"O abandono das armas pelas FARC é um processo para desarmar o povo colombiano!"

04/06/2017

 

Olhem bem para a fotografia! O dirigente das FARC-EP Timoleón Jímenez apertando as mãos dos assassinos dos comandantes das FARC, Alfonso Cano e Roman Ruíz!

 

O aperto de mãos desta fotografia é um gesto simbólico, não mera polidez. Essa foto representa muitas coisas. Na história, essa será a foto com que se liquidará a luta armada colombiana.

 

O Estado colombiano ocupa a anos a posição de mais fiel aliado do imperialismo estadunidense. Na Colômbia se cultiva uma boa parte das drogas que circulam e são consumidas nos EUA. Por isso a Colômbia é o pomar de produção de drogas que o governo dos EUA utiliza para envenenar os pobres de seu país.

 

As máfias do narcotráfico colombiano são responsáveis pela morte de milhares de pessoas no país. Enquanto que 60 % da população urbana e 86% da população rural vivem nos limiares da fome e da pobreza, milhões de pessoas se vêm obrigadas a migrarem de suas aldeias para cidades para se tornarem escravos assalariados.

 

Desde o final dos anos 50, quando as FARC iniciaram sua luta, estas circunstâncias permanecem as mesmas. Na Colômbia, país que vive em uma profunda situação de pobreza, as oligarquias nunca renunciaram à violência para dirigir o país. Desde o ano de 1948 até 1957 os ataques violentos do Estado colombiano se traduziram em 300.000 assassinatos. Nas palavras do líder das FARC Manuel Marulanda Vélez: “a violência organizada à que eram submetidos estudantes, camponeses, operários, mulheres” é o que criou as FARC e a luta.

 

Hoje nada mudou na Colômbia. A pobreza não desapareceu, os assassinos de Alfonso Cano e Román Ruiz não foram punidos, a meta final das FARC, o socialismo, não é uma realidade. Mesmo que nenhuma das condições anteriores tenham mudado, como resultado do acordo que chegaram as FARC com o Estado colombiano, em 2 meses se abandonarão as armas e se liquidará a luta armada.

 

Em troca do abandono das armas pelas FARC, em um período de 2 meses se criará um tribunal chamado “Autoridade Judicial Especial Para a Paz”, que julgará os “crimes de guerra”. Este artigo é um dos motivos para as FARC abandonarem a luta armada. Quer dizer, as FARC liquidam 50 anos de luta armada em troca de que se julgue “criminosos de guerra” e que estes recebam, no máximo, 8 anos de encarceramento.

 

Este tribunal não julgará os burocratas do Estado e assassinos profissionais que são os responsáveis, mediante a criação de guerrilhas paramilitares, do assassinato de 250.000 pessoas, que assassinaram 2.500 civis, apenas para falarmos de algumas cifras altas das estatísticas. Neste tribunal julgarão os “criminosos de guerra”. Quer dizer, os militantes e dirigentes das FARC serão julgados neste tribunal como culpados pela guerra que travaram. Como se esta guerra tivesse se sucedido em condições igualitárias, “especialistas internacionais” decidirão sentenças entre 5 a 8 anos para ambas as partes e o tema se encerrará. Na Colômbia, os assassinos que fizeram chover bombas sobre bebês, os que, juntos com máfias paramilitares, violentaram inúmeras mulheres, se livrarão com uma pena máxima de 8 anos. Ao assassino de uma mente como Alfonso Cano, nenhuma condenação seria suficiente, e se fala de 8 anos. Quando assassinaram Cano, as FARC fizeram a seguinte declaração: “A vida é uma guerra. Não temos nem um só minuto para enlutarmos por nossos mortos.” Sem dúvida as FARC se esqueceram desta consigna. Agora julgam este castigo como suficiente para assassinos que causaram perdas irrecuperáveis.

 

Segundo as informações do acordo publicado pelas FARC, além da criação do Tribunal de Paz, o segundo artigo básico para o aperto de mãos das FARC com os assassinos é que fala de conversações com as FARC para que se torne um movimento político legal. Quer dizer, como aconteceu em El Salvador, Guatemala, Nicarágua, as FARC se converterão em um Partido legal dentro do parlamento.

 

Os países de nova colonização como Colômbia ou Turquia se dirigem ao fascismo. Nestes países que se encontram em etapas limites em relação às oligarquias, como a pobreza e a injustiça, não há possibilidade de se governar com o sistema de democracia burguesa. Por isto os parlamentos são criados apenas para dar uma imagem, quando, na realidade, nunca funcionaram e podem prontamente colocar todas as leis e cânones legais confortavelmente de lado. Nos países de nova colonização a democracia é uma luta militante, quer dizer, se vê obrigada a se apoiar na luta armada.

 

Na Colômbia a base político-econômica não mudou. O Estado colombiano segue sendo um Estado do imperialismo estadunidense, e são com os interesses destes, planos imperialistas e demandas deste país, que demarcam sua estratégia. As oligarquias ainda se veem obrigadas a recorrer ao fascismo para governar o país. Em um parlamento que pode ser fechado em um minuto por desejo das oligarquias, não pode ser chamado de democracia! No máximo, se poderá fazer o papel de “oposição de esquerda” no roteiro deste teatro parlamentar.

