Breve entrevista de Patrice Lumumba a uma agência soviética

29/04/2018

 

O primeiro-ministro do Congo, Patrice Lumumba, que agora está em Washington, deu a seguinte entrevista a um correspondente da TASS (Agência de Informação e Telegrafia da Rússia):

 

TASS: Como, na sua opinião, a decisão do Conselho de Segurança da ONU sobre a rápida retirada das tropas belgas do Congo está sendo cumprida?

 

Lumumba: A Bélgica já provou que não respeita as decisões do Conselho de Segurança. O governo belga continua com suas ações agressivas e também com as represálias selvagens contra o nosso povo. Recorde-se que, já em 14 de julho, o Conselho de Segurança exigiu, numa resolução, que as tropas belgas saíssem do Congo; enviou as forças armadas da ONU ao nosso país para respaldar essa decisão. Mas desde então nem um único soldado belga deixou o território do Congo. Todos os dias as tropas dos colonialistas belgas matam soldados do nosso exército nacional e massacram centenas de civis congoleses. Esses fatos não são amplamente conhecidos no mundo porque os colonialistas belgas conseguiram que a imprensa de outros países ocidentais escrevesse o mínimo possível sobre os feitos dos soldados belgas no Congo.

 

Nosso governo e o Parlamento exigiram desde o início que as tropas belgas deixassem o Congo. A pertinente proposta soviética apresentada no Conselho de Segurança era a única proposta que se ajustava totalmente aos interesses do nosso povo. Continuamos exigindo e declarando que a retirada imediata das tropas belgas é a única maneira de restaurar a lei e a ordem no Congo. É por isso que pedimos a todos os países democráticos e amantes da paz que apoiem a nossa demanda. O último soldado belga deveria ter deixado o Congo há muito tempo. As tropas da ONU, que chegaram para garantir a implementação da resolução do Conselho de Segurança, já estão no Congo há mais de quinze dias. Mas a situação não mudou. Devo dizer que as resoluções do Conselho de Segurança estão sendo cumpridas, mas propriamente, embora o Conselho já tenha aprovado duas resoluções - em 14 e 22 de julho - sobre a necessidade de retirar as tropas belgas do Congo. Um país tão pequeno como a Bélgica se permite comportar-se dessa maneira apenas porque o Congo agora não tem armas para expulsar os colonialistas belgas.

 

TASS: Qual é a situação em Katanga? Qual é a sua opinião sobre a assim chamada secessão de Katanga do Congo recentemente anunciada pelo Sr. Tshombe?

 

Lumumba: Nunca houve um problema de Katanga como tal. A essência da questão é que os imperialistas querem colocar suas mãos nas riquezas de nosso país e dar continuidade à exploração de nosso povo. Os imperialistas sempre tiveram seus agentes nos países coloniais. Tshombe, em particular, é um agente dos imperialistas belgas. Tudo o que ele diz e escreve não é dele. Ele meramente pronuncia as palavras dos colonialistas belgas. É sabido que Tshombe é um ex-empresário que há muito tempo tem apostado nas empresas coloniais do Congo. Mas pouquíssimas pessoas sabem que, recentemente, como resultado duma descoberta de desonestas maquinações e saques, Tshombe devia a empresas belgas no Congo mais de dez milhões de francos belgas. Ele foi preso e deveria ter sido julgado. Mas devido a situação que surgiu, Tshombe foi “perdoado” e libertado pelos imperialistas belgas e desde então ele tem cumprido obedientemente a todas as suas ordens.

 

TASS: Qual é a opinião do povo congolês sobre a posição da União Soviética no que se refere à luta do Congo para alcançar a independência e integridade territorial genuínas?

 

Lumumba: A União Soviética foi a única grande potência cuja posição se adequava à vontade e desejo de nosso povo. É por isso que a União Soviética foi a única grande potência que desde o início tem apoiado a luta do povo congolês. Gostaria de transmitir a sincera gratidão de todo o povo congolês ao povo soviético e ao primeiro-ministro Nikita Khruschev pessoalmente pelo apoio moral e oportuno de seu país à jovem República do Congo na sua luta contra os imperialistas e colonialistas. Gostaria de agradecer também à União Soviética pela ajuda alimentícia que está se estendendo por todo o Congo.

 

28 de julho de 1960

 

Traduzido por I.G.D.

 

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