"Os ideólogos da reação"

23/01/2018

O ato reacionário – como tive a oportunidade de apontar na ocasião da adesão de Maeztu à ditadura em seu país [1] – precedeu a ideia reacionária. Contudo, temos agora uma abundante filosofia da reação, que para florescer tranquilamente necessitou, previamente, da própria reação. Portanto, não estou querendo dizer que antes da crise da democracia e do liberalismo a reação carecesse de intelectuais, mas suas teses, desarticuladas e fragmentárias, tinham um caráter de protesto romântico, ou de uma crise pessimista das instituições e princípios democráticos, e não apresentavam um sistema ou uma doutrina afirmativa e beligerante, caráter que adquiriu após a marcha fascista em Roma. A atitude geral dos intelectuais foi uma aceitação mais ou menos ortodoxa das ideias de Progresso e Democracia. O pensamento reacionário se contentava com uma especulação teórica, quase sempre negativa e, em muitos casos, literária. Agora, ela sai de seu confinamento e ganha a adesão de muitos intelectuais, devastando a consciência assustada e abdicadora da democracia e adota a representação espiritual da civilização ocidental, mal defendida, é verdade, por seus ideólogos liberais, em cujas fileiras aparecem o ceticismo e o desencanto. Assim, para que uma ideologia reacionária prosperasse foi necessário que, por um lado, o fascismo a descobrisse e propagasse seus golpes de Estado, e por outro lado, que o General Dawes [2] e os banqueiros ianques impusessem à Europa vencida, bem como à Europa vitoriosa, seu controle econômico.

 

Enquanto a Europa estava abalada pela agitação revolucionária e devorada por suas contradições econômicas e paixões nacionalistas, os intelectuais tenderam a adotar uma atitude sem fundamentos e pessimista. A teoria de Spengler, interpretada precipitadamente como a profecia de uma cataclismo já desencadeado, engendrou um clima de derrotismo e desespero. Guillermo Ferrero, identificando o destino da civilização ocidental com o da democracia capitalista, semeou no espírito latino – o que o espírito saxão não alcançou com sua enfadonha pregação – fúnebres presságios. Apressados para declarar a falência da civilização, não se advertiu a amplitude da previsão de Spengler, dentro da qual mostrava, precisamente, um período de cesarismo imperialista, que logo desencadearia na subida de Mussolini [3] ao poder, antigo agitador socialista, opondo-se como o mais inspirado pelos filósofos.

 

Somente após ter liquidado a operação do Rhur e conjurado a ameaça revolucionária na Itália e na Alemanha, a Europa entrou em um estágio de estabilização capitalista, e quando, não com pouca surpresa de alguns, os intelectuais sentiram-se momentaneamente protegidos do confisco ou racionamento – difundiram-se e desenvolveram-se teorias de todo o tipo para buscar informações e reivindicar as ditaduras reacionárias.

 

Portanto, esta apologética prospera até hoje quase em todos os países onde, por seu fraco enraizamento, a ideia democrático-liberal foi facilmente derrotada pelo método fascista. A ideologia da reação pertence, sobretudo, à Itália, embora os intelectuais fascistas se apresentem sob tantos pontos de vista, influenciados pelo nacionalismo de Maurras. A Itália ocupa o primeiro lugar neste movimento, não só porque Gentile, Rocco, Suckert, etc., empreenderam com mais veracidade e originalidade a iniciativa de explicar o fascismo – o que talvez em maior grau corresponda à Giuseppe de Rensi, a quem foi dado, por seus Princípios de Política Impopular o legado de um dos intelectuais pioneiros da reação -, mas porque, no fascismo italiano, a teoria reacionária é filha da prática do golpe de Estado. Suckert, ao menos, desenvolve sua tese com a intensidade de um porrete. A França, que pelo apego de seus tribunos à tradição parlamentar e republicana, ficou satisfeita em chegar ao limiar da ditadura e não se empenhou em produzir, apesar da capacidade de seus intelectuais, uma literatura fascista desvinculada da experiência italiana. René Johannet e Georges Valois devem ser discípulos diretos de Georges Sorel; mas o fascismo italiano coloca entre seus mestres o genial autor de Reflexões sobre a Violência, figura compreendida de formas muito divergentes. Ao proclamar a ordem romana como a lei suprema da civilização ocidental, Henri Massis subscreve um conceito de fascismo italiano, que também vê na latinidade a maior e mais viva reserva espiritual da Europa.

 

Por seu ponto de vista escolástico, em que a fundação da civilização europeia consiste, simples e unicamente na tradição romana, Henri Massis fez uma defesa do Ocidente. Chamemo-la de defesa de ofício; uma vez que a civilização ocidental não parece muito propensa a escolher seu advogado nas fileiras da Igreja Romana.

 

A restauração ambicionada pelo fascismo - se nos atermos às suas alusões retóricas ao Império Romano, sem esquecer que, em sua origem, esse mesmo movimento se manifestava como anticlerical e republicano - é pouco provável, de modo que o destino da civilização ocidental está intrinsecamente ligado à latinidade e ao catolicismo. O dilema de Roma ou Moscou é apenas provisório. Não há nenhuma razão contundente para duvidar que será o capitalismo anglo-saxão que dirá a última palavra da burguesia, no conflito entre o direito romano e o direito soviético.

 

O Ocidente, tão solícito e defendido por Henri Massis, é apenas parcialmente católico e latino. O fenômeno capitalista que domina toda a era moderna foi alimentado pelo pensamento protestante, individualista e liberal, essencialmente anglo-saxão. A Reforma, um fato histórico que Massis repudia ortodoxamente, ainda nutre com sua seiva essa cultura, que o zelo escolástico do escritor francês quer reduzir a uma fórmula romana. Isso é algo que até mesmo um simples romancista, sem excessiva bagagem filosófica, como Paul Morand, conseguiu advertir.

 

Publicado em Variedades: Lima, 29 de outubro de 1927

 

Escrito por José Carlos Mariátegui

 

Traduzido por F. Fernandes

 

Notas

[1] Véase en El Alma Matinal y otras Estaciones del hombre de Hoy, de José Carlos Mariátegui, el articulo ''Maeztu, Ayer y Hoy” (N. De los E.).

[2] Véase en La Escena Contemporánea, del autor, el artícu­lo "El debate de las deudas interaliadas" (N. de los E.).

[3] Véase, del autor, el capítulo "Biología del Fascismo", en La Escena Contemporánea (N. de los E.).

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