A Teoria do Valor: significado, magnitude e formas

28/06/2017

 

Apresentação

O presente trabalho é um esforço de sistematização e apresentação da teoria do valor tal como é discutida na obra O Capital (1867) de Marx. Sua finalidade inicial era de servir ao fim exclusivamente pessoal de ser uma ferramenta de estudo do pensamento econômico marxista.  Entendemos, porém, a importância didática de tal ferramenta. Acreditamos que ele possa contribuir de alguma maneira para estudantes universitários e outras pessoas que, assim como nós, estão interessados em se iniciar na investigação da história econômica. A teoria do valor é o pilar fundamental de toda teoria econômica marxista, e, segundo o próprio Marx, encontra-se nela a sua maior dificuldade. [1] Assim, antes de realizarmos uma análise dos conceitos e material que compõem a ciência econômica, apresentamos esse estudo inicial sobre o valor.

 

Valor-de-uso e valor; os dois fatores da mercadoria

No primeiro capítulo de sua obra O Capital, Marx propõe iniciar sua investigação através da análise da mercadoria. Isto porque, “A riqueza das sociedades onde rege a produção capitalista configura-se em ‘imensa acumulação de mercadorias’, e a mercadoria, isoladamente considerada, é a forma elementar dessa riqueza” [2].

 

Valor-de-uso

A mercadoria é, em primeiro lugar, “um objeto externo, uma coisa que, por suas propriedades, satisfaz necessidades humanas, seja qual for a natureza, a origem delas, provenham do estômago ou da fantasia”. Essa coisa útil pode ser considerada “segundo qualidade e quantidade” [3].

“A utilidade de uma coisa faz dela um valor-de-uso”. Tal utilidade “é determinada pelas propriedades materialmente inerentes à mercadoria” e, por isto, “só existe através delas”. Essa característica da mercadoria não depende da quantidade de trabalho, porém, sempre se pressupõe quantidades definidas ao se tratar dos valores-de-uso. Os valores-de-uso são o conteúdo material da riqueza em todas as eras, e na sociedade capitalista são ao mesmo tempo, “os veículos materiais do valor-de-troca” [4].

 

Valor  

“O valor-de-troca revela-se, de início, na relação quantitativa entre valores-de-uso de espécies diferentes, na proporção em que se trocam” [5], daí a sua aparência puramente relativa. Porém, a despeito de sua aparência relativa, “os valores-de-troca vigentes da mesma mercadoria expressam, todos, um significado igual”, além disso, “o valor-de-troca só pode ser a maneira de expressar-se, a forma de manifestação de uma substância que dele se pode distinguir”. Toda relação de troca entre mercadorias é uma expressão de igualdade, a expressão da existência de algo comum em duas coisas diferentes. Essa coisa comum não pode ser uma propriedade material das mercadorias, que só lhes interessa ao concede-lhes valores-de-uso. “Como valores-de-uso, as mercadorias são, antes de mais nada, de qualidade diferente; como valores de troca, só podem diferir na quantidade, não contendo, portanto, nenhum átomo de valor-de-uso” [6]. Ao prescindirmos do valor-de-uso, só resta as mercadorias a propriedade de ser produto do trabalho. Ainda assim, de um trabalho que já passou por uma modificação; remove-se o caráter útil destes trabalhos, transformando-os em trabalho humano abstrato. Os produtos deste trabalho humano abstrato são “a massa pura e simples do trabalho humano em geral”; “passam a representar apenas a força de trabalho humana gasta em sua produção, o trabalho humano que nelas se armazenou”. Assim, “Na própria relação de permuta das mercadorias, seu valor-de-troca revela-se, de todo, independente de seus valor-de-uso. Pondo-se de lado o valor-de-uso dos produtos do trabalho, obtém-se seu valor como acaba de ser definido” [7].

 

A grandeza do valor é medida pela quantidade de trabalho contida em uma mercadoria. A quantidade de trabalho é medida por sua duração e essa por frações do tempo, como horas e dias. Pode-se pensar daí que a mercadoria de um trabalhador inábil custaria mais, pois ele demoraria mais para produzi-la, porém, “O que determina a grandeza do valor [...] é a quantidade de trabalho socialmente necessária ou o tempo de trabalho socialmente necessário para a produção de um valor-de-uso”. Marx nos explica que o “Tempo de trabalho socialmente necessário é o tempo de trabalho requerido para produzir-se um valor-de-uso qualquer, nas condições de produção socialmente normais existentes e com o grau social médio de destreza e intensidade do trabalho” [8]. Devido ao fato de o tempo médio necessário para a produção de uma mercadoria variar constantemente, o valor de uma mercadoria também deve variar. “A grandeza do valor de uma mercadoria varia na razão direta de sua quantidade e na inversa da produtividade do trabalho que nela se aplica” [9].

