Mariátegui: "A unidade da América Indo-Espanhola"

03/05/2017

Os povos da América espanhola se movem, em uma mesma direção. A solidariedade de seus destinos históricos não é uma ilusão da literatura americanista. Estes povos, realmente, não somente são irmãos na retórica mas também na história. Procedem de uma matriz única. A conquista espanhola, destruindo as culturas e as agrupações autóctones, tornou uniforme a fisionomia étnica, política e moral da América espanhola. Os métodos de colonização dos espanhóis solidarizaram a sorte de suas colônias. Os conquistadores impuseram às populações indígenas sua religião e sua feudalidade. O sangue espanhol se mesclou com o sangue indígena. Se criaram, assim, núcleos de população crioula, germes de futuras nacionalidades. Logo, idênticas ideias e emoções agitaram às colônias contra a Espanha. O processo de formação dos povos indo-espanhóis teve, em suma, uma trajetória uniforme.

 

A geração libertadora sentiu intensamente a unidade sul-americana. Se opôs à Espanha com uma frente única continental. Seus caudilhos obedeceram não um ideal nacionalista, mas sim um ideal americanista. Esta atitude correspondia a uma necessidade histórica. Além disso, não podia haver nacionalismo onde não havia ainda nacionalidades. A revolução não era um movimento das populações indígenas. Era um movimento das populações crioulas, nas quais os reflexos da Revolução Francesa havia gerado um humor revolucionário.

 

Mas as gerações seguintes não continuaram pela mesma via. Emancipadas da Espanha, as antigas colônias estavam sob pressão das necessidades de um trabalho de formação nacional. O ideal americanista, superior à realidade contingente, foi abandonado. A revolução da independência havia sido um grande ato romântico; seus condutores e animadores, homens excepcionais. O idealismo deste gesto e destes homens havia podido se elevar a uma altura inacessível a gestos e homens menos românticos. Ações jurídicas absurdas e guerras criminosas rasgaram a unidade da América indo-espanhola. Acontecia, ao mesmo tempo, que uns povos se desenvolviam com mais segurança e velocidade que outros. Os mais próximos a Europa foram fertilizados por suas imigrações. Se beneficiaram de um maior contato com a civilização ocidental. Os países latino-americanos começaram a se diferenciar.

 

Atualmente, enquanto umas nações liquidaram seus problemas elementares, outras não têm progredido muito em sua solução. Enquanto umas nações chegaram a uma regular organização democrática, em outras subsistem até agora densos resíduos de feudalismo. O processo de desenvolvimento de todas as nações segue a mesma direção; mas em umas se cumprem mais rapidamente do que em outras.

 

Mas o que separa e isola os países latino-americanos, não é esta diversidade de agenda política. É a impossibilidade de que entre nações incompletamente formadas, entre nações apenas mal esboçadas em sua maioria, se conspire e articule um sistema ou um conglomerado internacional. Na história, a comuna precede a nação. A nação precede toda a sociedade de nações.

 

Aparece como uma causa específica de dispersão a insignificância dos vínculos econômicos latino-americanos. Entre estes países não existe quase o comércio, quase não existe o intercâmbio. Todos eles são, mais ou menos, produtores de matérias primas e de gêneros alimentícios que enviam para a Europa e Estados Unidos, de onde recebem, em troca, máquinas, manufaturas, etc. Todos possuem uma economia parecida, um tráfico análogo. São países agrícolas. Comercializam, portanto, com países industriais. Entre os povos latino-americanos não há cooperação; algumas vezes, pelo contrário, há concorrência. Não há necessidade, não se complementam, não se buscam uns aos outros. Funcionam economicamente como colônias da indústria e das finanças europeia e estadunidense.

