploradas do proletariado, no crescimento de sua organização, consciência e determinação revolucionária que se desenvolve no curso da luta. Para Marx e Engels, o comunismo não é uma simples doutrina ou dogma. Está baseado no movimento revolucionário das mas­sas proletárias, em sua luta concreta.

 

Para os socialistas utópicos, o proletariado era uma classe desafor­tunada e sofrida, a quem se propunha dar esmolas a partir de uma posição superior. Marx e Engels viram no proletariado uma força revolucionária poderosa; para eles, o proletariado era a classe em cujas mãos estava o fu­turo. Tudo o que tinham que fazer era convocar as forças do proletariado, uni-las e organizá-las para a luta, e dirigir esta sobre a base da ciência, da teoria revolucionária.

 

Mas, a teoria não pode se apresentar como um dogma já elabo­rado. Deve ser aprendida pelas massas a partir de sua própria experiência. Daqui decorre o papel do líder armado com a teoria revolucionária que, por sua vez, é o resultado de toda a experiência da sua luta histórica.

 

As conclusões teóricas dos comunistas não estão baseadas de nenhuma maneira em ideias ou princípios que tenham sido inventados ou descobertos por tal ou qual reforma­dor do universo. Elas são simplesmente a expressão, em termos gerais, das relações concretas de uma luta de clas­ses existente, de um movimento histórico que se desen­volve ante nossos olhos. [Karl Marx, Obras Escolhidas]

 

Enquanto participa na luta direta das massas e a dirige, o destaca­mento de vanguarda do proletariado – o Partido Comunista – está indis­soluvelmente ligado às massas da classe operária e, por meio destas, com todas as massas trabalhadoras.

 

O Partido Comunista trava uma luta irreconciliável contra todas as influencias burguesas sobre o proletariado; se opõe a todas as tentativas de mitigar a luta, de conciliar o proletariado com suas condições de escra­vidão sob o jugo da burguesia; contribui ao desenvolvimento da consci­ência e da organização do proletariado e a sua transformação em classe; o ajuda a conquistar o poder e a cumprir sua tarefa histórica de construir a futura sociedade comunista.

 

Antecedentes históricos

Marx, o primeiro líder e teórico do proletariado, nasceu na família de um intelectual burguês prospero (seu pai era um conhecido advogado de Trier, na província do Reno, na Prússia).

 

Então, por que Marx rompeu completamente com a burguesia e passou decididamente ao lado da classe operário, de forma que os princí­pios criados por ele se converteram na melhor arma teórica nas mãos da classe operária?

 

Nos anos trinta e quarenta do século XIX, na época em que se formaram as ideias de Marx, o capitalismo já tinha uma longa história de desenvolvimento. O capitalismo industrial começou a se desenvolver nos países da Europa Ocidental a partir do século XVIII. Em meados do sé­culo XIX, na França e sobretudo na Inglaterra, as condições inerentes ao capitalismo haviam se manifestado completamente. A grande indústria na Inglaterra se havia desenvolvido com especial rapidez e havia revolucio­nado todas as bases da sociedade burguesa. O efervescente proletariado revolucionário que ocupava os centros industriais e as grandes cidades se manifestou como uma força histórica ameaçadora e independente. Na França, em Lyon, o centro da indústria têxtil, teve lugar a primeira revolta de operários em 1831. Entre 1838 e 1842, o primeiro movimento operário em escala nacional, o movimento dos cartistas ingleses, chegou a seu ponto culminante. Na Alemanha, ainda que o desenvolvimento capita­lismo estivesse apenas no início, também, as massas proletárias começa­ram a colocar suas demandas nos anos quarenta, como foi o caso da re­volta dos tecelões da Silésia no verão de 1844.

 

A luta de classes entre a burguesia e o proletariado começou neste momento a tomar o primeiro lugar na história dos países mais desenvol­vidos da Europa. A luta entre o proletariado e a burguesia assumiu um caráter extremamente agudo e tempestuoso.

 

Em virtude do seu gênio, Marx foi o primeiro a ter uma compre­ensão teórica da totalidade do curso do desenvolvimento histórico.

 

Marx, o grande revolucionário e brilhante cientista, passou com­pletamente ao proletariado, vinculou sua sorte com a desta classe, se con­verteu em seu líder maior, o organizador do destacamento de vanguarda, o Partido Comunista (a Liga dos Comunistas em 1847-1851; a Associação In­ternacional dos Trabalhadores, a Primeira Internacional, em 1864-1873), e es­tabeleceu a base da teoria, a estratégia e a tática do partido proletário.

 

Para Marx e Engels, que descobriram o papel histórico do prole­tariado e criaram uma concepção de mundo nova e revolucionária, o que era importante era ganhar para o seu lado a classe operária europeia e so­bretudo a classe operária alemã, convencê-la de que a compreensão das tarefas e das condições de libertação da classe trabalhadora, desvendada por eles, era correta.

 

Na segunda metade dos anos quarenta, quando Marx e Engels começavam sua atividade revolucionária, se chegou a um ponto de infle­xão no desenvolvimento do movimento revolucionário na Europa Oci­dental. Ali, para usar a expressão de Lenin, “o caráter revolucionário da democracia burguesa já havia caducado, enquanto que o caráter revoluci­onário do proletariado socialista ainda não havia amadurecido”.

 

Nesse momento, o capitalismo estava, todavia, em um período de desenvolvimento ascendente, o capital industrial progressista predomi­nava e o proletariado ainda não havia conseguido se libertar da influência ideológica da burguesia.

