Quando o povo brasileiro conduz a luta armada

25/05/2018

 

Há muitos anos, os oportunistas e revisionistas dos mais diferentes grupos e partidos em nosso país têm espalhado a ideia falsa e reacionária segundo a qual a tomada do poder político por meio da revolução não seria mais possível. A “tomada do poder”, segundo tais posições, constituir-se-ia nada mais que como mera “ocupação dos espaços democráticos” no qual candidatos de partidos pretensamente de “esquerda” disputariam eleições e elegeriam políticos para a gerência do velho Estado brasileiro. O pretexto para tal concepção varia dependendo de qual partido ou movimento dá a resposta, mas podemos enumerar basicamente quais seriam estes: o emprego de novas tecnologias digitais de comunicação tornaria a repressão do imperialismo algo onipresente, de maneira que impossibilitaria qualquer ação armada ou mais radicalizada por parte do proletariado e do povo para a tomada do poder; o povo brasileiro haveria se “acomodado” e não mais estaria disposto para a luta armada revolucionária; o mundo atual (incluindo o Brasil) seria marcado por um conceito bizarro chamado de “capitalismo pós-industrial” que terminou por tirar os trabalhadores das fábricas e grandes empresas e coloca-los em escritórios e pequenas empresas, não cabendo mais, portanto, falar em “direção da classe operária na revolução” ou coisa parecida; no Brasil, a nova Constituição de 1988 teria tornado possível a participação pacífica do povo nas “instituições” e a “democratização do Estado pela via eleitoral”.

 

Após muitos anos de hegemonia de tais posições – que seguem hegemônicas, por sinal –, vemos agora seus efeitos nefastos. Desde 2014, mais de 150 lideranças do movimento camponês e das minorias nacionais foram executadas. Os conflitos agrários no campo seguem em ascensão diante das diferentes medidas do Estado reacionário para liberar a grilagem de terras para estrangeiros e laranjas. Prossegue o banho de sangue nas áreas rurais, intensificado pelos massacres de 2017 e pelo golpe de Estado de 2016. Nas cidades, os braços armados do velho Estado, assim como seus braços militares – tais como as milícias – seguem militarizando comunidades pobres e favelas, humilhando e assassinando impunemente os filhos do povo, principalmente a juventude trabalhadora. Para completar, as hordas fascistas que surfam sobre a ineficiência dos reformistas e oportunistas para mobilizar o povo conduzem agora atentados armados contra lideranças do movimento popular. O assassinato da vereadora do PSOL Mariele Franco, a depender do velho Estado, permanecerá impune. Também no estado do Rio de Janeiro, cinco defensores dos direitos do povo ligados à União da Juventude Socialista (UJS) foram recentemente assassinados por forças da reação num massacre. Recentemente, um ônibus da caravana eleitoral de Lula sofreu ataques a tiros no estado do Paraná. No Rio Grande do Sul, durante a campanha eleitoral de Lula, fazendeiros da fronteira e seus bate-paus manifestavam abertamente seu fascismo e (literalmente) chicoteavam camponeses e trabalhadores sob influência do petismo. No dia 6 de abril deste ano, quando manifestantes em todo o país protestavam contra a prisão iminente de Lula, um reacionário atacou a tiros um bloqueio de rodovia realizado pelo MST no interior de Paraíba, baleando a militante Lindinalva Pereira de Lima.

 

Ao contrário do que possa parecer, essa situação de crescentes atentados contra lideranças do movimento popular não gerou uma radicalização por parte dos reformistas. As fábricas e grandes empresas permanecem desmobilizadas mesmo após o desmonte do que restava de legislação trabalhista em nosso país. Não há grandes manifestações. As ocupações de terras nas áreas rurais seguem em baixa. Para ilustrar o que estamos colocando, observemos as posições recentes do dirigente do MST João Paulo Rodrigues, para quem, a despeito de a “esquerda social brasileira” sempre “intensificar a luta de classes”, devemos agora – após um Golpe de Estado e de atentados armados por parte dos fascistas – conduzir uma verdadeira “guerrilha nas redes” (?!) e “intensificar as atividades de agitação e propaganda” por meio de hashtags como “#LulaLivre e #LulaPresidente”. É difícil acharmos absurdo maior. Pior ainda, não se trata infelizmente da posição isolada de um único dirigente, mas ao contrário, hegemonizam o movimento popular dirigido pelo reformismo.