 

“Uma coisa pode ser valor-de-uso sem ser valor. É o que sucede quando sua utilidade para o ser humano não decorre do trabalho” [10], da mesma maneira que, “Uma coisa pode ser útil e produto do trabalho humano sem ser mercadoria” [11], a medida em que o valor-de-uso deve ser criado para outrem e ainda transferido a esse por meio da troca para que seja uma mercadoria. Por fim, nenhuma coisa pode ser mercadoria se não é útil [12].

 

O trabalho em seu caráter duplo

Assim como a mercadoria, o trabalho também possui um duplo caráter: “quando se expressa como valor, não possui mais as mesmas características que lhe pertencem como gerador de valores-de-uso”[13]. Foi Marx quem primeiro penetrou nessa dupla natureza do trabalho, essencial para a compreensão da ciência econômica [14].

 

Trabalho útil

O trabalho, ao produzir um valor de uso, é trabalho útil. Tendo em vista a diversidade dos valores-de-uso, diferem, também, qualitativamente os trabalhos que lhes dão origem; não sendo, esses produtos, valores-de-uso frutos de trabalhos qualitativamente diversos, não são mercadorias: “valores-de-uso idênticos não se trocam”. A divisão social do trabalho “é condição para que exista a produção de mercadorias”, ainda que “a produção de mercadoria não seja condição necessária para a existência da divisão social do trabalho”. Numa sociedade baseada na produção de mercadorias, “essa diferença qualitativa dos trabalhos úteis executados, independentes uns dos outros, como negócio particular de produtores autônomos, leva a que se desenvolva um sistema complexo, uma divisão social do trabalho”[15]. Porém, o trabalho útil, como atividade produtiva que gera um valor-de-uso especifico, independe da divisão social do trabalho. Isso porque, o trabalho útil é indispensável a vida do homem, não importa qual seja a forma de sociedade, ele “é necessidade natural e eterna de efetivar o intercâmbio material entre o homem e a natureza e, portanto, de manter a vida humana”[16].

 

Trabalho humano em geral

Ao pôr-se de lado o caráter útil do trabalho resta o fato dele ser dispêndio de força humana de trabalho. Trabalhos qualitativamente diversos são ainda assim dispêndio de faculdades humanas. “O valor da mercadoria [...] representa trabalho humano simplesmente, dispêndio de trabalho humano geral”. O trabalho humano mede-se pelo trabalho simples médio. Marx explica essa categoria como “dispêndio da força de trabalho simples, a qual, em média, todo homem comum, sem educação especial, possui em seu organismo”. O trabalho simples médio é dado numa determinada sociedade, a despeito de suas variações de país para país ou de estágios de civilização. Todo trabalho qualificado ou complexo pode ser reduzido a trabalho simples, e tem neste sua unidade de medida. Ele “vale como trabalho simples potenciado ou, antes, multiplicado” [17]. A redução do trabalho complexo em trabalho simples se dá constantemente e por um processo social inconsciente, parece estabelecido pelo costume. A diferença dos valores de duas mercadorias explica-se pela diferença da quantidade de trabalho que elas contem. Marx analisa que, diferente do que acontece com o valor-de-uso, para o qual interessa o trabalho do ponto de vista qualitativo, “do ponto de vista da grandeza do valor só interessa quantitativamente”. Assim, para um caso “importa saber como é e o que é o trabalho”, mas para outro, “ sua quantidade, a duração de seu tempo”. Em determinadas proporções as mercadorias possuem valores iguais, uma vez que “a grandeza do valor de uma mercadoria representa apenas a quantidade de trabalho nela contida”[18]. O valor da mercadoria varia de acordo com a variação da produtividade do trabalho. O aumento da riqueza material é gerado pela maior quantidade de valor-de-uso; porém, o aumento da riqueza material pode corresponder a diminuição do valor. Isso acontece, por conta do duplo caráter do trabalho. “Produtividade é sempre produtividade de trabalho concreto, útil, e apenas define o grau de eficácia da atividade produtiva adequada a certo fim, em dado espaço de tempo”. Por isso, “O trabalho útil torna-se [...] uma fonte mais ou menos abundante de produtos, na razão direta da elevação ou da queda da produtividade”. Mas, “Qualquer que seja a mudança na produtividade, o mesmo trabalho, no mesmo espaço de tempo, fornece sempre a mesma magnitude de valor”. O resultado disso é que a “mesma variação da produtividade que acresce o resultado do trabalho e, em consequência, a massa dos valores-de-uso que ele fornece reduz a magnitude do valor dessa massa global aumentada quando diminui o total de tempo do trabalho necessário para sua produção”[19].