 

Os operários, especialmente os operários alemães, ainda não ha­viam rompido completamente com seu passado pequeno-burguês e arte­sanal. Em sua maioria, eram no fundo trabalhadores artesanais e pequenos artesãos independentes, e seus aprendizes se dedicavam principalmente ao trabalho manual (alfaiates, carpinteiros, etc.). Ainda que os aprendizes de artesãos travassem uma luta contra os artesãos, seu ideal seguia sendo con­verter-se a longo prazo em artesãos eles mesmos e ter suas próprias pe­quenas oficinas independentes.

 

Porém, o crescimento do capitalismo industrial seguia irresistivel­mente. A produção cedeu seu lugar à produção mecanizada em grande escala, e os pequenos artesãos caíram sob o domínio do grande capital. Estava evolução também teve reflexo na mentalidade dos operários. Entre eles, suscitou a necessidade de compreender as mudanças que se opera­vam na sociedade, e despertou um vivo interesse nas questões teóricas. Os círculos de estudos operários proporcionaram o terreno favorável para a aceitação das ideias propostas por Marx e Engels.

 

Marx e Engels combinaram o trabalho legal e ilegal, fizeram uso da imprensa legal, mantiveram conexões com todas as figuras ativas do mo­vimento socialista na França, Inglaterra, Suíça e Alemanha, e desenvolve­ram uma propaganda sistemática dos seus pontos de vista. Criticaram energicamente as ideias e os preconceitos burgueses que colocavam obs­táculos para o proletariado adquirir uma consciência de classe claramente definida, que tivesse consciência de sua oposição irreconciliável à burgue­sia e da inevitabilidade da revolução comunista. Marx se opôs as velhas formas conspirativas de movimento, a organização de conjurações alheias às massas. Marx e Engels consideram que sua tarefa consistia em organizar a propaganda massiva das ideias do comunismo científico entre os operá­rios, e assim preparar o proletariado para ação independente pela con­quista do poder.

 

A Liga dos Justos

Marx e Engels haviam mantido durante muito tempo relações com a sociedade secreta comunista da Liga dos Justos.

 

Em 12 de maio de 1839 eclodiu em Paris a infrutífera rebelião organização pela Société des Saisons, sociedade secreta francesa revolucioná­ria, que está vinculada a Liga dos Justos, e que entre seus membros se en­contravam emigrados alemães. Seus principais membros, Karl Schapper e Heinrich Bauer, tiveram que abandonar Paris e se dirigiram a Londres. Desde 1840, a sede da Liga dos Justos se transferiu para Londres, dando assim um caráter internacional a Liga. Além dos alemães, começaram a compor a organização operários de diversas nacionalidades (escandinavos, holandeses, húngaros, tchecos, eslavos do Sul, russos, alsacianos) que uti­lizavam o alemão como língua comum, sendo a única que todos compre­endiam. Por outra parte, a Liga dos Justos passou gradativamente a assumir o caráter de uma sociedade propagandista, já que a experiência havia posto em evidencia que as conspirações isoladas das massas não tinham espe­ranças. Em 1840, foi estabelecida em Londres a Sociedade Educativa de Operários Alemães, que estava sob a orientação da ilegal Liga.

 

Marx e Engels deram todo seu apoio a estas novas tendências que concentravam sua atenção nas tarefas de propaganda, que buscavam sa­cudir as velhas tradições de organizar conspirações; e estimularam o es­forço em direção ao internacionalismo. Levaram a cabo sua propaganda por correspondência, por meio do envio de circulares. Realizaram um tra­balho sistemático nos círculos de estudos operários e proferiram confe­rências nas sociedades operárias. Ao criticar implacavelmente as diversas teorias do socialismo pequeno-burguês, Marx e Engels em 1846 e 1847 conseguiram exercer uma influência decisiva na Liga dos Justos.

Recordando aqueles dias, Marx escreveu em 1860:

 

Publicamos uma série de panfletos, parcialmente im­pressos e parcialmente litografados, nos quais submeti­mos a uma crítica impiedosa essa mescla de comunismo ou socialismo francês-inglês e filosofia alemã que então constituíam os ensinamentos secretos da Liga, e em seu lugar expomos o estudo da estrutura econômica da so­ciedade burguesa como a única base teórica firme e, fi­nalmente, explicamos de forma popular que não ques­tão de dar vida a algum sistema utópico mas de partici­par conscientemente no processo histórico de transfor­mação revolucionária da sociedade que acontecia ante nossos olhos. [Karl Marx, Herr Vogt]

 

Marx e Engels se opuseram as ideias utópicas e pequeno-burguesas vigentes nesse momento entre a vanguarda operária, sua doutrina da luta de classe organizada do proletariado, quem, por sua posição na produção e na sociedade, é o dirigente de todos os oprimidos e explorados.

 

Marx explicou aos operários quão perigosa e danosa era a totali­dade das teorias e ensinamentos encaminhados a desviar a classe operária do caminho da luta de classe proletária, da luta pela conquista do poder do Estado – o único caminho para a destruição da opressão de classe e para a edificação da sociedade sem classes, a sociedade comunista.

 

A crítica do socialismo sentimentalista de Kriege

Marx criticou o comunismo utópico de Weitling, que tinha a fan­tasia de libertar o proletariado mediante a organização de um complô. Marx também criticou energicamente o socialismo sentimentalista de H. Kriege, que era similar ao ponto de vista dos populistas russos. No People’s Tribune, publicado por Kriege em New York, este desenvolveu o plano utópico pequeno-burguês de resolver o “problema social”, de uma vez por todas, convertendo a todo o mundo em pequeno camponês, para o qual se utilizariam as vastas extensões do território virgem da América.

