"A Confissão de Marx"

04/05/2018

 

Marx não era afeito a manifestações sentimentais exageradas, mes­mo em suas cartas para sua família e seus amigos. Mas é difícil alguém amar com tanta dedicação como ele amou sua esposa e seus filhos. Ele sobreviveu à morte de sua esposa com grande custo. A morte prematura de sua filha mais velha, Jenny Longuet, foi um golpe tão forte que não mais conseguiu se re­cupe­rar. Mas mesmo em suas cartas a Jenny, quem entre suas filhas era sua melhor amiga e colaboradora de trabalho, que tinha passado ao seu lado o mais difícil período de sua vida em Londres, Marx permanecia reservado. Suas cartas transpiravam carinho, ternura e solicitude; Marx – sobretudo nas cartas escritas em seus últimos anos – se esforçou para manter o bom estado de es­pírito perante sua filha, tentando animá-la, mas raramente conseguimos en­contrar nessas correspondências uma sentença “sentimental”. O mesmo se constatou em suas cartas a Engels, a quem nada escondia. Nessas, tratava dos assuntos relacionados à teoria, mas é parco em efusões afetivas. Ainda assim, que tamanha aflição transmitiu pelas seguintes linhas escritas ao seu amigo En­gels, de Argel, em 1º de março de 1882, para onde havia sido envi­ado após a morte de sua esposa, para que pudesse sair da atmosfera melancó­lica de sua casa em Londres!

 

Sabes que é difícil que haja alguém que suporte menos que eu qualquer tipo de expansividade excessiva. Mas estaria men­tindo se tentasse negar que meus pensamentos estão quase completamente absorvidos pela lembrança de mi­nha esposa. E é compreensível, pois vivi com ela os me­lho­res momentos da minha vida.

 

Esta aversão a expressão exagerada dos afetos, por qualquer tipo de “sentimentalismo”, dificulta-nos a descrição do mundo interior de Marx, suas simpatias e antipatias pessoais. De forma geral, sabemos muito pouco dele por ele mesmo. Se às vezes se permitiu alguma indicação autobiográfica como em Contribuição para a Crítica da Economia Política ou no panfleto contra Vogt, foi apenas porque assim a situação exigiu, quando era estritamente pertinente e útil ao esclarecimento dos seus pontos de vista teóricos. Como se quisesse dizer: “julguem-me por minha obra e não pelo que posso contar-lhes sobre mim mesmo”.

 

Eis o porquê de toda tentativa de caracterizar Marx como homem com base em suas próprias manifestações sobre si encontra dificuldades quase insuperáveis. Seu mundo interior estava fechado para os demais. A ternura e a intuição que faziam com que Marx se sentisse interessado por Heine, o mais forte e, ao mesmo tempo, mais subjetivo dos poetas líricos, por Freiligrath, o patético cantor da liberdade, sua disposição ilimitada de compartilhar suas ri­que­zas espirituais com os amigos, a ausência de qualquer rigor perante as fra­quezas humanas alheias, unidos a autocrítica implacável a si mesmo: tudo isso estava oculto aos olhos do mundo por uma couraça impenetrável.

 

As memórias escritas por Lafargue e Liebknecht contribuem para a tarefa de tentar nos dar um retrato de Marx como homem. Ambos, por mais de uma ocasião tiveram a experiência de sofrer ataques do “furioso” mestre. Tanto nas conversas como nas cartas, Marx “surrava-lhes” magistralmente como políticos, sem se preocupar com o orgulho dos seus interlocutores. A eles, com frequência, parecia que Marx não tinha razão; às vezes, sob a im­pressão fresca de um fato recente qualquer, este forçava o tom, mas as di­ferenças se resolviam logo. Lafargue e Liebknecht tinham capacidade de com­preensão suficiente para compreender que estes defeitos de Marx – os quais, na verdade, também era seus em grande medida – eram uma espécie de com­pensação para suas qualidades, e não tomavam aquelas palavras de forma literal. E se, diante dos retratos de Suzdal, traçados pelos adversários de Marx, Liebknecht e Lafargue às vezes, em suas lembranças, exageravam nas tintas, cujo erro se dava na apreciação de Marx não como homem, mas como mili­tante e pensador. As recordações de Liebknecht, especialmente, cometem esta falha. Por isso, são valiosas para nós as páginas que retratam Marx como pai, como amigo, como camarada. À medida em que se conhece melhor sua pri­va­cidade – graças cartas escritas aos amigos, novas lembranças publicadas, vários fatos até agora pouco conhecidos – surgem evidências cada vez mais con­vincentes da veracidade da versão contata por Liebknecht. O documento “humano”, que por um feliz acaso se preservou, é capaz de lançar luz sobre a personalidade de Marx.

