Acerca do comentário do companheiro Alceu Luis Castilho

30/10/2017

O companheiro Alceu Castilho cumpre um importantíssimo papel no movimento popular brasileiro, principalmente no que diz respeito às denúncias dos crimes e arbitrariedades cometidos pelos senhores de terras e grandes empresas do agronegócio e mineração contra o campesinato, os assalariados rurais e povos originários. Organiza o site “De Olho nos Ruralistas” para expor semelhantes denúncias e escreveu o importante livro “Partido da Terra”, no qual desnuda as relações promíscuas existentes entre os altos funcionários do Estado brasileiro e o latifúndio. Realizamos estudos coletivos deste livro, sempre o indicamos a todos os amigos e amigas que queiram compreender melhor sobre o assunto, e, além disso, sempre utilizamos todas suas obras para fundamentar muitos de nossos posicionamentos sobre o problema agrário-camponês no Brasil e também levarmos a cabo denúncias políticas.

 

Porém, no dia 28 deste mês, em sua página de Facebook, o companheiro Alceu fez um comentário do qual discordamos inteiramente, e diante do qual gostaríamos também de tecer comentários em prol de um debate fraterno, em busca da verdade.

 

No seu comentário, Alceu se diz horrorizado com textos em defesa de Stálin, que Stálin e Hitler seriam, ambos, nada mais que dois genocidas, embora ao menos reconheça que defender Stálin não é, de fato, o mesmo que defender Hitler. Coloca que seria “difícil imaginar alguém de esquerda que não tenha ouvido falar do massacre de milhões de camponeses, ou da execução daqueles que apenas pensavam de forma diferente do ditador”, e que “talvez falte a muita gente coragem de repudiar essa movimentação com todas as letras. Porque conviveu com tais e tais stalinistas no movimento estudantil, porque não quer perder amigos no Facebook [...]”.

 

O companheiro Alceu certamente conhece sobre a situação da Rússia antes da Revolução de 1917, de como um povo esfomeado e empobrecido verteu seu sangue, suor e disposição para destruir o velho regime czarista e capitalista – esse sim, genocida – que, cem anos depois, os povos oprimidos de todo o mundo se esforçam para enterrar. As velhas classes dominantes de senhores de terras, industriais, comerciantes, imperialistas, etc., evidentemente não aceitaram a perda de seus privilégios e impuseram sobre a jovem Rússia soviética, a partir de 1918, uma sangrenta agressão militar na qual tomaram parte 14 países do mundo capitalista na tentativa de esmagar moral e mesmo fisicamente o povo russo que se engajava na construção da nova sociedade. A Rússia, que já saíra da Primeira Guerra Mundial aos pandarecos, teve de enfrentar um ônus redobrado, ou mesmo triplicado, com a invasão dos imperialistas em 1918. Num contexto em que o país, devido à destruição da Primeira Guerra, já não tinha uma indústria para que pudesse produzir em suficiência bens manufaturados e trocá-los por alimentos produzidos pelos camponeses ao estilo comercial, e ao mesmo tempo tinha de alimentar um enorme exército e também a população urbana para que pudesse ao menos sair vivo depois da invasão dos imperialistas, teve de proceder ao confisco dos excedentes agrícolas produzidos pelo campesinato, o que sem dúvidas agravou a situação dos mesmos, embora não houvesse outra alternativa diante de um momento tão conturbado. Para completar, os “Guardas Brancos” reacionários, aliados dos imperialistas estrangeiros e que buscavam a todo custo a restauração do czarismo, levavam a cabo a sabotagem da produção nas fábricas e nas lavouras, assassinavam trabalhadores e executavam atentados terroristas contra dirigentes da Revolução.

 

O saldo da Guerra Civil de 1918-1922 foi de 6 milhões de mortes. Importante frisar: as crises inevitáveis de fome e a miséria do povo russo, causadas pela guerra, foram retratadas em ilustrações por fotógrafos de todo o mundo. Nos tempos atuais, o governo fascista ucraniano, que resultou de um sangrento Golpe de Estado executado no ano de 2014, ergue dezenas ou mesmo centenas de museus e monumentos para se referir às “mortes do stalinismo”, aos “milhões de mortos pelo regime de Stálin”, mas é muito curioso que as fotos utilizadas para retratar as “vítimas de Stálin” pelas “crises de fome” da década de 1930 sejam fotos da Guerra Civil de 1918-1922, e não dos anos 1930. Para manchar o nome de Stálin e lhe atribuir novamente a alcunha de genocida, utilizam fotos até mesmo das crises de fome que eclodiam nos Estados Unidos no período da crise de 1929, razões estas pelas quais, pensamos nós, devemos sempre ter ao menos dois pés atrás com tais “informações”, ainda mais num período às vésperas do centenário da Revolução de Outubro, quando a indústria do anticomunismo utilizará toda munição que possa para sujar perante as massas não apenas a imagem dos comunistas, como também de todos os democratas, socialistas e defensores dos direitos populares.