 

Em uma carta circular especial, Marx criticou este plano de Kri­ege, do seu diário e de toda a tendência que representava. Marx demons­trou que Kriege não compreendia as verdadeiras relações da sociedade ca­pitalista nem o significado da luta dos camponeses e da reforma agrária. Marx escreveu nesta circular:

 

Se Kriege tivesse considerado o movimento pela liberta­ção da terra como a primeira forma do movimento prole­tário, necessário sob certas condições; se tivesse estimado este movimento como um que deve transformar-se ne­cessariamente em comunista, pela força da condição de vida da classe de que procede; se tivesse demosntrado que as lutas comunistas na América inicialmente devem apa­recer nesta forma agrária, a primeira vista incompatível com todo o comunismo em absoluto; então não teria nada a objetar em relação a isto. Mas Kriege declara como um assunto de toda a humanidade a esta forma de movi­mento de certa gente real, que somente tem importância secundária. Kriege expõe isto como o fim último e su­premo de qualquer movimento, convertendo assim os ob­jetivos definidos do movimento no mais puro absurdo.

 

Ademais, Marx escreveu sobre Kriege:

 

No mesmo artigo da edição nº 10 [do People’s Tribune], en­tona canções triunfais, tais como: “E assim, por fim, se fariam realidade os sonhos seculares dos europeus. Neste lado do oceano haveria para eles terra preparada que po­deriam tomar e fazer fértil com o trabalho de suas mãos, e assim seriam capazes de jogar na cara de todos os tiranos da terra a declaração orgulhosa: Esta é minha cabana não construída por vocês, este é minha casa que enche vossos corações de inveja”.

 

Kriege poderia ter adicionado: Este é meu monte de es­trume, trabalho meu, de minha esposa e meus filhos, do meu labrador e do meu gado. E que tipo de europeus veria nisto o cumprimento dos seus sonhos? Em todo caso, não os operários comunistas! Certamente não os comer­ciantes e artesãos decadentes ou os camponeses arruina­dos que lutam pela felicidade de voltar a ser pequeno-bur­gueses e camponeses na América.

 

E em que consiste o sonho a ser cumprido com a ajuda destes 1,4 milhão de acres? Em não outra coisa que senão a transformação de todas as pessoas em proprietários pri­vados. Tal sonho é precisamente tão impossível de cum­prir-se e tão não comunista como o sonho de transformar a todas pessoas em imperadores, reis e papas.

 

A carta circular de Marx foi aprovada na reunião do Comitê Co­munista organizado em Bruxelas em 11 de maio de 1846. Nesta reunião, além de Marx e Engels, estiveram presentes o belga Gigot, os jornalistas emigrados alemães Sebastian Seiler e Louis Heilberg, o irmão da esposa de Marx, Edgar von Westphalen, Wilhelm Wolff e Weitling. Todos eles, exceto Weitling, subscreveram a contundente crítica dirigida contra Kri­ege. Na reunião, foi adotada a seguinte decisão, que somente Weitling se colocou contra:

 

A tendência do People’s Tribune, que se publica sob a dire­ção de Hermann Kriege, não é comunista.

 

Os métodos infantilente chamativos com que Kriege se apresenta, como representante desta tendência, compro­metem seriamente ao Partido Comunista, tanto na Eu­ropa como na América, na medida em que Kriege é con­siderado o representante literário do comunismo alemão.

 

Os desvios sentimentalistas e fantasiosos predicados em New York por Kriege sob o nome de comunismo, devem ter um efeito altamente desmoralizador sobre os operários se eles acreditarem nestes absurdos.

 

Esta resolução, com os motivos da mesma, será notificada aos comunistas na Alemanha, França e Inglaterra. Uma cópia também será enviada ao conselho editorial do Peo­ple’s Tribune, com a proposta de que se imprima junto com as razões da mesma, em sua próxima edição.

Bruxelas, 11 de maio de 1846.

 

A Luta contra Karl Grün

Marx e Engels travaram uma luta contra a tendência conciliadora pequeno-burguesa de Karl Grün, o representante do “Socialismo Verda­deiro” alemão, e contra as teorias de Proudhon, que queria preservar as relações burguesas, liberando-as dos seus “lados obscuros”, imaginando de maneira utópica que o impossível poderia se tornar possível.

 

Nos círculos de estudos dos operários alemães em Paris, Grün defendia os projetos de Proudhon para a organização de associações ope­rárias de produção. Sustentava que, com a ajuda destes tipos de associa­ções e o uso das poupanças dos operários, seria possível, pela via pacífica, emancipar-se da exploração capitalista e, portanto, resolver com êxito to­dos os problemas sociais. Engels, que no outono de 1846 havia ido a Paris para continuar a propaganda das ideias do comunismo científico entre os operários alemães, escreveu a Marx em 18 de setembro de 1846, sobre sua luta contra Grün, e esboçou o conteúdo das teorias absurdas deste, tal como segue:

 

Imagine, os proletários têm que adquirir ações com suas poupanças. Este dinheiro (evidente, não deve haver menos de entre 10 e 20 mil destes operários) se utilizará em um princípio para construir uma ou mais oficinas de uma ou várias indústrias, nas quais se contratará uma parte dos aci­onistas; e os produtos, em primeiro lugar, serão vendidos aos acionistas pelo preço da matéria prima somada a mão de obra (os acionistas assim não recebem os dividendos) e, em segundo lugar, os possíveis excedentes serão vendidos de acordo com os preços do mercado mundial. A medida em que o capital da sociedade cresça – seja como resultado da inclusão de novos membros ou por meio de novas pou­panças dos antigos acionistas –, servirá para a construção de novas oficinas e fábricas, etc., até que todos os proprietários estejam envolvidos e todas as forças produtivas do país se­jam compradas; desta maneira, o capital nas mãos da bur­guesia perderá sua capacidade de controlar a mão de obra e garantir o lucro!

