"Macron, o que quer dizer isso em francês?"

12/04/2018

 

Desde o mês de março a França entrou em uma zona de turbulências sociais. Por toda a parte levantam-se os descontentamentos. As manifestações multiplicam-se, as greves também, nomeadamente nos transportes públicos (dos ferroviários ao pessoal da Air France), nos serviços de recolha de lixo, mas igualmente no sector da grande distribuição (assalariados do grupo francês de hipermercado Carrefour, o empregador privado mais importante do país, após o anúncio do encerramento de centenas de lojas e da supressão de milhares de empregos, apesar de mil milhões de lucros registrado no ano passado). Eis que surge finalmente o primeiro verdadeiro confronto do mundo do trabalho com Emmanuel Macron desde a sua eleição à chefia do Estado, há cerca de um ano.

Mas sabe quem é Macron? Dizem que é belo, elegante, brilhante. Com apenas 39 anos foi eleito presidente da República, em maio de 2017, após uma ascensão política absolutamente fulgurante. E além disso ele subjugou Donald Trump, convidado em 14 de julho último a Paris para ali celebrar a festa nacional e assistir ao desfile militar nos Campos Elíseos. É a primeira vez que temos em França um presidente que fala tão bem o inglês e que sorri "como um americano". É normal: ele foi membro dos "Young Leaders" da French-American Foundation", instituição encarregada de "reforçar os laços entre a França e os Estados Unidos".

Isso não impede que a base eleitoral de Macron seja das mais estreitas: é verdade que chegou à frente na primeira volta das eleições presidenciais de abril de 2017, mas com apenas 24,0% dos sufrágios (8,66 milhões de votos), não ultrapassando senão um pouco a candidata da Frente Nacional, Marine Le Pen (21,3%, ou seja, 7,68% dos votos) – seus adversários de direita François Fillon (20,0%) e de esquerda Jean-Luc Mélenchon (19,6%) vindo um pouco atrás. Oponente à candidata da extrema-direita na segunda volta, Macron jogou sobre veludo – a França não é racista, é um facto bem conhecido – e foi eleito numa poltrona com 66,1% (mas mais de 25,4% de abstenções). Seguro de si, ele festeja sua vitória na noite da primeira volta num luxuoso restaurante parisiense, rodeado do jetset do poder (de Jacques Attali, antigo conselheiro do presidente Mitterrand e grande amigo do establishment, a Daniel Cohn-Bendit, ex-líder de Maio de 68 tornado um criado da Europa neoliberal).

Macron é um produto puro da alta finança. Depois de ter sido inspetor das Finanças, ele declina uma proposta da patroa dos patrões, Laurence Parisot, de ocupar o posto de diretor geral do sindicato patronal (MEDEF ou Mouvement des Entreprises de France), preferindo o de banqueiro de negócios junto ao Rothschild, onde se torna gerente associado. O presidente Hollande nomeia-o secretário-geral adjunto do Eliseu (2012), depois ministro da Economia e da Indústria (2014). Um banqueiro para dirigir a indústria, haverá algo mais lógico? A "lei Macron", que foi imposta à força no Parlamento (2016), flexibiliza ainda mais o mercado de trabalho para, consta, "desemperrar" a economia francesa.

O êxito de Macron explica-se em grande medida pela deliquescência das forças políticas do país: a da direita tradicional (os Republicanos) e a... da nova direita (o Partido Socialista). Sob as presidências Sarkozy (2007-2012) e Hollande (2012-2017), republicanos e "socialistas" haviam com efeito modificado a sua trajetória idílica para se prosternarem abertamente diante da finança e dela fazerem-se fiéis servidores. Isto era bastante novo em França. E esta é a causa principal do afundamento destes dois partidos principais que partilhavam o poder antes dele, numa alternância sem alternativa. Macron não é senão a síntese com novo visual e rejuvenescida desta tendência de fundo da vida política francesa, deste abandono da soberania nacional, desta submissão absolutamente lamentável do Estado. Nada de espantoso que esta linha atlantista pró-estadunidense seja ao mesmo tempo consolidada.

Bastou fazê-lo eleger. Sua campanha eleitoral, orquestrada pela mídia obsequiosa e unânimes às ordens de um punhado de oligarcas, vendeu-o como uma mercadoria. Com um idílio de folhetim: a esposa, Brigitte, foi sua professora de teatro no liceu! Portanto, nesta democracia de pacotilha, era preciso um ator de talento para fazer esquecer aos franceses que o seu país não é mais soberano, mas sim governando pela finança. A peça cuja representação hoje é anunciada não está escrita antecipadamente. A trovoada social amplia-se...

 

 

por Rémy Herrera

Traduzido pelo Resistir.info
 

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