 

•••

 

Durante o verão de 1910, trabalhei por várias semanas em Draveil, na casa do falecido Lafargue, onde muito gentilmente me disponibilizaram os jornais e cartas deixadas por Marx, que estavam guardadas ali. Laura Lafargue me cedeu o seu escritório, no qual um dos melhores ornamentos era um re­trato de Marx, que fora mal reproduzido em uma biografia insig­nificante, es­crita socialista americano Spargo. No retrato, um velho, com ca­be­los brancos, olhos levemente inclinados, sorria de forma franca. Nada sério, nada impo­nente. Era um novo Marx, não o profundo pensador cuja fotografia bem conhecida – uma das melhores segundo Laura – registrou sua imagem. Poder-se-ia pensar que este simpático ancião havia assimilado profundamente a “arte de ser um avô”. E assim, vinha a minha memória, com grande vivacidade, um quadro que, de maneira tão artística, Liebknecht havia traçado: o criador de O Capital, de joelhos, com seu neto Johnny em suas costas, exercendo a função de cavalo por toda a casa.

 

Eu não me lembro o porquê, mas possivelmente durante uma de nossas conversas sobre Marx, ao lamentar que seu pai tivesse deixado tão poucas manifestações subjetivas de ordem pessoal, Laura se recordou de imediato de que, em dada ocasião, ela e sua irmã mais velha, fizeram a seu pai uma série de perguntas cujas respostas se constituíram em uma espécie de confissão. Laura conseguiu encontrar anotações de tal brincadeira. E são precisamente para estas “confissões” de Marx que quero chamar à atenção do leitor. Laura Lafargue me arrumou uma cópia. As perguntas e respostas foram formuladas em Inglês.

 

 

CONFISSÃO

 

Virtude que mais aprecia:

em geral ............................................................... a Simplicidade

no homem .......................................................... a força

na mulher ............................................................ a fraqueza

 

seu traço característico .................................... a unidade de objetivo

sua ideia de felicidade ...................................... a luta

sua ideia de desgraça ....................................... a submissão

 

defeito inclinado a perdoar ........................... a credulidade

        (relacionado aos homens)

defeito que lhe causa repugnância .............. o servilismo

sua antipatia ................................................ Martin Tupper

sua ocupação favorita ................................. ler livros

seus poetas prediletos ................................ Shakespeare, Ésquilo e Goethe

seu prosador favorito .................................. Diderot

seu herói ..................................................... Spartacus

sua heroína ................................................. Gretchen

sua flor favorita ........................................... o Louro

sua cor preferida ......................................... o Vermelho

seu nome predileto ...................................... Laura, Jenny

seu prato predileto ...................................... Peixe

sua sentença favorita .................................. Nihil humani a me alienum puto

seu lema favorito ......................................... De omnibus dubitandum

 

Karl Marx

 

 

Obviamente, não podemos considerar literalmente as respostas des­te jogo. Não devemos esquecer que se trata de “confissões” feitas em um mo­mento de descontração com as filhas. Mas, ao mesmo tempo, por ter sido feitas às pessoas mais próximas, há muita verdade nas respostas.

