Hijab, política e cultura nacional

29/01/2016

É curioso ver o ocidente celebrando as mulheres que vivem em países islâmicos, de governo teocrático, tirando seus véus contra a opressão machista/religiosa que lhes é imposta. Claro que se formos analisar essa questão num escopo binário e limitarmos nossas reflexões ao que nos é jogado pela mídia de massas ocidental, celebraremos igualmente, porém, para estudarmos a questão com lucidez devemos, primeiramente, abandonar a leitura binária do conflito que circunda a questão do Hijab.

 

 Apesar de parecer uma questão simples para discussão, aqui, a luta de classes se configura em duas formas: uma é a luta contra a opressão da mulher e, consequentemente, contra o patriarcado; e a outra é a luta de classes enquanto luta nacional.

 

 Após abandonarmos a leitura binária do conflito, podemos analisá-lo à luz do materialismo histórico e do dialético para melhor compreensão da questão.

 

 O interesse do ocidente em celebrar a “retirada dos véus” das mulheres que vivem sob um governo teocrático vai para muito além de apoiar a luta contra a opressão das mulheres, apesar de parecer isso. É sabido o interesse político-econômico que os países imperialistas, como EUA e Reino Unido, têm sob os países de orientação islâmica e, da mesma forma é sabido a campanha ideológica ocidental contra tais países e, consequentemente, contra o islã. Parte da campanha ideológica imperialista contra os países islâmicos do Oriente Médio recai justamente na questão do uso do Hijab, sempre sendo colocado como uma forma de opressão às mulheres, o que, em certa medida, pode ser verídico, mas o que os meios de comunicação de massa ocidentais “esquecem”, e não por acaso, é que para muitas dessas mulheres desses países, o uso do véu é um símbolo de resistência contra outro tipo de opressão: a opressão imperialista imposta ao seu país, à sua cultura e à seu credo, via coerção econômica e/ou militar. Essa é, inclusive, a segunda forma que a luta de classes está configurada, como luta nacional.

 

Posso citar diversos exemplos de momentos na história em que a luta de classes, enquanto luta contra a opressão às mulheres, entra em contradição com a luta nacional, que também é uma configuração das lutas de classes marxiana, mas ater-me-ei somente a dois: o primeiro exemplo é atual. Trata-se das mulheres guerrilheiras do Curdistão, que, algumas delas, lutam com o Hijab, pois faz parte de sua identidade nacional, sendo, portanto, um símbolo de resistência. Para dar o outro exemplo, temos de voltar algumas décadas na história, estou falando da Argélia, que sendo colonizada pela França durante o século XIX até metade do século XX, houve um período em que as tensões sociais (e raciais) se atenuaram ao ponto da metrópole francesa proibir o uso do Hijab pelas mulheres argelinas. É claro que a proibição tem o intuito de destruir a identidade nacional daquele povo que estava sendo colonizado por um “povo superior”, portanto, mais uma vez, o uso do Hijab caracterizava um símbolo de resistência contra o invasor europeu e, mais uma vez, a luta contra a opressão às mulheres entrou em contradição com a luta nacional.

 

Os dois casos apresentados parecem diferentes, mas nem tanto. Enquanto o colonialismo francês justificava a espoliação do povo argelino pregando o “universalismo imperial da civilização”, o imperialismo estadunidense evoca o “universalismo imperial dos direitos humanos” ou da “democracia” para justificar sua espoliação em diversos países soberanos do Oriente Médio que não se resignam às ordens imperiais dos Estados Unidos da América. E o véu, ou Hijab, tanto criticado pelos movimentos de esquerda que lutam pela justa causa da emancipação feminina, cumpre um papel fundamental enquanto símbolo de resistência nacional contra a invasão estrangeira.

 

Ora, não estou defendendo a opressão que as mulheres sofrem em tais países teocráticos, seria um equívoco gigantesco chegar a tal conclusão, mas é fundamental refletirmos para além do que nos é empurrado pelas mídias de massa ocidentais em relação às lutas de classes que se dão no Oriente Médio, pois o que se nota nos movimentos de esquerda é a reprodução do discurso da classe dominante, apesar de tais movimentos sociais terem boas intenções, mas como dizia Lenin: “de boas intenções, o caminho do inferno está pavimentado”.

 

por Rodrigo Ortega

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