"Não foi mentira: o 1º de Abril de 1964 em Pernambuco"

02/04/2018

 

Pernambuco, assim como todo o Brasil, acordou na quarta-feira de 1º de abril de 1964 com os principais veículos de comunicação noticiando o movimento militar que saíra de Minas Gerais e chegava ao Rio de Janeiro: era a o Golpe Militar sendo concretizado depois de quase vinte anos de uma democracia instável, graças principalmente às várias tentativas e Golpes Militares neste período. O de 1º de abril de 1964, enfim, se efetivara e colocaria no centro do poder da República os elementos mais autoritários que a História do Brasil até então conhecera. Diferente do Golpe do Estado Novo, o de 1964 seria mais profissional, contando inclusive com apoio direto dos Estados Unidos e de seus serviços secretos. Em Pernambuco, os Governos de Pelópidas Silveira (Governo do Recife) e Miguel Arraes de Alencar (Governo do Estado) sofreriam diretamente as consequências deste putsch vindo dos quartéis.

 

Naqueles últimos dias de março de 1964, o clima já se encontrava tenso e nem o mais ingênuo dos que sofreriam o Golpe acreditava que os militares recuariam e a normalidade voltaria ao país. Em Pernambuco, um dos estados centrais para o Golpe, havia fatores que as classes dominantes (formada principalmente por uma elite agrária, ligada à cultura do açúcar) não toleravam: Governos democráticos e progressistas como os de Pelópidas Silveira e Miguel Arraes, ambos com perfil ideológico à esquerda de tudo que já tinham governado o Recife e Pernambuco até então e nascidos da Frente do Recife (movimento político que unificava democratas, progressistas, trabalhistas, socialistas e comunistas). Eram Governos que, pela primeira vez, atuavam junto às massas (periféricas na cidade do Recife, no caso de Pelópidas e camponeses superexplorados nas regiões produtoras de cana de açúcar, no caso de Arraes). A Cooperativa dos Usineiros, associação patronal, durante o Governo Arraes na Prefeitura do Recife (1959-62), foi obrigada a pagar o Imposto de Indústria e Profissões, o que já criou um mal estar entre os que mandavam em Pernambuco. Foram também nas administrações Arraes e Pelópidas que a estatal Companhia de Transportes Urbanos (CTU) foi criada, provocando forte reação contrária dos proprietários de ônibus (estes, próximos dos usineiros) (COELHO, 2012, p. 139). Outro fator a se considerar para se compreender o acirramento da luta de classes no Estado, eram as negociações promovidas pelo Governo do Estado entre usineiros e camponeses, fato inédito em Pernambuco. Os senhores das usinas não engoliam o fato de se sentarem na mesma mesa, tendo o Governo como mediador, diante de cortadores de cana e agricultores pobres, além de não terem mais a Polícia Militar comandada por Arraes como braço armado da repressão ao crescente movimento camponês. Tudo isso se somou ao fato de intelectuais e artistas como Paulo Freire, Abelardo da Hora, Geninha Rosa Borges, Ariano Suassuna, Anita Paes Barreto, entre tantos outros, terem criado o Movimento de Cultura Popular que deu vida aos Centros Populares de Cultura (também ligado à União Nacional dos Estudantes, UNE), levando às periferias e ao campo – com apoio da Prefeitura do Recife e do Governo do Estado – teatro popular, música, dança e principalmente o método mais revolucionário até hoje de alfabetização de jovens e adultos: o método do jovem educador Paulo Freire. Estes eram fatores que ultrapassavam até o reformismo da esquerda da época e os donos do poder, claro, não deixariam aquilo avançar.

 

Aumentou-se, com o nítido avanço das forças populares (no campo com as Ligas Camponesas e na capital com a organização dos movimentos operário, intelectual e estudantil), a radicalização da reação que se apoiou nas classes médias e deflagrou movimentos protofascistas como Tradição, Família e Propriedade (TFP) com suas “Marchas com Deus Pela Família”, comandadas por seguimentos mais reacionários da sociedade e próximas da Igreja Católica. No Recife, estas marchas aconteciam e o mote principal era “combater a ameaça comunista”, um espectro criado pela classe dominante para amedrontar a classe média. Os principais inimigos destas procissões do atraso eram Arraes, Brizola e Prestes. Na véspera do Golpe, por exemplo, os jornais da capital traziam claramente em suas manchetes estes jargões, definindo claramente de qual lado a grande imprensa estava. A edição do Diário de Pernambuco de 31 de março de 1964, além de trazer com destaque a derrota do Sport para o Palmeiras por 4 a 1, em amistoso na Ilha do Retiro, fazia a guerra psicológica que dominava as redações da época, falando em “greves” lideradas pelo Comando Geral dos Trabalhadores (CGT, central sindical dominada pelo Partido Comunista Brasileiro, PCB) e destacando que a Assembleia Legislativa de Pernambuco, presidida por Felipe Coelho (político conservador, ligado aos Coelho de Petrolina e que mais tarde seria um fiel apoiador da Ditadura Militar).

