Explicando a exploração aos trabalhadores

28/08/2017

 

(Trecho de uma conversa entre um comunista e um pequeno grupo de operários de uma grande empresa rodoviária brasileira)

 

Vocês agora tão muito insatisfeitos com a situação daqui da empresa. Nesses últimos anos aí que passaram, demitiram quase todos os cobradores daqui, agora vocês cumprem a dupla-função, trabalhando muito mais e ganhando a mesma coisa, e além disso ainda tá rolando uma fofoca por aí de que a empresa vai terceirizar 100% dos motoristas, vão demitir vocês e colocar outros pra trabalhar por metade do salário. Como vão fazer pra sustentar a família de vocês sem terem emprego? Vocês vão ficar sem receber, mas as contas vão continuar vindo, os juros subindo, e onde isso vai dar? Vão passar fome? E vocês ainda se encontram numa situação em que não sabem o que fazer, porque ao mesmo tempo que sabem que a empresa tá cagando e andando pra vocês, vocês sabem muito bem que não podem pedir a conta da empresa e procurarem emprego em outro canto, porque provavelmente tá mais fácil morcego doar sangue do que conseguir um emprego numa outra empresa com o salário inicial igual ao salário que vocês recebem agora.

 

Acho que esse momento de incerteza e de dificuldade que não é só vocês que tão vivendo, mas todo o país passa por isso por causa da crise, pode ser um momento pra gente refletir sobre o que a gente pode fazer pra mudar essa situação, e como que a gente chegou a isso. Eu ia sugerir começarmos uma discussão sobre uma greve, mas isso é um ponto delicado, porque o sindicato e os pelegos vivem em cima, e qualquer coisinha já mandam pra empresa pra demitir, e além disso a gente sabe que a empresa paga gente entre os próprios motoristas pra serem dedo duro. Provavelmente também a empresa vai alegar que não tem recurso pra aumentar salário nem uma alternativa que não seja terceirizar vocês.

 

Se vocês fazem uma greve, ou só reclamam entre vocês que vocês trabalham muito pra ganhar pouco, a empresa logo fala que vocês são vagabundos, que não querem trabalhar. E que além disso, são mal agradecidos, porque são eles que tão dando emprego e gerando emprego pra vocês, e que se não fossem eles, os patrões, vocês nunca conseguiriam emprego nem sustentar a família de vocês. Eles dizem que são eles que garantem o sustento da família de vocês, e os pelegos falam a mesma coisa. Mas vocês sabem muito bem principalmente pelo que vem acontecendo, que isso é lorota, conversa pra boi dormir.

 

São eles mesmos que tão dando emprego pra vocês? Vamos ver só. Eu fiz as contas tudo. Vocês aqui trabalham 10, 11, 12 horas por dia, e os que ganham mais daqui de vocês têm um salário lá de 3, 3,5 mil reais. Os que trabalham 7h20, a menor jornada, ganham 2 mil, 2,5 mil reais. Isso tudo vocês sabem. Mas reparem bem, depois que vocês passam o dia todo dirigindo o ônibus, trabalhando, enfrentando todo tipo de dificuldade, risco de acidente e tudo mais, vocês vão bem de noite na garagem fazer o “acerto”. Todo santo dia vocês deixam lá 500, 600 reais, só dos pagantes. Se pegar junto com o pessoal que paga em cartão, é provável que a maioria de vocês que faz a tabela de 11h ou 12h por dia deixa todo dia mais de mil reais pra empresa. Porra, só com os descontos no holerite de vocês, os motoristas que ganham mais, os mais bem remunerados, ganham 1,1 mil, 1,2 mil reais por mês de salário líquido, livre, sem os descontos. Os que fazem a tabela de 7h20 só ganham 400 ou 500 conto por mês. Isso significa que num dia só de trabalho, vocês dão mais dinheiro pra empresa do que ela dá pra vocês no mês inteiro. É a empresa que tá dando emprego pra vocês, ou vocês que tão dando dinheiro pra empresa? Dá pra ver mais ou menos por aí que não é a empresa que tá garantindo o sustento da família de vocês, mas sim vocês que tão enchendo o bolso dos donos da empresa pra eles comprarem apartamentinho na Paulista, andar de Hilux, BMW e os caralho todo. Mas vamos pegar o salário bruto de vocês, os 3,5 mil reais por exemplo. Todos vocês aqui, numa média, todo santo mês, deixam mais ou menos 27 mil reais pra a empresa, só com o trabalho de vocês. E a empresa diz que paga um salário justo, pelo trabalho de vocês, que ela paga vocês pelo trabalho, pelo quanto vocês trabalharam. Mas se todo mês vocês deixam lá na garagem 27 mil reais, por que vocês tão recebendo só 3,5 mil reais? Se fosse pra pagar vocês pelo quanto vocês trabalharam, era pra a empresa todo mês estar pingando na conta de vocês 27 mil reais, não 3,5 mil. Isso mostra outra coisa também: que vocês não recebem pelo trabalho de vocês, aliás, muito longe disso. Vocês recebem muito, muito menos mesmo pelo que vocês realmente trabalharam, e essa não é uma situação só dessa empresa, mas de todas as empresas daqui desse país. Mas a empresa pode muito bem chegar e dizer que desses 27 mil reais que vocês dão todo mês pra empresa, na verdade boa parte não são vocês que dão com o trabalho de vocês, porque é a empresa que gasta o dinheiro comprando os ônibus, comprando combustível, fazendo a manutenção nos carros e tudo mais. Só que aí a gente pergunta: de onde eles tiraram e tiram dinheiro pra comprar mais combustível, pra botar mais carros na linha, pra fazer a manutenção neles? É do próprio trabalho de vocês. É vocês, com o trabalho de vocês todos da empresa, que deram todo o dinheiro pra que a empresa pudesse comprar mais carros pra fazer mais linha, pra manter o combustível, etc. Vocês podem se perguntar “ah, mas se eu não ganho pelo meu trabalho, ganho pelo quê afinal?” O que a empresa paga pra vocês é o que ela entende como sendo o suficiente pra manterem vocês como trabalhadores mal remunerados, como mão de obra barata (do jeito que eles falam). Vocês ganham pelo que é suficiente pra vocês serem trabalhadores mal remunerados pelo resto da vida, e também pra que a vida dos filhos de vocês no futuro não seja tão diferente. A empresa nunca iria pagar vocês pelo quanto vocês realmente trabalham, porque aí não iam conseguir enriquecer. E também nunca iriam pagar pra vocês um salário com o qual, por exemplo, vocês conseguissem fazer uma poupança e abrir uma empresa de vocês mesmos, porque aí vocês nunca ficariam interessados em ficar na empresa, muito menos trabalhando no ritmo que vocês trabalham. Quanto é a essa questão do quanto vocês trabalham, acho que tem outra coisa sobre a qual acho interessante falar.

