“Nicarágua na mira do Império”

25/04/2018

   

Recentemente, Manágua e outras cidades da Nicarágua conheceram dias de violência. Como em Caracas, entre abril e julho do ano passado, multidões implementaram excessos contra prédios públicos, mercados, escolas, policlínicas; e eles consumam assassinatos contra policiais e jornalistas. Embora as autoridades tenham tentado minimizar os fatos, a CNN foi encarregada de levar ao mundo cenas que pareciam esquecidas, pelo menos na Pátria de Sandino.

A gota que transbordou o copo de descontentamento social foi uma disposição do governo que visa aumentar as contribuições para a Seguridade Social de empregadores e trabalhadores. A iniciativa foi gerada pelo acentuado déficit orçamentário desse serviço, uma vez que criou novos benefícios para a população afetada pela última guerra e aumentou outros. Talvez inoportuna, ou talvez mal explicada, a medida foi questionada e gerou um protesto que cresceu na última quarta-feira.

Além dos acontecimentos deploráveis ​​que ocorreram em dias sucessivos, entre os dias 18 e 22 de abril, seria necessário olhar com atenção para o que está em jogo e para o nível de interesses conflitantes, em um país que serve de referência para os povos da América Central e do Caribe.

A Nicarágua, na verdade, sempre teve uma história difícil. Houve ocasiões em que um pirata ianque, William Walker, assumiu o poder e proclamou o inglês como a "língua oficial" em meio à destruição maciça da cultura popular e ao extermínio da população local. Posteriormente, o mestre ianque veio em todas as suas dimensões: os fuzileiros navais ianques espalharam-se naquele terreno e lá permaneceram até serem expulsos pela luta de Sandino e seu "pequeno exército louco". Nosso Mariátegui, na época, saudou essa ação e disse sem restrições: "O único caminho de resistência ativa à dominação ianque foi o caminho heróico de Sandino". E foi.

Em 1934, Sandino foi morto em uma emboscada pelos Somozas, essa “estirpe sanguinária”, que ofuscou a luz na Nicarágua por quase 50 anos. Sandino redivivo lutou com a bandeira da FSLN ao impulso de Carlos Fonseca, Tomás Borge e Daniel Ortega. Este último, hoje, lidera os destinos do país e foi reeleito em novembro de 2016 com mais de 70% dos votos em processo eleitoral monitorado por organizações internacionais.

Ortega perdeu legitimidade nos 16 meses de gestão governamental? Cometeu erros que o desqualificam como o presidente da nação? Hoje rejeita o cidadão que foi ungido por uma maioria tão consistente? Não parece assim. Pelo contrário, seu governo organizou ações destinadas a melhorar as condições de vida do povo. Hoje, educação e saúde são gratuitas para grande parte da população. O emprego não foi afetado. O equilíbrio econômico é mantido. Nenhum nível de inflação é observado, nem o poder de compra dos salários diminuiu. É verdade que não há luxos nem gastos. Mas os empresários não podem reclamar ou reclamar de um processo que não afetou a essência de seus interesses. E a Igreja – que se opunha ao sandinismo nos anos 80 do século passado – goza hoje do apoio do governo e do respeito de um povo marcadamente religioso. Perguntar a alguém na rua se eles nascem na Nicarágua é receber uma resposta que não é usada em outro lugar: "Eu sou nicaraguense, pela graça de Deus". E trabalhos de grande importância foram realizados para modificar substancialmente as vidas de milhões de pessoas, como o Canal Transoceânico, oferecido por todos, mas executado por ninguém.

Que a Nicarágua gerou relutância e desconfiança em Washington é clara. Não foi em vão o Canal em março foi acordado não com uma empresa ianque, mas com o Governo da República Popular da China. E isso, se paga! O "Nic-Act" – um documento trabalhado pelo Departamento de Estado dos EUA e destinado a sancionar a Nicarágua – o credencia.

Os Estados Unidos – mais precisamente, a administração Trump – sente que é "dono do mundo"; mas a Coreia do Norte acabou de baixar a sua bola e forçou-o a sentar-se à mesa de negociações; O Iraque demonstrou o fracasso absoluto de sua política de dominação; A Síria rejeitou veementemente sua interferência nos assuntos internos de seu país; A Rússia colocou os Falcãos do Pentágono em seu lugar, desviando mísseis ianques disparados contra Damasco. Em suma, a estratégia de "dominação" flutua por toda parte. E para os Estados Unidos, o que resta é a América. Eles procuram aqui para se esconder, para sobreviver.

Explica sua ofensiva continental contra os povos: a campanha contra Cuba, que é revivida; a ofensiva econômica, política e militar contra a Venezuela; o apoio a Temer, no Brasil e a prisão  de Lula; a capitulação de Moreno no Equador; os ataques a Evo, na Bolívia; mas também os "sucessos" eleitorais no Chile e no Paraguai. E por que não? – os acontecimentos que hoje agitam a Nicarágua que nos últimos dez anos tem reconstruído pacificamente sua economia e seu bem-estar.

O que acontece em Manágua hoje tem todo o estilo de um "golpe suave", de "uma primavera democrática", como a que ocorreu na Europa Oriental. Mas além das palavras, ele esconde no maxilar o monstro neoliberal e a dominação imperialista. Desse, a menor dúvida pode se encaixar. Os gritos de "Democracia" e "Liberdade" – que nunca ameaçaram o sandinismo – terão que se extinguir se o golpe for coroado com sucesso.

O povo da Nicarágua já sabe o que significa a dominação do mestre do norte. E ele não está disposto a baixar suas bandeiras. A Pátria de Sandino "não se rende nem se vende", diz uma velha canção revolucionária da Nicarágua. Ele vai honrá-la, sem dúvida.
 
por Gustavo Espinoza M., do Sumário Latino-Americano no Peru

 

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