"O destino da América do Norte"

09/02/2018

Toda querela entre os neotomistas franceses e os racistas alemães, sobre a defesa da civilização ocidental pertencer ao espírito latino e romano ou ao espírito germânico e protestante, encontra no plano Dawes, incontestavelmente, documentada a sua vaidade. O pagamento da compensação alemã e da dívida aliada colocou nas mãos dos Estados Unidos o destino da economia e, portanto, da política da Europa. A convalescênça financeira dos estados europeus não é possível sem o crédito dos ianques. O espírito de Locarno [1], os pactos de segurança, etc., são utilizados para designar as garantias exigidas pelas finanças norte-americanas por seus grandes investimentos em finanças públicas e indústria nos estados europeus. A Itália fascista, que tão arrogantemente anuncia a restauração do poder de Roma, esquece que seus compromissos com os Estados Unidos colocam sua “valuta” (moeda) à mercê desse credor.

 

O capitalismo, que na Europa se manifesta desconfiado de suas próprias forças, na América do Norte é ilimitadamente otimista quanto ao seu destino. E esse otimismo recai, simplesmente, em boa saúde. É o otimismo biológico da juventude que, confirmando seu excelente apetite, não se preocupa com a chegada do momento da arteriosclerose. Na América do Norte, o capitalismo ainda tem as possibilidades de crescimento que na Europa a destruição da guerra deixou irremediavelmente danificadas. O Império Britânico ainda mantém uma formidável organização financeira; mas, como comprova o problema das minas de carvão, a indústria perdeu o nível técnico que assegurou anteriormente sua primazia. A guerra transformou o país credor em devedor da América do Norte.

 

Todos esses fatos indicam que na América do Norte se encontra agora a sede, o eixo, o centro da sociedade capitalista. A indústria Ianque é a melhor equipada para produção em larga escala com o menor custo; o banco, cujos cofres amontoa o ouro monopolizado pela América do Norte durante e após a guerra, garante com seus capitais, ao mesmo tempo que melhora sem cessar a aptidão industrial, a conquista dos mercados que devem absorver suas manufaturas. Subsiste ainda, se não na realidade, a ilusão de um regime de livre concorrência. O Estado, a educação, as leis, estão em conformidade com os princípios de uma democracia individualista, em que todos os cidadãos podem ambicionar livremente a posse de cem milhões de dólares. Enquanto na Europa os indivíduos da classe trabalhadora e da classe média se sentem mais e mais subjugados aos limites de suas classes, nos Estados Unidos eles acreditam que a fortuna e o poder ainda são acessíveis para todos os que tem a habilidade de conquistá-los. E esta é a medida da subsistência, dentro de uma sociedade capitalista, dos fatores psicológicos que determinam seu desenvolvimento.

 

O fenômeno americano, por outro lado, não tem nada de arbitrário. A América do Norte aparece, desde a sua origem, predestinada à máxima realização capitalista. Na Inglaterra, o desenvolvimento capitalista não alcançou, apesar do seu extraordinário poder, a extirpação de todo atraso feudal. Os fueros [2] aristocráticos não deixaram de pesar sobre sua política e sua economia. A burguesia inglesa, feliz em concentrar suas energias na indústria e no comércio, não se preocupou em disputar a terra com a aristocracia. O domínio da terra teve que ser tributado sob a exploração do subsolo. No entanto, a burguesia inglesa não quis sacrificar seus aristocratas, destinados a manter uma ascendência ilustre estranhamente refinada e decorativa. É por isso que só agora parece descobrir seu problema agrário. Somente agora, com o declínio de sua indústria, sente falta de uma agricultura próspera e produtiva, em terras onde a aristocracia tem seus campos de caça. O capitalismo americano, entretanto, não teve que pagar royalties monetários ou espirituais. Pelo contrário, procede livre e vigorosamente dos primeiros germes, intelectuais e morais, da revolução capitalista. O pioneiro da Nova Inglaterra era o puritano expulso da pátria europeia por uma revolta religiosa, o que constituiu a primeira afirmação burguesa. Os Estados Unidos emergiram de uma manifestação da Reforma Protestante, considerada como a manifestação espiritual mais pura e mais original da burguesia, isto é, do capitalismo. A fundação da República norte-americana significou, em seu tempo, a consagração definitiva desse fato e de suas consequências. "As primeiras colônias estabelecidas na costa leste", escreve Waldo Frank, "tiveram por carta a aquisição da riqueza. Sua revolta contra a Inglaterra, em 1775, iniciou uma das primeiras lutas abertas entre o capitalismo burguês e o velho feudalismo. As colônias, das quais nasceram os Estados Unidos, assinalou o triunfo do regime capitalista. Desde então, a América não teve nem tradição nem meio de expressão desvinculado dessa revolução industrial a qual deve sua existência". O próprio Frank recorda o famoso e conciso julgamento de Charles A. Beard, sobre a carta de 1789: "A Constituição era essencialmente um ato econômico, com base na noção de que os direitos fundamentais da propriedade privada são anteriores a todos os governos e estão moralmente fora do alcance das maiorias populares".