 

A forma do valor: da forma simples ao dinheiro

As mercadorias patenteiam-se mercadoria na medida em que possuem uma dupla forma, a material (natural) e a de valor (social). A “coisa-valor” não possui nenhum átomo de matéria, “se mantem imperceptível aos sentidos”. Isso porque ela é “uma realidade apenas social”, que só pode se manifestar “na relação social em que uma mercadoria se troca por outra”[20]. Importa voltar a forma de manifestação do valor, o valor-de-troca, cuja forma comum é o dinheiro. Nesse ponto, Marx demonstra todo o folego da sua investigação científica se propondo a fazer aquilo que nunca se propôs a fazer a economia burguesa, elucidar a gênese da forma dinheiro. Seu método, para tanto, é acompanhar o desenvolvimento da forma do valor, desde sua expressão mais simples. Ele define, em primeiro lugar, a forma mais simples da relação de valor, como “a que se estabelece entre uma mercadoria e qualquer outra mercadoria de espécie diferente”[21].

 

A forma simples do valor e seus dois polos

A forma simples do valor expressa-se na equação: x da mercadoria A = y da mercadoria B, ou x de mercadoria A vale y de mercadoria B. [22] Para Marx: “Todo segredo da forma do valor encerra-se nessa forma simples do valor”. A primeira mercadoria na equação “se encontra sob a forma relativa do valor”, enquanto a segunda, “tem a função de equivalente ou se acha na forma de equivalente”. Marx explica que, a forma relativa do valor e a forma de equivalente “se pertencem uma à outra, se determinam, reciprocamente, inseparáveis, mas, ao mesmo tempo, são extremos que mutuamente se excluem e se opõem, polos da mesma expressão do valor” [23]. Assim, pois, a forma relativa do valor de uma mercadoria só pode ser expresso relativamente em outra, pressupondo, que alguma outra forma se contrapõe a ela. Porém, “essa outra mercadoria que figura como equivalente não pode achar-se, ao mesmo tempo, sob a forma relativa do valor”[24]. Ela não expressa seu valor, somente fornecendo o material para que outra mercadoria o faça. Ainda que a expressão compreenda a relação inversa, temos de inverter a equação; dessa forma, o equivalente passa a ser A e não B. Na mesma expressão, A não pode aparecer sob as duas formas.

 

A forma relativa do valor: significado e quantificação

Dois objetos diferentes somente são comparáveis, segundo sua quantidade, quando convertem-se em uma mesma coisa; só são comensuráveis como expressão da mesma substância, que as torne grandezas homogêneas. Marx afirma que, ao dizermos que, “como valores, as mercadorias são trabalho humano cristalizado”, nossa análise as reduz a “uma abstração, a valor, mas não lhes dá forma para esse valor, distinta de sua forma física”. Mas a coisa muda quando se trata da relação de valor entre duas mercadorias. “Aí a condição de valor de uma se revela na própria relação que estabelece com a outra”[25]. Não é suficiente expressar o caráter especifico do trabalho que cria o valor de uma mercadoria. “A força humana de trabalho em ação ou o trabalho humano cria valor, mas não é valor”. Ele só vem a ser valor “quando se cristaliza na forma de um objeto” e para expressar o seu valor, como massa de trabalho humano, temos de o expressar como algo que tem existência material diversa da sua, sendo, ao mesmo tempo “comum a ele e a todas as outras mercadorias”[26]. Voltando a nossa equação: B, na sua relação com A, é considerado apenas como depositório de valor, valor corporificado, ou, encarnação do valor. Ou seja, o valor assumi as suas características corpóreas. O valor de uma mercadoria é expressa, assim, pelo valor-de-uso de outra. Dizemos que, como valor-de-uso, a mercadoria B se distingue da A, como valor, revela-se ao adquirir a aparência de A [27].

