Rosa: "Em marcha com a ideia do Dia dos Trabalhadores"

15/01/2016

Em meio as mais selvagens corrupções do imperialismo, o feriado mundial do proletariado está se repetindo pela vigésima quarta vez. O que tem acontecido no quarto de século desde a decisão que marcou época, de celebrar o Dia dos Trabalhadores, é uma imensa parte da trajetória histórica. Quando a manifestação de maio teve seu início, a vanguarda da Internacional, a classe trabalhadora alemã, estava quebrando as correntes de uma vergonhosa lei de exceção e construindo o caminho de um desenvolvimento livre e legal. O período da longa depressão no mercado mundial desde a quebra dos anos de 1870 tinha sido superado, e a economia capitalista tinha acabado de iniciar uma fase de esplêndido crescimento, a qual duraria aproximadamente uma década. Ao mesmo tempo, após vinte anos de paz contínua, o mundo suspirou de alívio, relembrando o período da guerra na qual o sistema estatal europeu moderno recebeu seu batismo de sangue. O caminho parecia livre para um desenvolvimento cultural tranquilo; ilusões, esperanças de uma razoável e pacífica discussão entre trabalho e capital cresceu abundantemente como milho verde nas fileiras do socialismo. Propostas como “esticar a mão aberta à boa vontade” marcaram o início dos anos de 1890; promessas de uma imperceptível “mudança gradual para o socialismo” marcaram seu fim. Crises, guerras e revolução eram para ser coisas do passado, os sapatinhos de bebê da sociedade moderna; parlamentarismo e sindicatos, democracia no país e democracia na fábrica deveriam abrir as portas de uma nova e melhor ordem.

 

O curso dos acontecimentos submeteu todas essas ilusões a um terrível teste. No final dos anos de 1890, no lugar do prometido e suave desenvolvimento cultural como reforma social, começou um período das mais violentas, agudas e desonestas contradições capitalistas – uma tempestade e pressão, um choque e colisão, uma sacudida e um tremor nos alicerces da sociedade. Na década seguinte, o período de dez anos de prosperidade econômica foi pago por duas violentas crises mundiais. Após duas décadas de paz mundial, na última década do século passado seguiram-se seis guerras sangrentas, e na primeira década do novo século, quatro sangrentas revoluções. Ao invés de reformas sociais – leis de conspiração, leis penais, e práxis penal; em vez da democracia industrial – a poderosa concentração de capital em cartéis e associações de negócios, e uma prática internacional de gigantes suspensões temporárias do contrato de trabalho. E em vez do novo crescimento da democracia no país – uma miserável ruína dos últimos restos do liberalismo burguês e da democracia burguesa. Especificamente no caso da Alemanha, o destino dos partidos burgueses desde os anos de 1890 trouxe: a ascensão e a imediata e incorrigível dissolução dos Socialistas Nacionais; a cisão da oposição “radical” e a reunificação de seus fragmentos no atoleiro da reação; e, finalmente, a transformação do “centro” de um partido radical do povo a um partido governamental conservador. A inconstância no desenvolvimento dos partidos foi semelhante em outros países capitalistas. No geral, a classe trabalhadora revolucionária se vê sozinha, opondo-se a uma fechada e hostil reação das classes dominantes e seus maliciosos truques.

 

O símbolo sob o qual todo este desenvolvimento, tanto econômico quanto político, foi consumado, a fórmula à qual seus resultados apontam, é o imperialismo. Este não é um elemento novo, não é uma mudança inesperada no caminho histórico geral da sociedade capitalista. Armamentos e guerras, contradições internacionais e política colonial acompanham a história do capitalismo desde seu berço. É a mais extrema intensificação destes elementos, sua reunião, uma gigante tempestade destas contradições que produziu uma nova era no curso da sociedade moderna. Em uma interação dialética, tanto a causa quanto o efeito da imensa acumulação de capital e o aumento e agudez das contradições que acontecem internamente, entre capital e trabalho; externamente, entre os países capitalistas – o imperialismo abriu a fase final, a divisão do mundo pela investida do capital. Uma corrente de intermináveis, exorbitantes armamentos em terra e no mar em todos os países capitalistas por causa da concorrência; uma corrente de guerras sangrentas que se espalharam da África à Europa a qual, a qualquer momento poderia acender a faísca que colocaria o mundo em chamas; além disso, o espectro da não fiscalizada inflação, da fome das massas, em todo o mundo capitalista – tudo isso são os sinais sob os quais o feriado mundial do trabalho, após aproximadamente um quarto de século se aproxima. E cada um destes sinais é uma prova ardente da verdade viva e do poder da ideia do Dia dos Trabalhadores.

 

A brilhante ideia básica do Dia dos Trabalhadores é a autônoma, imediata tomada de atitude das massas proletárias, a ação política de massa dos milhões de trabalhadores que, de maneira diferente, são atomizados pelas barreiras do Estado nos afazeres parlamentares do dia-a-dia, que, na maior parte, só podem expressar sua própria vontade através do voto, através da eleição de seus representantes. A excelente proposta do francês Lavigne no Congresso da Internacional em Paris acrescentou a esta manifestação parlamentar e indireta da vontade do proletariado uma manifestação em massa direta e internacional: a greve como uma manifestação e meios de luta pela jornada de oito horas, paz mundial e socialismo.

 

E, na realidade, que ascensão esta ideia, esta nova forma de luta tem tido na última década! A greve de massa tem se tornado uma arma da luta política reconhecida internacionalmente e indispensável. Como uma manifestação, como uma arma na luta, retorna em inúmeras formas e gradações em todos os países por aproximadamente quinze anos. Como um sinal da reanimação revolucionária do proletariado na Rússia, como um meio tenaz de luta nas mãos do proletariado belga, acabou de provar seu poder vivo. E a próxima e mais urgente questão na Alemanha – os direitos de voto dos prussianos – obviamente, por causa de seu tratamento desleixado anterior, aponta para uma ascendente ação em massa do proletariado prussiano rumo à greve geral como a única solução possível.

 

Não é de admirar! Todo o desenvolvimento, toda a tendência do imperialismo na última década leva a classe trabalhadora internacional a ver mais claramente e de forma mais tangível que apenas a tomada de atitude pessoal das massas mais amplas, sua ação política pessoal, manifestações de massa, e greves de massa, que devem cedo ou tarde abrir um período de lutas revolucionárias pelo poder no Estado, podem dar a resposta correta do proletariado à imensa opressão da política imperialista. Neste momento de demências por armamentos e orgias de guerra, apenas a decidida vontade de lutar das massas trabalhadoras, sua capacidade e prontidão para poderosas ações de massa, podem manter a paz mundial e tirar do caminho a ameaçadora conflagração do mundo. E quanto mais a ideia do Dia dos Trabalhadores, a ideia de ações de massa decididas como uma manifestação da união internacional, e como um meio de luta pela paz e pelo socialismo, se enraíza nas tropas mais fortes da Internacional, a classe trabalhadora alemã, maior é nossa garantia que fora da guerra mundial, a qual, mais cedo ou mais tarde, é inevitável, virá adiante uma luta definitiva e vitoriosa entre o mundo do trabalho e o do capital.

 

por Rosa Luxemburgo, publicado no Liepziger Volkszeitung, 30 de abril de 1913.

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