 

Novamente, uma declaração das FARC da época do assassinato de Cano:

 

“Esta não é a primeira vez que os oprimidos e colonizados da Colômbia ficam de luto por um de seus maiores líderes. Tampouco é a primeira vez que enchemos sua memória valentia e certeza absoluta na vitória. Na Colômbia a paz não chegará com a entrega e a renúncia às armas e à guerrilha. Ao contrário, chegará quando chegar a hora do nascimento de um sistema coletivo, que a tornará a luta armada desnecessária. Será seguida por uma frente política.”

 

As circunstâncias que fizeram nascer a luta armada são as mesmas que seguem existindo hoje em dia. As circunstâncias não se alteraram, o que se alterou foi a ideologia da direção das FARC. A circunstância não mudou, o que mudou foi a falta de comprometimento das direções das FARC em pagar o preço necessário. A direção das FARC deve se dar conta de que hoje não está firmando um “acordo de paz” apenas com o Estado colombiano, mas também com o imperialismo estadunidense.

 

As FARC empreenderam a luta armada por não existir outro caminho até a revolução e o socialismo na Colômbia além deste. Como disse o comandante Manuel Marulanda Vélez: “O melhor caminho para se chegar a liberdade é lutar por ela”, as FARC lutaram para a chegar até a liberdade por anos, milhares de membros foram assassinatos, dirigentes foram mortos, viveram incontáveis assédios físicos e psicológicos. Milhões de casas de simpatizantes foram queimadas e camponeses expulsos de suas terras. Agora as FARC dão as mãos com os assassinos e renunciam a sua exigência mais básica, a revolução, e chamam isso de “processo de paz”.

 

A situação dos “acordos de paz” vividos na América Latina é clara. Em El Salvador, durante o “processo de paz” a camarilha de assassinos de mãos com as máfias do narcotráfico fazem uma pilha muito maior de vítimas do que nos tempos da guerrilha.  Em El Salvador ainda que o partido da FMLN tenha entrado no governo, hoje 40% da população urbana e 60% da população rural vivem na pobreza. A corrupção, o sucateamento do sistema de educação e do sistema de saúde e as máfias que ameaçam o governo da FMLN são alguns dos problemas que enfrentam o povo. A “legalização” que querem agora as FARC é o que conseguiu a FMNL a anos. O que mudou em benefício do povo? O Presidente do governo do FMNL, Maurício Funes, disse: “não há políticas de direita e de esquerda. Minha meta é um programa que traga progresso para o país”. A situação da degeneração em que se encontra o FMNL hoje é muito pior do que era naqueles dias.

 

Além do FMNL, o FSLN-Nicarágua, no Uruguai, México: dezenas de vezes esta situação foi vivida na América Latina. Na Guatemala o dirigente da URNG, Miguel Angel Sandoval disse: “Se pensava que ao acabar com a guerra, morreriam menos pessoas. Não tem sido assim. Agora morrem muito mais pessoas por causa das drogas. Quando firmamos a paz não calculamos o impacto de alguns problemas e ainda se matam pessoas por causa de ideias políticas. Se assassinam muitas pessoas.” Essas palavras são uma mostra de quem favorece os processos de paz. Essas são as palavras de reconhecimento de que esta solução é em favor do imperialismo.

 

Os processos de paz do IRA, FSLN, FMLN, URNG e da experiência de renúncia das armas de muitos movimentos nos mostram que: quem ganha com estes processos é o imperialismo, e seus cúmplices oligarcas. Estes processos apenas acabam por liquidar o poder armado do povo. São as soluções do imperialismo e da repressão.

 

As FARC não devem tentar descobrir a América de novo. Fazem anos que sabemos onde está a América. Ao final destas experiências está, sem dúvida, o desejo do imperialismo em calar as armas e acabar com a luta guerrilheira.

 

Está claro que os imperialistas querem desarmar aos povos e anular o poder popular. E nós temos a importante lição que nos foi deixada pelo comandante Che: “Nunca se pode confiar no imperialismo. Nunca!”.

 

Nos lembremos de novo das palavras do comandante Manuel Marulanda Vélez pela direção das FARC: “Nem o Estado colombiano e nem os gringos estadunidenses nos vencerão, jamais!” Hoje, com esta fotografia, as FARC foram derrotadas. A derrota das FARC não é física, mas ideológica. Há algo pior que o desarme físico, que é o desarme ideológico. Uma vez que o colapso ideológico se inicia, não há limites para o quão fundo se pode ir. Ainda que os derrotados no plano ideológico possuam armas, eles já se inseriram no sistema da forma que este queria. O dirigente das FARC, ao apertar as mãos de Santos, soltou as mãos de Che. Nos cartazes e folhetos das FARC, seus dirigentes aparecem em armas e de mãos dadas com Che. Hoje, eles traíram Che e Jacobo Arenas.

 

Ainda que em todo o mundo só reste a nós, dizemos que não desejamos parar de lutar. Um a um os movimentos abandonam a luta. Nós nunca a abandonaremos! Romperemos qualquer assédio. Sob qualquer ameaça, em vez de cair em desalento e pessimismo, pensaremos em soluções. E o único lugar onde buscamos soluções, é com o povo. Confiamos uns nos outros, para fazer crescer as lutas populares e crescer o apoio internacional.

 

Ainda que desapareça uma geração completa, ainda que esta guerra dure 100 anos ou 1.000 anos, estamos dispostos a assumir as consequências, morreremos, mataremos, mas nunca renunciaremos à revolução ou ao poder do povo.

 

Contra os ventos liquidacionistas! Aumentaremos a luta!

 

Não aos acordos com o imperialismo, ampliemos a frente anti-imperialista!

 

 

Comitê de relações internacionais da Frente Popular (Turquia)

 

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