 

Marx sintetiza o significado da forma relativa do valor na seguinte passagem:

"Por meio da relação de valor, a forma natural da mercadoria B torna-se a forma do valor da mercadoria A, ou o corpo da mercadoria B transforma-se no espelho do valor da mercadoria A. Ao relacionar-se com a mercadoria B como figura do valor, materialização de trabalho humano, a mercadoria A faz do valor-de-uso B o material de sua própria expressão de valor. O valor da mercadoria A, ao ser expresso pelo valor-de-uso da mercadoria B, assume a forma relativa."[28]

 

Entretanto, a forma do valor não exprime somente valor em geral, mas valor em uma determinada quantidade ou magnitude. Na relação de valor da mercadoria A com a mercadoria B, a mercadoria B equipara-se a A não só qualitativamente, mas também em termos quantitativos. A x A iguala-se determinada quantidade corpórea do valor ou do equivalente, y B. Nossa equação pressupõe que no primeiro termo existe substancia de valor em proporção igual à que encontramos no segundo [29]. Marx analisa a influência da variação da produtividade do trabalho sobre a expressão da magnitude do valor, buscando soçobrar as mistificações dos economistas vulgares sobre a teoria do valor. Ele conclui que, a verdadeira variação da magnitude do valor “não se reflete, portanto, clara e completa em sua expressão, isto é, na equação que expressa a magnitude do valor relativo”[30]. Dessa forma, Marx rebate as conclusões, como as de Broadhurst, que retiram dessa variação sua refutação das doutrinas que asseveram ser o valor de um artigo regulado pelo trabalho e pelo seu custo.

 

A forma de equivalente e suas propriedades

Marx demonstra que “a mercadoria assume a forma de equivalente, por ser diretamente permutável por outra”[31]. O valor das mercadorias permanece, independente da forma do valor, determinado pelo tempo necessário à sua produção. Porém, quando uma mercadoria assume a forma de equivalente, não adquire o seu valor uma expressão quantitativa, mas sim, torna-se a expressão quantitativa de uma coisa. Por isto, Marx afirmar que a primeira propriedade da forma de equivalente é que “o valor-de-uso se torna a forma de manifestação do seu contrário”[32], o valor. Isso significa que a forma natural de uma mercadoria assume a forma de valor; mas isso, somente dentro dos limites de uma relação bem estreita, com uma mercadoria B se confrontando com outra mercadoria qualquer. Assim, mercadoria B, exprimindo o valor da mercadoria A, representa um elemento puramente social: o valor comum a ambos. Na forma relativa do valor de uma mercadoria oculta-se uma relação social ao se expressar seu valor por algo totalmente diverso de suas propriedades corpóreas; na forma de equivalente, o objeto material, no seu estado concreto, é que expressa valor, possuindo forma de valor de modo natural: é, portanto, o oposto do que sucede com a forma relativa [33]. Marx afirma que a economia burguesa só desperta sua atenção para o caráter enigmático da forma de equivalente quando essa aparece na sua forma acabada de dinheiro; sem suspeitar que a solução para o enigma da forma de equivalente já é requerida na mais simples expressão do valor [34].

 

Como consequência do caráter duplo do trabalho, o “trabalho concreto torna-se [...] expressão de trabalho humano abstrato”: a forma corpórea da mercadoria que serve de equivalente passa por materialização do trabalho humano abstrato e é resultado de um trabalho concreto especifico. Um trabalho útil qualquer produz o valor na sua forma de trabalho humano e não na sua forma concreta, na sua utilidade especifica; mas isso só é expresso, quando é ele confrontado ao trabalho concreto de outra qualidade, o trabalho útil que cria o equivalente, como forma material de trabalho humano abstrato. Daí a segunda propriedade da forma de equivalente ser “o trabalho concentro tornar-se forma de manifestação de seu contrário, trabalho humano abstrato”[35].

 

A terceira propriedade da forma equivalente é que o trabalho privado se torna a forma do seu contrário, trabalho em forma diretamente social. Um trabalho concreto qualquer, ao ser considerado simples expressão de trabalho humano em geral, passa a identificar-se como outro trabalho. Sendo trabalho privado, assim como todo trabalho que produz mercadoria, é, igualmente, trabalho em sua forma diretamente social [36].

