"Anuradha Gandhi: teórica marxista e grande líder revolucionária indiana"

12/04/2018

 

Em 12 de abril de 2008, Anuradha Gandhi (ou pelos pseudônimos de Narmada, Varsha, Janaki ou Rama) faleceu após um ataque de malária falciparum. Com isto, a classe trabalhadora da Índia perdeu uma das mais capazes líderes do mais alto nível que com sua disposição, profundos estudos políticos e ideológicos, e dedicação revolucionária subiu da base para se tornar membro do Comitê Central do Partido Comunista da Índia (Maoísta).

 

As mulheres oprimidas da Índia perderam uma das grandes lutadoras da sua causa, a qual, por mais de três décadas e meia, implacavelmente organizou-as e as liderou nas lutas contra a opressão e exploração; as massas dalit de Nagpur e os trabalhadores informais perderam uma líder que vivia em contato com eles, os despertando e os organizando. Os advasi de Bastar, principalmente aqueles do Sul do Bastar, os mais afetados pelos genocidas do Salwa Judum, perderam sua amada Didi, que trabalhou entre eles por anos, compartilhando da sua felicidade e angústia; e os estudantes e intelectuais perderam um modelo de revolucionária, que desistiu dos confortos de uma vida de classe média para poder se integrar às massas oprimidas.

 

Ela tinha apenas 54 anos quando morreu. Havia acabado de voltar de Jharkhand após ter passado uma semana dando aulas nas tribos sobre a questão da opressão da mulher. Após ter tido uma febre muito altas no dia 6 de abril, não pôde ter os cuidados médicos necessários devido às dificuldades da vida clandestina. O patologista local disse que não havia detectado infecção por malária no sangue e desta forma ela recebeu apenas tratamento para dor de estômago por um médico local. Apenas 5 dias depois, após outro teste sanguíneo foi diagnosticada com malária falciparum. Embora que ainda naquela manhã, parecesse estar muito bem, por dentro, as bactérias já haviam afetado os pulmões, coração e rins, que já havia se enfraquecidos devido à esclerose sistêmica. Mesmo tendo sido encaminhada para internação no hospital imediatamente, em menos de uma hora seus sistemas começaram a falhar, mesmo após ter recebido oxigênio e aparatos de suporte à vida. Enquanto recebia oxigênio, ela estava consciente, com os olhos bem abertos. Os mesmos mansos olhos com a profundidade de sua expressão, ainda que em graves dores provavelmente sabendo o que estaria por vir em seguida.

 

A degeneração era catalisada pelo fato que ela tinha uma doença incurável, esclerose sistêmica. Esta doença autoimune primeiro afetou suas mãos e, gradualmente, atacava os órgãos internos. Detectada dois anos atrás e provavelmente existindo pelo menos nos últimos 5 anos, já havia afetado seu pulmão e o coração. Ainda assim, com seu comprometimento para com as massas e com a revolução, trabalhou com o mesmo fervor de antes. Raramente falava de sua doença e assumia as tarefas mais árduas. Seu comprometimento com a causa da revolução era inabalável, não importasse os altos e baixos. Estando com o nascente movimento revolucionário desde seus dias de faculdade no começo dos anos 70, em Mumbai, Anuradha abriu mão de uma brilhante carreira como professora e dedicou toda sua vida à revolução. No Congresso de Unidade – 9º Congresso do PCI (Maoísta), ela foi a única camarada mulher a ser eleita para seu Comitê Central.

 

Neste período de cerca de 35 anos de trabalho com o movimento revolucionário indiano contribuiu imensamente para a construção do movimento revolucionário no país, não apenas em termos organizacionais, mas também política e ideologicamente. Ela foi uma das fundadoras do PCI (ML) em Maharashtra. Ainda que seu foco principal estivesse em Maharashtra (tanto na região ocidental, como em Vidharbha), seu trabalho foi uma contribuição para a construção de algumas organizações por toda a Índia e mesmo do movimento Dandakaranya. Mesmo já beirando aos 40 anos, e após ter trabalhado lecionando para alunos de pós-graduação na Universidade de Nagpur, se mudou para morar nas tribos de Bastar, ficando com os esquadrões armados por três anos.

