"Tentativa de golpe expõe o profundo conflito entre os reacionários na Turquia"

19/07/2016

A tentativa fracassada de golpe de Estado levada a cabo por um setor do militares turcos contra o Presidente Recep Tayyip Erdogan expõe a grave crise e polarização da sociedade turca.

 

De acordo com os relatos, 1.563 militares suspeitos de envolvimento no golpe foram presos e estão agora sob custódia. O número de mortos de acordo com um relatório é de 41 policiais, 2 soldados, 47 civis e 104 “golpistas”, ou um total de 194 mortos.

 

Até agora, muitas coisas ainda não foram esclarecidas, como as identidades dos golpistas, seus motivos e objetivos reais.

 

Erdogan acusou o clérigo muçulmano residente nos Estados Unidos, Fethulah Gulen e seus seguidores dentro das forças armadas, de traçarem o golpe. 2.745 juízes suspeitos de serem seguidores de Gulen foram removidos de seus cargos. Seu movimento chamado Hizmet negou ter qualquer relação com a tentativa de golpe. Apesar dos seguidores de Gulen afirmarem que Hizmet é principalmente um movimento civil, muitos gulenistas ocupam posições-chave no exército, na polícia, no judiciário da Turquia e nos meios de comunicação.

 

Gulen era um aliado próximo de Erdogan até seu rompimento com este em 2013, quando Gulen o acusou de corrupção. O movimento de Gulen também prega um tipo moderado de Islã, em oposição à orientação fundamentalista de Erdogan. Gulen, que é abertamente a favor de uma democracia multipartidária criticou Erdogan por seu autoritarismo.

 

Não está claro qual o papel que os Estados Unidos teve na tentativa de golpe de Estado. O que acontece na Turquia, que é um satélite-chave dos EUA e da OTAN na projeção de poder destes na conturbada região do Oriente Médio, é certamente de grande interesse para Washington. A Turquia tem se envolvido nas guerras de agressão dos Estados Unidos no Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria. O país abriga 5.000 aviadores estadunidenses em sua base aérea de Incirlik e cerca de 90 armas nucleares táticas.

 

Mas 24 horas depois do golpe, tivemos apenas o silêncio de Washington. Foi só depois de Erdogan parecer ter sobrevivido à tentativa de golpe que B. Obama declarou seu apoio ao “governo democraticamente eleito” de Erdogan. Obama não se importou quando uma maquinação militar pró-EUA derrubou o “governo democraticamente eleito” de Morsi no Egito.

 

Há também sinais confusos provenientes do campo de Erdogan em relação aos Estados Unidos. Erdogan exigiu dos EUA a extradição de Gulen, lembrando-os de que a Turquia nunca recusou a extradição de terroristas solicitados por este. Mais ou menos ao mesmo tempo, o Ministro do Trabalho Süleyman Soylu da Turquia acusou os EUA ao vivo na televisão de estar por trás do golpe por abrigado Gulen. O ministro do Exterior da Turquia Mevlut Cavusoglu, por outro lado, disse que os militares devem agora ser limpos da influência gulenista para que estes possam prestar um melhor apoio e coordenação para a OTAN.

 

Há também especulações de que o próprio Erdogan lançou um “golpe falso” para justificar uma aquisição de mais poder com a finalidade de esmagar seus adversários políticos. Algumas publicações em redes sociais têm comparado a tentativa de golpe ao incêndio do Reichstag em 1933, em que 160 pessoas morreram, e que Hitler usou tal acontecimento como pretexto para suspender as liberdades civis, ordenar a detenção de seus opositores e consolidar seu poder.

 

Erdogan foi relatado por ter dito que o golpe foi um “presente do paraíso”, dando origem à especulação de que ele mesmo orquestrou o golpe. Seja qual for a verdade, Erdogan tem certeza de usá-lo para eliminar seus oponentes políticos e acumular mais poder pessoal. Seus seguidores fanáticos já estão pedindo a pena de morte para os golpistas.

 

Erdogan tem sido alvo de várias críticas nos últimos anos, tanto de dentro do país como no exterior, por sua repressão crescente e suas políticas tirânicas. Prometendo esmagar o movimento de libertação curdo encabeçado pelo PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão), ele ordenou uma ofensiva militar sobre as comunidades curdas devastando edifícios e casas, matando inúmeros civis. Desde 2014, ele prendeu 1.845 parlamentares, escritores e acadêmicos críticos de suas políticas, apelidando-os de terroristas.

 

Ele ordenou a prisão de jornalistas e tomou o controle dos meios de comunicação críticos ao seu regime. Sob a lei turca, insultar o presidente é um delito que acarreta uma pena de prisão de quatro anos. Como resultado, a Repórteres Sem Fronteiras colocou a Turquia na posição nº 149 entre 180 países no índice de liberdade de imprensa.

 

Em 2013, Erdogan foi confrontado com onda atrás de onda de atos de protesto que durou meses. A agitação começou com uma ação de protesto na Praça Taksim contra a extirpação de 600 árvores no Parque Gezi para dar lugar a um projeto de desenvolvimento que incluía um shopping, uma mesquita e um quartel militar. O regime respondeu com uma repressão brutal. Várias pessoas foram mortas e milhares ficaram feridas.

 

Berkin Elvan, um manifestante de 14 anos de idade, morreu após meses em estado de coma logo depois de ter sido atingido por uma bomba de gás lacrimogênio. Ele logo se tornou o símbolo dos protestos contra o regime tirânico de Erdogan. Partindo de uma questão apenas local, as manifestações se transformaram em protestos contra as medidas econômicas e políticas tomadas pelo regime, com os manifestantes pedindo às pessoas para “unirem-se contra o fascismo” e também para que o governo renunciasse.

 

No ano seguinte, o regime foi novamente confrontado com protestos logo depois de ter utilizado força bruta para impedir que as manifestações do Primeiro de Maio acontecessem na Praça Taksim. Os protestos também foram desencadeados devido ao processo de intensificação repressão por parte do regime, utilizando a maioria do AKP (Partido para a Justiça e Desenvolvimento) no Parlamento para pôr em vigor leis impopulares concernentes a censura na internet e o aumento dos poderes da Agência Nacional de Espionagem (MIT), e os do governo sobre os tribunais.

 

O golpe recente traz à tona as profundas divisões na sociedade turca, as contradições entre as massas populares e as classes dominantes locais, e as contradições internas desta última. O conflito violento entre as forças reacionárias cria condições favoráveis para o avanço do movimento revolucionário das massas.

 

A Liga Internacional da Luta dos Povos (ILPS) apoia a luta legítima do povo turco pela libertação nacional e pela democracia contra o regime fascista de Erdogan. Os partidos maoístas estão na luta para liderar o povo turco no caminho da revolução armada. A ILPS da mesma forma apoia a luta justa do povo curdo pela autodeterminação nacional e pela democracia sob a direção do Partido dos Trabalhadores do Curdistão.

 

 

Emitido pelo gabinete do Presidente do Comitê de Coordenação Internacional da

Liga Internacional da Luta dos Povos (ILPS), em 18 de julho de 2016.

 

 

Traduzido por Igor Dias

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