Mao: "A concepção dialética da unidade no seio do Partido"

08/06/2018

 

Em relação à questão da unidade, gostaria de dizer algumas palavras acerca da maneira de a abordar. Penso que a nossa atitude deve ser a de nos unirmos com todo e qualquer camarada desde que não seja um elemento hostil ou sabotador. Devemos adotar em relação a ele uma atitude dialética e não metafísica. Que deve entender-se por atitude dialética? Analisar tudo, reconhecer que todos os seres humanos cometem erros e não rejeitar categoricamente alguém porque apenas cometeu erros. Lenin disse um dia que não há uma única pessoa no mundo que não cometa erros. Toda a gente precisa de ajuda. Um indivíduo competente precisa da ajuda de outras três pessoas; uma sebe precisa do suporte de três estacas. Apesar de toda a sua beleza o lótus precisa do verde das suas folhas para a realçar. Estes são alguns provérbios chineses. Outro provérbio chinês diz que três sapateiros, juntando as suas inteligências, conseguem igualar o grande pensador Chuque Liam. Chuque Liam, sozinho, jamais poderá ser perfeito; tem suas limitações. Consideremos esta declaração dos nossos doze países. Já passamos por um primeiro, segundo, terceiro e quarto projetos e ainda não acabamos de a aperfeiçoar. Penso que seria presunção alguém reclamar da onisciência e a onipotência divinas. Deste modo, que atitude devemos adotar em relação a um camarada que cometeu erros? Deveremos seguir o método analítico e é preferível adotar uma posição dialética em vez de uma posição metafísica. O nosso Partido já uma vez se atolou na metafísica, no dogmatismo, que destruía completamente quem quer que não fosse do seu agrado. Posteriormente, repudiamos o dogmatismo e aprendemos um pouco mais de dialética. A unidade de contrários é o conceito fundamental da dialética. De acordo com este conceito, como deveremos agir em relação a um camarada que tenha cometido erros? Em primeiro lugar, devemos travar uma luta para que ele se liberte das suas ideias erradas. Em segundo lugar, devemos também ajudá-lo. Ponto um, luta; ponto dois, ajuda.


Devemos proceder com boas intenções para ajudá-lo a corrigir os seus erros e encontrar uma saída.

Contudo, as coisas serão diferentes quando se tratar de pessoas de outro tipo. Com pessoas como Trotsky, ou como Chen Du-xiu, Tcham Cuo-tao e Cao Cam na China, era impossível adotar uma atitude de ajuda, pois eram incorrigíveis. E houve indivíduos como Hitler, Chiang Kai-chek e o czar que eram do mesmo modo incorrigíveis e tinham de ser derrotados porque havia um antagonismo completo entre nós e eles. Neste sentido, há apenas um aspecto na sua natureza, e não dois. Em última análise, isto é também verdade em relação ao imperialismo e aos sistemas capitalistas que estão prestes a ser substituídos pelo sistema socialista. O mesmo se aplica à ideologia: o idealismo será substituído pelo materialismo e o teísmo pelo ateísmo. Estamos a falar do objetivo estratégico, mas o caso é diferente em relação às etapas da tática, as quais podem exigir compromissos. Não aceitamos nós um compromisso com os americanos em relação ao paralelo 38 na Coreia? Acaso não houve um compromisso com os franceses no Vietnã?

Em cada etapa da tática é necessário saber estabelecer compromissos, tal como é necessário saber travar lutas. Voltemos agora às relações entre camaradas. Penso que se deve discutir com os camaradas sempre que haja divergências entre eles. Parece-me que alguns pensam que, desde que estejam no Partido Comunista, as pessoas se tornam santas, sem diferenças ou desentendimentos, e que o Partido não deve ser submetido à análise, ou seja, é um partido monolítico e uniforme e que por isso não deve haver discussões. Dir-se-ia que as pessoas são 100 por cento marxistas desde que estejam no Partido. Na realidade, há marxistas em vários graus: há os que são marxistas a 100, 90, 80, 70, 60 ou 50 por cento e mesmo alguns que só são 10 ou 20 por cento marxistas. Não será possível que dois ou mais de nós se reúnam para discutir numa sala pequena? Não será possível partirmos do desejo de unidade e discutir dentro do espírito de ajuda mútua? Evidentemente, refiro-me a discussões no interior das fileiras dos comunistas e não a discussões com os imperialistas (embora também tenhamos conversas com eles). Deixem-me dar um exemplo. Não estão neste momento os nossos doze países a discutir? Não estão também a discutir mais de sessenta Partidos? Realmente estão. Por outras palavras, desde que daí não resultem danos para os princípios do Marxismo-Leninismo, aceitaremos dos outros certos pontos de vista que são aceitáveis e abandonaremos alguns dos nossos pontos de vista que possamos abandonar. Temos duas mãos para tratar com um camarada que cometeu erros: uma mão para lutar com ele, outra para nos unirmos a ele. O objetivo da luta é defender os princípios do Marxismo, o que significa ter princípios; essa é uma mão. A outra mão é unirmo-nos a ele. O objetivo da unidade é proporcionar-lhe uma saída, fazer com ele um compromisso, o que significa ser flexível. A conjugação dos princípios com a flexibilidade é um princípio marxista-leninista e é uma unidade de contrários.

Todas as coisas, e a sociedade de classes em particular, estão cheias de contradições. Alguns afirmam que irão ser ''descobertas'' contradições na sociedade socialista, mas penso que essa é uma forma errada de colocar tal questão. A questão não é a de haver contradições a descobrir, mas sim a de que essa sociedade fervilha em contradições. Não há nenhum lugar onde não haja contradições e não há ninguém que não possa ser analisado. Pensar que isso não se pode fazer é ser-se metafísico. Como sabemos, um átomo é um complexo de unidades de contrários. Há uma unidade de dois contrários, que são o núcleo e os elétrons. Num núcleo há por sua vez a unidade dos contrários que são os prótons e os nêutrons. Quanto ao próton, há prótons e antiprótons, tal como em relação ao nêutron há nêutrons e antinêutrons. Em suma, a unidade dos contrários está sempre presente. O conceito de unidade dos contrários, a dialética, deve ser profusamente propagado. Penso que a dialética deve sair dos pequenos círculos filosóficos e ser difundida entre as massas. Sugiro que esta questão seja discutida nas reuniões das comissões políticas e nas sessões plenárias dos comitês centrais dos vários partidos e mesmo nas reuniões dos comitês do Partido de todos os escalões. De fato, os secretários das organizações do nosso Partido, quando preparam relatórios para as reuniões do Partido, geralmente apresentam dois pontos nas suas agendas: em primeiro lugar os êxitos; e em segundo lugar as insuficiências. Um divide-se em dois - esse é um fenômeno universal e é isso a dialética.

 

Excertos de um discurso proferido por Mao Tsé-Tung na Conferência de Representantes dos Partidos Comunistas e Operários, realizada em Moscou, em 18 de novembro de 1957.

 

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