 

Anuradha começou sua vida política na faculdade Elphinstine de Mumbai em 1972, que se tornou o centro das atividades de esquerda radicais na década de 1970, principalmente devido a sua iniciação. Antes, ela havia visitado os campos de refugiados de Bangladesh e tinha visitado regiões atingidas pela fome com um grupo de estudantes durante a terrível fome em Maharashtra de 1972. Profundamente comovida com o que viu lá e, sendo uma pessoa bastante sensível, começou a fazer parte de atividades da faculdade e trabalhos sociais com os pobres. Enquanto ativa entre os estudantes, entrou em contato com a organização estudantil PROYOM (Movimento Progressista da Juventude), que foi ligado ao até então movimento naxalita. Em pouco tempo, tornou-se membro ativa, e em seguida, uma líder do grupo. Também trabalhou nas favelas onde desenvolveu sua primeira interação com os dalits, o movimento dalit e o horror da intocabilidade. Chegou a participar do movimento radical Dalit Panther de 1974 e dos confrontos com o Shiv Sena em Worli, que duraram três meses. Sua natureza sensível a levou para a agonia da opressão dos dalit e a levou a buscar respostas para isso.

 

Ela lia avidamente e adquiriu um profundo conhecimento sobre o marxismo. Em 1982, ela se mudou de Mumbai para Nagpur e enquanto lecionava na Universidade de Nagpur militava ativamente e desempenhava papel de liderança no sindicato e nos movimentos dalit da região. Neste processo, Anuradha foi diversas vezes presa. Com a repressão do Estado aumentando, foi obrigada a entrar na clandestinidade. Posteriormente, orientada pelo Partido, ela foi à Bastar para trabalhar entre as tribos, e ao retornar, tomou para si a responsabilidade de construir o movimento revolucionário em Maharashtra. Nos últimos 15 anos, vinha atuando clandestinamente, construindo o Partido e o movimento em Maharashtra, bem como liderando a ala das mulheres dentro do Partido, até a sua morte prematura e súbita.

 

Passos iniciais

Anu nasceu em uma família oriunda do seio do PCI dos anos 40 e 50. Seus pais, os Shanbags, se casaram em um gabinete do Partido em Mumbai e militavam até a metade dos anos 50. Seu pai, nos anos 50, era do Comitê de Defesa, cuidando dos casos legais de comunistas presos na luta de Telangana e depois tornou-se um conhecido advogado progressista de Mumbai; sua mãe é uma militante que, apesar da idade, ainda milita em um grupo de mulheres. Foi neste ambiente liberal que ela cresceu. Anu cresceu para se tornar uma revolucionária, enquanto seu irmão é um notável dramaturgo e artista de teatro de Mumbai. Em seus tempos de escola, Anu era uma brilhante aluna da Escola J. B. Petit em Santa Cruz, sempre sendo a melhor aluna. Aqui, também aprendeu balé clássico. Com seus pais vindo de formação comunista, ela era bem aberta a todas as ideias e visões, incluindo a comunista, e foi encorajada a ler muito.

 

Foi dentro deste ambiente que poderia facilmente se atrair à política revolucionária quando entrou em contato com esta na faculdade. Eram os dias em que o movimento comunista estava em alta. A juventude por todo o mundo estava escutando os ecos do grande impacto da Revolução Cultural na China e o heroico avanço do povo vietnamita em sua guerra contra o Imperialismo norte-americano. Sob toda esta agitação internacional, os Naxalbari cresceram por toda a Índia e inspiraram toda uma geração, não apenas na Índia, mas em todo o Sul da Ásia. Tudo isto causou impacto na jovem Anuradha. Como já mencionamos acima, ela ingressou na organização estudantil radical, PROYOM e, em seguida tornou-se uma das fundadoras do PCI (ML) em Maharashtra. Em 1977, se casou com um camarada. Ela foi uma das pessoas mais importantes a iniciar o movimento revolucionário em Mumbai e novamente depois foi um fator primordial para espalhar o movimento para Vidarbha no início de 1980. Particularmente notável é o fato de que foi ela a camarada que foi a principal responsável a colocar a questão dalit na pauta revolucionária.

 

Crescendo como renomada líder revolucionária de massas

No final dos anos 70, Anuradha estava na vanguarda do movimento por liberdades civis em todo o país. No começo dos anos 80, com a formação do PCI (ML) (Guerra Popular), e a difusão do movimento revolucionário para o distrito de Gadchiroli em Maharashtra, falou-se da necessidade de difundir as atividades revolucionárias de Mumbai à Vidhar­bha. Aqui ela também foi uma das pioneiras, largando seu trabalho na Faculdade de Mumbai e sua vida pública de alto nível, para mudar-se para Nagpur, um lugar totalmente desconhecido para ela. Seu foco de atividades em Vidharbha foi o trabalho sindical e trabalho entre os dalits.