 

A questão vista em seu conjunto: valor e sua manifestação; valor-de-uso e valor os limites da forma simples do valor

Marx demonstra que a afirmação de que a mercadoria se caracteriza por valor-de-uso e valor-de-troca é – apesar de usual e útil para fins de praticidade da exposição –, a rigor, falsa. A mercadoria se caracteriza por ser valor-de-uso e valor. Ela apresenta seu duplo caráter, quando, como valor, dispõe de uma forma de manifestação diferente da forma natural, a de valor-de-troca. E só possui essa forma na relação de troca com outra mercadoria. Toda sua exposição demonstra que o valor e sua magnitude não se originam do valor-de-troca, que é sua expressão; mas, que é sua expressão que decorre da natureza do valor da mercadoria [37].

 

Marx explica que a forma simples do valor de uma mercadoria é “a forma elementar de manifestar-se a oposição existente, entre valor-de-uso e valor”[38]. Isso é, na relação entre duas mercadorias, aquela cujo valor precisar ser expresso, apresenta-se apenas como valor-de-uso, enquanto a outra, na qual o valor se expressa, considera-se simples valor-de-troca. Porém, a forma simples do valor é, também, sua forma embrionária, passando por uma série de transformações até alcançar a forma preço. Isso porque: “não traduz sua igualdade qualitativa e proporcionalidade quantitativa com todas as outras mercadorias”[39]; ela corresponde a forma de equivalente singular, que é, todavia, conversível em uma forma mais completa através da mera conversão de sua forma singular de valor em uma série de expressões simples de valor.

 

Os aspectos e defeitos da forma total ou extensiva do valor [40]

O que é importante aqui é que o valor de uma mercadoria se revela pela primeira vez como trabalho humano homogêneo; isso porque, o valor de uma mercadoria está expresso em inúmeras outras mercadorias. Dessa maneira, já não importa mais a forma física assumida pelos trabalhos e a forma especifica do valor-de-uso em que se manifesta o valor. A forma extensiva do valor também evidencia que é a magnitude do valor da mercadoria que regula a troca e não o contrário [41].

 

A forma física de cada mercadoria é uma forma particular do equivalente; assim como, as várias espécies de trabalho útil contidas nos corpos das diferentes mercadorias são formas particulares do trabalho humano geral [42].

 

Na forma extensiva ou total do valor, a expressão fica incompleta devido ao caráter infinito da série que representa, limitando-se a forma relativa do valor a ser um variado mosaico de expressões de valor. A forma de equivalente do valor fica sempre limitada, pois cada uma exclui as demais; e igualmente, o trabalho útil específico incompleto, sendo apenas forma particularizada de manifestação do trabalho humano [43]. Quando, porém, invertemos a série da forma total ou extensiva do valor, chegamos a forma geral do valor [44].

 

A forma do valor em mudança, desenvolvimento e transição: forma geral do valor [45]

 

A forma geral do valor consiste em “uma forma de valor simples, comum a todas as mercadorias”[46].

 

A forma do valor e a mudança de seu caráter

A forma simples do valor só funciona em estágios primitivos da sociedade, quando os produtos do trabalho se tornam mercadoria ocasionalmente, através de trocas fortuitas [47]. Quando a troca se torna habitual é que ocorre a forma extensiva do valor. É na forma geral do valor que primeiro relaciona as mercadorias uma com as outras, como valores, que faz com que elas se revelem valores-de-troca. Isso pelo valor de cada mercadoria, igualada a uma mercadoria especifica, se distinguir não só do valor-de-uso dela, mas, igualmente, de qualquer valor-de-uso, exprimindo-se, assim, de maneira comum a todas as mercadorias. Marx demonstra que as duas primeiras formas do valor expressam de forma isolada o valor da mercadoria, enquanto, a forma geral, “surge como obra comum do mundo das mercadorias”. Isso evidencia que “a realidade do valor das mercadorias só pode ser expressa pela totalidade de suas relações sociais, pois essa realidade nada mais é que a ‘existência social’ delas, tendo a forma do valor, portanto, de possuir validade social reconhecida”[48].

