"O legado de Roseli Nunes, um símbolo da luta pela terra no Brasil"

02/04/2018

 

Lutadora pela Reforma Agrária e defensora dos direitos das mulheres. Estas características integram o legado de Roseli Celeste Nunes da Silva, que teve a sua vida interrompida aos 33 anos de idade por lutar pelo direito de viver com dignidade no campo. Rose, como era popularmente conhecida, estava entre os mais de 7 mil trabalhadores que ocuparam, na madrugada de 29 de outubro de 1985, a então Fazenda Annoni, um latifúndio improdutivo de mais de 9 mil hectares localizado no município de Pontão, na região Norte do Rio Grande do Sul.

A camponesa Juraci Lima, que hoje está assentada em Nova Santa Rita, na região Metropolitana de Porto Alegre, conta que conheceu Roseli no primeiro dia da ocupação. Elas tornaram-se amigas, ajudavam a fazer a segurança do acampamento e chegaram a coordenar a área em que tinham os seus barracos montados — após a ocupação, as famílias Sem Terra passaram a se organizar por áreas dentro do latifúndio, que eram nomeadas por números, de 1 a 16. Roseli e Juraci moravam na área 15. Poucos dias depois de romper as cercas da Annoni, Roseli deu à luz o seu filho Marcos Tiaraju Correa da Silva, a primeira criança a nascer num acampamento do MST. Mais tarde, ele se tornou um dos símbolos do Programa Mais Médicos para o Brasil, criado em 2013 pelo então governo de Dilma Rousseff.

“Eu vim de Palmeira das Missões e Rose de uma vila do município de Rondinha. Ela dizia que na cidade passava fome e que na luta pela terra, ao menos, teria onde plantar alimentos para sobreviver. Na hora de fazer a segurança ela sempre estava lá, nunca arredava o pé do acampamento. Sempre sorrindo, era positiva e para frente, nada a puxava para trás. Rose defendia os direitos das mulheres, falava que não podíamos nos acomodar e que tínhamos que lutar ao lado dos homens”, recorda Juraci. A assentada complementa que Roseli inspirava luta. “Ela era decidida e determinada. Tinha força de lutar. Sempre dizia que se o governo não fizesse alguma coisa pelas famílias Sem Terra, quem tinha que fazer era nós”.

O assassinato de Rose
A ocupação da Fazenda Annoni foi a primeira e a maior já realizada por famílias organizadas no MST no território gaúcho. Durante a luta pela Reforma Agrária, Roseli se somou às fileiras de uma marcha de 300 quilômetros até Porto Alegre, capital gaúcha, onde os camponeses ocuparam a Assembleia Legislativa. Eles permaneceram por dois meses no local, até ser dada uma solução para os trabalhadores que ainda estavam acampados na Annoni.

Em 31 de março de 1987, durante um protesto contra as altas taxas de juros e a indefinição do governo em relação à política agrária que se estendeu por vários municípios, um caminhão investiu contra uma barreira humana formada na BR-386, em Sarandi, também no Norte do RS. A ação resultou em 14 agricultores feridos e em três mortos: Lari Grosseli, de 23 anos; Vitalino Antonio Mori, de 32 anos; e Roseli Nunes, com 33 anos e mãe de três filhos.

“A Rose estava indo preparar chimarrão num barranco quando foi atingida por um caminhão carregado de ferro, que vinha em alta velocidade. Ela e outros dois morreram pelo capitalismo e as mãos da direita; muitos outros ficaram machucados. Dias antes do trancaço, lembro que ela motivava as pessoas a se mobilizarem para que os pequenos agricultores não perdessem as suas terras e não fossem parar, assim como nós, embaixo de pontes ou de lona preta”, lembra Juraci.

Ela diz que o que mais marcou em sua vida foi a persistência de Roseli no sonho de um futuro melhor, não apenas para si, mas para todo o povo pobre que lutava por um pedaço de terra. “Rose era muito alegre e participava de todas as mobilizações. Eu me espelhei muito nela, no seu sonho de construir uma sociedade mais justa. Lembro que um dia deu um grande temporal. Eu estava preocupada, pois não sabia o que poderia acontecer com nossos barracos e pertences, e falei que pensava em desistir. Ela me puxou pelo braço e disse que não desistiria, porque preferia morrer lutando do que passar fome. Ela sempre dizia isso para nós e nos motivava a continuar na luta”, resgata.
 
A força que Roseli tinha de lutar pela transformação social também é destacada por Salete Campigotto, que à época morava no Acampamento Encruzilhada Natalino, localizado num entroncamento rodoviário que dá acesso a quatro cidades da região Norte – Passo Fundo, Sarandi, Carazinho e Ronda Alta. Hoje, ela está assentada na antiga Fazenda Annoni. O contato com Roseli ocorria quando Salete ia à ocupação para contribuir na educação dos trabalhadores e no debate sobre os direitos das mulheres.

“Rose era muito ativa. Se alguém estava desmotivado, ela animava. O fato dela ter ocupado a Annoni poucos dias antes de nascer Marcos, mostrou que ela poderia ultrapassar todas as barreiras. Ela era muito forte, tinha uma visão adiantada e apurada. Fez a marcha até Porto Alegre com os seus três filhos. Lá, ia para os bairros e vilas falar sobre a importância da Reforma Agrária para a sociedade”, relata.

O filho de Rose
Marcos Tiaraju nasceu três dias depois da ocupação da Fazenda Annoni, em 1º de novembro de 1985. Diferente da tradição, em que os filhos normalmente têm seus nomes escolhidos pelos pais, o seu nome é fruto de uma decisão coletiva de todos os Sem Terra que ocupavam o latifúndio. Ele foi a primeira criança a nascer num acampamento e passou a simbolizar um marco na vida daquelas famílias que lutavam pela desapropriação da área e na história do Movimento.