 

Antes de tudo, sobre a época em que se deu esse fato, Laura não pode dar nenhuma indicação precisa quanto à data. Mas a resposta de Marx na questão sobre seu nome preferido denota que a confissão se localiza no perí­odo entre 1860 e 1865, quando sua terceira filha, Eleonora, era pequena de­mais para participar do interrogatório feito por suas irmãs mais velhas, Jenny (mesmo nome da companheira de Marx) e Laura.

 

Não me deterei sobre as respostas que possivelmente não são mais do que trocadilhos e que, em geral, são relacionados a assuntos secundários. Por exemplo, quando na resposta à pergunta sobre prato favorito (em inglês, dish), Marx respondeu peixe (fish, em inglês). Lafargue, doutor em medicina e apreciador da arte gastronômica, ressaltava que Marx se alimentava mal e so­fria de falta de apetite. Ele via nessa perda de apetite uma consequência da a­tividade intelectual intensa, que obrigava Marx a recorrer a pratos bastante temperados, como peixe em conserva e legumes no vinagre. Dessa forma, um materialista vulgar – Der Mensch ist was er isst – poderia tirar dessas in­formações algumas consequências mais sérias da predileção de Marx por pei­xe ou um psicólogo qualquer pode ver nisso uma particularidade racial, como certa aptidão pela abstração. “Psicologicamente” poder-se-ia também explicar a preferência de Marx pelo louro (daphne, em inglês; ou seja, Laura), caso isso também não parecesse tanto com uma brincadeira. E obviamente, um ho­mem tão rubro como Marx – “doutor vermelho”, como era chamado pelos ingleses – não gostaria de outra cor senão o vermelho.

 

A resposta à terceira pergunta é suscetível de chocar à primeira vista qualquer defensor da igualdade de gênero, mas contém uma ironia. Marx o­punha a força masculina à fraqueza feminina. Seria injusto caracterizar a esposa e as filhas de Marx como fracas. Na luta que Marx sustentou durante toda sua vida, sua mulher e suas filhas foram suas aliadas mais fiéis. Os terríveis golpes do destino, a morte de quatro filhos, vítimas da grande miséria que afligiu a família Marx até 1850, foram encaradas por Jenny com firmeza “masculina”. Liebknecht – e difícil conseguir acusar de fraqueza este soldado da revolução – dizia que se fora possível suportar seu exílio em Londres, foi graças ao exem­plo que emanava da companheira de Marx. Mas, naturalmente, esta também tinha seus momentos de “fraqueza”. Encontramos alusões a isto nas cartas de Marx, que sempre evitou falar sobre suas dores e amarguras. Nesses casos, pedia sempre que não se esquecesse que era mulher e mãe. E a situação às vezes era tão grave que eram necessárias a força e a firmeza de Marx para que não manifestasse lamentações, como sua mulher fazia em cartas aos amigos mais íntimos.

 

As lutas internas entre os emigrados geravam reflexos ainda mais fortes na mulher de Marx. Ainda que Marx se esforçasse para ocultar-lhe o pior, ela estava sempre suficientemente informada sobre tudo o que ocorria. Causou-lhe uma impressão particularmente forte a campanha difamatória de Vogt, na qual este foi mais longe do que todos os demais adversários de Marx, no uso das calúnias pessoais. Jenny se mostrou excessivamente “fraca” para resistir a todas estas novas emoções e, em consequência, adoeceu gravemente, e na provável época em que a “confissão” de Marx foi escrita, ainda não havia se reestabelecido completamente.

 

A simplicidade, característica que Marx tanto apreciava nos homens, era a qualidade fundamental que formava o seu caráter. Nada lhe causava mais desprezo do que a “pose”, a falta de naturalidade, as formas teatrais de agir. “Marx – diz Liebknecht – era um dos poucos homens, grandes, médios ou pequenos, que conheci, que não era vaidoso. Era demasiadamente grande e orgulhoso para adotar uma postura falsa e não se apresentar tal qual era”.