 

Para seu enérgico é livre florescimento nenhum obstáculo material ou moral impediu o capitalismo americano, único no mundo que reuniu em sua origem todos os fatores históricos do Estado burguês de forma perfeita e sem os embaraços das tradições aristocráticas e monárquicas. Sobre a terra “virgem” da América – da qual apagaram todos vestígios indígenas – os colonizadores anglo-saxões lançaram os alicerces da ordem capitalista desde a sua chegada.

 

A Guerra de Secessão também constituiu uma afirmação capitalista necessária, que libertou a economia ianque do único defeito de sua infância: a escravidão. Uma vez que esta foi abolida, o fenômeno capitalista encontrou claramente o seu caminho. O judeu – ligado ao desenvolvimento do capitalismo, como apontou em seus estudos Werner Sombart, não só pela espontânea aplicação utilitária de seu individualismo expansivo e imperialista, mas sobretudo por conta de sua radical exclusão de toda atividade “nobre” a que o condenara a Idade Média – associou-se ao puritano na empresa de constituir o mais potente Estado industrial e a mais robusta democracia burguesa.

 

Ramiro de Maeztu - que ocupa uma posição ideológica muito mais forte do que os filósofos neotomistas da reação na França e na Itália, quando reconhece Nova York como a verdadeira antítese de Moscou, atribuindo aos Estados Unidos a função de defender e continuar a civilização ocidental como civilização capitalista, distingue muito bem e de uma forma geral, dentro da sua apologética burguesa, os elementos morais da riqueza e do poder na América do Norte. Mas os reduz quase completamente aos elementos puritanos ou protestantes. A moralidade puritana, que santifica a riqueza, estimando-a como um sinal de favor divino, é basicamente a moral judaica, cujos princípios foram assimilados pelos puritanos no Antigo Testamento. O parentesco do puritanismo com o judeu foi estabelecido doutrinariamente há muito tempo; e a experiência capitalista anglo-saxã serve apenas para confirmá-lo. Mas Maeztu, um fervoroso panegista [3] do "fordismo" industrial, precisou evitá-lo, tanto por respeito a declaração Sr. Ford contra o "judeu internacional", como por adesão ao sentimento de ódio com o qual todos os movimentos "nacionalistas" e reacionários do mundo lançam ao espírito judaico, suspeitando de terrível concomitância com o espírito socialista pelo seu ideal comum de universalismo.

 

O dilema Roma – Moscou, a medida em que se torna visível a atividade dos Estados Unidos como empresário da estabilização capitalista, fascista ou parlamentar na Europa dará lugar ao dilema Nova York – Moscou. Os dois polos da história contemporânea são a Rússia e a América do Norte: comunismo e capitalismo, ambos sistemas universalistas, embora muito diversos e opostos. Rússia e EUA: as duas nações que mais se opõem doutrinária e politicamente, ao mesmo tempo que se aproximam como expressão suprema e máxima do ativismo e do dinamismo ocidentais. Bertrand Russel já observou, há vários anos, a estranha semelhança que existe entre os capitães da indústria ianque e os funcionários da economia marxista russa. E um poeta, tragicamente eslavo, Alexander Blok cumprimentou o início da revolução com estas palavras: "Aqui está a estrela da nova América".

 

Publicado em Variedades: Lima, 19 de novembro de 1927

 

Escrito por José Carlos Mariátegui

 

Traduzido por F. Fernandes

 

Notas

[1] Pacto entre a França e a Alemanha, sobre os governos de Briand e Stresseman, respectivamente.

[2] Os fueros são estatutos jurídicos aplicados em uma determinada localidade, cuja finalidade era, em geral, regular a vida local, estabelecendo um conjunto de normas jurídicas, direitos e privilégios, outorgados pelo rei, pelo senhor de terras ou pelo próprio conselho.

[3] Transcrição literal do termo, pois não há tradução para o português.

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