4 anos de Curuguaty: Recrudescem os ataques do imperialismo contra a América Latina

16/07/2016

Nos últimos dias, movimentos de massas do povo paraguaio realizaram manifestações por todos os cantos do Paraguai por ocasião dos quatro anos do Massacre de Curuguaty, bem como pelas arbitrariedades do Estado reacionário e pró-imperialista paraguaio em condenar dezenas de camponeses vítimas do próprio massacre, que deploravelmente são agora colocados como “criminosos”. As amplas organizações democráticas e populares do povo paraguaio (entre elas, principalmente, a Federación Nacional Campesina e o Partido Paraguay Pyahurã) colocam o injusto “Julgamento de Curuguaty” como a mais recente e contundente ofensiva do imperialismo norte-americano e das classes dominantes paraguaias contra os operários e camponeses paraguaios.


O Massacre de Curuguaty também serviu de pretexto para o Golpe de Estado efetuado no ano de 2012 contra o ex-presidente reformista Fernando Lugo, com a posterior ascensão do títere do imperialismo norte-americano Horácio Cartes. Sem sombra de dúvidas, a derrubada de Lugo por um Golpe fascista bancado pelos Estados Unidos é parte constitutiva do aumento das interferências do imperialismo norte-americano sobre a América Latina, tida pelo mesmo como seu tradicional “quintal”. Assim como em 2012, no Paraguai, os países latino-americanos presenciaram também nos anos de 2008 e 2009 interferências claras do imperialismo norte-americano sobre seus respectivos assuntos internos. [1] Neste ano de 2016, agora, o imperialismo norte-americano estende suas garras sobre o Brasil, nosso país.


Os acontecimentos posteriores ao Massacre de Curuguaty interessam enormemente ao povo brasileiro e ao movimento revolucionário não apenas no sentido da genuína solidariedade internacionalista ao paraguaio, como também no sentido de compreender que o aumento das interferências dos Estados Unidos sobre o Paraguai dirigem-se, também, no sentido contrário à soberania nacional brasileira. Após a ascensão do narcopresidente oligarca Horácio Cartes, discute-se agora entre os círculos reacionários paraguaios a possibilidade de instalação de bases militares norte-americanas em território da República do Paraguai. Setores progressistas paraguaios já denunciam a presença velada de tropas militares norte-americanas e de serviços secretos de inteligência dos Estados Unidos no Paraguai, que visam principalmente abrir terreno para a entrada de gigantescas plantações de soja (com as quais as megacorporações norte-americanas do agribusiness lucram bilhões de dólares apenas no Paraguai) nas regiões rurais como, também, para conter o avanço da grande luta de libertação nacional liderada pelo Exército do Povo Paraguaio (EPP) e outros movimentos de massas democráticos.


A luta pela terra em Curuguaty e a resistência dos camponeses e trabalhadores rurais contra os ataques da pistolagem e da polícia
O caráter semicolonial e semifeudal da sociedade paraguaia e, principalmente, sua estrutura agrária semifeudal baseada no grande latifúndio improdutivo e nos cultivos extensivos e predatórios orientados para a exportação (tal como seu vizinho, Brasil), têm sido as grandes bases catalisadoras das lutas populares do povo paraguaio, e que particularmente tem determinado a eclosão de grandes revoltas camponesas e ocupações de terras nas regiões rurais do país. Um pequeno punhado de cerca de 7 mil grandes fazendeiros (proprietários de fazendas cuja área excede 500 hectares), verdadeiros oligarcas rurais, possui em suas mãos 68% do território nacional do país. O poder destes grandes senhores de terras é explicitado se se leva em conta que suas terras possuem extensões que ultrapassam o território nacional de países inteiros, como a Nova Zelândia, Guiné ou até mesmo o Reino Unido. Todos os dias, estes fazendeiros acumulam extensões cada vez maiores de terras através da grilagem, ao passo que a grande massa camponesa da nação permanece numa condição de gigantesca miséria, despossuída de terras para cultivar. Diante da fraqueza da indústria local, incapaz de absorver para as atividades produtivas a grande massa camponesa paraguaia arruinada, o resultado é a transformação do Paraguai no país com a maior concentração de renda do mundo, o mais desigual da América Latina, um país onde 18% da população nacional se encontra desnutrida, incapaz de consumir diariamente o mínimo de nutrientes necessários. Tais são as bases das quais devemos partir para uma melhor compreensão do desenrolar do massacre de Curuguaty e seus acontecimentos posteriores.


