O colapso do capitalismo

04/02/2017

É impossível dissociar duas coisas: a crise é inerente ao capitalismo. A história desse sistema vem sendo marcada por várias, em intensidades variáveis. Chegamos a um estágio onde se torna impossível a regeneração do sistema; as crises estão cada vez menos espaçadas e mais intensas. O sistema capitalista em mutação permanente não tende e jamais poderá atingir um equilíbrio estável, devido a sua própria natureza. O capitalismo vai se decompondo após sucessivas crises, mas nunca retorna ao seu estágio anterior; é como dar dois passos para trás e um para frente.  

 

Não sabemos quando uma nova grande crise vai ocorrer, mas temos a certeza de que a turbulência econômica vai prosseguir. Esse sistema já esgotou todas as suas possibilidades civilizatórias e não tem mais nada a oferecer para a humanidade a não ser a destruição. O cenário global é catastrófico e ninguém sai ileso. As massas são atingidas em cheio pelas debilidades do sistema. O mundo financeiro, comercial e industrial está estagnado; o crescimento é insignificante, porém a concentração de riqueza e a desigualdade social aumentam.

 

Os especuladores e seus economistas burgueses, detentores do ''saber supremo'', estão atordoados e não têm mais onde se apegar. A lenda da dita auto-regulação do mercado financeiro caiu por terra. No pós Segunda Guerra, estes serviçais das elites ocidentais encontraram na intervenção estatal elaborada pelo keynesianismo a sua salvação. Mas perante a crise das últimas décadas, na qual outros mecanismos muito mais complexos e profundos estão em jogo, quais saídas vão tomar? Novamente uma guerra global que destruiria o planeta? As medidas anteriores são inadequadas para essa crise, é provável não exista mais nada a se fazer para salvar este sistema autofágico em decadência.

 

“Grandes bancos e mega especuladores incharam seus ativos com complexas operações financeiras legais e ilegais. Os neoliberais assinalavam que se tratava de um "círculo virtuoso" em que as economias real e financeira cresciam apoiando-se mutuamente. Mas a festa foi-se esgotando enquanto se reduziam as capacidades de pagamento dos devedores esmagados pelo peso das suas obrigações [...] O aparente "círculo virtuoso" havia mostrado o seu verdadeiro rosto: na realidade tratava-se de um círculo vicioso em que o parasitismo financeiro expandira-se graças às dificuldades da economia real à qual drogava enquanto a carregava de dívidas cuja acumulação acabou por arrefecer o seu dinamismo – o que por sua vez bloqueou o crescimento da esfera financeira.” [1]

       

 

As crises sistêmicas são a pedra angular do funcionamento capitalista e vêm ocorrendo desde os seus primórdios. Destacaria duas grandes dessas crises, a de 1873-1896 e 1929-1945. A primeira marcou a transição do capitalismo concorrencial para a etapa monopolista/parasitária-financeira, em síntese, a etapa imperialista que, segundo Lenin, é o estágio superior do capitalismo. Tal etapa é dominante desde finais do século XIX e início do século XX, chegando até os dias atuais. Já a segunda, que explodiu em 29, foi uma das molas propulsoras da 2° Guerra Mundial, e, consequentemente, da divisão do mundo em dois sistemas no período da Guerra Fria.

 

No pós-guerra, alguns países ocidentais encontraram no “Estado de Bem-Estar Social” um instrumento de intervenção que permitiuuma gestão estatal da crise. Essa medida agiu também como um meio de controlar as massas, e nos anos 50 o capitalismo teve os seus anos dourados. Mas nem tudo foi um mar de rosas, ao contrário, na esfera da produção o fordismo e o taylorismo mostravam sinais de inépcia, e foi nesse quadro que surgiram novos meios de organização de produção e extração da mais-valia como o toyotismo. O conjunto de contradições que desaguou na crise atual começou a se acumular a partir do esgotamento da Segunda Guerra Mundial com o fim do acordo de Bretton Woods e o desenvolvimento dos novos mercados financeiros. No presente momento, passamos pelo desgaste total deste ciclo do capital inaugurado depois do conflito mundial, seus elementos estão enfraquecidos e são insuficientes para dar conta do atual estágio de acumulação pelo qual passa o sistema.