 

Estes senhores têm em mente nem mais nem menos, pelo momento, comprar toda a França, e depois talvez todo o resto do mundo, mediante o uso das poupanças do prole­tariado, e mediante a renúncia aos lucros e aos interesses do seu capital. Alguma vez se criou tão esplendido plano? Não seria simples – se alguém está ansioso, de verdade, para fa­zer algo – cunhar moedas de cinco francos com a prata da luz da lua? E aqui operários ingênuos – tenho em mente os alemães – creem nestas bobagens. Esta gente que tem ape­nas seis centavos em seus bolsos para ir a um bar à noite, vai comprar “toda a bela França” com suas poupanças. Em comparação com estes tremendos especuladores, Roths­child e companhia são gananciosos mais contidos. Um po­de acender o estopim! Este Grün estragou tanto os me­ninos que a frase mais absurda tem para eles mais signifi­cado que o fato óbvio apresentado como argumento. É uma lástima que alguém tenha ainda que se opor a seme­lhante e bárbara insensatez. Mas há que se ter paciência, não abandonarei estes meninos até que apague a Grün e limpe suas corrompidas cabeças.

 

Em um círculo de estudo de carpinteiros, Engels elaborando seu ponto e o de Marx, definiu as intenções dos comunistas da seguinte forma:

 

Lograr os interesses do proletariado em oposição aos interesses da burguesia.

 

Realizar isto através da abolição da propriedade privada e sua substituição pela comunidade de bens.

 

Não reconhecer nenhum meio para realizar estes obje­tivos que não seja uma revolução democrática pela força. [Correspondência de Marx e Engels]

 

Como resultado de uma acalorada discussão que durou várias noi­tes sem descanso, todos os argumentos dos partidários de Grün foram despedaçados. Se tornou possível convencer aos operários sob influência das teorias de Grün, da correção dos pontos de vista de Marx e Engels.

 

Ao criticar energicamente as absurdas teorias reacionárias, tão pe­rigosas para a luta de libertação da classe operária, Marx se deparou com o fato de que muitas das pessoas que se consideravam seus partidários lhe condenavam por ser tão severo. Eles trataram de persuadi-lo para que bai­xasse o tom de suas polemicas contra Grün e Kriege, contra os “socialistas verdadeiros”, contra Proudhon, etc. Por exemplo, Lüning, editor da re­vista socialista alemã Westphalisches Dampfboot, lhe escreveu sobre isto.

 

Marx se expressava asperamente sobre estes filisteus pequeno-burgueses que se imaginavam como revolucionários e socialistas. Havia muitos destes senhores entre os emigrados em Paris. Irritavam muito Marx com a forma em que o mantinha preocupado e com sua total incapacidade para compreender o sistema capitalista em seu conjunto. Estas pessoas seguiam sob a influência das noções burguesas e eram incapazes de compreender a necessidade de uma irreconciliável e impiedosa luta de classes pelos interesses do proletariado contra todas as defesas da possibilidade de reconciliação e de acordo com a burguesia. Marx escreveu a Georg Her­wegh em 8 de agosto de 1847:

 

Só se pode desfazer-se de tais ignorantes sendo excepcio­nalmente duro com eles. O característico destes é tentar passar longe e açucarar toda autêntica luta partidária, e apresentar o velho costume alemão de brigas e fofocas como uma atividade revolucionária. Criaturas miseráveis! Em todo caso, aqui, em Bruxelas, não há nada disto.

 

Os acontecimentos que conduziram ao Manifesto

Os resultados do trabalho de propaganda realizado por Marx e Engels não tardaram em apresentar efeitos. No inverno de 1846-1847, Jo­seph Moll, um dos membros do Comitê Central da Liga dos Justos, foi de­legado em Londres para visitar Marx em Bruxelas. Moll foi encarregado por seus camaradas para convidar Marx e Engels a unir-se a Liga, e trans­mitiu a solicitação a Marx para que, se ele e Engels estivessem de acordo com a união, participarem do próximo Congresso e exporem ali seus pon­tos de vista teóricos, de tal maneira que pudessem ser publicados como o programa oficial da Liga.

 

Em vista da garantia de toda possibilidade de colaborar na reor­ganização da Liga e elaborar um programa teoricamente confiável, Marx e Engels decidiram unir-se a organização.

No Congresso da Liga, reunido no verão de 1847 em Londres (Marx não esteve presente; Engels e Wolff, sim), foi realizada a reorgani­zação da Liga, aprovados seus estatutos, nos quais a tarefa da Liga foi de­finida da seguinte maneira: “a derrubada da burguesia, a dominação do proletariado, a destruição da velha sociedade burguesa baseada nos anta­gonismos de classe, e o estabelecimento de uma nova sociedade sem clas­ses e sem propriedade privada”.

 

Depois de sua reorganização, a Liga modificou seu antigo nome, de Liga dos Justos passou a chamar-se Liga dos Comunistas.

 

De acordo com os estatutos aprovados, a organização da Liga era totalmente democrática, fechando assim as portas para os esforços cons­pirativos. A organização básica da Liga dos Comunistas era a “comuna” (ge­meinde), que consistia de um mínimo de três pessoas e um máximo de doze. De duas a dez comunas constituíam um “círculo” (kreis). Os círculos de um país ou província individual estavam subordinados a direção de um “círculo dirigente” (leitender kreis). Os círculos dirigentes eram responsáveis ante o Comitê Central e, em última instância, o Congresso. A Liga, ainda sendo ilegal, se transformou em uma sociedade para a propagação das ideias do comunismo científico. Os estatutos aprovados no primeiro Con­gresso da Liga dos Comunistas foram, de acordo com a decisão deste, sub­metidos as comunas para sua discussão. Junto com o novo programa da Liga, iriam ser definitivamente aprovadas no próximo congresso.

