Brandão: "Uma Etapa da História de Lutas"

18/01/2018

 

O PCB apresenta uma história viva e heroica, de feitos épicos e valorosos, de combates e batalhas em prol da Pátria e da Humanidade.

 

A história do PCB está exigindo a mais profunda análise crítica, política e ideológica, a interpretação dos fatos e a extração dos ensinamentos – num vasto esforço coletivo, e não meramente individual.

 

As novas gerações brasileiras precisam conhecer a fundo a história do PCB.

 

Em 1924-1928

Penso que o nosso PC realizou uma obra importante em 1924-1928. O problema é vasto. Tratarei de resumi-lo.

 

Em 1924-1928, o PC começou a estudar a realidade brasileira, a compreender certos problemas nacionais e a buscar o caminho da libertação do nosso povo. Pela primeira vez na História do Brasil, o PC caracterizou o imperialismo como capital monopolista e financeiro, denunciou sua penetração no país, apontou o como o inimigo principal, mobilizou contra ele milhares de trabalhadores e chamou todo o povo brasileiro à luta contra o imperialismo. Batalhou, ao mesmo tempo, contra a reação política, a repressão policial e os estados de sítio que se prolongaram de 1922 a 1926. Procurou mostrar a ligação estreita existente entre o imperialismo e a reação brasileira.

 

Nessa etapa da sua História de Lutas, o PC, pela primeira vez no Brasil, desde 1922, fez propaganda das ideias bebidas nos livros de Marx, Engels e Lênin — especialmente sobre a luta de classes, a missão histórica do proletariado, o papel do Estado, o imperialismo, o anarquismo e o reformismo. Levou ideias marxista-leninistas aos sindicatos operários, e à porta das fábricas e oficinas, sobretudo do Rio de Janeiro – tarefa de importância histórica. Publicou, em 1923 e 1924, pela primeira vez na língua portuguesa, o imortal Manifesto Comunista de Marx e Engels.

 

Apoiando se na base granítica dessas ideias, o PC travou, desde 1922, uma batalha dura e difícil, e derrotou o oportunismo de "esquerda" a ideologia e o movimento anarquistas. O anarquismo, em consequência dos próprios erros e dessa luta do PC, perdeu suas ligações com as massas operárias e ficou reduzido a seitas.

 

Em 1924-1928, o PC desfraldou, como sempre, a bandeira do internacionalismo proletário revolucionário e da grande revolução socialista de outubro de 1917 na Rússia. Defendeu a União Soviética "democrática e socialista". Sustentou o movimento nacional libertador dos povos coloniais e dependentes a revolução chinesa de 1925-1927, o povo mexicano contra o imperialismo norte americano e a traição do governo de Calles em 1927, a Nicarágua e os guerrilheiros de Sandino contra a intervenção armada norte americana desde 1927-1928. Atacou o fascismo aliás desde o primeiro momento da marcha de Mussolini sobre Roma e a implantação do fascismo na Itália, em 1922.

 

O PC começou a penetrar no seio das massas. Fundou, em 1925, sob o estado de sítio, como órgão legal, "A Classe Operária" o jornal dos trabalhadores, feito pelos trabalhadores, para os trabalhadores, como ele próprio se intitulava. Iniciou, em 1925, sua reorganização, sobre a base de células nas empresas industriais, principalmente do Rio de Janeiro. Publicou dezenas de jornais de células, impressos.

 

Em 1924-1928, o PC impulsionou o trabalho sindical. Penetrou nos sindicatos operários e reforçou-os. Dirigiu, em 1924, a luta vitoriosa pela conquista do repouso semanal para os padeiros do Rio de Janeiro. Depois de uma luta desigual, mobilizou mais de cinco mil trabalhadores e conseguiu libertar, em 1924, o marítimo José Leandro, condenado a trinta anos de prisão por ser grevista, por ter resistido à polícia e esfaqueado vários beleguins.

 

O PC desbaratou, em 1926, a Frente Única Multicor — bloco ferozmente anticomunista, formado por brancos, amarelos, róseos e rabanetes. Os brancos eram os capitalistas como Geraldo Rocha e Libanio da Rocha Vaz. Os amarelos eram os líderes sindicais reformistas e policiais como Luís Oliveira, então presidente do sindicato dos estivadores. Os róseos eram os dirigentes "socialistas" reformistas como Agripino Nazareth. E os rabanetes eram os anarcoides — vermelhos por fora e brancos por dentro.

 

A Frente Única Multicor pretendia aproveitar o estado de sítio para esmagar o PC e dominar o movimento operário. Foi politicamente liquidada, depois de uma luta áspera. Essa e outras vitórias do PC prepararam o terreno para a criação de várias federações sindicais (regionais e industriais) e para a confederação sindical, fundada em 1929.