 

“As crises capitalistas são crises de superprodução. Manifestam-se, antes de tudo, em que as mercadorias não encontram saída porque foram produzidas em quantidade maior do que podem comprar os principais consumidores — as massas populares, cujo poder aquisitivo está limitado dentro de marcos muito estreitos. Os “excedentes” de mercadorias entulham os depósitos. Os capitalistas diminuem a produção e dispensam operários. Centenas e milhares de empresas são fechadas. Cresce aceleradamente o desemprego. Grande número de pequenos produtores da cidade e do campo são arruinados. A falta de saída para as mercadorias produzidas leva ao transtorno do comércio. Rompem-se as relações de crédito. Os capitalistas sentem uma carência aguda de dinheiro em mão para os pagamentos. O “crack” irrompe nas bolsas — caem aceleradamente as cotações das ações e de outros títulos. Espraia-se a onda de bancarrotas de firmas industriais, comerciais e bancárias.” [2]

 

A crise de superprodução em fins da década de 60 e início da de 70 foi amenizada pelo sistema global às custas da imensa exploração ambiental (recursos energéticos), impulsionada, principalmente, pelo aumento do consumismo, da modernização etc. Em 2008, passamos pela decadência financeira que começou nos Estados Unidos com o colapso dos bancos Bear Stern e Lehman Brothers. Uma recessão que vem reverberando até o presente, golpeando a economia dos principais países – mas que não deixam de arrastar praticamente todos os outros países do globo.

 

A crise que se desencadeou pelo mundo reside na própria dinâmica da acumulação que produz de período em período uma superprodução de capital, decorrente da anarquia da produção capitalista.

 

Na Europa, temos as grandes Alemanha, França e Inglaterra, sendo que as duas últimas estão naufragando em câmera lenta; enquanto que Grécia, Espanha, Itália e Irlanda já se encontram nos seus piores dias.

 

O presidente republicano norte-americano Donald Trump vai tentar retomar o crescimento dos Estados Unidos, cuja elevação de juros preocupa a economia mundial em 2017 [3]. Os países chamados “emergentes” que integram os BRICS sofrem com o aprofundamento da crise. Em 2008, no Brasil, o então presidente Lula disse que a crise econômica mundial chegava como uma “marolinha”. Poucos anos depois, o segundo governo de Dilma Rousseff foi abatido pelo furacão da crise que abriu espaço para o avanço de setores da grande burguesia brasileira, que juntamente ao imperialismo norte-americano, mais uma vez utilizaram de meios ilegítimos para efetuar novamente um golpe de Estado anti-povo em nosso país. Cenário que também possibilitou a ascensão da pior aberração gerada pelo capitalismo: o fascismo.

 

 

Na América Latina, Argentina, Venezuela, México e, na Ásia o Japão e a Coréia do Sul, amargam índices sofríveis de crescimento econômico. Certos teóricos chamam esse fenômeno pelo qual passa as economias mais relevantes do mundo de “estagnação secular”, que para alguns teve o seu início no final dos anos 60; para outros, nos anos 90 após a dissolução da URSS ou até mesmo com o colapso em 2008.

 

As interpretações são variáveis, mas temos certeza de que a aplicação de dinheiro nessas economias debilitadas com a finalidade de assegurar os lucros dos monopólios não está surtindo efeito. O mais curioso de tudo é que a economia dos países centrais continua tão ou mais adoecida do que no período da recessão: o mundo ainda não saiu da crise de 2008.