Tanto os dirigentes da Liga como a maioria dos seus membros se convenceram gradualmente da correção dos pontos de vista de Marx e Engels, mas ainda estavam longe de ter uma completa clareza sobre uma série de questões teóricas.

 

Eis aqui, por exemplo, o tipo de problemas exposto em uma das cartas do Comitê Central de Londres da Liga, em fevereiro de 1847:

 

Pode introduzirse de imediato a comunidade de buns, ou é necessário um período de transição para educar as pes­soas? Quanto tempo durará este período de transição. Se pode se introduzir o comunismo de imediato em grande escala, ou se devem, primeiro, realizar pequenos experi­mentos? Se deve empregar a violência na introdução do comunismo, ou se pode realizar de forma pacífica a reor­ganização da sociedade?

 

No período intermediário entre o primeiro e o segundo Con­gresso da Liga dos Comunistas, as organizações locais elaboraram propostas de um “símbolo de fé” (título então dado a elaboração dos princípios bá­sicos do programa). Estas propostas demonstraram que ainda havia bas­tante confusão nos pontos de vista dos membros da Liga dos Comunistas. Por exemplo, no projeto da comissão de Londres, se definia os proletários como todos “os que não podem viver da renda do seu capital”. Daí se chegava a conclusão que “assim, não somente os operários, mas também os cientistas, os artistas e os pequeno-burgueses são proletários”.

 

Nas comunas da Liga em Paris se discutiu o projeto elaborado por Hess, que teve muito êxito. Segundo Engels, este projeto estava mer­gulhado em uma incrível confusão teórica. Em contraposição a este pro­jeto elaborado por Hess, Engels esboçou as questões básicas do pro­grama, em forma de perguntas e respostas.

 

Para assegurar a adoção de um programa teoricamente confiável, ainda tinha que ser feito um grande trabalho explicativo.

 

Este trabalho foi realizado por Marx no II Congresso da Liga dos Comunistas, realizado em Londres, no final de novembro e princípio de dezembro de 1847. A discussão sobre os problemas relacionados com o programa durou dez dias completos. Marx explicou tudo que estava su­jeito a dúvidas; todas as discrepâncias foram superadas. O Congresso re­conheceu, por unanimidade, como corretos os pontos de vista esboçados e defendidos por Marx. Se adotou a decisão de encarregar Marx e Engels da tarefa de redigir um manifesto, que seria publicado como o programa oficial da Liga dos Comunistas.

 

O manuscrito do Manifesto foi enviado no final de janeiro de 1848, de Bruxelas a Londres, onde foi impresso e viu a luz do dia em fevereiro de 1848. Não muito antes dos dias de junho de 1848 apareceu em Paris a primeira tradução francesa do Manifesto do Partido Comunista.

 

O jovem Marx, que tinha 29 anos quando foi elaborado o Mani­festo, se apresentou então totalmente armado com a teoria que havia criado. Foi reconhecido como o líder do Partido Comunista, organização que era ilegal em virtude das condições existentes naquele momento. Marx se apresentou, oficial e publicamente, sob a bandeira da democracia revolu­cionária moderna e consequente, cujo núcleo é o proletariado.

 

Quanto aos pontos de vista do proletariado, o Manifesto do Par­tido Comunista estabeleceu o seguinte:

 

Os comunistas não dissimulam suas ideias e intenções. Declaram abertamente que seus objetivos só podem ser alcançados pela derrubada violenta de toda a ordem social existente. Que as classes dominantes tremam ante a ideia de uma revolução comunista! Nela os proletários não têm nada a perder a não ser os seus grilhões. Têm um mundo a ganhar. [Karl Marx, Obras Escolhidas, tomo 1]

 

Durante o período do segundo Congresso da Liga dos Comunistas em Londres, Marx não somente participou dos debates do Congresso, mas também das reuniões mais amplas. O jovem alfaiate alemão, Fredrich Lessner, nesse momento, já membro da Liga, ainda que não tenha assis­tido as sessões do Congresso dado que não era delegado, escutou os dis­cursos de Marx nas reuniões, o viu no intervalo entre as sessões e deu a seguinte descrição de sua participação e a impressão criada por seus dis­cursos e os pontos de vista difundidos por ele:

 

Marx era um homem jovem nesse momento, tinha cerca de 28 anos de idade; apesar disto, exerceu uma forte impressão em todos nós. Marx era de estatura mediana, ombros largos e cheio de energia. Tinha fronte esplêndida e alta, o cabelo negro como o carvão e um olhar penetrante; tinha um sor­riso sarcástico que se desenhava em sua boca, inspirando terror em seus oponentes. Falava de forma breve e concisa, não empregava palavras supérfluas; cada frase sua estava cheia de pensamento, e cada pensamento era uma ligação necessária em seu argumento. A lógica do seu discurso era excepcionalmente convincente, não havia nada de fantasi­oso nele. Quanto mais aprendia a entender a diferença entre o comunismo de Weitling e o comunismo do Manifesto do Partido Comunista, mais claro era para mim que Marx era o representante das ideias socialistas maduras.

 

O manifesto

O Manifesto do Partido Comunista compõe-se de quatro partes.

