"Golpe trouxe somente crise econômica e caos na Ucrânia"

28/03/2018

 

 

“Sem uma teoria revolucionária, não é possível um movimento revolucionário" (Lenin)

 

Antes do golpe que instalou a junta de Kiev em 2014, o Produto Interno Bruto (PIB) da Ucrânia era de US $ 183 bilhões. Agora, caiu para US$ 93 bilhões. Desde a resposta da Rússia à hostil sanção comercial parando a importação de bens de consumo da Ucrânia, esta tem perdido US $15 bilhões ao ano (Ucrânia é a nação mais pobre da Europa, RT, 11 de dezembro de 2017). A adesão do país a uma zona de livre comércio com a União Européia (EU) abriu a economia interna da Ucrânia à penetração do capital monopolista estrangeiro; ao mesmo tempo, impôs cotas severamente restritas às exportações agrícolas do país para a Europa. O Fundo Monetário Internacional (FMI) enviou seus inspetores para verificar o progresso da junta na imposição de austeridade, o quid pro quo exigido para manter viva a economia com infusões periódicas de empréstimos. E em sua duração, a guerra de opressão nacional contra as repúblicas populares de Donetsk e Lugansk na região oriental de Donbass continua a atormentar, tirando vidas diariamente com incessantes bombardeios localizados e ,também, desmoralizando a população geral cansada da guerra em seu território. Veteranos descontentes tiveram uma presença significativa em recentes manifestações anti-Poroshenko.

 

Os Acordos de Minsk, assinado por ambas as partes envolvidas no conflito, traçaram um roteiro visando o cessar-fogo e eleições locais para uma negociação de autonomia para o Donbass. No entanto, embora as Repúblicas Populares tenham repetidamente deixado claro que estão prontas para implementarem os Acordos, a junta de Kiev tem, consistentemente, obstruído a implementação.

 

Saakashvili: um barômetro do caos social

A medida do nível de caos social que atualmente prevalece na Ucrânia advém do monopolismo dos holofotes políticos por Mikheil Saakashvili, que tomou a liderança do incoerente movimento de protesto "Maidan 2", na esperança de tomar a presidência de Poroshenko. Este ex-presidente georgiano, que já fora um dia o menino de ouro do Ocidente e “herói” da “Revolução das Rosas” da Geórgia em 2003, agora procurado em sua terra natal por seu envolvimento em atividades fraudulentas, foi inicialmente recebido como um aliado por Poroshenko, que acelerou o processo de efetivação de sua cidadania ucraniana e fez dele governador de Odessa. Os dois oligarcas rapidamente caíram: Poroshenko tirou a cidadania de Saakashvili e expulsou-o da Ucrânia. Assim foi, até que Saakashvili, ladeado por uma multidão de seus partidários, forçou o caminho de volta através da fronteira da Polônia e passou as últimas semanas em turnê pelo país, apoiando uma campanha populista de combate à corrupção com algum aparente sucesso. Quando a polícia invadiu sua casa, ele subiu no telhado e ameaçou pular de lá. Acompanhado do telhado ao chão pela polícia e amarrado em uma van policial, ele foi, então, arrastado para fora do veículo por uma gangue de seus partidários.

 

Que este histérico charlatão, uma vez favorito pelo Ocidente sendo agora apenas um constrangimento, deveria ser capaz de fazer que tais ondas políticas na Ucrânia denunciem sobre a falência superficial que permeia toda a vida pública em uma sociedade que está se despedaçando.

 

Sanções fadigadas

Nem todos os países europeus vizinhos da Ucrânia, entretanto, apreciam sua proximidade com um vulcão social tão instável e desestabilizador. Também não apreciam o efeito colateral da guerra de sanções comerciais lideradas pelos EUA sobre suas próprias economias. A guerra comercial desencadeada por sanções contra a Rússia está exigindo um alto preço em oportunidades comerciais perdidas, que muitos na Europa encaram como mais que exaustivas, já que eles testemunharam no último verão que o Congresso dos EUA aprovou uma lei expandindo o regime de sanções. O Instituto Austríaco de Pesquisa Econômica, em um estudo publicado em Outubro, mostra que as sanções da UE impostas contra a Rússia já custaram milhões de euros à mesma; e em setembro, o relator especial da ONU, Idriss Jazairy, estimou que a UE tem perdido um mínimo de US $ 3,2 bilhões por mês pelo mesmo motivo.

