"Um feminismo baseado em classes?"

22/03/2017

Nós somos pelo feminismo proletário. É talvez um conceito não muito claro para as pessoas. Afinal, o que é feminismo proletário e qual é a verdadeira diferença entre este e “feminismo”?

 

Qual tipo de luta feminina devemos apoiar? A luta feminina é, como a maioria das coisas, relacionado à luta de classes. A maneira como vivemos nossa vida, como trabalhamos e ganhamos dinheiro e aonde estamos na hierarquia social afeta nossa maneira de pensar e, nossa opinião sobre as coisas. Também influencia que tipo de luta feminina nós desejamos. Há uma luta [feminina] relacionada a todas as principais classes na sociedade, uma luta relacionada com o feminismo burguês, pequeno burguês e o proletário.

 

Feminismo Burguês

O feminismo da burguesia é o feminismo daqueles que estão no poder. A Noruega, por exemplo, é um país imperialista, logo, seu feminismo é de tipo imperialista. O feminismo burguês defende o sistema social de hoje e é parte do movimento de difusão do capitalismo e do imperialismo. Mas o que é imperialismo? imperialismo é quando grandes companhias ultrapassam as barreiras nacionais e transformam-se em grandes monopólios, é quando grandes partes do mundo são mantidas na pobreza devido ao poder dos imperialistas.  É quando o poder de algumas companhias e Estados se mantém crescendo enquanto as outras empresas são abatidas e não possuem a mínima chance de crescer. Imperialismo é o motivo pelo qual você pode ler que a fortuna de oito homens é maior do que a da metade [mundial] pobre. Imperialismo é quando mulheres pobres de Bangladesh trabalham doze horas por dia para produzir roupas para mulheres do ocidente. Imperialismo é sistema do mundo de hoje. O feminismo burguês não percebe ou liga para isso. O feminismo burguês defende o enfrentamento da guerra do Afeganistão para “ajudar” as mulheres lá.

 

O Fardo das mulheres brancas

O feminismo burguês vê a civilização ocidental como o centro mundo e a coloca antes de qualquer outra coisa. Esse feminismo não se importa ou é racista contra pessoas de outros países e culturas, e esse racismo se baseia-se no fato de que a cultura ocidental é mais civilizada, avançada e amigável em relação às mulheres. Essas feministas usam a luta das mulheres para colocar a Noruega e o Ocidente acima das pessoas. Elas generalizam e desconfiam das outras culturas, e é fácil de ver opressão das mulheres em outros países, contanto que elas culpem o “inimigo”. Eles querem salvar as mulheres de outros países de sua cultura e dos homens de lá. Elas fazem parte da tradição do “fardo do homem branco” mas que mudou para o do “fardo da mulher branca”. E isso é ligado a sua posição privilegiada, sendo que elas possuem menos problemas se comparado com as mulheres das classes mais baixas. Apesar de tudo, as mulheres burguesas também são discriminadas. Elas enfrentam mais trabalhos domésticos. São afetadas pela industria da beleza, estupro e violência. Logo, elas são motivadas pela luta das mulheres. Mesmo assim, seu feminismo é para ganhar poder no sistema capitalista, é o feminismo da Hillary Clinton, é o feminismo pra colocar a mulher no mesmo patamar que o homem. Esse feminismo não é o feminismo dominante nas organizações femininas na Noruega, apesar de que é possível encontrar indivíduos com este tipo de pensamento dentro das organizações. Esse feminismo caracteriza, primeiramente, as mulheres com poder - as mulheres líderes no Estado, na política e nas companhias, nas chamadas ONGs em outros países, na ONU, aquelas que trabalham espalhando os interesses da Noruega e do capitalismo, as que dirão o que é melhor para as pessoas no mundo. A feminista burguesa pensará que é um passo a frente, como uma mulher, estar no comando de uma companhia que explora mulheres em outras partes do mundo.  Antes, isso era um privilégio reservado para homens. Mas como Engels disse, sob o capitalismo cada progresso é um retrocesso relativo.

 

Feminismo Pequeno Burguês

O feminismo pequeno burguês é mais instável. A maioria das feministas pequeno burguesas querem acabar com a opressão sobre as mulheres, mas raramente tomam uma posição contra o imperialismo e contra o Estado. Esta é a manifestação mais comum de feminismo, atualmente, na Noruega. Elas são boas em analisar sistemas sociais, elas reconhecem a luta de classes, e são frequentemente inspiradas pelo socialismo. São capazes de criticar o sistema mas não conseguem tomar uma clara posição contra a propriedade privada, contra o imperialismo e o Estado. Por exemplo, elas são capazes de criticar as estruturas sociais que mantém o patriarcado e trabalham em mudar isso, mas não podem ver que essas estruturas sociais são baseadas em estruturas econômicas.

