"Ame um revolucionário, ame a revolução"

18/02/2018

 

O vento frio, os robustos pinheiros e o paisagístico conjunto de montanhas das Cordilleras em Luzon do Norte criam o clima perfeito para o casamento de dois guerrilheiros do Novo Exército Popular (NEP).

 

A cerimônia foi realizada em 29 de Março de 2017, logo após o Comando Regional de Cordillera do NEP, o Comando Chadli Molintas, ter celebrado o 48º aniversário de fundação do NEP. O casamento foi tudo que um casamento deve ser. A noiva segurava um buquê e flores silvestres adornavam o corredor para a passagem da noiva. Houve a troca de votos de casamento, a assinatura do certificado de casamento emitido pelo Partido Comunista das Filipinas (PCF), e mais. O casal também teve a versão do NEP do teto de aço ​[1]​, orientação de  casamento dos membros de seu coletivo, e dicas e conselhos dos organizadores do casamento. O aguardado primeiro beijo de Ka Guiller e Ka Nancy enquanto casados selou a promessa de amor libertador.

 

Um amor incomum

A Camarada Nancy ingressou no movimento armado revolucionário em Maio de 2014. Ka Guiller era sua dirigente do pelotão. A atração entre as duas gradualmente se desenvolveu conforme realizavam suas tarefas políticas no NEP. Elas começaram a se conhecer bem. Depois, Guiller convenceria Nancy a se tornar membro permanente do NEP. A esta altura eles já pertenciam a unidades distintas. Ainda assim, os vínculos entre si cresceram até que, três meses depois, se encontraram em um relacionamento “informal”, implicando que suas respectivas unidades ou coletivos ainda tinham de aprovar seu relacionamento como requerem os processos pelo NEP e pelo Partido.

Como parte da disciplina do NEP, novos recrutados são desde entrarem em um relacionamento por no mínimo um ano para dar a eles tempo de se ajustar plenamente a suas tarefas no exército popular. Mas Guiller e Nancy persistiram em sua relação apesar da restrição e cautela de suas respectivas unidades. Isso levou a conflitos internos entre elas e suas respectivas unidades que mais tarde decidiram deixar temporariamente o exército popular. Ambos voltaram para a cidade, e por mais de um ano, Ka Guiller e Ka Nancy assumiram um papel ativo no movimento de massas urbano.

 

Na cidade, elas “formalizaram” seu relacionamento, i.e, buscaram o consentimento de seus respectivos coletivos e passaram por crítica e autocrítica. Enquanto no movimento de massas urbano, o casal enfrentou mais problemas e conflitos, mas buscaram superar esses obstáculos com o apoio de seus respectivos grupos e o amor que tem um pelo outro, pelas massas e pela revolução.

 

E assim, após um ano e meio no centro urbano e, após se submeterem a sessões de balanço e à crítica e autocrítica com seus coletivos, Ka Guiller e Ka Nancy decidiram retornar para a Cordillera para assumir um papel na luta que ambos amam de verdade: servir a revolução como combatentes permanentes do NEP.

Assim, em 29 de Março, Ka Nancy e Ka Guiller trocaram votos na presença dos combatentes vermelhos, seus amigos no movimento revolucionário e das massas rurais.

 

“Marahas ang digma, pero mas marahas ang mga dahilan nito. Ang pagtahak natin sa landas na ito ay ang ating pagpili. Ang ating pagpili ay ang ating pagtindig. Ang ating pagtindig ay

atin ding panata. Panata, hindi lamang sa iyo mahal, higit lalo sa bayan nating minamahal.

Ang mga kabundukan ang ating paraisong tirahan, at sa piling ng minumutyang masa tayo ay

nagpapanday.

 

Hanggang sa pagkapatas,

 

Hanggang sa pagpula ng silangan,

 

Hanggang sa ganap na tagumpay.

 

Sa huli, ikaw ay mananatili,

 

Ang aking payapa sa gitna ng marahas na digma.”

 

(A guerra é cruel, mas as suas raízes são mais violentas. É nossa escolha ir por este caminho.