 

Quando igualadas a uma mercadoria especifica, “todas as mercadorias revelam-se não só qualitativamente iguais, como valores, mas também quantitativamente comparáveis como magnitudes de valor”[49]. Assim, a forma geral do valor relativo confere a mercadoria que assume a forma de equivalente um caráter de equivalente geral. Da mesma maneira, o trabalho privado (concreto, útil, especifico) assume a forma social, a forma de igualdade com todos os outros. O trabalho objetivado no valor não se apresenta somente sob o aspecto negativo, pondo-se de lado todas as formas concretas do trabalho real, mas em sua forma positiva, reduzindo-se a sua condição comum de trabalho humano. O caráter social específico do mundo das mercadorias é constituído pelo caráter humano geral do trabalho; é o que se evidencia pela forma geral do valor, expressão social do mundo das mercadorias [50].

 

Desenvolvimento mútuo dos polos da forma de valor e sua contradição

O desenvolvimento da forma relativa do valor é somente resultado e expressão do desenvolvimento da forma de equivalente. Uma mercadoria particular adota a forma de equivalente geral, por que todas as outras a transformam em objeto da forma geral de valor. Assim, a oposição entre a forma relativa do valor e a forma de equivalente se desenvolve juntamente com a forma do valor [51]. Essa contradição é quase imperceptível na forma simples, onde duas mercadorias que se trocam, ora aparecem como forma relativa, ora como equivalente. Na segunda e na terceira forma, essa contradição se torna patente, pois já não se pode mais trocar os polos, sem transformar a segunda forma (forma extensiva do valor) em terceira (forma geral) e vice-versa. Disso resulta que, assim como uma mercadoria pode estender sua forma relativa somente enquanto se confronta com todas as outras como equivalentes, uma mercadoria pode adquirir a forma de permutabilidade geral (forma de equivalente geral) somente enquanto estiverem excluídas dessa forma todas as demais mercadorias [52].

 

Transição para forma dinheiro

A partir do momento em que o destaque de uma mercadoria na forma de equivalente geral se limita a uma determinada mercadoria, adquirindo a forma unitária do valor relativo validade social universal, essa mercadoria específica-determinada passa a funcionar como dinheiro. Pois, sua função social específica se torna desempenhar o papel de equivalente universal. É o ouro que assume essa função privilegiada. Ocupando o ouro o lugar de equivalente geral na forma geral do valor, a forma geral passa a ser agora a forma dinheiro do valor [53].

 

O dinheiro como forma do valor

A única diferença entre a forma geral do valor e a forma dinheiro do valor é que esta última possui o ouro na função de equivalente geral. O progresso consiste em que a força do hábito social identificou a forma ouro com a forma de direta permutabilidade geral. Marx explica que, primeiro, o ouro se confrontou com outras mercadorias na condição de mercadoria, tendo posteriormente exercido, em círculos restritos, a função de equivalente geral. E é somente quando conquista o monopólio desta função que assume a forma-dinheiro. A expressão simples-relativa do valor de uma mercadoria, por meio de outra mercadoria, que já exerça a função de mercadoria-dinheiro, é a forma preço do valor. Marx conclui, de todo toda sua demonstração, que o segredo da forma dinheiro do valor encontra-se na forma mercadoria equivalente da forma simples do valor, que é o seu germe [54].

 

O segredo do fetichismo da mercadoria

Marx debruçasse na investigação da aparência misteriosa e mágica da qual se reveste a mercadoria. Esse mistério não provém do valor-de-uso ou do valor da mercadoria. Esses aspectos estão assim esclarecidos: ainda que diversos os trabalhos úteis, são dispêndio de funções do corpo humano; têm sua magnitude medida pela duração do trabalho; e, não importa o modo que se realize, sempre que os homens trabalhem uns para os outros, o trabalho possui forma social [55]. Assim, o caráter misterioso das mercadorias, provém da própria forma mercadoria.

 

Ou seja, na forma mercadoria:

 

"A igualdade dos trabalhos humanos fica disfarçada sob a forma da igualdade dos produtos do trabalho como valores; a medida, por meio da duração, do dispêndio da forma humana de trabalho, toma a forma de quantidade de valor dos produtos do trabalho; finalmente, as relações entre os produtores nas quais se afirma o caráter social dos seus trabalhos, assumem a forma de relação social entre os produtos do trabalho. "[56]

 

Marx chama a isso de fetichismo das mercadorias: “Uma relação social definida, estabelecida entre os homens, assume a forma fantasmagórica de uma relação entre coisas” [57]. Isso ocorre por que a forma mercadoria oculta a relação entre os trabalhos individuais dos produtores e o trabalho total, refletindo a margem deles a relação social existente, como relação entre os produtos do seu trabalho [58]. Assim, o caráter socialmente útil dos trabalhos privados só se percebe sob da utilidade do trabalho para outros e a caráter social da igualdade entre os trabalhos diferentes, sob o aspecto da igualdade do valor, estabelecida entre os produtos do trabalho [59].