 

Nessa etapa da sua história, o PC procurou aliados. Penetrou no seio de alguns grupos de camponeses, sobretudo no interior o Estado de São Paulo. Organizou Ligas Camponesas. Criou o Bloco Operário e Camponês, organização legal de massas. Orientou se no sentido de uma aliança com os revoltosos pequeno burgueses de Copacabana, São Paulo e da Coluna Prestes. Isto se tornou uma realidade, mais de dez anos depois, em 1935, com a Aliança Nacional Libertadora.

 

Tais são alguns aspectos, muito resumidos, da obra do PC em 1924-1928.

 

Infelizmente, o desenvolvimento e a consolidação do PC foram travados pelos desvios de direita. Apesar de todos os esforços e tentativas, o nosso PC não conseguiu compreender o caráter da revolução, suas etapas e forças motrizes. SUBESTIMOU a importância dos camponeses. SUPERESTIMOU o revolucionarismo pequeno burguês em geral e, em particular, a significação dos revoltosos pequeno burgueses de Copacabana, São Paulo e da Coluna Prestes. Colocou à frente o Bloco Operário e Camponês, e não o próprio PC.

 

O autor destas linhas é um dos responsáveis por esses erros. As raízes deles estão na obra de AGRARISMO E INDUSTRIALISMO.

 

Uma Tentativa em 1924

Na vida clandestina, no ambiente de repressão da polícia do marechal Fontoura, comecei a escrever "Agrarismo e Industrialismo" a 28 de julho de 1924, na hora da derrota dos revoltosos pequeno burgueses, quando eles começaram a evacuar a cidade de São Paulo, enquanto no Rio de Janeiro o ambiente era de desânimo.

 

Terminei a obra, no fundamental, menos de um mês depois, a 22 de agosto de 1924. Tirei cópias à máquina e tratei de divulgá-la imediatamente. Escrevi o penúltimo capítulo em 1925, e o último em 1926. Publiquei a sob o estado de sítio, em 1926, com o pseudônimo de Fritz Mayer.

 

O livro foi lido por operários, intelectuais e revoltosos pequeno burgueses — civis e militares.

 

Durante trinta anos nenhum comunista fez a análise da obra. O reacionário Jackson de Figueiredo publicou um artigo sobre ela, manifestando o pavor de que, no Brasil, depois desses ensaios teóricos, viesse um ensaio prático, revolucionário, comunista. Em 1930-1931, os trotskistas, em seu jornal, atacaram na violentamente e consideraram-na um amontoado de erros e absurdos.

 

As Falhas

Fiz a autocrítica muitas vezes: em 1930-1935, em 1938, em dezembro de 1954 e outras ocasiões. Hoje, faço a autocrítica, mais uma vez. Cumpro, assim, um dever para com o PC, a classe operária e o povo brasileiro.

 

A obra "Agrarismo e Industrialismo" é um ensaio sobre o Brasil em geral e o imperialismo em particular, sobre a luta das classes e as insurreições armadas de Copacabana em 1922 e São Paulo em 1924. Apresenta uma série de falhas. Tem desvios materialistas mecânicos, de caráter político, filosófico e ideológico geral.

 

É sabido que o materialismo mecânico não é dialético. Não interpreta os fatos, os fenômenos e os acontecimentos à luz da teoria moderna do desenvolvimento. Interpreta os segundo as leis da mecânica. Faz aplicações mecânicas.

 

Com efeito. O livro considera os movimentos pequeno burgueses de Copacabana e São Paulo como aspectos da luta entre o agrarismo e o industrialismo no Brasil, entre o feudalismo e o capitalismo, entre os grandes proprietários rurais feudais e a grande burguesia industrial. Deste modo, faz uma interpretação mecânica dos movimentos de Copacabana e São Paulo. Transplantando para o Brasil do século XX a concepção da luta entre os feudais e a burguesia durante a revolução francesa, no fim do século XVIII.

 

É sabido que Hegel formulou a questão da tríade — a tese, a antítese e a síntese — do ponto de vista do idealismo filosófico. Em sentido oposto a Hegel, Engels, no Anti-Dühring, mostrou a existência da tríade, do ponto de vista do materialismo dialético.

 

O autor destas linhas leu essa obra de Engels e exagerou o papel da tríade. Fez, em 1924, uma aplicação mecânica e exagerada da tríade materialista, à História do Brasil, págs. 61-63 de AGRARISMO E INDUSTRIALISMO. Não aprofundou a compreensão dessa obra de Engels. E não notou a crítica de Lênin aos exageros da tríade, no livro QUEM SÃO OS "AMIGOS DO POVO"?