 

Como observamos, o companheiro Alceu realiza um excelente trabalho de denúncia também acerca das violações dos direitos dos povos originários em nosso país. Denunciou no ano passado o Massacre de Caarapó ocorrido contra os Guarani-Kaiowá, no interior do Mato Grosso do Sul, assim como o Massacre de Lençóis, ocorrido em meados desde ano contra camponeses quilombolas do sertão da Bahia. E segue denunciando não apenas as matanças e violações dos direitos econômicos, como também o racismo generalizado que a classe latifundiária procura espalhar contra esses povos, considerando-os como raças inferiores.

 

Tal como o Brasil, a Rússia também abriga dezenas ou mesmo centenas de povos originários indígenas, não-russos, como os uzbeques, tadjiques, quirguizes, tártaros, georgianos, armênios, buryats, turcos, ucranianos, etc., etc. Antes da Revolução de 1917, a Rússia era conhecida como uma “prisão dos povos”. O czarismo ensinava a população russa a ver nos povos não-russos raças inferiores, as quais eram submetidas a um verdadeiro regime de apartheid social, étnico, econômico. O czarismo procedia no sentido de “russificar” tais populações, proibia que as mesmas falassem seu idioma nativo. Os cargos públicos do funcionalismo só podiam ser assumidos por funcionários russos. O próprio Stálin não era russo, mas nascera entre um povo indígena não-russo, o georgiano, e sofrera na pele o racismo no período czarista. Após a Revolução de 1917, tal situação muda, porém, radicalmente, e principalmente durante o governo de Stálin. Os comunistas, sob a direção de Lênin e Stálin, ergueram ao nível de política de Estado o combate ao chauvinismo russo e tomaram uma série de medidas para se colocar fim ao racismo contra estas populações, estimular estes idiomas e culturas nacionais, e também para se acabar com a brutal desigualdade de desenvolvimento existente entre a Rússia e os territórios das populações não-russas. Estas receberam grandes extensões de terras sob diversos programas de reforma agrária, para que pudessem se libertar da exploração do patriarcalismo e do feudalismo. De nações agrárias que eram, industrializaram-se de forma acelerada para que pudessem conquistar sua independência econômica e melhorar as condições de vida das populações, produzindo por suas próprias forças os bens que consumiam.

 

Podemos concluir que não apenas os latifundiários, como também o próprio governo brasileiro, adota com relação aos povos originários uma política muito mais semelhante à do czarismo russo que à do governo de Stálin. Longe de demarcar as terras destes povos, arranca-lhes as terras e as concede a preço de banana às grandes multinacionais. Longe de estimular a cultura nativa destes povos originários, adota a política racista do “integracionismo” na perspectiva que considera as culturas e os modos de vida destes povos como inferiores. Ora, se as atitudes com relação aos povos originários adotadas pelo governo de Stálin nada têm a ver com as políticas do governo burguês e latifundiário brasileiro, por que ir muito além e compará-lo não com o governo golpista, mas com Hitler?

 

Quando se acusa Stálin de intransigência, ou de falta de tolerância com opiniões antagônicas ou mesmo somente divergentes, é importante ter acesso a documentos artigos como “Anarquismo ou Socialismo?”, “Problemas Econômicos do Socialismo na URSS”, “Entrevista com G. H. Wells”, escritos pelo próprio Stálin em forma de polêmica, nas quais ele argumenta e polemiza contra as críticas que lhe são feitas por posições tomadas, e nesses documentos observa-se a capacidade de Stálin no terreno argumentativo, na maneira como o mesmo, de forma franca, aberta e honesta, lida com as posições de seus opositores. A última coisa que se espera de uma pessoa intransigente ou intolerante é a capacidade de argumentar e se defender das acusações que lhe são feitas mediante a palavra e a retórica honesta.

 

As vozes que no Brasil se levantam para atacar os camponeses sem-terra organizados, apresentando-os falsamente como vagabundos, bandidos, invasores, ou que apresenta os povos indígenas e quilombolas como preguiçosos e inferiores, são as mesmas vozes que se levantaram no passado e que até hoje se levantam para apresentar o governo de Stálin e toda sua obra política nada mais como desastres, genocídios, atentados à liberdade de expressão. Os Goebbels de ontem são os William Waack de hoje. As mesmas empresas que atualmente conduzem práticas anti-sindicais contra os operários brasileiros, que grilam as terras das populações rurais e arrasam o meio ambiente em prol do lucro de uma meia dúzia, são as mesmas que no passado despejavam bilhões para financiar a indústria midiática do anticomunismo e criar uma áurea de satanização em torno da figura de Stálin.

 

Na opinião da NOVACULTURA.info, nesta disputa antagônica não pode haver meio termo. Por esse motivo, temos a convicção de que a trincheira das causas populares, dos operários, camponeses, estudantes, indígenas, etc., na qual o companheiro Alceu Castilho se situa, é a mesma trincheira na qual combateu o dirigente Josef Stálin – embora Alceu, no fundo, tenda a negar – e na qual se situam atualmente os comunistas e todas as pessoas honestas e amantes da paz do mundo. Do outro lado, invariavelmente, está a trincheira dos grandes capitalistas, financistas, agronegocistas, agiotas, feudais e todos abutres que tratam os povos do mundo com uma brutalidade deplorável.

 

Do NOVACULTURA.info

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