"A subestimação do campo é um dos principais entraves à Revolução Brasileira"

12/05/2017

 

Os cinquenta anos de existência do Partido Comunista do Brasil ensinam que a pouca atenção dada ao trabalho entre os camponeses foi uma das mais sérias falhas da luta dos comunistas. Ainda que estes tenham definido o caráter da revolução há muitos anos como agrária e anti-imperialista e levantando continuamente a bandeira da reforma agrária, não se voltaram, durante um longo período, para o campo. Mesmo no auge revolucionário de 1935 não houve uma maior atividade partidária entre os camponeses.

 

Inúmeras vezes o Partido proclamou em seus documentos a importância da aliança operário-camponesa como base da união mais amplas entre as forças democráticas e patrióticas. Pouco realizou, no entanto, neste terreno. Na prática, sempre que cuidou da frente, a aliança do proletariado se deu mais com a pequena burguesia urbana e a burguesia nacional. Este fato ocorreu devido à subestimação do aliado fundamental do proletariado, o que não permitia levar o Partido e a revolução para seu verdadeiro leito. As concepções sobre a revolução correntes no Partido só viam as possibilidades de luta armada nas grandes cidades, através de insurreições urbanas ou levantes de quartel. Não relacionavam a luta armada com o campo, onde existem condições para desenvolver com êxito esta luta.

 

A experiência de meio século revela que o campo é o problema chave da revolução. Os movimentos progressistas e revolucionários nas cidades não lograram êxito nem tiveram maior consequência porque não contavam com um combativo movimento camponês. O campo permaneceu atrasado em relação às cidades no que se refere ao nível de consciência, de luta e organização. Por isso não teve participação de maior vulto nas grandes ações políticas que se desenvolveram no país. Para alcançar a vitória, a revolução tem que contar com o apoio e a ação do campesinato.

 

Somente na década de 1950 o Partido fez tentativas de se voltar para o campo. Enviou ativistas a regiões de maior tensão social, particular para zonas de posseiros. Com a participação do Partido, surgiram lutas em Porecatu (Paraná), Formoso (Goiás), interior de São Paulo e Triângulo Mineiro. Estas lutas tiveram cunho radical e mostraram as imensas possibilidades para impulsionar o movimento revolucionário no campo. O Partido, porém, não deu continuidade a este trabalho nem procurou generalizar a experiência. A partir de 1956, sob a influência do revisionismo, a atividade dos comunistas no campo foi totalmente abandonada. Inclusive foi retirada a palavra de ordem de reforma agrária radical.

 

Depois de sua reorganização, o Partido decidiu situar o centro de gravidade de seu trabalho no interior, partindo da ideia de que o movimento camponês é a principal base de massas da revolução e de que a aliança operário-camponesa é condição fundamental para assegurar a hegemonia da classe operária. Com o documento da Comissão Executiva de Agosto de 1964, passou-se a dar maior atenção ao problema camponês, destacou-o na VI Conferência e baseou sua concepção de luta armada tendo o interior como seu principal cenário.

 

É perfeitamente viável incorporar o campo à revolução. Os camponeses, que constituem grande parte da população brasileira, desejam a liquidação do latifúndio. O monopólio da terra se estende a vastas áreas do território nacional, ao passo que a esmagadora maioria dos que vivem no campo não possui terra, paga a meia e a terça ou trabalha em áreas devolutas nas regiões insalubres e bastante longínquas. No Nordeste se repete, frequentemente, o fenômeno da seca que flagela milhões de camponeses entregues à própria sorte. Levas e levas de trabalhadores, impelidos pela fome, abandonam seus lugares e emigram para a cidade onde não acham abrigo nem trabalho. Encontram-se no campo as massas mais pobres e oprimidas do país, desprovidas de tudo. São vítimas de arbitrariedades de todo tipo, não gozam de nenhum direito. O interior está abandonado e seu atraso é secular. Existe no campo, assim, imenso potencial revolucionário. Os camponeses estão profundamente interessados na derrubada do atual regime e na instauração de um governo realmente popular capaz de realizar profunda reforma agrária e de acabar com a difícil situação em que vivem.

 

A fim de despertar e mobilizar os camponeses é preciso ir ao campo, trabalhar e viver com as massas camponesas. É a única maneira de poder conhecer os problemas da população rural, interpretá-los corretamente e formular palavras de ordem de luta. Não se consegue desenvolver o trabalho no campo procurando dirigi-lo das cidades. Num país como o Brasil, de grande extensão e com acentuado desenvolvimento desigual, é muito variada a situação das diferentes regiões e distintas também as reivindicações imediatas das massas, embora haja reivindicações gerais comuns. Transferindo-se para o campo, os comunistas conhecerão melhor a psicologia dos camponeses, verão que eles não estão conformados com a vida que levam e que suas menores reivindicações se transformam em choques, às vezes violentos, com os latifundiários, grileiros e a polícia. O homem do interior sente as injustiças. Está disposto a se rebelar desde que encontre uma direção justa e um apoio firme, direção e apoio que só o proletariado e seu partido podem assegurar.

 

Extrato do documento “Cinquenta anos de Luta”, escrito por ocasião dos cinquenta anos da fundação do Partido Comunista do Brasil, 1972.

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