 

Outras acreditam que o “poder da estrutura de gênero” é base da opressão da mulher, enquanto o marxismo baseia-se na propriedade privada e na criação desta, que junto com a família e o Estado, são as bases das estruturas sociais. E que as estruturas são uma questão. O marxismo explica porque as feministas pequeno burguesas são frequentemente dependentes do Estado, trabalhando em inúmeros casos para este e está portanto em uma posição intermediaria onde elas veem e analisam a repressão mas não podem se separar disto. Elas consistem de uma mistura de pessoas, e não querem rejeitar as feministas burguesas. Isso acontece devido ao fato de elas pensarem que a opressão da mulher é a característica fundamental do mundo. No entanto, algumas pensam que todas as mulheres deveriam formar um aliança, apesar de na prática ir às custas da perspectiva das mulheres mais oprimidas. Entre as feministas que veem a questão de gênero como uma contradição primária, nós vemos a relutância em atacar belicistas como Hillary Clinton ou racistas como Sylvi Listhaug e Siv Jenses. E não é o tipo de feministas que devemos apoiar. Feministas burguesas são um obstáculo no caminho da luta contra a maior ameaça ante a mulheres do mundo, o imperialismo. Essa é a causa de algumas organizações serem deixadas apenas com o reformismo, luta cultural e o estilo de vida político. A luta cultural está correta. Mas é mais do que isso, porque a cultura é parte do sistema. Isso significa que, a menos que a luta cultural seja capaz de mudar as bases do sistema, não haverá sucesso. Batalhas contra causas como, a cultura do estupro, sexismo e a libertação sexual são boas. Mas precisamos de um feminismo que faça mais do que isso. Nós precisamos de um feminismo que veja que o capitalismo e o Estado suprimem as mulheres que querem emergir numa militância contra eles. Um feminismo que coloque a maiorias das mulheres no centro e que sem medo ataque ambos, homens e mulheres que pratiquem a exploração.

 

Feminismo Proletário

O proletariado é a classe que engloba os trabalhadores, pessoas com baixo salário, que não possuem os meios de produção, que estão em situação subordinada de trabalho, ou completamente fora do mercado de trabalho. O feminismo proletário é revolucionário. O feminismo para todas as mulheres trabalhadoras e exploradas há de ser revolucionário. O imperialismo oprime mulheres no mundo todo. Nós queremos uma organização das mulheres vermelhas [comunistas], baseando-se na situação das mulheres oprimidas, lutando principalmente por estas – sem medo de enfrentar a burguesia, sem medo de atacar o imperialismo e o Estado norueguês. Pelo contrário, essa deve ser uma das tarefas primárias. Uma organização de mulheres revolucionárias é baseada na luta contra a propriedade privada, e essa é base da subjugação das mulheres. A organização das mulheres deve levar à mobilização política, à mobilização revolucionária das mulheres. Pode ser de ambas maneiras. Anuradha Ghandi escreveu sobre como rebeliões e organizações armadas na Índia trouxeram confiança para as mulheres organizarem a si mesmas, e assim levou à uma das maiores organizações femininas na Índia. E a outra maneira é, organizando mulheres para lutar por seus direitos, a consciência política vai aumentar e as mulheres ganharão mais espaço nas lutas.

 

Análises políticas na Noruega não são raramente cegas ante ao imperialismo. Muitas feministas não veem problemas ao ver mulheres oprimidas, sem residência na Noruega, mulheres que são vítimas do tráfico ou da prostituição. A maioria das feministas irão condenar que as mulheres em Bangladesh trabalham por um salário baixo enquanto elas produzem roupas para as pessoas na Noruega. Mas as consequências disso, uma luta feminista revolucionária, nós não temos nenhum exemplo disto aqui na Noruega. Esse feminismo deve ser construído em nossa solidariedade para com as mulheres de todos os países, principalmente naqueles países oprimidos pelo imperialismo. Um exemplo porque isso é importante é explicado por uma costureira in Azmeri, Bangladesh. Foi perguntado a ela se ela pagaria preços maiores pelas commodities que nós compramos. “Não importa”, diz ela. E continua: “O dono da fábrica iria pegar uma parte maior do lucro”. Há inúmeras empresas que cobram mais pelos produtos sem que o trabalhador ganhe mais. Preços mais altos vão para os donos do negócio, ao mesmo tempo que as companhias usam isso para fazer os compradores sentirem-se melhores. Nós devemos ver através dessas ilusões, e enfrentar o sistema que facilita essa exploração de trabalhadores.

 

 

Escrito por Tjen Folket

 

Do Redspark

 

Traduzido por Mateus Braga

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