O filho de Roseli saiu do Brasil em 2006 para cursar Medicina em Cuba, por meio de um convênio entre o MST e aquele país. Seis anos depois, retornou às terras brasileiras. Em outubro de 2012, revalidou o diploma estrangeiro para atuar em Nova Santa Rita. Atualmente, Tiaraju vive no município de Sério, no Vale do Taquari, e é supervisor do Programa Mais Médicos para o Brasil.

Ele, que conviveu pouco tempo com Roseli, mas carrega em si a essência da sua história, alega que a morte de sua mãe causa indignação, mas ao mesmo tempo inspira, gera força interna e fortalece a luta que ela desenvolveu junto a milhares de famílias por uma sociedade mais justa, onde há a realização da Reforma Agrária e o ser humano e a vida prevalecem sobre o dinheiro e a materialidade.

“Assim como a minha mãe foi assassinada, outros companheiros também sofreram com prisões, torturas e até mesmo com a morte, por ousar pensar, questionar e lutar por um ideal. Ou seja, a morte de minha mãe não é um fato isolado, é na verdade o desfecho na luta de classes, da força daqueles que detêm a máquina de poder como um todo, sobre os desprovidos de qualquer direito”, argumenta.

Marcos ressalta que não é fácil para ele nunca pensar ou falar sobre a história de Roseli, mas que, a cada vez que o faz, vence “um pouco mais dessa opressão em forma de morte”. “Ao mesmo tempo, dá mais vida em mim e aos sonhos que temos de um mundo mais justo”, diz. Ele também reforça que Roseli inspira muitos militantes, inclusive a ele, por ter dedicado uma parte importante de sua vida para lutar por aquilo que acreditava.

“Minha mãe foi um ser humano como qualquer outro, foi filha, foi esposa, foi mãe, mas também foi uma mulher que ousou sonhar e lutar. Isso é motivador para quem a conhece. A luta dela e de milhares de outros Sem Terra resultou em famílias assentadas, em jovens com acesso ao ensino, em pessoas com acesso a alimentos de qualidade, que são produzidos em nossos assentamentos. Isso faz, não da morte, mas da vida dela, algo muito significativo, pois quem segue lutando hoje demonstra para os opressores que os sonhos e os ideais não morrem jamais, enquanto ainda houver alguém que ouse desafiar o modo de sociedade imperante”, conclui.

33 anos depois...
Mesmo que já tenham se passado 33 anos de seu assassinato, completados neste sábado (31), Roseli Nunes continua sendo exemplo de lutadora e fonte de inspiração. Em homenagem a ela, muitos acampamentos, assentamentos e escolas, em diversos lugares do país, levam o seu nome. Conforme Salete Carollo, da coordenação do Setor de Gênero do MST/RS, Roseli deixou um legado que motiva, especialmente as mulheres Sem Terra, a continuarem lutando por seus direitos.

“Para Rose não tinha tempo ruim, ela sempre estava na linha de frente. A frase que ela dizia 'Prefiro morrer lutando do que morrer de fome' é a síntese do que se passava àquela época e do que até hoje nos motiva a lutar, pois ainda preferimos morrer lutando por terra do que não ter o que comer. Esta frase é muito atual e profunda”, comenta. Salete completa que a luta por Reforma Agrária sempre teve “uma dimensão feminina”, entretanto, inspiradas no legado de Roseli, hoje as mulheres estão mais atuantes e participando de todas as instâncias do Movimento.

“A luta que travamos agora tem a mesma importância da luta que foi protagonizada por Rose e milhares de famílias, porque ainda há muitos trabalhadores e trabalhadoras sem acesso à terra. O que mudou foram alguns aspectos do nosso inimigo. Antes lutávamos pela terra e enfrentávamos o latifúndio; hoje combatemos o agronegócio, as grandes empresas transnacionais e o capital financeiro internacional, e defendemos um novo projeto de agricultura para produzir alimentos saudáveis a toda a sociedade”, explica.

História documentada
A luta de Rose e dos outros Sem Terra que ocuparam a Fazenda Annoni estão documentadas no filme “Terra para Rose”, dirigido pela cineasta Tetê Moraes. Em dezembro de 1987 ele ganhou o 1º prêmio no Festival do Novo Cine Latino-Americano de Havana, em Cuba. A obra também levou seis premiações no 20º Festival de Cinema de Brasília. Em setembro de 1988, o filme recebeu nova premiação durante a 17ª Jornada Internacional de Cinema da Bahia.

Um outro documentário, chamado “O sonho de Rose”, surgiu uma década depois, quando Tetê retornou aos assentamentos da antiga Fazenda Annoni para mostrar como viviam as famílias que lá foram assentadas. Em setembro de 1997, o documentário ganhou o prêmio Margarida de Prata, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Em 2015, o MST e o gabinete do deputado estadual Edegar Pretto (PT) produziram o curta-metragem “Annoni – 30 anos de Marcos”, para resgatar os 30 anos da ocupação da Fazenda Annoni, completados em 29 de outubro daquele mesmo ano. O curta foi dirigido por Thiago Köche e fala sobre o início do MST, a vida e a morte de Roseli Nunes e de Marcos Tiaraju. Ele foi selecionado para seis festivais e ganhou, em São Paulo, o 7º Prêmio Cine B de Cinema Brasileiro.

 

Por Catiana de Medeiros
Da Página do MST

 

 

Nota dos editores: nem todas as posições expressas neste texto condizem necessariamente e/ou integralmente com a linha política de nosso site ou da União Reconstrução Comunista

 

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