 

AGRARISMO E INDUSTRIALISMO não explica uma série de problemas essenciais. Não compreende o caráter e o conteúdo da revolução no Brasil. Não compreende as forças motrizes da revolução. Nem suas etapas. Nem a ligação e a correlação entre as etapas. Nem o desenvolvimento e a transformação da revolução anti-imperialista e antifeudal, em revolução socialista. Como se vê, são falhas fundamentais.

 

O livro SUBESTIMA, de fato, a importância imensa dos camponeses. Subestima a aliança do proletariado com os camponeses. Subestima a hegemonia do proletariado na revolução. De outro lado, SUPERESTIMA o papel dos revoltosos pequeno burgueses de Copacabana, São Paulo e da Coluna Prestes.

 

A primeira revolta teve lugar em Copacabana, a 5 de julho de 1922. A segunda revolta teve lugar em São Paulo, a 5 de julho de 1924. Agrarismo e Industrialismo procura mostrar certos erros desses dois movimentos, preconiza a terceira revolta e a frente única do proletariado, da pequena burguesia urbana e da grande burguesia industrial, contra o imperialismo e o governo de grandes proprietários rurais feudais. Afirma a propósito, pág. 84 do livro: "De qualquer forma, é necessário que a 3ª revolta não repita os erros das duas anteriores: abarque a técnica e a política, o exército e a marinha, o Rio e São Paulo, o Sul e o Norte, o proletariado, a pequena burguesia urbana e a grande burguesia industrial. O proletariado entrará na batalha como classe independente, realizando uma política própria".

 

Esta formulação tem uma falha capital: esquece os camponeses — os aliados principais da classe operária.

 

Em lugar dessa terceira revolta, veio a pretensa “revolução” de 1930. Então, o nosso PC, em vez de corrigir os erros foi completamente desorientado por uma linha política oportunista de "esquerda", pregou a Revolução Soviética imediata, isolou se totalmente das massas populares e sofreu profunda catástrofe.

 

Em outubro de 1930, as massas populares e as forças armadas fizeram muito bem derrubando o triste governo de Washington Luiz e a dominação do imperialismo inglês. Infelizmente, marcharam a reboque da Aliança Liberal e de Getúlio Vargas. Os revoltosos pequeno burgueses de Copacabana, São Paulo e da Coluna Prestes, exceto Luiz Carlos Prestes, também marcharam a reboque, em 1930. Os demagogos, aventureiros e entreguistas como João Neves da Fontoura, apossaram-se do poder. O imperialismo norte americano conquistou posições dominantes até hoje.

 

O autor de AGRARISMO E INDUSTRIALISMO fez muitos esforços, mas, como se vê, sua tentativa saiu com uma série de falhas.

 

É que o autor era e é de origem pequeno burguesa. Tinha em 1924 e hoje ainda tem um conhecimento insuficiente da realidade brasileira. Não encontrou no Brasil nenhuma tradição marxista, que preparasse e adubasse o terreno. Só em 1922 é que, pela primeira vez, leu os livros de Marx, Engels e Lênin. Seus estudos sobre o marxismo eram insuficientes em 1924 — e, hoje mesmo, apesar de todos os esforços ainda são insuficientes.

 

As fontes principais do autor para escrever o livro, foram: O IMPERIALISMO, ESTÁDIO SUPERIOR DO CAPITALISMO e A DOENÇA INFANTIL DO "ESQUERDISMO" NO COMUNISMO, de Lenin; a CIRCULAR DO COMITÊ CENTRAL AOS COMUNISTAS ALEMÃES EM 1850, de Marx; REVOLUÇÃO E CONTRA REVOLUÇÃO NA ALEMANHA, em 1848, de Engels; e a revista "La correspondance Internationale" de Paris.

 

Em 1924, ainda não existia a experiência da revolução chinesa de 1925-1927, que teve importância decisiva como revolução de frente única nacional anti-imperialista num país semicolonial e semifeudal. O autor só pôde aproveitar algo dessa experiência no penúltimo capítulo escrito em março de 1925.

 

Também em 1924, o autor desconhecia trabalhos fundamentais de Lenin e Stalin sobre o problema nacional colonial. Aliás, o discurso capital de Stalin sobre o problema da China só foi pronunciado em agosto de 1927 e divulgado posteriormente.

 

Todos esses fatos, tomados em conjunto, explicam, mas não justificam as falhas.

 

 

por Octávio Brandão, publicado no jornal Imprensa Popular em 20 de janeiro de 1957

 

Tais são os erros principais do autor destas linhas.

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