A cidade de Curuguaty está localizada no noroeste do Paraguai e baseia sua economia no cultivo extensivo da soja, existindo ali, também, grandes latifúndios improdutivos.


Na zona rural de Curuguaty, cerca de 60 famílias camponesas sem-terra, organizadas pela Federación Nacional Campesina, haviam ocupado em abril de 2012 uma fazenda improdutiva de 2 mil hectares. Esta mesma pertencia à empresa Industrial Paraguaya S.A. e fora doada pela mesma à Marinha paraguaia em 1967 para assentar um destacamento da Armada. Porém, nunca foi emitido qualquer documento que comprovasse realmente a doação da Industrial Paraguaya para a Marinha. Apesar de a área ocupada pelos camponeses ser efetivamente devoluta e passível de ser destinada à reforma agrária, na realidade ela havia sido grilada há algumas décadas por um grupo político ligado à família Riquelme, uma das principais famílias oligárquicas do Paraguai. Estas terras griladas de Curuguaty foram um presente dado pela ditadura militar de Stroessner à família Riquelme pelo apoio desta ao regime militar-fascista, bem como pela colaboração desta com a perseguição política a organizações democráticas que se opuseram ao regime de Stroessner.  


Sobre estas terras, os camponeses ergueram, em abril de 2012, o Acampamento Marina Kué.


Caricaturalmente, tal como é corrente nas regiões rurais brasileiras, no início de junho de 2012, os Riquelme exigiram que fosse efetuada uma reintegração de posse sobre a área grilada. Ou seja, ainda que os mesmos não dispusessem de qualquer documento demonstrando que as terras sobre as quais foram erguidas o acampamento Marina Kué realmente eram suas, a polícia local aceitou prontamente o mandato de reintegração de posse para massacrar os centenas de lavradores pobres que trabalhavam aquelas terras. Afinal, num país onde apenas 7 mil fazendeiros são donos de praticamente 70% do território do país, a justiça dos ricos fala mais alto.


Com efeito, no dia 15 de junho de 2012, a polícia deflagrou contra os camponeses acampados um violento despejo, completamente desproporcional em relação à capacidade de defesa dos agricultores. Contra estes, foi montada uma megaoperação policial que envolveu cerca de 300 policiais de elite fortemente armados, helicópteros, veículos militares, e demais. Em contrapartida, sobrava para os lavradores a capacidade de resistirem tão somente com pedaços de pau, foices, espingardas de caça rudimentares e rojões. Para os policiais da reação, pouco importava que no acampamento estivessem presentes até mesmo crianças, idosos, e mulheres grávidas. Aqui, o poder da terra é sacrossanto.


Em 15 de junho de 2012, o Paraguai testemunhou seu Eldorado dos Carajás do século XXI. Os policiais assassinaram onze camponeses sem-terra e feriram centenas. Durante o tiroteio, seis policiais foram executados. Fernando Lugo, fazendo jus à concepção colaboracionista com o atraso, enviou tropas do Exército paraguaio para a região com o fim de auxiliar a polícia a reprimir o movimento camponês de Curuguaty.


Massacre de Curuguaty catalisa uma crise política nacional e continental
Fernando Lugo cavou sua própria cova política ao ser não apenas conivente com o massacre dos policiais sobre os camponeses sem-terra, como também agindo de forma ativa para auxiliar no massacre através do envio Exército reacionário paraguaio para Curuguaty. Tentando conciliar com o atraso para não sofrer os ataques deste, ao contrário, o Massacre de Curuguaty foi exatamente o pretexto que os oligarcas locais utilizaram como pretexto para destituí-lo do poder através de um processo de impeachment. A “falta de capacidade administrativa” e a suposta incapacidade de Lugo de lidar com os conflitos agrários no interior paraguaio foram também pano de fundo para sua derrubada. Vários países da América do Sul se opuseram à queda Lugo e à ascensão de Horácio Cartes, levando por este motivo à suspensão do Paraguai do bloco econômico do Mercosul em 2012.


A derrubada de Lugo foi uma grande comprovação do aprofundamento do caráter agressor do imperialismo norte-americano contra os países atrasados, de maneira que os Estados Unidos e seus lacaios em outros países não se interessam mais em derrubar tão somente líderes radicalmente antiimperialistas, mas qualquer um que divirja minimamente de sua hegemonia. As posições de Lugo no sentido do fortalecimento do Mercosul e no aprofundamento da “integração latino-americana” explicam em parte sua queda.


