"Um condor sobre Caracas"

31/08/2016

 

Aos mesmo decibéis e com o exagero dramático que denota o desespero nas pessoas que vociferam e cospem raiva ao falar, viram os olhos, ficam corados e fecham os punhos enquanto promete vingança, a oposição venezuelana modelou os tons com que anuncia a Grande Tomada de Caracas prevista para o 1º de setembro.

 

Segundo afirmam seus mais inflamados porta-vozes – que são muito e bem pagos, desde os cabeças políticos em destaque até os diários, emissoras e canais de televisão alugados –, a marcha desta quinta reunirá na capital pessoas de todos os estados do país para exigir a realização neste ano do plebiscito revogatório contra o presidente constitucional Nicolás Maduro.

 

Mas a julgar pelos antecedentes que no passado recente e não tão recente testemunharam as apostas que sempre fizeram as mobilizações públicas da direita, ninguém engole a história de que a atual movimentação vá se manter nos limites racionais da manifestação pacífica.

 

Quando já está clara a fundamentação a impossibilidade legal de realizar em 2016 o referendo contra o mandatário, considerando os prazos fixadas pela Constituição, a marcha para exigir não passa de um aparato propagandístico erguido para mascarar, ao menos na etapa do anúncio da convocatória, os planos de provocação e violência que subjazem na pretensa mobilização de 1º de setembro.

 

Não se trata de simples inferências apoiadas somente no histórico de um setor azeitado em promover conspirações, ou nas denúncias políticas do golpe em gestação que oportunamente revelaram figuras do chavismo no poder, incluso o próprio chefe de Estado. O dizem as provas que foram aportadas nos últimos dias pelos serviços de inteligência e o desmonte operativo de várias ações paramilitares que aproveitariam o contexto de desestabilização construído para esta quinta.

 

Verdadeiramente sérios e preocupantes resultam os fatos descobertos pelos corpos de investigação nos últimos dias.

 

O primeiro vice-presidente do PSUV, Diosdado Cabello, revelou a captura de um dirigente opositor pelas ações desestabilizadoras em anos anteriores, em cujo poder se encontrava detonantes de explosivos.

 

O membro do partido Voluntad Popular, que segundo Cabello recebeu em 2007 uma soma de meio milhão de dólares para sair da Venezuela, está envolvido em um complô para gerar violência durante a marcha.

 

Simultaneamente, no estado de Carabobo foi desarticulado um grupo de pessoas que transportavam imitações de armas e uniformes militares que vestiriam de maneira ilegal para simular um ataque as facções que fariam protestos na entidade, e assim desencadear uma reação com fogo real pelos protestantes, o que geraria lesões, danos materiais e sustentaria um argumento midiático de acusação contra as forças da ordem e a cumplicidade do governo.

 

Contudo, o sucesso que causou mais agitação, inclusive para além das fronteiras, foi a prisão em um centro penitenciário o ex prefeito opositor Daniel Ceballos, vinculado com as guarimbas de dois anos atrás e que permanecia sob prisão domiciliar.

 

O insólito do caso é que ao tornar pública a prisão, não demoraram as reações do governo estadunidense, que em palavras temerárias e ingerencistas do porta-voz do Departamento de Estado, John Kirby, qualificou o ato como esforço para intimidar e obstaculizar os manifestantes contrários ao poder revolucionário.

 

Abertamente, a declaração referenda a participação dos Estados Unidos na conspiração da direita Venezuela, um vínculo que outra vez foi denunciado na resposta imediata do Ministério de Relações Exteriores da nação sul-americana, em atitude de absoluto rechaço afirmou em nota: “fica evidente a marca e autoria do golpe de Estado planejado para este 1º de setembro de 2016, que em cumplicidade com a oposição antidemocrática e a direita internacional, tenta reeditar o grave expediente de agressões e morte, que já em 2002 foi derrotado com valentia e dignidade pelo povo venezuelano.

 

Demasiados antecedentes para tantos sinais parecidos. Nenhum outro contexto na região se assemelha ao quadro do velho Plano Condor, com um vice-ministro boliviano assassinado, uma Dilma impedida a um cargo presidencial a mercê de uma articulação de senadores, um Macri neoliberal que despoja em pouco tempo seu país dos benefícios conquistados, e claro, a cobiçada Venezuela posta sob pressão de uma oligarquia que condena à escassez os seus próprios conterrâneos, para tentar expulsar do poder a Revolução chavista.

 

Em poucas horas, as ruas de Caracas voltaram a ter sobre si os olhares do mundo, convocados por um show midiático que sataniza o Governo Bolivariano e entre outras coisas, distrai a visão de conflitos gravíssimos que em várias latitudes inclusive no interior da potência do Norte cobram milhares de vidas as consequências da intriga e da arrogância.

 

Os velhos guias do golpe apontam para um cenário perigoso para a quinta-feira. A instigação tem os mesmos rostos conhecidos, os mesmos hábitos anteriores, como os do diário El Nacional que em abril de 2002 convocou em sua primeira página sua explícita afiliação: A batalha final será em Miraflores. Agora publica com intenção similar: 1S – Começa o final.

 

A expectativa, contudo, não depende somente nem dos antecedentes, nem do que possa fazer sua vontade ao lado conspirador. Fidel ao Governo, por cima das carências cotidianas a que está submetida devido a uma guerra econômica artificial, uma massa revolucionária tomou as ruas desde antes, e em sucessivas marchas reafirma que não permitirá a libertinagem, nem a usurpação, enquanto proclama seu desejo pela paz.

 

Certamente já não é o mesmo país: nem o de 2002 com uma força armada minada pela deslealdade, nem o do Governo tomado de surpresa com as revoltas guarimbeiras de 2014; mas para o desespero dos mesmos oligarcas e seus herdeiros demonstraram que não medem consequências, ainda que o preço seja o sangue e a violência. Nisto aposta o condor ressuscitado que sobrevoa Caracas, em sua rota de rapina sobre os povos da América atual.

 

por Dilbert Reyes Rodríguez, no Granma

 

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