 

Para se analisarmos essas oscilações do capitalismo, creio que seja necessário voltar a Nikolai Kondratiev (1892-1938). Kondratiev foi um economista russo que tentou estudar os movimentos cíclicos econômicos através de uma variação de 50 a 60 anos. Seu trabalho ficou conhecido como ciclos de Kondratiev. Ao decorrer da história do capitalismo foram assinalados quatro desses ciclos. Todas as etapas são demarcadas por uma série de modificações no sistema. Sua pesquisa teve início a partir da revolução industrial inglesa. No início do século XIX tivemos a máquina a vapor e o crescimento da indústria textil. No meio desse mesmo século, o aço e a implantação de ferrovias e, no final, a eletricidade e os motores etc. Durante o século XX, por volta dos anos 40, avanços na eletrônica, indústria petroquímica e na difusão do setor automobilístico. Seguindo a lógica de Kondratiev, nos anos 90 tivemos a prosperidade nos setores da biotecnologia, robótica, nanotecnologia, informática e outros que inovaram as bases da produção, dando um curto fôlego a mais ao capital. 

 

Só que desta vez os avanços técnicos não surtiram efeitos positivos; não apontam para algo expressivo o suficiente para resolver essa enorme crise de acumulação, mas, ao contrário, escancararam seus piores elementos. Entra-se em uma fase descendente, quando o esquema dos ciclos supostamente apontaria uma guinada, como nos outros períodos. Logo, a teoria do economista russo perde o seu sentido analítico.

 

As coisas pioraram após a queda do bloco socialista. É evidente que a situação do trabalhador em âmbito mundial vem se degradando, que a sua qualidade de vida diminui devido acima de tudo às políticas neoliberais implantadas na Inglaterra e nos EUA nos anos 80 e disseminada por outros países daí em diante. O neoliberalismo, este flagelo para a humanidade que a as ondas de Kondratiev não puderam prever. Nos anos 90, década na qual a economia mundial foi esmagada pela bota do parasitismo financeiro, operou-se uma dinâmica imensamente distinta das fases anteriores do capitalismo. Na realidade, o que tivemos foi a grande recessão de 2007-08 que começou no mercado imobiliário.

 

 

O capitalismo hoje, como nunca antes, se encontra incapaz de satisfazer as necessidades humanas e, para alguns autores desde os anos 70, se encontra em um estágio deteriorado, senil. Não podemos perder de vista que os alicerces do aparato do sistema global não se limitam a relações econômicas. Nessa balança existem outros pesos como questões geopolíticas, geoestratégicas, militares, culturais etc. Como em 2007-2008, a decadência dos EUA, o centro da economia mundial, pode ser o carro chefe de crises vindouras. 

 

Os Estados Unidos se consolidaram como grande potência econômica e bélica mundial após a queda do muro de Berlim em 1989. A década que se seguiu foi marcada pela financeirização total do sistema e pela difusão de uma espécie de ethos do capitalismo. Com o fim do socialismo soviético que equilibrava o poder mundial através da multipolaridade, se inaugura um período chamado por alguns de década da “globalização” – fenômeno que vinha se formando desde os anos 70. Assim, as teias de influência do império norte-americano se espalham pelo mundo que tenta implantar a todo custo o full spectrum dominance , golpeando governos de forma indireta (parlamentar, midiática, jurídica) ou direta (intervenção militar) em busca de mudanças de regime. Estrangula a economia de países independentes através de sanções, chacina populações inteiras e também utiliza métodos mais sutis como colonizar o inconsciente das massas por meio da indústria cultural, tudo em prol de seus interesses nefastos.

 

No séc. XXI, acima de tudo devido à crise de 2007-08, os EUA precisaram, internamente, de uma “intervenção dos Bancos Centrais que detiveram parcialmente o curso da crise de 2008, com uma destruição lenta, limitada e desigual da capacidade produtiva e uma destruição limitada e temporária do capital fictício”[4]. Mas a única coisa que conseguiram foi aguçar as contradições econômicas e o endividamento dos principais Estados capitalistas, salvando-se somente de um colapso global do sistema financeiro.    Externamente os Estados Unidos se lançaram em incursões militares desestabilizadoras e parasitárias pelo mundo. Financiaram grupos terroristas, como é o caso do Estado Islâmico, principalmente no Oriente Médio, mas também na África, em países como Iraque, Afeganistão, Líbia, Somália, Síria, Iêmen e Paquistão, para assegurar a pilhagem de seus recursos e assim reanimar a especulação financeira.

