"Sudão do Sul: Bendita paz rumo ao inferno"

14/07/2016

A paz, bênção reivindicada no Sudão do Sul, voltou a se retorcer e este país nascido há 5 anos está a ponto de repetir cenas horrendas como as iniciadas em 2013 até um ano atrás.


Há três anos o presidente sul-sudanês Salva Kiir, da etnia dinka, deu com a luva no rosto de seu ex-vice-presidente e principal rival político, Riek Machar, dos nuer, com a acusação de uma tentativa de golpe de Estado e de estimular uma rebelião militar para derrubá-lo.

Os fatos detonaram o início de 36 meses onde os odores predominantes no Sudão do Sul foram os de pólvora e de sangue.

Nesse tempo, ambos grupos cometeram abusos dos direitos humanos, violações, assassinatos étnicos e crimes de guerra, segundo a ONU.

Durante a batalha por fazer prevalecer suas respectivas razões morreram milhares de pessoas, mais de dois milhões e meio abandonaram suas terras e se deslocaram internamente ou para países vizinhos, estima a Agência das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur).

A bendita paz no Sudão do Sul parece tomar o caminho do inferno desde o dia 7 de julho.

Desde essa data a capital sul-sudanesa, Juba, estremece pelo ruído de metralhadoras, zumbidos de morteiros e explosões de granadas.

Forças leais ao governante Kiir e ao seu vice-presidente e líder opositor Machar estão se enfrentando em zonas centrais e da periferia de Juba. O motivo parece ser um equívoco de suas respectivas escoltas pessoais, que trocaram disparos entre si em um posto de controle que dava acesso ao Palácio Presidencial.

Ao ocorrer o fato, os dois dignatários encontravam-se reunidos com jornalistas na sede do Governo.

Essa batalha silenciou a coletiva de imprensa de Kiir e Machar, e a partir daí precipitaram-se os acontecimentos que acumulam até 269 pessoas mortas, 190 soldados das forças da oposição, 44 do Governo e 35 civis.

Também se registraram centenas de feridos, que lotaram os hospitais e outros centros de atenção médica na capital, confirmou o escritório presidencial do Sudão do Sul.

As tropas de ambos chefes se mantêm fora de seus acampamentos, posicionadas em formação de combate urbano em sensíveis bairros centrais, entre eles, o principal terminal aeroportuário internacional do país.

Além disso, os beligerantes têm entre dois fogos um acampamento da Missão de Assistência das Nações Unidas na República do Sudão do Sul (Unmiss).

Desse local evacuaram em 10 de julho para um lugar mais seguro cerca de 28 mil refugiados.

A ONU criou a Unmiss em 2011 em cumprimento da Resolução 1996, que estabeleceu consolidar a paz e a segurança, assim como contribuir para estabelecer as condições para o desenvolvimento sul-sudanês.

Tal é o agravo dos que parecem conduzir ao lugar das penalidades a frágil paz alcançada por este Estado africano há pouco menos de 11 meses.

É evidente que o Governo da Unidade Nacional formado em abril passado e que encabeçam os líderes das forças que se enfrentam, não consegue sanar as sérias feridas sofridas durante a, suposta, interminável guerra.

Recentemente o Conselho de Segurança da ONU reivindicou das partes em conflito uma rápida implementação de todos os aspectos dos acordos de paz, incluindo assuntos chave sobre os acordos de segurança.

O secretário geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, em um exercício inédito, remeteu em um período de 72 horas dois comunicados a Juba e seus textos exigem "fazer o impossível com seu poder para deter as hostilidades e ordenar às respectivas forças a se retirarem de seus acampamentos de origem".

Por sua vez, o secretário da Comissão de Vigilância e Avaliação para o acordo de paz no Sudão do Sul, Festus Mogae, também exigiu o fim imediato dos choques armados em todos os bairros e o retorno das tropas aos seus quartéis.

Desde o dia 9 de julho, governos africanos e ocidentais, e organismos internacionais, exigem a Kiir e Machar, com diferentes tons e matizes, respeitar as 72 páginas dos acordos de paz assinados em 26 de agosto do ano passado.

Em Kigali conheceu-se que os chefes de Estado da XXVII Cimeira da União Africana (UA), iniciada no dia 10 de julho, darão seu respaldo aos acordos de paz assinados há quase um ano para o Sudão do Sul.

Durante as sessões dessa reunião ao máximo nível, está previsto que os chefes de Estado emitam um enérgico chamado ao cessar definitivo dos confrontos em Juba.

Há pouco mais de 60 meses que foi decretada a independência do Sudão do Sul (maioria cristã) do Sudão (predominantemente muçulmano), a data só foi saudada pelos efeitos das agulhas percussoras das armas automáticas durante os combates nessa capital.

A bendita paz parece ir no Sudão do Sul rumo ao inferno. Detenham-na!

 

Por Benito Joaquín Milanés, do Prensa Latina

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