 

Parte importante do povo brasileiro, todavia – a despeito da ausência da direção de um partido de vanguarda da classe operária e da perigosa influência do reformismo – começa pouco a pouco a seguir na contramão destas posições que desarmam o povo e deixam as armas (tanto no sentido literal quanto figurado) sob o monopólio dos inimigos do povo brasileiro, os grandes capitalistas e latifundiários. Citemos alguns casos exemplificativos, que ao menos por ora concentram-se nos estados brasileiros mais atrasados economicamente, que se apresentam como elo débil do velho regime reacionário. As lutas que se desenvolvem particularmente nas regiões do Norte e Nordeste brasileiros servem de exemplo positivo.

 

A classe operária do estado de Rondônia, particularmente a categoria dos trabalhadores da construção civil nos canteiros de obras, deu grandes amostras de resistência e combatividade contra as arbitrariedades dos grandes capitalistas e em defesa de seus direitos democráticos. No início do ano de 2013, mais de 2 mil operários que trabalhavam no canteiro de obras da UHE de Jirau se revoltaram contra atrasos no pagamento de salários, jornadas de trabalho excessivas e penosas e mortes contínuas por acidentes de trabalho. Numa noite, renderam “vigias” dos canteiros de obras e dinamitaram parte das instalações do consórcio responsável pela construção da usina hidrelétrica. A revolta dos operários foi reprimida a ferro e fogo por pistoleiros contratados pela empresa e também pela famigerada “Força Nacional de Segurança Pública” – conhecida como gendarme do povo brasileiro, responsável por massacrar principalmente lavradores em luta (como em deploráveis casos a exemplo da “Operação Paz no Campo” conduzida no ano de 2008 no interior do estado do Pará). Pipocaram casos e denúncias de torturas de operários, assassinatos, cárcere privado, trabalhos forçados de operários obrigados a trabalhar sob chuva e sob a ponta dos fuzis da “Força Nacional” fascista.

 

O estado do Pará tem se apresentado nos últimos anos como um palco de relevantes resistências armadas do povo brasileiro contra seus opressores. Já há muitas décadas, a nação Tembé do Alto Rio Guamá tem deflagrado grandes lutas em defesa de seu território tradicional, que se encontra atualmente em grande parte grilado por madeireiros, fazendas de gado e propriedades sojeiras. Os grandes capitalistas e fazendeiros que grilam as terras do povo Tembé contam sempre com o apoio da polícia militar e da pistolagem, o que acaba por empurrar esta minoria nacional à luta armada. [1] Em fevereiro deste ano, cerca de 80 famílias camponesas do município de Bom Jesus do Tocantins resistiram a seguidas tentativas de expulsão promovidas por pistoleiros do dono da Fazenda Mococa. Numa delas, disparam contra os bate paus do fazendeiro, ferindo três deles, avançando na luta pela aplicação do princípio democrático da terra para quem nela trabalha. Também neste ano, em União dos Palmares, no interior do estado de Alagoas, camponeses resistiram à expulsão das terras que cultivam contra uma tentativa de reintegração de posse por parte da polícia militar e de pistoleiros, que agiam a mando de donos de usinas de açúcar da região. Destruíram uma ponte que dava acesso às moradias e impediram a expulsão de se concretizar.

 

No Maranhão, diversas minorias nacionais seguem também em luta armada. O caso mais notório é o do povo Kaapor, que também por meio da resistência armada tem logrado sucesso na defesa de seu território contra madeireiros, empresas do agronegócio e também na abolição do sistema do cacicado, completamente estranho ao modo de vida deste povo e que fora imposto pelas instituições ligadas ao Estado reacionário brasileiro encarregadas de lidar com questões relacionadas a minorias nacionais.

 

Os casos citados não se tratam de exemplos isolados, mas refletem a crise do regime reacionário brasileiro e a disposição de parcela importante das massas trabalhadoras em se engajarem na luta séria – e não no cretinismo eleitoreiro – contra o imperialismo e por seus direitos democráticos.

 

 

Nota

[1] O documentário “Illegal Loggers: The Tribe Waging War in the Amazon” [https://www.youtube.com/watch?v=HAgoyQs8GYk&t] retrata a luta armada do povo Tembé em defesa de seu território.

 

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