 

O primeiro capítulo, intitulado “Burgueses e Proletários”, oferece uma breve explicação do desenvolvimento histórico da sociedade euro­peia; delineia a origem do desenvolvimento da burguesia; trata sobre o pa­pel desempenhado por esta na história, sobre as contradições surgidas no seio da sociedade burguesa, que como resultado destas está condenada inevitavelmente à ruína; examina a história do desenvolvimento do prole­tariado; proporciona uma caracterização da posição deste na sociedade burguesa; traça um quadro de sua transformação em classe; e revela a na­tureza revolucionária do proletariado como o “coveiro” da burguesia.

 

A burguesia experimentou um longo processo de desenvolvi­mento e “desempenhou, no transcurso da história, um papel verdadeira­mente revolucionário”. Demonstrou o que se pode criar com a ação hu­mana. “A burguesia produziu maravilhas muito maiores que as pirâmides do Egito, os aquedutos romanos e as catedrais góticas...”.

 

A burguesia, após ter emergido da opressão, do fardo dos impos­tos e da privação de direitos na sociedade feudal, alcançou no curso de uma longa luta, “até que, por último... conquistou a hegemonia política e criou o moderno Estado representativo”, e criou um mundo a sua ima­gem e semelhança, o mundo burguês em que tudo se compra e se vende, onde inclusive a dignidade e a honra pessoal se transformam em “valor de troca”, onde “o frio interesse e o insensível pagamento à vista” reinam.

 

Sob a dominação da burguesia, as forças produtivas da sociedade alcançaram rapidamente um enorme desenvolvimento. Porém, estas no­vas forças produtivas, criadas sob a direção da burguesia, ultrapassaram os estreitos limites da sociedade burguesa. A ordem burguesa se converteu em um freio para o desenvolvimento destas poderosas forças produtivas sociais, o representante das quais é a nova classe revolucionária, o proleta­riado, que se desenvolveu e cresceu junto a burguesia e foi criada pela in­dústria mecanizada em grande escala.

 

Na sociedade burguesa, o proletariado está escravizado pela classe burguesa, em cujas mãos se concentram todos os meios de produção. Para viver, os proletários se veem obrigados a vender sua força de trabalho. Em troca do seu árduo e pouco atrativo trabalho, pelo duro trabalho que se realizada na fábrica capitalista, o operário somente recebe os meios míni­mos de subsistência necessários para a reprodução da força de trabalho.

 

Com o desenvolvimento da indústria se produz um aumento na produtividade do trabalho e as mercadorias se tornam mais baratas. Assim sendo, a mercadoria do operário, sua força de trabalho, também barateam. “Quanto mais repugnante é o trabalho, tanto mais diminui o salário pago ao operário”.

 

Com o progresso da indústria, as condições dos operários pioram. O incremento da riqueza no capitalismo, inevitavelmente, tras consigo um aumento da pobreza do proletariado.

 

Marx jogou luz sobre o caminho seguido pelo proletariado no curso do seu desenvolvimento. No princípio, se dissemina por todo o país, e se divide pela concorrência das massas. Nesta etapa, a burguesia exerce um domínio único sobre os operários e é sua direção política.

 

Mas com o crescimento do proletariado, também cresce sua soli­dariedade e o reconhecimento de sua força. A burguesia industrial, em sua luta contra seus inimigos – a aristocracia e os setores da burguesia cujos interesses são afetados pelo desenvolvimento da indústria, e a burguesia dos países estrangeiros –, se vê obrigada a apelar a ajuda do proletariado. A própria burguesia empurra o proletariado em direção do caminho do movimento político. A experiência política do proletariado amadurece.

 

Estas condições do proletariado na sociedade burguesa fazem com que seja a classe mais revolucionária. Todas as demais classes da so­ciedade estão arruinadas e declinam com o desenvolvimento da grande indústria; o proletariado, todavia, é produto da mesma grande indústria.

 

Marx demonstra com a guerra civil, que se desenvolve ininterrup­tamente no seio da sociedade burguesia, alcançou tal nível de agudização que desencadeia uma revolução aberta e franca, e o proletariado, “derru­bando violentamente a burguesia, assenta as bases do seu poder”.

 

O segundo capítulo, “Proletários e Comunistas”, fala do papel do Partido Comunista, do fato de que este último está indissoluvelmente li­gado com a classe operário e seu destacamento de vanguarda.

 

Na luta dos proletários de diversas nações, os comunistas “desta­cam e reivindicam sempre, em todas e cada uma das ações, os interesses comuns e peculiares de todo o proletariado, independentemente de sua nacio­nalidade”; no curso da luta do proletariado contra a burguesia, em suas diversas etapas, os comunistas “mantém sempre o interesse do movi­mento focado em seu conjunto”; o comunismo científico exige um estudo e uma compreensão profundas da “linha de conduta, as condições e os resultados gerais do movimento proletário”.

 

Além disso, neste capítulo faz um exame detalhado e uma expo­sição da mentira e hipocrisia dos defensores da sociedade burguesa, que acusam os comunistas de querer destruir as bases desta sociedade, a liber­dade, a família, a cultura, a educação e a nacionalidade. Marx demonstra que somente a destruição da propriedade burguesa pode garantir a propri­edade pessoal de todos os trabalhadores, e que somente a demolição da ordem burguesa, da exploração da burguesia, criará as condições para o desenvolvimento de uma sociedade humana mais culta.

 

Ao final do capítulo enumeram as medidas revolucionárias que o proletariado tem por realizar ao tomar o poder em suas mãos.

 

Em 1872, no prefácio à edição alemã do Manifesto do Partido Comu­nista, Marx e Engels assinalaram que a correção dos princípios básicos do Manifesto havia sido plenamente confirmada pelo curso do desenvolvi­mento histórico, mas a aplicação prática destes princípios básicos sempre dependerá das condições históricas existentes.