 

Temos outro testemunho, que não é oriundo de um amigo, mas tampouco inimigo de Marx: o do nosso respeitável sociólogo Kovalevsky

 

Segundo Elisée Reclus, ao receber os membros da As­sociação Internacional dos Trabalhadores – entre eles o pró­prio Reclus – Marx não saia da parte de trás da casa, onde havia um busto de Zeus, que servia de ornamento, como que para ressaltar sua pertinência à categoria das gran­des figuras da humanidade. Esta falta de naturalidade não concorda de maneira alguma com a ideia que tenho de um ho­mem que conhecia a tal ponto o seu valor que não via ne­cessidade de enfatizar sua importância com gestos.

 

Marx ficou na memória de Kovalevsky com a vívida lembrança de “um interlocutor simples e tranquilo, inesgotável em seus relatos, espirituoso a ponto de sempre ser capaz de rir de si mesmo”.

 

Lembremo-nos que comparado a Marx, nosso venerável sociólogo era então apenas um jovem, separados por uma diferença de trinta anos de idade. E devido a isso são ainda mais interessantes as falas de Kovalevsky:

 

Não me lembro de que durante os anos em que convivi, de modo bastante frequente, com o autor de O Capital, notasse algo que denotasse o modo altaneiro dos mais velhos de tra­tar o mais jovem, do qual havia sido objeto nas relações que tive com Chicherin e Tolstoi. Marx era mais europeu e apesar de ser possível que não tivesse tanta simpatia com seus colegas cientistas, aos quais antepunha seus companheiros na luta de classe do proletariado, era tão bem-educado que não manifestava essas paixões pessoais em sua conduta.

 

Essa simplicidade e retidão estavam ligadas a sua total incapacidade de usar qualquer “máscara”, como demonstram não somente Liebknecht como também Born, que escreveu suas memórias após ruptura com Marx. A existência de uma superioridade intelectual prodigiosa juntamente com um espírito manso e uma pureza até mesmo infantil, como observamos em outro grande economista, David Ricardo, surpreendia a todos que se aproximaram de Marx. Sua esposa o chamava de “grande garoto” e ficava sempre mais à vontade na companhia de crianças. Toda hipocrisia e toda diplomacia lhe e­ram insuportáveis. Eis porque demonstrava tanta relutância para participar da “sociedade”, na qual era obrigado, de qualquer modo, a levar em conta as “conveniências”. Queixava-se de forma cômica em suas cartas por sua total inabilidade neste terreno, ainda que com menor intensidade do que possuía Chernichevsky, este que lembrava surpreendentemente Marx neste aspecto.

 

Sua esposa distinguia-se por uma simplicidade análoga. Kovalevsky conta que raramente havia visto uma mulher que acolhesse seus convidados de forma tão amável em sua modesta residência, mas que não deixasse de ser, com toda sua simplicidade, o que os franceses chamam de une grande dame.

 

Duas semanas após a morte de sua esposa, Marx escreveu a sua filha mais velha:

 

As cartas de pêsames que recebi de diferentes lugares e de pessoas de distintas nacionalidades, profissões, etc., todas elogiam mamãe [Mohmchen] e estão impregnadas de uma sinceridade e simpatia tão profundas, difíceis de encontrar nestas cartas convencionais. Explico isto pelo fato de que nela tudo era natural e verdadeiro, simples, de que nela não havia nada de artificial. Por isso, a impressão que produzia nas pessoas era extraordinariamente límpida.

 

Agora podemos compreender o porquê de Gretchen ser a heroína favorita de Marx. Ainda que fosse uma brincadeira, a resposta continha uma boa dose de verdade. A literatura alemã não conhece uma encarnação artística maior da naturalidade, da veracidade e da simplicidade.

