"Arte, Revolução e decadência"

22/03/2018

 

Convém apressar-se em liquidar um equívoco que desorienta alguns jovens artistas.

 

Faz falta estabelecer, retificando certas definições apressadas, que nem toda a arte nova é revolucionaria, nem mesmo é verdadeiramente nova. No mundo contemporâneo coexistem duas almas, distintas, em almas de revolução e de decadência. Somente a presença da primeira confere a um poema ou um quadro valores de uma nova arte.

 

Não podemos aceitar como nova, uma arte que não nos trás nada alem do que uma nova técnica. Isso seria recriar nas mais falaciosas das ilusões atuais. Nenhuma estética pode rebaixar o trabalho artístico a uma questão técnica. A técnica nova deve corresponder também a um novo espírito. Senão, a única mudança é na parede, na decoração. E uma revolução artística não se contenta apenas com conquistas formais.

 

A distinção entra as categorias de artistas coetâneos não é fácil. A decadência e a revolução, assim como existem no mesmo mundo, coexistem também nos mesmos indivíduos. A consciência do artista é o “circo agonal” de uma luta entre os espíritos. A compreensão desta luta, às vezes, quase sempre, escapa do próprio artista. Mas finalmente um dos dois espíritos prevalece. O outro cai estrangulado na arena.

 

A decadência da civilização capitalista se reflete na atomização, na dissolução de sua arte. A arte, em suas crises, tem perdido antes de tudo, sua unidade essencial. Cada um de seus princípios, cada um de seus elementos tem afirmado sua autonomia. Secessão é seu termo mais característico. As escolas se multiplicam até o infinito porque não operam mais forças centrifugas.

 

Mas esta anarquia, na qual o espírito da arte burguesa é irremediavelmente dividido e desintegrado, anuncia e prepara uma nova ordem. É a transição do por do sol ao amanhecer. Nestas crises se elaboram espalhados os elementos da arte do futuro. O cubismo, o dadaísmo, o expressionismo [1], entre outros, que ao mesmo tempo em que acusam crises, anunciam uma reconstrução. Isoladamente cada movimento nos trás uma formula, mais todos concorrem, apontando a um elemento, um valor, um principio, em sua elaboração.

 

O sentido revolucionário das escolas ou tendências contemporâneas não está na criação de uma nova técnica, muito menos na destruição das velhas técnicas. Está no repudio, no despejo, no desprezo grosseiro e insultante do espírito burguês. A arte nutre-se sempre, conscientemente ou não, do espírito de sua época. O artista contemporâneo, na maioria dos casos, encontra-se com a alma vazia. A literatura da decadência é uma literatura sem espírito, sem ideologia. Por isso, só pode dar alguns poucos passos. O homem não pode marchar sem uma fé, porque não ter fé é não ter uma meta. Marchar sem uma fé é patinar no mesmo lugar. Quanto mais acirradamente cético e niilista se confessa o artista, maior o seu desespero pela necessidade de um mito.

 

Os futuristas russos aderiram ao comunismo: os futuristas italianos aderiram o fascismo. Quer uma melhor demonstração histórica de que os artistas não podem escapar da gravitação política? Massimo Bontempelli disse que em 1920 se sentiu quase comunista e em 1923, o ano da marcha de Roma, se sentiu quase fascista. Agora parece um fascista completo. Muitos se divertiram com esta confissão de Bontempelli. Eu o defendo: o encontro sincero. A alma vazia do pobre Bontempelli tinha que adotar e aceitar o mito que fora colocado em seu tempo, na era Mussolini. (Os vanguardistas italianos estão convencidos de que o fascismo é a revolução)

 

Vicente Huidobro finge que a arte é independente da política. Esta afirmação é tão antiga e obsoleta em suas razões e motivos, que eu não a conceberia em um poeta ultraísta, se acreditasse que os poetas ultraístas pudessem falar sobre política, economia e religião. Se política para Huidobro é exclusivamente o que acontece no “Palais Bourbon” [2], é claro que podemos reconhecer sua arte com tanta autonomia quanto ele queira. Mas o caso é que a política, para nos que a sentimos elevada à categoria de uma religião, como disse Unamuno, é o próprio enredo da Historia. Nos tempos clássicos, ou na plenitude de uma ordem, a política só pode ser administração e parlamento; Nos tempos românticos ou de crise de uma ordem, a política ocupa o primeiro plano da vida.