 

No terceiro capítulo, se faz a análise crítica das distintas formas de socialismo existentes:

 

O socialismo reacionário: (a) feudal, (b) pequeno-burguês, (c) alemão ou “verdadeiro.

 

O socialismo conservador ou burguês, do qual, segundo Marx, Proudhon era representante;

O socialismo e o comunismo crítico-utópico, que em muitos aspectos havia realizado brilhante crítica da ordem burguesa.

 

Finalmente, no quarto capítulo se aborda a tática do Partido Co­munista, que apoia todo movimento dirigido contra o sistema capitalista.

 

No Manifesto do Partido Comunista, “Marx e Engels traçaram as li­nhas gerais do Partido como vanguarda do proletariado, sem o qual [o Partido] o proletariado não pode conquistar sua emancipação, seja no sen­tido de tomar o poder ou de reconstruir a sociedade capitalista. Lenin de­senvolveu estes contornos ainda mais e os aplicou as novas condições da luta do proletariado no período do imperialismo”. [J. V. Stalin]

 

Importância social e significado atual

O destino do Manifesto esteve estreitamente vinculado com o do movimento operário. Em junho de 1848, a classe operária entrou em ação em Paris, não encontrou apoio entre as massas da pequena burguesia e do campesinato, e sofreu uma derrota. Depois da derrota de 1848-1849, a reação triunfou na Europa. Durante um tempo, o movimento operário “desapareceu da cena pública”, junto com ele, “o Manifesto também passou a segundo plano”. [Engels]

 

Nesse momento, o capitalismo ainda tinha pela frente um amplo campo de desenvolvimento.

As relações capitalistas somente haviam al­cançado pleno desenvolvimento na Europa Ocidental, sobretudo na In­glaterra e França. Na Alemanha, o desenvolvimento do capitalismo estava dando somente seus primeiros passos. Existiam enormes extensões de ter­ritório, enormes continentes (América, África, Austrália e Ásia, em grau considerável) cujas terras virgens haviam sido pouco tocadas pelo capital. No leste da Europa, na Rússia, o desenvolvimento do capitalismo apenas havia começado. Na própria Europa, o capitalismo industrial progressista ocupava uma posição dominante, e ainda assim tinha pela frente uma curva de desenvolvimento ascendente.

 

Quando a classe operária se recuperou da derrota e acumulou no­vas forças para a luta contra as classes dominantes, foi criada em 1864 a Associação Internacional dos Trabalhadores, a Primeira Internacional.

 

Durante os nove anos da existência da Primeira Internacional, as classes operárias foram capazes de convencer-se sobre a base de sua pró­pria experiência que somente se poderia obter a vitória mediante a luta de classes e conquistando o poder e estabelecendo a ditadura do proletariado, como apontava Marx. Isso ficou especialmente claro com a experiência da Comuna de Paris, a primeira forma de ditadura do proletariado estabele­cida na história. Sobre a base desta experiência, Marx e Engels desenvol­veram ainda mais suas teorias sobre a revolução proletária e a luta pela construção da sociedade comunista.

 

No final do século XIX, a teoria de Marx recebeu o reconheci­mento geral nas fileiras da classe operária europeia. Em 1890, Engels tinha toda razão ao declarar que o Manifesto havia se convertido no “no produto mais internacional e de maior difusão de toda a literatura socialista, o pro­grama comum dos muitos milhões de operários de todos os países, da Siberia até a California”. [Karl Marx, Obras Escolhidas, tomo 1]

 

Imediatamente após a publicação da edição alemã, o Manifesto foi traduzido para vários idiomas. Logo surgiram traduções para o francês, polonês e dinamarquês. Em 1850, apareceu em Londres uma tradução para o inglês. Em 1871, ao menos três traduções para o inglês do Manifesto apareceram nos Estados Unidos. A melhor tradução para o inglês data de 1888. Esta tradução foi feita por Samuel Moore e editada por Engels.

 

A primeira tradução para o russo surgiu em 1863 (feita por Baku­nin); foi impressa na imprensa Kolokol. Em 1882, foi publicada uma nova tradução ao russo, obra de Plekhanov. Marx e Engels escreveram um pre­fácio especial para esta edição.

 

Em 1892 surgiu uma segunda edição polonesa, para a qual Engels escreveu um prefácio datada de 10 de fevereiro de 1892. No ano seguinte, foi publicada uma edição italiana, também com um prefácio de Engels, escrito especialmente para esta edição.

 

A partir dos anos 70 do século XIX e o princípio do século XX, o Manifesto do Partido Comunista foi traduzido para uma série de idio­mas – português, espanhol, romeno, hebraico, ucraniano, japonês, finlan­dês, chinês e outros.

 

Até hoje [1938], foram publicadas mais de uma centena de edi­ções do Manifesto em língua russa.

 

O número total de exemplares do Manifesto do Partido Comunista que aparecem nos diferentes idiomas, durante os últimos noventa anos, se aproxima dos milhões.

 

***

 

Marx previu um grande panorama de batalhas que viriam para a classe operária, apontou claramente o objetivo e as tarefas que deveriam cum­prir o proletariado e o ensinou que lhe esperava uma longa e difícil luta. “Ante vocês – disse Marx – há quinze, vinte, cinquenta anos de guer­ras civis e guerras entre povos, não somente com o fim de modificar as relações existentes, mas também com o fim de que modifiquem vocês mesmos e estejam aptos para a dominação política”.