Prossegue a repressão sob Horácio Cartes
A ascensão de Cartes, por outro lado, significou um fortalecimento enorme das posições do imperialismo norte-americano na América do Sul, que conta agora no Paraguai com um governo puro-sangue da grande burguesia compradora local e da classe latifundiária pró-imperialistas. Atualmente, os movimentos de massas democráticos são tratados no Paraguai ao “estilo colombiano”, com a prisão e assassinato de centenas e até mesmo milhares de ativistas de massas que se opõem aos ataques do governo. Entre o movimento camponês, os massacres contra as ocupações de terras permanecem, com pequenos Curuguatys sendo praticados todos os dias contra os lavradores em luta pela terra.


Agora em 2016, sob Cartes, está sendo levado a cabo o dito “Julgamento de Curuguaty”. Tal como foi feito recentemente em nosso país, no Massacre de Caarapó [2], o Estado reacionário paraguaio quer agora criminalizar lideranças camponesas e lavradores do sítio Marina Kué, absurdamente, por um massacre do qual eles mesmos foram vítimas! Por assassinar onze agricultores e ferir centenas deles, até agora nenhum policial sequer foi investigado, porém, sobre os movimentos de massas, como sempre, nada mais que paus e pedras.


O Estado paraguaio utiliza a morte dos seis policiais no Massacre de Curuguaty para condenar a cento e vinte anos de prisão, num total, onze camponeses do sítio Marina Kué, entre eles, o importante dirigente Rubén Villalba. Porém, provas apresentadas por advogados em defesa dos camponeses condenados demonstraram que as balas que são utilizadas nas rudimentares espingardas de caça que estavam à disposição dos lavradores não possuíam a mínima capacidade de atravessar os coletes à prova de balas portados pelos policiais que abriram fogo sobre os agricultores, e, além disso, perícias constataram que os seis policiais mortos no Massacre o foram com balas de alto calibre que só podem ser disparadas por armas de alta periculosidade, o que os lavradores por sua vez não tinham em mãos. Foi também demonstrado que todas as espingardas achadas no local do massacre não deram um disparo sequer. Portanto, está claro que a morte destes seis policiais foi uma demonstração da incapacidade da polícia paraguaia até mesmo de reprimir revoltas populares, pois esta mesma repressão resulta também, como neste caso, em fogo-amigo.  


Apesar das várias constatações feitas e do sem número de provas apresentadas pela defesa dos camponeses, estas não receberam a menor atenção por parte da “justiça” paraguaia e a condenação dos mesmos prossegue.


São os movimentos de massas populares e democráticos quem agora vão ás ruas de todas as grandes cidades do Paraguai para protestar contra as arbitrariedades do governo paraguaio, principalmente no caso do “Julgamento de Curuguaty”. É de enorme importância para os revolucionários brasileiros se unirem ao povo irmão paraguaio e fazerem repercutir as grandes ações de massas de solidariedade aos presos políticos do Massacre de Curuguaty.

 

NOTAS
[1] No ano de 2008, a Colômbia levou a cabo provocações militares fronteiriças contra o vizinho Equador. Militares colombianos efetivamente invadiram território equatoriano e bombardearam um acampamento das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), assassinando o histórico líder revolucionário Raul Reyés. A provocação feita pelo Estado títere colombiano desencadeou uma crise diplomática não apenas com o Equador como também com a Venezuela, por conta da postura desta em se opor abertamente às provocações. Tal crise diplomática levou a América Latina à beira de uma guerra. No ano de 2009, também, a ingerência norte-americana na América Latina se manifestou no golpe de Estado em Honduras contra o presidente Manuel Zelaya.
[2] Referimo-nos aqui ao deplorável caso do Massacre de Caarapó, quando, em junho deste ano, fazendeiros e paramilitares de Caarapó-MS invadiram uma aldeia indígena e feriram a tiros dezenas de índios, assassinando também o agente de saúde indígena Clodiodi de Souza. Apesar de haverem assassinado o indígena e ferido com um tiro no abdômen uma criança de 12 anos, nenhum fazendeiro até agora foi investigado pelo crime e vários indígenas correm o risco de serem presos pelas mais absurdas acusações.  

 

por Alexandre Rosendo
 

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