 

Nos sindicatos, trabalhou principalmente entre trabalhadores da construção civil e travou diversas lutas militantes. A mais notável foi a longa greve na Usina de Khaparkheda (que fica a 30 km de Nagpur) que estava sendo construída por cerca de 5000 trabalhadores. Esta terminou em repressão policial e um toque de recolher na região. Anuradha também se envolveu na organização de “molkarins” (empregadas domésticas) de Nagpur, operários nas fábricas de MIDC em Hingna (Nagpur), ferroviários, trabalhadores das indústrias de tabaco em Bhandara, trabalhadores da tecelagem em Kamptee (15 km de Nagpur) e outros trabalhadores de setores informais e, mais tarde, se mudou para Chandrapur para ajudar a organizar os trabalhadores da construção e das minas de carvão dali. A maior parte destes trabalhadores do setor informal não possuíam sequer direitos trabalhistas básicos e eram totalmente ignorados pelos sindicatos tradicionais. Ela também desenvolveu contatos para atividades conjuntas com outros líderes sindicais progressistas não só da região de Nagpur, mas também de Chandrapur, Amravati, Jabalpur, Yeotmal, etc. Nestas lutas foi presa algumas vezes e passou alguns dias na prisão de Nagpur. Com seu trabalho, se tornou uma renomada líder sindical revolucionária da região.

 

Além disto, Anuradha atuou ainda mais organizando a comunidade dalit e despertando-as contra a opressão de casta e por sua libertação deste sistema opressor. De fato, foi uma das pioneiras entre os marxistas revolucionários a abordar a questão da opressão contra os dalit e a discriminação de casta ainda em sua fase inicial. Estudou extensivamente Ambedkar e outros escritos sociológicos sobre a questão de casta. Diferente dos marxistas tradicionais, se identificou plenamente com os dalits e se me mudou de Nagpur para um dos maiores bastiões dalits de Maharashtra, Indora. Ainda que este fosse um reduto da maioria dos líderes dalit e um viveiro de política dalit, grandes setores da juventude logo começaram a se interessar pelos naxalitas, particularmente os grupos culturais que ela ajudou a organizar tiveram enorme impacto.

 

Ela então destacou-se até que se tornou a face aberta dos maoístas no movimento dalit, como uma das principais oradoras na maior parte das reuniões dalit em Vidarbha. Ainda que os líderes dalit se opusessem veementemente, com seu profundo estado em Ambedkar, questões dalit e opressão de casta, Anuradha pôde manter sua atuação, com amplo apoio da juventude.

 

Além disto tudo, Anuradha também foi fundamental na construção de um movimento revolucionário de mulheres em Nagpur. Se destacou como um brilhante exemplo para todas as mulheres progressistas que desempenharam um papel ativo ao superar todas as restrições patriarcais da sociedade em todo o mundo. Inspirou um grande número de mulheres não apenas nas organizações de mulheres, mas também no Partido.

 

Escreveu abundantemente sobre o tema tanto em inglês quanto em Marathi, dando uma perspectiva de classe à questão e contrapondo não apenas as inúmeras correntes pós-modernas dentro do tema, mas também as interpretações erradas de marxistas sobre as questões de casta e dalit. O artigo mais elaborado sobre a questão era um artigo de 25 páginas em Maratthi que foi publicado no Satyashodhak Marxvad (órgão do Sharad Patil em Dhule) dando uma posição marxista sobre a questão dalit e ligando a libertação dalit com a tarefa da Revolução de Nova Democracia no país. Até hoje este artigo é citado por muitos. Muitos anos depois, foi ela quem preparou o rascunho original à base do que o antigo PCI (ML) (GP) preparou como o primeiro documento sobre a questão das castas dentro do marxismo na Índia. Neste rascunho, sublinhou que na Índia a democratização da sociedade é inconcebível sem esmagar o sistema elitista de castas e lutando contra todas as formas de opressão de casta, especialmente na sua forma mais cruel contra os dalits na forma da intocabilidade. Muitas das visões expressas por ela no meio dos anos 90 agora foram adotadas pelo PCI (Maoísta) em seu último Congresso.