 

O ministro de Relações Exteriores da Alemanha, Sigmar Gabriel, foi franco em sua recusa em sacrificar a economia alemã a fim de acabar com uma guerra dos EUA contra a Rússia. Em uma entrevista para Russia Today, ele disse que “A Alemanha tenta ‘deixar claro para os EUA’ que já é passado o tempo de resolução do conflito ucraniano. A Alemanha quer ver um cessar-fogo duradouro na Ucrânia que permita que o processo de transição política previsto pelos Acordos de Minsk funcione adequadamente.”

 

"Alcançar a paz na Ucrânia permitiria ‘finalmente levantar’ as sanções anti-rússia, acrescentando que é o objetivo que o governo alemão persegue em sua política” disse Gabriel. Ele também disse que “o governo alemão está trabalhando para levar esse ponto até Washington.”. A ministra da Economia, Brigitte Zypries, foi ainda mais franca, incentivando a Comissão Européia a “investigar contramedidas” para as sanções americanas, identificando corretamente as sanções mais recentes dos EUA como “contra o direito internacional” (“Temos outras prioridades”: a FM alemã incita os EUA a pôr fim às sanções ', RT, 29 de novembro de 2017).

 

A Alemanha não está sozinha em seus sentimentos/posicionamentos quanto a esta questão. Dentre os países da UE, a Hungria defende o fim das sanções contra a Rússia e tem fortes laços comerciais com a mesma, incluindo um acordo de fornecimento de gás com a Gazprom e um acordo para a Rússia financiar e construir uma usina nuclear (ver Marton Dunai, "A Hungria testa os nervos da UE", Reuters, 1 de fevereiro de 2017). A República Tcheca também rompeu com o imperialismo. Em uma visita recente a Sochi, o presidente tcheco, Milos Zeman, disse ao presidente russo, Vladimir Putin, que anseia o fim de todas as sanções e ressalta a importância do mercado russo para as negociações tchecas. Observando que, em uma delegação comercial semelhante à da França apenas 14 empresários apareceram, enquanto na viagem recente à Russia havia 140 na fila, Zeman brincou que a Rússia era dez vezes mais importante para os tchecos do que a França. Apesar das sanções, o comércio entre Rússia e República Tcheca cresceu mais de 42% em 2017 (veja ‘Drop sanctions and eat our cheese’, RT, 21 de novembro de 2017).

 

Tais desvios do hinário antirrusso provocam uma reação escaldante de setores como a revista Foreign Policy, que publicou um artigo melodramaticamente intitulado "Está a República Tcheca sob a sombra de Putin?". Relembrando carinhosamente os (para ele) dias felizes da Primavera de Praga de 1968 e a Revolução de Veludo de 1989, o autor tem um aviso terrível: a Rússia supostamente está perseguindo “uma campanha contrarrevolucionária unilateral, porém sofisticada, para reverter às mudanças”, de modo que agora “a Europa Central e os Balcãs estão, vagarosamente, mas certamente escapando do abraço do Ocidente” como “governos ou políticos cujos interesses se alinham mais estreitamente com Moscou do que Bruxelas tomaram o poder na Hungria, Sérvia, Moldávia e Bulgária."

 

Não parece ter ocorrido ao autor que esse fenômeno possa ter menos a ver com uma trama sinistra do Kremlin do que o fato de que a maioria dos países classifica sua própria sobrevivência econômica acima de qualquer suposto dever de acabar com as ambições geopolíticas dos EUA ou da UE. Resumidamente, os tchecos estão mais preocupados em encontrar um mercado consumidor para seu iogurte e queijo do que em idolatrar “heróis como o Prêmio Nobel Tcheco Vaclav Havel, o dramaturgo-presidente” que promoveram “o sonho de uma Europa Unida ‘integral e livre’” (Adam Ereli, ‘Está a República Tcheca sob a sombra de Putin?", Foreign Policy, 10 de outubro de 2017).

 

O que está despedaçando a Europa não é a vil trama russa, mas a crise de superprodução do imperialismo por si. Trata-se da mesma crise de escassez de mercado que impele o capital monopolista a buscar novos mercados, pela conquista se necessário. É isso que está por trás do comando ocidental do golpe fascista em Kiev como uma provocação hostil na fronteira ocidental da Rússia. Nós saudamos a coragem e firmeza das forças armadas das Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk em sua justa guerra de resistência!

 

Do Lalkar (Periódico bimestral inglês anti-imperialista)

 

Traduzido por J. Lima

 

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