 

•••

 

A unidade de objetivo não traduz com exatidão a resposta de Marx à pergunta sobre seu traço característico. A tradução assinala principalmente o matiz mais concreto. Singleness of purpose significa concentração de todos os planos e aspirações em um único objetivo. Na boca de Marx esta não era uma simples frase. É difícil encontrar uma vida na qual esta unidade de aspirações foi executada de maneira tão evidente como na de Marx. Realmente havia o imperativo de um pensamento, único, mas ardentemente apaixonado. E o próprio definiu em uma de suas cartas o objetivo ao qual consagrou todos seus esforços: a “causa”. Trabalhou anos, dia e noite, sem desviar-se nunca do seu propósito, para criar uma base sólida para a emancipação do proletariado; construiu pedra por pedra seu grandioso edifício teórico, esse inesgotável ar­senal contra a sociedade burguesa. Nem o mais leve traço de sofrimento, de vacilação sobre qual caminho seguir, nessa vida forjada com consequência e inexorável lógica, impregnada de unidade. Unidade entre teoria e prática, o ho­mem e sua obra em uma só coisa.

 

A resposta dada a suas filhas, que vê felicidade na luta e a infelicidade na submissão, reflete uma profunda verdade. Marx era um lutador na teoria e na prática. Buscava a justiça como verdade científica, por meio da luta contra o estabelecido, contra a tradição. E encarnava isto em sua vida através da luta, na prática. Incansavelmente incitou os proletários de todos os países à luta contra a submissão e a servidão em todas suas manifestações – privação social, degeneração espiritual, dependência política – tanto na Liga dos Comunistas co­mo depois, na Internacional. Sempre encontrava palavras admiráveis para te­cer coroas de louros aos vencidos ou para condenar à lixeira da história os vitoriosos temporários.

 

Nada lhe causava tanta repugnância como o servilismo, a adulação na vida privada e na vida política. Era insuportável a ele o culto fomentado por homens notáveis como Mazzini e Lassalle, entre seus partidários. Toda adulação, até mesmo quando feita com prudência, o colocava imediatamente em guarda, em estado de desconfiança. Ainda não chegou o momento para publicar cartas a Marx escritas por algumas personalidades notórias (adquirida, em parte, graças à polêmica travada com Marx), mas ao lê-las se compreende porque ele dedicava tanto desdém a este tipo de bajulação servil.

 

Marx era particularmente implacável com qualquer servilismo diante dos poderosos. Era isto que atacou diretamente em sua crítica rigorosa do famoso discurso em defesa de Kinkel, que condenava as aproximações de Schweitzer com Bismarck. Eis o porquê do elogio a Rousseau pela negativa resoluta de compactuar de qualquer maneira com o poder constituído. Por isso combatia de modo inexorável essa forma de adulação, que se manifestava nas concessões feitas à chamada opinião pública, ou a forma ainda mais vil de servilismo, o papel de delator a serviço das classes dominantes. Quanto maior era a capacidade do impostor, mais implacavelmente Marx lhe desferia golpes. E ainda assim, Marx sempre cultivou desprezo ao interesse pelos aplausos do público e pela busca de popularidade.

 

Tupper era para Marx a personificação da vulgaridade mais comum que por muitas vezes alcança grandes êxitos e recolhe louros para logo depois cair no absoluto ostracismo. Tupper, hoje completamente esquecido, era o poeta mais popular da Inglaterra até metade do século XIX. Suas obras eram publicadas com milhões de exemplares. Este sucesso é hoje um enigma para os historiadores da literatura inglesa.

 

A absoluta ausência de talento, a oposição e a completa ne­ga­ção de todo gênio poético, unidas a uma enternecedora candura... Tupper era cego para a poesia e surdo para a rima; sem um fulgor de inspiração, sem ideias, sem crítica.

 

Sua filosofia está no mesmo nível da personagem de Ostrovski, a mulher de um comerciante que estava preocupada com uma questão: o que é melhor, “esperar sem resultado ou ter e perder?” Tupper respondia a esta pergunta com sonoros versos:

 

O espinho da tristeza e acuidade do prazer se

suavizam igualmente com a espera prolongada,

Do mesmo modo que o fel e o balsamo

se diluem na água da paciência.