 

Marx explica ainda que os homens igualam seus trabalhos diferentes na qualidade comum de trabalho humano, ao igualar seus diferentes produtos como valores na troca, porém, fazem sem o saber. Ele afirma: “o valor transforma cada produto do trabalho num hieróglifo social”[60]. A própria descoberta cientifica do valor como expressão do trabalho humano necessário a produção não dissipa o fetichismo. Permanece, por isto, um segredo a determinação do valor pelo tempo de trabalho; disfarçado pelos movimentos visíveis dos valores relativos das mercadorias [61].

 

É pelo fato de os homens considerarem como forma natural da sociedade aquilo que não é senão sua forma histórica, que são levados a buscar a determinação da magnitude do valor somente na análise de sua forma preço; porém, é exatamente essa forma dinheiro que mais dissimula o caráter social de seus trabalhos privados [62]. Assim, no regime feudal, as relações sociais das pessoas no trabalho não se dissimulam em relações entre coisas, mas apresentam-se como realmente são, suas relações pessoais. Porque o fundamento social indiscutível são as relações de dependência pessoal [63]. Igualmente, na indústria patriarcal rural de uma família camponesa, as forças de trabalho despendidas individualmente manifestam-se sob a forma de trabalhos determinados socialmente, sendo elementos da força comum de trabalho familiar. Também, numa sociedade baseada no trabalho sobre meios de produção comuns e exercido por homens livres, as relações sociais de trabalho dos indivíduos aparecerão para estes claramente, na produção e na distribuição [64].

 

Marx também demonstra como o cristianismo é parte do véu místico e nebuloso que encobre as relações sociais e materiais dos homens na produção de mercadorias; sobretudo, pela correspondência da conversão dos seus trabalhos úteis em trabalho humano abstrato e o culto cristão do homem abstrato em seu desenvolvimento protestante. As formas de sociedade anteriores, baseadas no baixo desenvolvimento das forças produtivas materiais e na consequente dependência do homem a sua comunidade primitiva ou a relações de escravidão e domínio diretas, também não poderia escapar das manifestações religiosas, que apareciam na forma de cultos da natureza, em decorrência da inibição das relações do homem com essa mesma natureza. Assim, para Marx: “O reflexo religioso do mundo real só pode desaparecer quando as condições práticas das atividades cotidianas do homem representem, normalmente, relações racionais claras entre os homens e entre estes e a natureza”[65]. O que requer um longo processo de desenvolvimento histórico.

 

Por fim, Marx conclui que a “economia política” descobriu, ainda que de forma incompleta, o conteúdo oculto no valor e em sua magnitude, mas não se perguntou, o porquê de ocultarem tal conteúdo. O motivo para tal é que a consciência burguesa considera uma necessidade natural formas historicamente determinadas e que pertencem somente a uma formação social em que o homem não domina o processo de produção social, mas é por ele dominado [66].

 

Considerações finais  

No trabalho que apresentamos, vimos que Marx considera como mercadoria aquilo que possui uma utilidade (valor-de-uso) e valor. Ele investiga a natureza desses dois aspectos da mercadoria, demonstrando que o valor tem sua origem no fato de serem as mercadorias fruto do trabalho humano e que sua magnitude é determinada pelo tempo de trabalho socialmente necessário à sua produção. Vimos também que Marx foi o primeiro a analisar o duplo caráter do trabalho materializado na mercadoria: seu caráter de trabalho útil e de trabalho geral. Em seguida, Marx prossegue analisando as quatro formas históricas do valor, da forma simples a forma dinheiro; e demonstra que todo segredo da forma dinheiro – expressa na forma preço – encontra-se na forma de equivalente da forma simples do valor. A economia vulgar não consegue desvendar esse segredo, pois considera imutáveis as formas de valor típicas do modo de produção capitalista, limitando-se, por isso, a investigar a sua magnitude, mas não o seu caráter histórico.