 

Isto foi proclamado por Louis Aragón, André Bretón e seus companheiros da revolução suprarrealista – os melhores espíritos da vanguarda francesa- Marchando em direção ao comunismo. Drieu La Rocheile [3], que quando escreveu “Mesure de La France” [4] e “Plainte contra Inconnu” [5] estava tão perto deste estado de espírito, e não conseguiu segui-los, mas, como tão pouco pode escapar da política, declarou-se vagamente fascista e claramente reacionário.

 

Ortega e Gasset é o responsável, no mundo hispânico, de uma parte deste equívoco sobre a nova arte. Seu olhar, assim como não distinguiu escolas e nem tendências, não distinguiu, pelo menos na arte moderna, os elementos de revolução dos elementos de decadência. O autor da Desumanização da Arte não nos deu uma definição da nova arte. Mas tomou como características de uma revolução, aqueles que normalmente correspondem a um declínio. Isso o levou a fingir, entre outras coisas, que a nova inspiração é sempre, infalivelmente, cósmica. Seu quadro sintomático, em geral, é justo; mas seu diagnostico é incompleto e equivocado.

 

Não basta o procedimento. Não basta a técnica. Paul Morand, apesar de suas imagens e de sua modernidade, é um produto de decadência. Respira-se em sua literatura uma atmosfera de dissolução. Jean Cocteau, depois de ter flertado por um tempo com o dadaísmo, nos sai agora com seu “Rappel a l’ordre” (chamada a ordem).

 

Convém esclarecermos a questão, até desvanecer o ultimo equivoco. A empresa é difícil. É difícil entender sobre muitos pontos. A presença de reflexões de decadência na arte de vanguarda é frequente, até mesmo quando superado o subjetivismo, que às vezes a adoece, ela propõe metas realmente revolucionarias. Hidalgo, citando Lênin, num poema de varias dimensões, disse que os “seios de Salomé” e a “peruca a La Garconne” [6] são os primeiros passos para a socialização da mulher. E isso não é surpreendente. Existem poetas que crêem que o jazz-band é um arauto da revolução.

 

Felizmente, artistas como Bernard Shaw permanecem no mundo, capazes de entender que “a arte nunca foi ótima, quando não forneceu uma iconografia para uma religião viva; e nunca foi completamente desprezível, exceto quando imitou a iconografia, depois que a religião se tornou uma superstição”. Este último caminho parece ser aquele que vários artistas novos adotaram na literatura francesa e em outras. O futuro rirá da bela estupidez com que alguns críticos de seu tempo os chamavam de “novos” e até “revolucionários”.

 

*Texto inicialmente publicado em Amauta: Nº 3, pp. 3-4; Lima, novembro de 1926. Reproduzido em Bolívar: Nº 7, p. 12; Madrid, 19 de maio de 1930. Em La Nueva Era: Nº 2, pp. 23-24; Barcelona, novembro de 1930.

 

Também foi publicado em Variedades: Lima, 19 de março de 1927. Mas com um título diferente: “Tópicos de arte moderna”

  

Escrito por José Carlos Mariátegui

 

Traduzido por L. H. de Paulo

 

Notas

[1] Ver, neste volume, “El expresionismo y el dadaísmo” (pág. 68).

[2] Nome do palácio onde está, atualmente, a Câmara dos Deputados da França.

[3] Sobre a atitude social e a significação literária deste escritor, consultar o ensaio intitulado “Confesiones de Drieu La Rochelle, en El Alma Matinal y Otras Estaciones del Hombre de Hoy”.

[4] Medida da França. (Trad. lit.).

[5] Queixa contra o desconhecido. (Trad. lit.).

[6] Garoto, em francês. Também estilo feminino de corte de cabelo, na moda nos anos 1920

 

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