 

Como disse Marx em O Capital, Tupper, que era entre os poetas a mesma coisa que Bentham entre os filósofos, só era concebível na Inglaterra. Mas Marx se equivoca nisso. Poetas semelhantes surgiram na Alemanha... e na Rússia. Ainda só fosse possível obter tal sucesso na Inglaterra, onde o servi­lismo ante a “opinião pública” estava acentuado.

 

Que os poetas prediletos de Marx eram Ésquilo, Shakespeare e Goe­the, pode-se constatar em suas obras. Lafargue também confirma isto.

 

Marx – diz – considerava Ésquilo e Shakespeare como os maiores gênios dramáticos da humanidade. Sua devoção por este último era ilimitada. A obra de Shakespeare era objeto de estudo constante por parte de Marx, que conhecia todos seus personagens, até mesmo os secundários. Em ge­ral, na família Marx, o dramaturgo inglês era cultuado. Suas filhas conheciam Shakespeare de cor.

 

Quanto a Ésquilo, Marx admirava o grande poeta que, com o velho mito de Prometeu, criou a grandiosa imagem da luta inflexível da humanidade que lança um audaz desafio ao poder dos céus e da terra. Em sua dissertação de doutorado, Marx cita as palavras de Prometeu, o “mais nobre dos santos e mártir do calendário filosófico” segundo ele, ao se dirigir ao enviado de Zeus:

 

Nunca, assegura-te disso,

Trocaria minha sorte miserável pela tua escravidão.

É melhor estar preso neste penhasco

Que ser o criado fiel e mensageiro de Zeus.

 

Esta influência prometeica está também presente nas poesias do jo­vem Marx. A imagem de Prometeu acorrentado já aparecia em uma das ilus­trações da Gazeta Renana, dirigida por Marx, em meados de 1840.

 

A resposta de Marx sobre seu prosador favorito é um tanto quanto inesperada. Diderot não fora mencionado nas memórias de Lafargue. Mas sua admiração pelo grande enciclopedista francês era compartilhada pelos maiores poetas alemães do seu tempo: Lessing, Schiller, Goethe. Sua opinião foi confirmada pelos historiadores contemporâneos da literatura francesa. Di­de­rot resistiu à crítica do tempo mais do que qualquer outro “homem das luzes” do século XVIII, não só como pensador, mas também como escritor. Sua obra O Sobrinho de Rameau, ainda é, um modelo de prosa francesa, o que certamente Marx concordaria. A nenhum dos escritores franceses do século XVIII, a fraseologia era tão estranha quanto à Diderot. A linguagem clara, surpreendentemente viva, desenvolvida a partir do contato com as diferentes camadas da população, a dialética carregada de espírito, a capacidade de se ex­pressar com vigor e clareza os aspectos fundamentais da vida, o sarcasmo com o qual, pelos lábios de um parasita flagelava a sociedade francesa; tudo isto é suficiente para explicar a predileção não só de Marx, mas também de Engels, por Diderot.

 

Marx indica Spartacus e Kepler como seus heróis favoritos: o primeiro, evidentemente, como herói da causa, o segundo como herói do pensamento. É possível que estes nomes tenham lhe vindo à mente devido a impressão de algumas leituras recentes de então. Ao menos no que se refere a Spartacus, temos uma indicação em uma carta a Engels:

 

Pela noite, para descansar, li a história das guerras civis romanas de Apiano, no original grego. É um livro de muito valor. O autor é de origem egípcia. Schloser diz que ele “não tem alma”, certamente porque esforça-se em explicar as guerras civis pelas condições materiais. Spartacus, tal como ele o descreve, é o mais bravo soldado que temos em toda a história antiga. Um grande general (não Garibaldi), um caráter nobre, um verdadeiro representante do proletariado da antiguidade.

 

Os leitores russos recordarão de como esse tipo de herói que foi Spartacus nos foi apresentado na novela do italiano Giovanoli, que fora muito popular em nosso país em outros tempos. Claro, é possível julgar Spartacus de outra maneira. Mas o que é relevante aqui são as características que Marx apreciava neste “bravo soldado”.

