A tese de Lenin sobre o socialismo num só país

06/11/2017

 

Frequentemente, trotskistas e outros revisionistas atribuem a Stálin a teoria do socialismo num só país. Contrapoem a teoria do socialismo num só país ao suposto "internacionalismo" de Trotski, que estaria supostamente em ressonância com o "internacionalismo" ortodoxo de Marx e Engels, pois o socialismo seria uma "proposta universal". A teoria do socialismo num só país, atribuída a Stálin, é acusada de "nacionalismo estreito" que seria parte de um "stalinismo" que haveria deturpado e desvirtuado o Marxismo.

 

Mas isso é completamente falso.

 

Estudando a situação da economia do mundo durante a Primeira Guerra Mundial (a primeira grande guerra imperialista que envolveu as principais potências do mundo), Lenin conclui corretamente que as teses que refletiam a realidade do período pré-monopolista do capitalismo, segundo as quais as revoluções proletárias triunfariam primeiramente nos países capitalistas avançados (em particular, Inglaterra e França), haviam se tornado antiquadas num período em que o capitalismo havia deixado de ser exclusividade de poucas potências do ocidente da Europa, não apenas pela ascensão de novas potências imperialistas (Rússia, Japão, Itália) no alvorecer do século  XX, como também pela integração das colônias e semicolônias no âmbito do sistema capitalista mundial. Logo, as revoluções proletárias no período do capitalismo monopolista, imperialista, triunfariam não necessariamente nos países em que estivesse mais desenvolvida a produção capitalista, mas sim nos países que constituíssem o elo fraco do imperialismo, isto é, nos países que congregassem dentro de si as contradições mais terríveis do imperialismo e possuíssem ao menos um grau médio de desenvolvimento capitalista. Segundo Lenin, a época imperialista do capitalismo, que condiciona o desenvolvimento desigual entre os diferentes países do sistema capitalista tanto do ponto de vista econômico quanto político, torna impossível que o socialismo triunfe em todos os países simultaneamente, possibilitando a vitória do socialismo não em todos os países mas apenas num ou poucos países, nos quais a classe operária e as massas trabalhadoras poderiam construir o socialismo por suas próprias mesmo sob um cerco de países capitalistas e pré-capitalistas. Com a construção do socialismo neste ou naqueles países isoladamente, a classe operária vitoriosa daria apoio ao proletariado de outros países na luta contra suas respectivas burguesias e pela construção do socialismo.

 

Esta teoria foi elaborada por Lênin, não por Stálin. Vejamos como o mesmo desenvolve seu raciocínio:

 

"A desigualdade do desenvolvimento econômico e político é uma lei absoluta do capitalismo. Daí decorre que é possível a vitória do socialismo primeiramente em poucos países ou mesmo num só país capitalista tomado por separado. O proletariado vitorioso deste país, depois de expropriar os capitalistas e de organizar a produção socialista no seu país, erguer-se-ia contra o resto do mundo, capitalista, atraindo para o seu lado as classes oprimidas dos outros países, levantando neles a insurreição contra os capitalistas, empregando, em caso de necessidade, mesmo a força das armas contra as classes exploradoras e os seus Estados. A forma política da sociedade em que o proletariado é vitorioso, derrubando a burguesia, será a república democrática, que centraliza cada vez mais as forças do proletariado dessa nação ou dessas nações na luta contra os Estados que ainda não passaram ao socialismo. É impossível a liquidação das classes sem a ditadura da classe oprimida, o proletariado. É impossível a livre unificação das nações no socialismo sem uma luta mais ou menos longa e tenaz das repúblicas socialistas contra os Estados atrasados."

 

Lenin escreve tais linhas no ano de 1915, no artigo "Sobre a Palavra de Ordem nos Estados Unidos da Europa". Sendo assim, que sentido há em atribuir à teoria do socialismo num só país a pecha de "isolacionismo", "nacionalismo estreito", ou mesmo "stalinismo", principalmente quando se leva em conta que, ao formular tal tese, Lenin pressupunha o apoio do proletariado dos países socialistas ao proletariado dos países capitalistas, nos quais estes não haviam ainda tomado o poder e iniciado a construção do socialismo?

 

Desde fins da década de 1910 a meados da década de 1920, Trotski espalhava entre os bolcheviques e revolucionários a tese derrotista (apenas com um verniz de "internacionalismo") segundo a qual a Rússia soviética não teria condições de prosseguir na construção do socialismo sem a vitória da revolução proletária na Alemanha e em outros países da Europa. Argumentando em favor da tese de Lênin e adotando um firme ponto de vista Marxista, Stálin defende a necessidade de os bolcheviques russos concentrarem seus esforços principalmente na recuperação econômica após muitos anos de Guerra Civil imperialista, mas dando ao mesmo tempo todo apoio possível à luta dos operários dos países capitalistas, das colônias e semicolônias. Porém, Trotski e seu grupo se recusaram a realizar a autocrítica devida diante dos erros e terminaram, já no final da década de 1920, expulsos do Partido Comunista da União Soviética por vontade da esmagadora maioria dos militantes do Partido.

 

Apesar de todo verniz "internacionalista", o mundo até hoje segue sem ver o triunfo de qualquer "revolução" que tenha triunfado sob a orientação do Trotskismo.

 

Todavia, sob a direção de Stálin, a quem são atribuídos "nacionalismos estreitos" ou "isolacionismos", a III Internacional Comunista, nas décadas de 1920, 1930 e 1940, teve um importantíssimo papel na fundação de partidos comunistas em quase todos os países do mundo e na vitória da revolução em numerosos países. Sob a direção de Stálin, após o fim da Segunda Guerra Mundial e a derrota do fascismo imperialista, quase todos os países da Europa Oriental e muitos países da Ásia (um terço da população mundial!) se desligaram do sistema capitalista-imperialista e enveredaram pela construção do socialismo.

 

Qual maior exemplo de internacionalismo, senão este? Em essência, a tese de Lenin sobre o socialismo num só país (defendida também, posteriormente, por Stálin) é profundamente internacionalista.

 

 por Carlos Brandão

 

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