Nossa escolha é a nossa posição. Nossa posição é nosso comprometimento; um comprometimento, não apenas por você meu amor, mas acima de tudo, para o povo que nós verdadeiramente amamos. As montanhas são nosso refúgio e com as massas estamos

fortalecidas.)

 

Através dos impasses,

Quando o oriente se tornar vermelho,

Até a vitória completa,

No fim, você segue

Minha calma em uma violenta guerra”.)

 

“Nagmahal. Nagwasto. Nagtagumpay.” (Nós amamos. Nós retificamos. Nós triunfamos) Isso resume a história de amor de Guiller e Nancy.

 

Amor Revolucionário

Como todos casais revolucionários, Ka Guiller e Ka Nancy aderem à política do PCF de casamento e relacionamentos contidas no documento “Sobre a relação proletária entre sexos” que foi publicado nos anos 70. Em 1998, a política foi revista para incluir relações e casamento entre o mesmo sexo além de discussões aprofundadas sobre namoro, casamento, divórcio e medidas disciplinares. O NEP tem suas próprias orientações baseadas nos princípios definidos na política do Partido.

 

Sem dúvida, revolucionários, como outros indivíduos, se apaixonam.

 

A diferença é que revolucionários expressam seu amor para outros dentro do contexto dos interesses revolucionários do povo. Enquanto há o “amor sexual”, também há o “amor de classe”, e o último na verdade é considerado o aspecto principal e define a natureza de seu amor. Ao serviço da revolução, o amor nasce, floresce e cresce, portanto as relações de amor não podem senão servir as aspirações revolucionárias do Partido e do proletariado. Para revolucionários, o amor é uma parte integral e uma grande expressão de seu comprometimento revolucionário.

Revolucionários mantém o direito de escolher livremente quem amar, mas há restrições assim como responsabilidades. “Amor livre”, “liberdade sexual” ou a anarquia nos relacionamentos são estritamente proibidas à medida em que isso pode levar à violação dos direitos de outros, irresponsabilidade na relação, e quebra da disciplina organizacional.

 

Em suma, o anarquismo no amor contradiz o objetivo da revolução de estabelecer uma sociedade justa e bem como a real igualdade dos sexos. Consequentemente, os revolucionários encontram uma fundamentação entre os princípios dirigentes do Partido no amor, relacionamento e sexo. Tais princípios traçam uma linha entre a liberdade e a disciplina, entre os direitos e as responsabilidades, e entre as emoções e os princípios.

 

Estes princípios visam assegurar os interesses do Partido e da revolução a todo custo, proteger os direitos de todo revolucionário e outros indivíduos que possam estar envolvidos, e fazer avançar uma relação proletária saudável entre casais dentro do movimento revolucionário.

 

Ame um Revolucionário

O tipo dominante de amor hoje é apenas uma mera reflexão da ordem social e cultura existente. Em um sistema semicolonial e semifeudal, o caráter do amor é opressivo, decadente e patriarcal, que é vulnerável à abusos e violações dos direitos de outros.

 

Revolucionários sabem que para libertar o amor da opressão, deve se empenhar com mais rigor para revolucionizar e libertar também toda a sociedade. É isso que a história de amor de Ka Guiller e Ka Nancy demonstrou.

 

E eles não estão sozinhos. O amor revolucionário floresce em vários campos do NEP, fazendas, locais de trabalho, campus, comunidades e instituições a revolução democrática-nacional fincou suas raízes. De fato, não há amor mais doce que revolucionar a sociedade em companhia de alguém que você ama de verdade e quer compartilhar o resto de sua vida com você, Portanto, amar um revolucionário é vivenciar um tipo de amor que é abnegado, libertador, norteado, fundamentado e genuinamente servir o povo.

 

Escrito por Trisha Samiente

 

Publicado por manilatoday.net

 

Nota

[1] ”Teto de aço” se refere aos arcos de fuzis tradicionais em casamentos militares.

 

Tradução de Gabriel Duccini

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