 

E o que Marx admirava em Kepler? A integridade científica, que o fazia ter tão alta consideração por Ricardo? Ou a “lucidez do espírito”, que conforme os biógrafos de Kepler, permitia-lhe se afastar dos problemas e pre­ocupações terrenas e “elevar-se ao éter puro da especulação científica, em busca de propósitos nobres”?

 

Kepler também passou grande parte de sua vida em luta contra a necessidade. No terreno dos princípios, não fez nenhuma concessão; ao con­trário de Tycho Brahe, se negou a fazer qualquer concessão aos poderosos da vez. Nenhuma pressão externa foi capaz de desviá-lo do caminho que havia traçado para si. Trabalhou intensa e incansavelmente durante anos para desco­brir as leis que regiam o movimento da esfera celeste e morreu pobre, sem conseguir completar o seu trabalho.

 

Ainda que ninguém tenha ido tão alto quanto Kepler,

Terminou sua vida na indigência, como um mendigo,

Por ter causado o gozo apenas dos espíritos,

Os corpos deixaram-no sem sustento.

 

Em muitas ocasiões, Marx recordou desta antiga quadra, sobretudo no princípio da década de 1860, quando a guerra civil americana o privou do seu principal meio de subsistência, interrompendo sua colaboração com o New York Tribune e uma grave enfermidade o colocou em risco de morte. O quão frequente deve ter sido o pensamento torturante de que talvez não po­deria concluir sua grandiosa obra onde expunha as leis do desenvolvimento da sociedade capitalista.

 

O mote Duvidar de Tudo, que citou como seu lema preferido, pode, aparentemente, parecer bastante contraditório diante da sua insaciável sede de conhecimento e sua aspiração constante em direção à verdade. Não se trata da dúvida no sentido comum do ceticismo, não é a dúvida pela dúvida. A dú­vida de Marx é dirigida contra as aparências que nos ocultam a realidade. Em Marx, o ponto de partida para toda investigação crítica é a dúvida sobre a aparência: no terreno da natureza, da política, da economia. A tarefa da ciência consiste em desnudar tal aparência. Munido com o afiado bisturi da análise corta o invólucro exterior dos fenômenos, para revelar a essência real e obter assim, seu conteúdo concreto. Liberdade, igualdade e justiça são, na sociedade capitalista, apenas meras aparências, que apenas são capazes de enganar os fe­tichistas. Armado com sua dúvida e sua crítica, Marx foi o primeiro cientista a desvelar o grande segredo da sociedade burguesa, o fetichismo do mundo das mercadorias, que faz do homem, criador de todas as riquezas terrenas, o es­cravo dos seus próprios produtos: na política, na economia, na ideologia.

 

Marx fazia piada da sua própria paixão – que muitas vezes lhe valeu zombarias feitas por seus amigos – ao dizer que sua ocupação preferida é re­volver livros. Até Engels, que também era um leitor contumaz, lutava contra este “vício” de Marx. E a cada novo idioma que aprendia, Marx via diante de si uma nova literatura a ser explorada tão a fundo quanto as anteriores. Marx já havia passado dos cinquenta anos de idade quando começou a estudar a língua russa. Conservaram-se os cadernos com os numerosos exercícios aos quais se dedicava para assimilar o segredo das declinações e conjugações do russo. É notável a profundidade do estudo empreendido sobre a literatura e a economia russa.