 

No último mês, sempre que eu tinha a oportunidade de escrever para alguém sobre Anuradha, ficava completamente perdido sem saber quais palavras poderiam expressar a profundidade de minha tristeza e angústia sobre sua morte tão prematura. O choque de tudo isso, o fato de eu nunca mais vê-la balançar sua cabeça, inclinando-a como uma dançarina, a demonstração descuidada de suas emoções e pensamento em seu rosto tão expressivo – foi muito difícil aceitar esta realidade. Que grande perda para o Partido e para todos nós, seus colegas e amigos. Uma vida bruscamente interrompida assim como foi preparada para mudanças após décadas de trabalho duro, justamente quando as novas responsabilidades se desenvolviam diante dela; uma espécie rara de planta, que mais uma vez ficava à beira da flor em uma idade onde a maioria se torna estéril e seca.

 

Quando Anuradha estava conosco, eu sempre dava a presença dela como certa. Uma pessoa que você podia confiar e depender, sempre que uma tarefa difícil que todos hesitávamos em empreender e devia ser feita. Agora que ela se foi, sua importância, suas contribuições significantes acertam em cheio você – e acerta porque agora todos estamos mais fracos; mais pobres devido sua ausência.

 

A importância da camarada Anuradha vai muito além do que ela contribuiu organizacionalmente. Sua vida e trabalho tiveram significância social visível e impacto raramente desfrutado por um militante comunista clandestino. Pensando agora, muitos poucos comunistas nas décadas recentes tiveram alcance tão grande, apelo que ia muito além da organização e das massas organizadas por ela em suas reivindicações imediatas; uma capacidade de ser uma ponte ao movimento revolucionário para diversos grupos sociais distintos que poucos tiveram. É nesta qualidade que reside sua singularidade e é esta qualidade que irá servir ao Partido e ao movimento muito após ela ter morrido fisicamente. Ela tinha apelo não apenas entre as massas básicas – operários e camponeses – mas também entre os intelectuais de distintas matizes: estudantes, advogados, profissionais da educação, pesquisadores, militantes dalit e até círculos progressistas não-dalit de Marathi. Anuradha Gandhi também representou a militante comunista mulher no meio feminista. Com firmeza, nos alicerces da ideologia e prática comunistas, as suas limitações geográficas se estenderam e construiu ligações com todos estes setores.

 

No Partido enfrentou as diversas formas de patriarcado e elaborando um plano de retificação que ajudaria no crescimento de camaradas mulheres, para que elas pudessem ter maiores responsabilidades de liderança. Na verdade, sua última tarefa foi fazer uma aula com líderes mulheres de Jharkhand, vindo em grande parte do quadro tribal, para explicar a posição do Partido sobre a questão da Mulher. Sua morte precoce e prematura terá grave impacto no movimento revolucionário do país e particularmente no desenvolvimento do trabalho de mulheres dentro do Partido bem como no desenvolvimento deste trabalho em Maharashtra...

 

As contribuições de Anuradha para o movimento revolucionário e, particularmente o movimento em Maharashtra, foram substanciais. Possuía as raras qualidades de não ser apenas uma líder no campo prático, mas combinava isto com significantes contribuições ideológicas e políticas. E como o seu companheiro de longa data disse, ela tinha essa singularidade de ser capaz de conectar-se com um vasto espectro de pessoas e, assim, ser uma ponte de tantos grupos sociais com a revolução. O mais importante de tudo, possuía muitas das qualidades que todo genuíno comunista deveria se inculcar – integridade, modéstia, abnegação, disciplina e disposição ao trabalho duro, e inabalável compromisso com a revolução. Finalmente, sua vivacidade e simplicidade quase que de uma criança a fez uma pessoa muito amada, deixando permanente impacto a qualquer um que a conhecesse, mesmo que fosse por apenas uma vez.

 

Além de tudo, era uma ótima líder de massas, organizadora do Partido eficaz e ideóloga que escreveu extensivamente e, particularmente, ajudou a enriquecer a compreensão marxista da questão de castas/dalit e da mulher.

 

Chegar a um nível tão alto nesta sociedade imensamente patriarcal é uma fonte de enorme inspiração a todas as camaradas e militantes mulheres. Sua vida e trabalho continuarão sendo um importante capítulo do movimento revolucionário Indiano e prosseguirá inspirando pessoas para a causa da revolução. Embora sua morte precoce tenha dado fim a uma estrela a brilhar, seus feixes de luz irão perdurar para iluminar o caminho para uma nova ordem, justa e equitativa. Anuradha Gandhi continuará a viver em nossos corações.

 

Escrito por P. Govindan Kutty, editor do jornal Peoples' Truth

 

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