"A Revolução e as mulheres"

23/11/2017

 

Até ontem no Reichstag e nos Landtag dos Estados federais se jurava solenemente que nós, as mulheres, ainda não estávamos “maduras” para assumir nossa tarefa de cidadãs equiparadas ao lado dos homens. Até ontem “imaturas” para poder decidir a nomeação de um guarda noturno em Buxtehude, hoje, declaradas “maduras”, eleitoras e elegíveis com direitos iguais, já somos capazes de nos pronunciar sobre as decisões mais importantes da vida política do país, e sobre sua ordenação econômica.

 

Na realidade, também as mulheres devem participar, mediante o direito de voto democrático, a elaboração das leis fundamentais que concernem à forma de governo e às instituições do Estado. Esta deve ser a tarefa das anunciadas assembleias nacionais constituintes que terão lugar na “grande” e na “pequena” pátria; contudo, a tarefa principal destas assembleias deveria ser, segundo o desejo das classes possuidoras, o de arrancar o poder político das mãos proletárias em nome da enganosa palavra de ordem “salvaguarda da democracia”, bloqueando com isto a via para a construção de uma autêntica democracia integral.

 

Também as mulheres devem poder se pronunciar sobre esta alternativa: república burguesa ou república socialista ou, em outras palavras: domínio de classe político-formal moderado por parte dos usurpadores da riqueza social, ou o poder político em mãos dos produtores da riqueza social. A política socialista radical que remodele completamente “a antiga, decrépita fazenda”, isto é, o Estado opressor capitalista e a economia de exploração capitalista e a transforme em um sistema socialista, em uma sociedade de livres e iguais; ou uma política de concessões, de harmonia entre burgueses e proletários, uma política sem princípios que recorre a remendos políticos e econômicos com o fim de preservar a sociedade capitalista. Também as mulheres devemos decidir sobre estas alternativas vitais para o povo alemão e em sua decisão ficará demonstrada a maturidade política da mulher!

 

As mulheres alemães não devemos esquecer nunca que nossa equiparação política não é o prêmio a uma luta vitoriosa, mas o resultado de uma revolução levada a cabo pelas massas proletárias, e que levava escrito em seu estandarte: democracia integral e todos os direitos para o povo! Plenos direitos também para as mulheres! Acaso nós, mulheres, não somos povo, a metade do povo, e portanto a metade do sacrifício de milhões de homens ao imperialismo, e nunca como agora a metade maior do povo alemão? E acaso não somos nós, as mulheres, em esmagadora maioria, o povo trabalhador que aumenta a riqueza material e cultural da sociedade? Ao povo trabalhador pertence a operária da fábrica, a empregada e a professora, a pequena camponesa, mas também a ama da casa que, mediante seus cuidados e seu trabalho, prepara e cuida da casa para seus pequenos hóspedes; ao povo trabalhador pertence sobretudo a mãe cuja contribuição tem o maior dos valores: uma descendência saudável e forte de corpo e espírito, cuja obra enriquece o tesouro da humanidade. À margem desta grande comunidade de irmãs somente se encontram aquelas senhoras que vivem às custas da exploração do trabalho dos demais e que carecem de atividade autônoma; estas senhoras não participam no aumento do patrimônio social, mas somente em seu consumo.

 

A revolução deu às mulheres trabalhadoras seus direitos civis sem perguntar antes se a maioria os havia reivindicado, sem averiguar se tínhamos lutado para consegui-los. A revolução tornou possível também que a valente luta dos seus vanguardistas garantisse a capacidade, a vontade de todas para assumir seus deveres de cidadãs.

 

Agora se trata de que as mulheres paguem esta dívida de reconhecimento ante à revolução e demonstrem que a confiança que nelas havia posto é perfeitamente correspondida. Demonstremos nosso orgulho e nossa valentia! Não recebamos sem dar nada em troca; não nos deixemos assustar pelos espectros do passado; pelo contrário, enfrentemos o futuro com ímpeto e decisão.

 

A revolução está ameaçada. Por todo o Reich as forças da reação e da contrarrevolução estão tentando sair do esconderijo em que a revolta das massas lhe obrigou a se refugiar. As classes possuidoras começar a se organizar e se armar para arrancar do povo trabalhador o poder político conquistado. Seus agentes na imprensa, na administração pública, nos parlamentos tomados pela revolução, começam a entrar em cena. Os conservadores estão descobrindo que têm um coração democrático e os democratas burgueses se dão conta de que sua ação deve ser de tipo conservador, para além do limite que determinam os interesses de classe burgueses, o princípio democrático deve abdicar em favor da práxis capitalista. Os inimigos ocultos do poder revolucionário do proletariado são mais perigosos do que os inimigos abertos. A democracia burguesa, esta árida forma jurídica, se prepara para estrangular a vida democracia proletária da qual a revolução foi seu primeiro passo.

 

A reivindicação das assembleias nacionais constituintes para o Reich e para os Estados federais é a folha que deve encobrir a tentativa, por parte das classes possuidoras, de reconquistar o poder político. Partilha do poder político entre todos os estratos e classes da população: como soa bem, como soa justo e democrático!

 

E contudo, a pele de cordeio disfarça o lobo. Somente existem duas possibilidades: ou o proletariado detém todo o poder político para a realização do seu objetivo final: a superação do capitalismo pelo socialismo, ou o proletariado não detém nenhum poder, mas somente uma parte mínima deste para realizar reformas que não ameacem o sistema capitalista, mas que pelo contrário, o reforcem. Uma partilha de poder entre a classe operária e a burguesia sempre acaba desembocando em um domínio da classe burguesa, sempre acaba sendo uma moderada ditadura da classe possuidora e exploradora.

 

O campo de escombros no qual a guerra mundial converteu o sistema capitalista exige de imediato, se o povo trabalhador não quer se ver na ruína, a reconstrução da sociedade sobre bases socialistas. O socialismo, no entanto que teoria social, mas como práxis social, é o imperativo do momento. As tarefas impostas pela aquisição de bens alimentícios e matérias primas, pela desmobilização, pela reconstrução da economia completamente desagregada, somente podem ser realizadas mediante soluções socialistas se queremos que as massas populares não se convertam nas vítimas de uma situação insustentável. O apoio da luta pelo poder político está representado na luta pela ordenação econômica da sociedade. Quem deseje o fim do capitalismo e a chegada do socialismo não deve permitir que o poder político do povo trabalhador fique paralisado pelo poder político dos possuidores, e deve exigir todo o poder para o proletariado. O terremoto político que derrubou o trono e as poltronas dos burocratas devem investir também na economia e matar o capitalismo. A revolução deve continuar avançando!

 

22 de novembro de 1918

 

Clara Zetkin

 

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