 

Por pouquíssimo crédito que se conceda à concepção materialista da história, não se pode desconhecer que as relações econômicas são o principal agente da comunicação e articulação dos povos. Pode ser que o fator econômico não seja anterior nem superior ao fator político. Mas, ao menos, ambos são consubstanciais e solidários. A história moderna o ensina cada passo. (À unidade alemã se deu através do zollverien. O sistema aduaneiro que cancelou as fronteiras entre os Estados alemães, foi o motor desta unidade que a derrota, o pós-guerra e as manobras do poincarismo não conseguiram fraturar. A Áustria-Hungria, não obstante, a heterogeneidade de seu conteúdo étnico, constituía, também, em seus últimos anos, um organismo econômico. As nações que o tratado de paz dividiu da Áustria-Hungria resultaram um pouco artificiais, malgrado a evidente autonomia de suas raízes étnicas e históricas. Dentro do império austro-húngaro a convivência havia concluído por soldá-las economicamente. O tratado de paz lhes tem dado autonomia política mas não se pôde dar-lhes autonomia econômica. Essas nações tiveram que buscar, mediante pactos aduaneiros, uma restauração parcial de seu funcionamento unitário.

 

Finalmente, a política de cooperação e assistência internacionais, que tenta-se atuar na Europa, nasce da constatação de uma interdependência econômica das nações europeias. Esta política não propulsiona um ideal abstrato pacifista, mas sim um concreto interesse econômico. Os problemas da paz tem demonstrado a unidade econômica da Europa. A unidade moral, a unidade cultural da Europa não são menos evidentes; mas sim menos válidas para induzir a Europa a se pacificar).

 

É certo que estas jovens formações nacionais se encontram espalhadas em um continente imenso. Mas, a economia é, em nosso tempo, mais poderosa do que o espaço. Seus fios, seus nervos, suprimem ou anulam as distâncias. A debilidade das comunicações e dos transportes é, na América Indo-espanhola, uma consequência da debilidade das relações econômicas. Não há uma estrada de ferro para satisfazer uma necessidade de espírito e da cultura.

 

A América espanhola atualmente está praticamente fracionada, clivada, balcanizada. Entretanto, sua unidade não é uma utopia, não é uma abstração. Os homens que fazem a história latino-americana não são diversos. Entre o crioulo do Peru e o crioulo argentino não existe diferença perceptível. O argentino é mais otimista, mais afirmativo que o peruano, mas um e outro são irreligiosos e sensuais. Há, entre um e outro, diferenças de nuance mais do que de cor.

 

De uma comarca da América espanhola a outra comarca variam as coisas, varia a paisagem; mas não varia o homem. E o sujeito da história é, antes de tudo, o homem. A economia, a política, a religião, são formas da realidade humana. Sua história é, em sua essência, a história humana.

 

A identidade do homem latino-americano encontra uma expressão na vida intelectual. As mesmas ideias, os mesmos sentimentos circulam por toda a América indo-espanhola. Toda a forte personalidade intelectual influi na cultura continental. Sarmiento, Martí, Montalvo, não pertencem exclusivamente a suas respectivas pátrias; pertencem a Latino-América. O mesmo destes pensadores pode-se dizer de Dario, Lugones, Silva, Nervo, Chocano e outros poetas. Rubén Dario está presente em toda a literatura latino-americana. Atualmente o pensamento de Vasconcelos e de Ingenieros são os professores de uma inteira geração de nossa América. São dois dirigentes de sua mentalidade.

 

É absurdo e presunçoso falar de uma cultura própria e genuinamente americana na germinação, em elaboração. A única coisa clara é que uma literatura vigorosa reflete a mentalidade e humor latino-americana. Esta literatura – poesia, romances, a crítica, sociologia, história, filosofia – não vincula, apesar de tudo, os povos; mas vincula, ainda que seja parcial e debilmente, às categorias intelectuais.

 

Em nosso tempo, finalmente, criou-se uma comunicação mais viva e mais extensa: a que estabeleceu-se entre as juventudes latino-americanas a emoção revolucionária. Mais espiritual do que intelectual, esta comunicação recorda a que envolveu a geração da independência. Agora como então a emoção revolucionária da unidade à América indo-espanhola. Os interesses burgueses são concorrentes ou rivais; os interesses das massas, não. Com a Revolução Mexicana, com sua sorte, com seu ideário, com seus homens, se sentem solidários todos os homens novos da América. Os brindes pacatos da diplomacia não unirão estes povos. Os unirão no que está por vir, os votos históricos das multidões.

 

Publicado em 6 de dezembro de 1924.

 

Escrito por José Carlos Mariátegui

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