 

Consideramos o esforço de apreensão e sistematização da teoria marxista do valor de fundamental importância, pois a teoria econômica de Marx é uma ferramenta indispensável para a compreensão da sociedade, e deve, portanto, ser dominada pelo pesquisador e estudioso das ciências humanas. Seu conhecimento pode desvanecer certos mitos criados pelo pensamento econômico vulgar e transformados quase que em um senso comum. Por exemplo, a ideia de que o valor possuiria um caráter absolutamente subjetivo, não tendo o trabalho, portanto, nenhum papel em sua origem e magnitude. Tal senso é o que propaga a pretensa refutação da teoria do valor sob o argumento de que tal teoria faria equivaler maior quantidade de valor ao produto inútil de um produtor inábil. Como demonstramos, a mercadoria antes de tudo deve possuir valor-de-uso, utilidade. Igualmente, se trata aqui de tempo de trabalho socialmente necessário.

 

Os demais conceitos que compõe a obra O Capital serão analisados em trabalhos posteriores, que seguirão a mesma estrutura do presente. Acreditamos que servirão para esclarecer a teoria econômica marxista e, igualmente, desvanecer certas dúvidas e mistificações da economia vulgar e do senso comum.

 

Notas

[1] MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política: livro I - 23ª ed. - Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

[2] Ibidem. P. 57

[3] Ibidem. P. 57

[4] Ibidem. P. 58

[5] Ibidem. P. 58

[6] Ibidem. P. 59

[7] Ibidem. P. 60

[8] Ibidem. P. 61

[9] Ibidem. P. 62

[10] Ibidem. P. 62

[11] Ibidem. P. 62-63

[12] Ibidem. P. 63

[13] Ibidem. P. 63

[14] Marx usa a expressão corrente: economia política.

[15] MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política: livro I - 23ª ed. - Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006. P. 64

[16] Ibidem. P. 65

[17] Ibidem. P. 66

[18] Ibidem. P. 67

[19] Ibidem. P. 68

[20] Ibidem. P. 69

[21] Ibidem. P. 70

[22] Todas as formulas são removidas como se apresentam na obra de Marx.

[23] MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política: livro I - 23ª ed. - Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006. P. 70

[24] Ibidem. P. 70

[25] Ibidem. P. 72

[26] Ibidem. P. 73

[27] Ibidem. P. 74

[28] Ibidem. P. 74-75

[29] Ibidem. P. 75

[30] Ibidem. P. 77

[31] Ibidem. P. 77

[32] Ibidem. P. 78

[33] Ibidem. P. 79

[34] Ibidem. P. 80

[35] Ibidem. P. 80

[36] Ibidem. P. 81-82

[37] Ibidem. P. 82

[38] Ibidem. P. 83

[39] Ibidem. P. 84

[40] A equação a qual corresponde a forma total ou extensiva do valor é: z de mercadoria A = a y de mercadoria B, ou = v de mercadoria C, ou = w de mercadoria D, ou = x de mercadoria E, ou = etc.

[41] MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política: livro I - 23ª ed. - Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006. P. 84-85

[42] Ibidem. P. 86

[43] Ibidem. P. 86

[44] Ibidem. P. 87

[45] A equação a qual corresponde a forma geral do valor é:

 

1 casaco                 =

10 quilos de chá       =

40 quilos de café     =

1 quarta de trigo      =                       20 metros de linho

2 onças de ouro       =

½ tonelada de ferro  =

X de mercadoria A    =

Etc. mercadoria        =

 

[46] MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política: livro I - 23ª ed. - Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006. P. 87

[47] Ibidem. P. 87

[48] Ibidem. P. 88

[49] Ibidem. P. 88

[50] Ibidem. P. 89

[51] Ibidem. P. 89

[52] Ibidem. P. 90

[53] Ibidem. P. 90

[54] Ibidem. P. 92

[55] Ibidem. P. 93

[56] Ibidem. P. 94

[57] Ibidem. P. 94

[58] Ibidem. P. 94

[59] Ibidem. P. 95

[60] Ibidem. P. 96

[61] Ibidem. P. 96-97

[62] Ibidem. P. 97

[63] Ibidem. P. 99

[64] Ibidem. P. 100

[65] Ibidem. P. 101

[66] Ibidem. P. 101-102

 

ícaro Leal Alves

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