 

O jornal também trazia informações de que tudo “estava tranquilo” no IV Exército (sediado em Recife e comandado pelo general Joaquim Justino Alves Bastos, fiel a Goulart até a deflagração do Golpe, mas que estava no Recife para, segundo ele próprio, a mando do presidente da República “acompanhar os passos do Governador Miguel Arraes”, o que mostrava claramente as desconfianças do gaúcho João Goulart em relação a Arraes) (COELHO, 2012, p. 167) que havia se reunido na tarde de 30 de março. As forças armadas sediadas em Recife já tinham informações sobre os “revoltosos” de Minas Gerais e em poucas horas o general Bastos chefiaria a tomada do poder em Pernambuco. Arraes, que tinha pouco mais de 20 mil homens da Polícia Militar (comandada pelo coronel Hango Trench, preso horas depois do próprio governador), sabia que não teria condições de resistir, principalmente pela falta de recursos que a PM dispunha. A resistência vinda do Palácio garantiria a participação de populares numa luta? Não se sabe. As Ligas Camponesas, embora numerosas, contando com Ligas poderosas como a da cidade de Palmares, não eram movimentos armados e contava em sua maioria com camponeses pobres simples, sem qualquer preparo para um embate contra tanques e armas modernas de guerra. Por outro lado, o PCB (que tinha certa influência nas classes trabalhadoras, principalmente urbanas) estava numa linha revisionista, adotada principalmente após a Declaração de Março de 1958 e contava com a evolução pacífica dos acontecimentos para a “tomada do poder”.

 

O pouco de resistência que houve, por alguns delegados de Polícia em cidades como Goiana e no próprio Derby (onde PM’s organizaram barricadas) foram insuficientes, assim como as greves deflagradas pelos portuários e operários da Rede Ferroviária Federal. Apesar do Governo Arraes ter grande apoio, a reação popular ao Golpe não veio. Podemos dizer que foram erros fatais durante todo esse processo golpista, que levaram o PCB e seus principais líderes no Recife a serem trucidados, como o dirigente Gregório Bezerra que logo após o Golpe ser deflagrado, foi tratado pior que um animal de carga, sofrendo açoites e humilhações por parte dos militares pelas ruas do Recife.

 

Às dez horas da manhã do 1º de abril de 1964, o Palácio do Campo das Princesas é cercado. Canhões postos no Parque Treze de Maio e na Rua da Aurora apontavam para o Palácio onde residia Miguel Arraes e sua família (COELHO, 2012, p. 177). Os comandos do Golpe entram no Palácio e na sede da Prefeitura, prendendo Miguel Arraes e Pelópidas Silveira. São as primeiras autoridades máximas de Pernambuco vítimas dos militares. Estava concretizada a ação comandada pelo Departamento de Estado dos EUA e suas sucursais do Brasil, sem qualquer resistência efetiva e com quase nenhuma mobilização popular. No mesmo instante, a ALEPE e a Câmara de Recife, de prontidão, afastavam Arraes do cargo e aprovava seu vice, Paulo Guerra (que já conspirava contra Arraes), como governador de Pernambuco, assim como Pelópidas da Silveira era afastado, assumindo o vice-prefeito Augusto Lucena. Prefeitos de outros municípios como Palmares e Escada também eram afastados e presos. O Golpe Militar estava conflagrado. Pernambuco e todo o país passariam 21 anos sob a tutela de militares que, com a solidificação do novo regime, assumiriam características claramente fascistas, torturando e assassinando milhares de opositores em todo o Brasil, inclusive pernambucanos.

 

 

Por Clóvis Manfrini, formado em Comunicação Social pela UFPE e Pós-graduado em História pela UPE

 

Referências:

COELHO, Fernando. Direita Volver: o Golpe de 1964 em Pernambuco. Editora Bagaço. Recife: 2012.

Diário de Pernambuco (edição de 31 de março de 1964).

 

Nota dos editores: nem todas as posições expressas neste texto condizem necessariamente e/ou integralmente com a linha política de nosso site ou da União Reconstrução Comunista

 

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