 

Provavelmente desde pequenos, todo mundo aqui escuta aquilo que sempre falam, de que quanto mais duro na vida você der, melhor você vai viver, que ralando muito você vai viver bem, ter as coisas, dar uma vida boa pra a família, e tudo mais, é o que costumam falar. E a empresa também fala isso pra vocês, fala que quanto melhor tá a empresa, melhor vocês vão estar, mais vão receber. Eles até todo ano dão pra vocês um dinheiro da participação nos lucros, pra dizer que quanto mais a empresa ganhar, mais vocês vão receber. Eu andei pensando e fiz as contas sobre isso também. O Antônio aqui, por exemplo, diz que em média todo dia ele carrega 200 passageiros. E se todo dia ele carregar 200 passageiros, num mês vai carregar 5,2 mil passageiros. Se a gente comparar o quanto ele carregou de passageiros pra o quanto ele recebe, ele recebe 67 centavos pra cada passageiro que ele carrega. Mas pelo que ele me disse e pelo que vocês todos disseram também, desde que acabaram as férias o movimento tem aumentado, tem mais gente pegando transporte, etc. Vocês tão carregando mais passageiros, mas o salário não aumentou. Se a gente pegar o exemplo do Antônio, na maioria dos dias ele tá agora carregando 300 passageiros todo dia, e nesse caso, em relação ao quanto ele trabalhou, o salário dele caiu pra 44 centavos por passageiro. Nos dias de maior movimento, quando ele e vocês carregam 400 passageiros pra cima, o salário despenca pra só 33 centavos por passageiro, metade do que vocês ganhavam quando carregavam 200 passageiros. Vocês tão trabalhando hoje em dia o dobro do que vocês trabalhavam antes, mas tão ganhando metade do que ganhavam. Isso mostra também outra coisa, de que é mentira, mentira mesmo isso que a empresa fala, de que quanto mais dinheiro eles ganharem, melhor vocês vão estar. Na verdade, não só aqui mas em todas as empresas desse país, quanto mais vocês trabalham, menos vocês ganham. Ou seja, quanto mais dinheiro o patrão ganha, mais pobres vocês ficam. E esses caras são tão canalhas, tão filhos da puta, que não deixam muito pra onde vocês correrem, porque vocês não ganham menos só quando vocês trabalham mais, mas também ganham menos quando trabalham menos. Vocês andaram falando ultimamente que nos últimos meses de férias, quando o movimento tava menor, a empresa reduziu o dia de serviço de todo mundo pra 7h20, e vocês que trabalhavam 12h por dia tiveram uns descontos de 400 a 500 reais no holerite, ou seja, só estavam ganhando líquido uns 800 ou 900 reais por mês em média. De qualquer jeito, trabalhando mais ou trabalhando menos, a tendência do salário de vocês e de todos os funcionários da empresa (com exceção talvez dos diretores, dos gerentes) é sempre cair.

 

Como a gente tinha comentado também, isso não acontece só aqui na empresa de vocês. Nas outras empresas de ônibus é assim do mesmo jeito, nas fábricas é assim, nas usinas é desse jeito, no comércio é assim, e isso vocês sabem bem. Mesmo nas empresas que pagam melhor os funcionários, mesmo em empresas onde não tem atraso de pagamento nenhum e tudo acontece certinho, essa situação também acontece. Isso é uma amostra de que o assalariado vai enfrentar essa situação independente de ele ficar na empresa x ou na empresa y, ainda que possa ter diferenças de salários entre as empresas. Independentemente do que for decidido sobre o que se deve fazer, como vão se organizar pra lutar contra essa exploração horrível, o que penso que é unânime entre a gente é que deve haver organização, e que diante de tudo isso que a gente descreveu, o trabalhador comum, o assalariado, só tem uma única arma pra lutar contra a exploração do patrão, que é a organização. No decorrer da conversa, a gente pode ir falando mais sobre isso.

 

Agosto de 2017

 

 

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