 

No período histórico em que viveu Marx, as condições para a vi­tória do proletariado ainda não haviam amadurecido completamente. A época do imperialismo e das revoluções proletárias surgiu após as mortes de Marx e Engels. A vitória decisiva foi obtida pelo proletariado somente nesta nova época histórica. Em 7 de novembro de 1917, na Rússia se viu o início da grande revolução socialista vitoriosa. O triunfo das ideias do Manifesto do Partido Comunista foi assegurado pelos brilhantes continu­adores da causa de Marx e Engels – Lenin e Stalin, e o Partido Bolchevique dirigido por eles.

 

Na Constituição de Stalin adotada em 5 de dezembro de 1936, está registrado todo o que havia sido conquistado pelos operários indus­triais e pelos trabalhadores em geral da URSS, como resultado da revolu­ção proletária triunfante. Na URSS se deu vida ao sistema socialista, se cumpriu as tarefas estabelecidas no Manifesto.

 

Stalin em seu discurso sobre o projeto de Constituição, em 25 de novembro de 1936, deu uma caracterização detalhada dos êxitos alcança­dos pelo povo trabalhador sob o poder soviético: todas as classes explo­radoras foram liquidadas; a terra e os meios de produção foram transfor­mados em propriedade pública; o melhor da classe operária foi posto a cargo das empresas. Em todas as esferas da economia nacional da URSS, na indústria, na agricultura, no comércio, o sistema socialista obteve uma vitória completa.

 

Na sociedade soviética os antagonismos de classe foram destruí­dos, o poder está nas mãos de duas classes amigas, os operários e os cam­poneses, enquanto que a direção estatal da sociedade (a ditadura) pertence a classe operária, como a classe mais avançada.

 

Consagrados na Constituição estão o caráter internacional da so­ciedade soviética, e a democracia consequente, integral e desenvolvida, que não somente proclama os direitos dos cidadãos, mas que também garante o exercício destes direitos na prática.

 

Na URSS se construiu, no fundamental, o socialismo, a primeira fase do comunismo. Está em funcionamento o lema “de cada qual se­gundo sua capacidade, a cada qual segundo seu trabalho”. Mas a fase su­perior do comunismo, na qual prevalecerá o lema “de qual qual segundo sua capacidade, a cada qual segundo suas necessidades”, ainda não existe. A direção do Partido de Lenin e Stalin garante nosso avanço até a cons­trução do comunismo completo.

 

Nas nove décadas que se passaram desde que o Manifesto viu a luz do dia, se produziu uma mudança fundamental na situação histórica e nas condições da luta pelo comunismo. Nos dias em que o Manifesto foi escrito, o Partido Comunista era um pequeno grupo ilegal, comparativamente um pequeno destacamento do comunismo científico. No início do Manifesto se fala de “fantasma do comunismo”, do ameaçador e então distante pres­ságio da revolução proletária vindoura.

 

Passaram-se vinte anos desde que a vitória da grande Revolução de Outubro trouxe consigo uma mudança fundamental na história da hu­manidade. Os operários industriais e o povo trabalhador da URSS de­monstraram ao mundo inteiro que o comunismo de Marx e Engels, de Lenin e Stalin, não é um fantasma, mas uma realidade. A primeira etapa do comunismo, o socialismo, é uma realidade do mais tangível, presente na vida cotidiana de 170 milhões de pessoas que habitam o enorme terri­tório da União Soviética.

 

A rivalidade entre os dois sistemas econômicos, o capitalista e o socialista, demonstra cada vez mais aos trabalhadores de todos os países a completa decadência do sistema de economia capitalista e a superioridade do sistema soviético, socialista. O capitalismo só pode oferecer ao povo de todo o mundo, a escravidão, a pobreza, as atrocidades do fascismo, os horrores da guerra. O estabelecimento do socialismo na URSS, demons­trou que a ditadura do proletariado, a democracia proletária socialista, ga­rante aos trabalhadores de todas as nações uma vida feliz, a abolição da escravidão, da pobreza e da exploração, e abre uma nova época no desen­volvimento da humanidade.

 

Escrito por Adoratsky e publicado em International Publishers, New York, 1938.

 

Notas

[1] V. I. Lenin, “A Guerra e a Social-democracia da Rússia”, em Obras Escolhidas em 12 tomos, tomo. 5, p. 21.

[2] Engels considerou necessário reiterar a afirmação de que a ideia básica do Manifesto tal como indicado na citação acima pertence “única e exclusivamente” a Marx, que a parte mais considerável das principais ideias, diretrizes, particularmente no campo econômico e histórico, e, em especial, sua formulação nítica e definitiva, pertencem a ele... Marx era um gênio... Sem ele a teoria não seria hoje, nem com muito esforço, o que é. Por isto leva legitimamente seu nome. (Ver Engels, “Ludwig Feuerbach e o Fim da Filosofia Clássica Alemã”)

[3] Na época em que o Manifesto do Partido Comunista foi escrito, Marx havia estudado enorme quantidade de literatura econômica especializada. No Instituto Marx-Engels-Lenin se encontram conservados vinte e quatro grandes cadernos, fechados entre 1843 e 1847, que contém extratos e resumos dos livros lidos por Marx durante este período. Estes cadernos contêm resumos de obras de cerca de setenta economistas dos séculos XVII, XVIII E XIX (Smith, Ricardo, James Mill, W. Petty, Thomas Tooke, W. Cobbett, W. Thompson, Ure, Babbage, Owen, J. Wade, F.M. Eden, Sismondi, Blanqui, Quesnay, Destutt de Tracy, Boisguillebert, Rossi, Storch, Gülich E muitos outros). Se estes cadernos fossem impressos ocupariam cerca de 2.250 páginas.

 

 

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