 

Esse país é o detentor da maior economia mundial, o maior consumidor global e o polo dos negócios financeiros internacionais. Portanto, se houver uma nova crise existem grandes chances do pavio dela ser os Estados Unidos. Resumindo, o saldo das três últimas décadas: hipertrofia financeira global e a desaceleração no longo prazo da economia mundial. Isso tudo para não falar da crise na matriz energética e a busca incessante do capitalismo para encontrar recursos naturais não renováveis como o petróleo. A insuficiência destes recursos paralisa o desenvolvimento, motivo pelos quais as grandes empresas vêm investindo em fontes alternativas e “sustentáveis” de energia. Acredite quem quiser na fábula do capitalismo verde. Tudo isso se insere no quadro da total depredação catastrófica do meio ambiente. [5]

 

A crise presente começou a se manifestar de forma mais intensa nessa conjuntura de mudanças da política monetária estadunidense devido à agravação dos gigantescos déficits internos e externos.

 

Em suma, apenas 1% possui 51% da riqueza mundial; 10% possuem 89% e os 50% de baixo possuem apenas 1% [6]. Oito pessoas têm a mesma riqueza que os 50% mais pobres, segundo relatório da Oxfam [7].   A pobreza aumenta; o desemprego assola a grande maioria dos países; os cortes e ataques no pouco que resta de bem-estar, nos direitos trabalhistas e nos salários prosseguem para que a roda de fogo do capital financeiro não pare de girar. Sem falar que as imensas dificuldades de administração social e política, que demonstram a sua falência. Todas essas ocorrências acirram espontaneamente a luta de classes de caráter global e geram levantes populacionais tanto nas nações desenvolvidas quanto nas subdesenvolvidas.

 

Segundo o economista francês François Chesnais, o capitalismo pode estar vivendo sua crise final e o andar da carruagem vem dando abertura para essa possibilidade. Os intelectuais a serviço da grande mídia, embebidos ou a serviço da ideologia burguesa, custam a aceitar a possibilidade de o capitalismo ter entrado em uma fase irreversível de desmoronamento. Esse sintoma escancara a fraqueza das instituições. Não existem medidas políticas com a capacidade de revigorar o funcionamento do sistema capitalista.

 

Essas teorias que apontam que logo virá uma espécie de pós-capitalismo ou algo do tipo se desmancham no ar, ainda porque o capitalismo dentro de sua lógica de funcionamento só pode gerar mais capitalismo.  Devemos ser pessimistas na análise, mas otimistas na ação, é mais do que urgente a necessidade de superação do modo de produção capitalista e a construção de uma nova sociedade. Este cancro da humanidade só será destruído quando milhões de homens e mulheres organizados marcharem rumo ao socialismo.

 

Fontes:

[1] http://www.novacultura.info/single-post/2016/07/15/Alertas-vermelhos-Sinais-de-implos%C3%A3o-na-economia-global

 

[2] https://www.marxists.org/portugues/tematica/livros/manual/14.htm

 

[3] http://revistaopera.com.br/2016/12/28/elevacao-de-juros-norte-americanos-preocupa-economia-mundial-em-2017/?utm_content=buffer8e1aa&utm_medium=social&utm_source=facebook.com&utm_campaign=buffer

 

[4] https://www.brasildefato.com.br/2016/10/18/estamos-caminhando-para-a-barbarie-diz-economista-frances/

 

[5] https://www.novacultura.info/single-post/2015/09/22/COP-21-a-f%C3%A1bula-do-capitalismo-verde

 

[6] http://www.novacultura.info/single-post/2016/12/08/1-possui-51-da-riqueza-mundial-10-possuem-89-e-os-50-de-baixo-possuem-apenas-1

 

[7]http://economia.uol.com.br/noticias/efe/2017/01/15/oito-pessoas-tem-mesma-riqueza-que-50-mais-pobres-denuncia-oxfam.htm?cmpid=fb-uolnot-left

 

 

Por André de Lucas

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