 

Certamente, esse amor pelos livros era consequência da probidade com que sempre se dedicava ao estudo da literatura acerca dos temas das suas investigações científicas. Isso se demonstra nas cartas remetidas a Engels onde o tenta convencer de que o primeiro volume de O Capital, já praticamente composto, não deveria ser publicado antes de se conhecesse o novo trabalho de Rodgers. E os numerosos extratos que fazia de quase todos os livros que lia demonstra seu amplo volume de leitura. Dos livros mais importantes fazia resumos extensos, ainda que os tivesse em sua biblioteca pessoal. E se Marx não conseguiu preparar o material definitivo de O Capital para a impressão – pode-se ver nas cartas que só iniciou a impressão do primeiro tomo quando já tinha consigo os materiais de quatro tomos – explica-se não apenas por sua enfermidade, mas também porque, segundo ele mesmo, não podia resistir à “tentação de usar novos materiais publicados sobre o desenvolvimento das relações capitalistas”.

 

Marx demonstrava também uma fina ironia na resposta que dá a pergunta sobre qual defeito está mais inclinado a perdoar: a credulidade com relação aos homens (gullibility). Estava longe de ser alguém distante das coisas deste mundo. Para isto, tinha uma grande participação na atividade prática. Mas o intenso trabalho científico, o trabalho encerrado em gabinete engendra com facilidade o que chamamos de distração – e Marx era um homem muito distraído – a impossibilidade de sempre lidar diretamente com as pessoas e adquirir dessa maneira o “conhecimento dos homens”, tudo isso fez com que mais de uma vez fosse vítima de charlatões vulgares e, em algumas ocasiões, até mesmo de charlatões políticos. Não demorava em tomar consciência de ter sido iludido e então, junto aos demais, ria da sua incapacidade nessa área. Tinha facilidade para desmascarar um charlatão político ou um espião que tentasse ganhar sua confiança, mas ainda assim podemos citar casos nos quais Marx fora enganado graças a sua “credulidade” (o espião russo Tolstoy, o aventureiro húngaro Banya, e outros). Obviamente, podia justificar-se com o fato de que esses charlatões tinham enganado outras pessoas de forma mais grave do que a ele, mas deste defeito, principalmente no que se relacionava aos “homens práticos”, Marx nunca conseguiu se livrar.

 

Nihil humani a me alienum puto, respondeu com modéstia Marx a suas filhas, que obviamente conheciam, melhor do que ninguém, tais “fraquezas”. E essa mesma resposta poderia ter sido dada aos seus inimigos, que com persistência, esforçavam-se para descobrir em suas correspondências, em sua vida privada, algum tipo de pecado. Por mais que um homem se eleve acima da sociedade que o circunda, segue atado a esta por numerosos laços. É difícil, praticamente impossível, livrar-se da herança de Adão, que cada um de nós traz consigo. Marx também não pode livrar-se deste destino e se equivocou, co­me­teu pecados tanto como homem quanto como político.

 

Qualquer um que ler suas cartas a Engels, Becker, Weydemeyer não poderá deixar de admirar como Marx, nas duras condições em que viveu por anos – só saiu dessa situação precária a partir de 1869 – conseguiu preservar sua alegria vital e sua lucidez de espírito, fato que espantavam seus amigos e conhecidos. Muitas vezes, os duros golpes desferidos pela vida arrancavam-lhe alguma palavra grosseira, e às vezes foi até injusto com os seus entes mais próximos. Mas sempre, com um gesto poderoso, conseguiu superar todas as dificuldades cotidianas e com tenacidade, emoção e ardor, e prosseguir com firmeza seu caminho, seu trabalho pela causa. Quando Engels, em uma de suas cartas – e não pela primeira vez – tentou convencer seu amigo a entregar finalmente O Capital a editora, Marx lhe respondeu (31 de julho de 1865):

 

Não posso me decidir a mandar nada à editora enquanto o trabalho não estiver completamente terminado. Sejam quais forem os defeitos dos meus trabalhos, seu mérito consiste em que representam uma unidade artística, e eu consigo isto não os imprimindo até o momento em que os tenha totalmente finalizado.

 

Pode-se dizer o mesmo a respeito da vida de Karl Marx. Sejam quais tenham sido os seus defeitos, sua existência representava uma unidade artística, de rara beleza, a qual é muito difícil achar exemplo semelhante em toda a história da humanidade.

 

por David Riazanov

         

 

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