"Professores no México: render-se não é uma opção"

06/07/2016

Uma menina, estudante secundarista, toma o microfone em um encontro entre a sociedade civil de San Cristóbal de las Casas (Chiapas) e o movimento de professores, que mantém bloqueada a rodovia há mais de uma semana. Lhes fala, mas também fala a seus companheiros de classe: “lhes peço que vão ainda que seja em uma marcha, para que saibam o que está passando com nossos professores, para que entendam que não se trata de privilégios, mas que estão lutando por nossos direitos”.

 

Em seus 14 anos aproximadamente, em frente a muita gente do seu povo, fala do populismo de Obama, do aumento da gasolina, do desabastecimento dos supermercados... tudo o que disse com muita segurança, com clareza. “Quero dizer aos meus professores que realmente sinto sua falta, que sinto falta das suas aulas e suas repreensões”, neste momento se quebra a voz, deixa de falar, pede perdão e se retira do microfone. A plateia se anima, a aplaude, e volta ao microfone para dizer entre lágrimas: “não se rendam, professores, sabemos que sua luta é por todos nós”. Diante deste tipo de discursos, render-se não é uma opção.

 

Cenas como esta se repetiram nos últimos quatro dias, desde que o secretário do Governo cancelou o diálogo com o sindicato e ameaçou usar a força para romper os bloqueios nas vias. O governador do Estado citou o ex-presidente Gustavo Díaz Ordaz: “temos sido tolerantes até demais”, uma frase que Díaz Ordaz usou em um discurso da matança de estudantes em Tlatelolco, em 2 de outubro de 1968. Os rumores de que um grupo de choque está sendo organizar para vir romper o bloqueio crescem todos os dias, mas a cada rumor aparece outro grupo, uma nova organização que se soma ao bloqueio para manifestar seu apoio à luta dos professores. Taxistas, associações de moradores, esportistas, aposentados, pequenos comerciantes, muitíssimas pessoas que individualmente ajudam com cobertores, comida, água, até mesmo material para reforçar as barricadas. Isto mesmo acontece no resto dos bloqueios do Estado de Chiapas, mas também de Oaxaca e Michoacán.

 

A ameaça de usar a força contra quem pede diálogo gerou apoio incondicional ao magistério por parte da sociedade. Porque não é somente ameaça. Aqui todo mundo tem em mente o 19 de junho, quando integrantes da polícia dispararam contra a população de Nochixtlan e mataram nove pessoas. Todos sabem que como em Nochixtlan, se a polícia realiza um operativo com uso excessivo da força, a população sairá em defesa de seus professores com o tenha em mãos, machetes, pedras, arados, paus, gasolina e fogos de artifício (que em mãos hábeis se convertem em mísseis teleguiados). Todo mundo sabe que do outro lado haverá granadas de gás, escudos, coletes a prova de balas, fuzis de assalto e pistolas. Todo mundo sabe que se houver confronto, o principal perdedor será o governo federal, ainda que os mortos, como sempre, serão deste lado.

 

O “não” do magistério à reforma educacional

A maioria dos professores e professoras que estão em greve tem um Não muito simples: “não estamos de acordo com uma reforma que ponha em risco nosso emprego”. Se referem ao que se chamou de “exame punitivo”, um mecanismo pelo qual a Secretaria de Educação Pública tenta reduzir seu quadro laboral. Em termos concretos é “temos um contrato onde as condições de anulação deste são determinadas, esta reforma é uma mudança nestas condições, disfarçadas de avaliação acadêmica”.

 

Há outro Não, que é o afirmam os professores de educação indígena. Se opõe a algo muito mais sutil, mas ao mesmo tempo brutal: o exame punitivo é, ademais, discriminatório. Ao ser colocado em termos universalistas, desqualifica todo o saber local, as especificidades linguísticas de cada região, a história e o modo de cada povo. Os educadores das zonas indígenas sabem que ali, neste território do “universal” eles e seus povos não existem. Serão os primeiros excluídos por não saber falar bem espanhol. Não importará que saibam falar bem em zoque, mixe, maya peninsular, tseltal, chol, zapoteco, tojolabal, tsotsil, mixteco, popoloca, cuicateco…

 

Mas o Não de fundo, a que nem todos se referem, é o Não à privatização. Não se trata de que as escolas públicas de um dia para outro se tornem pagas, mas de que as escolas públicas deixem de ser responsabilidade do Estado e que os territórios que as contem perdam sua autonomia. Isto acontecerá justamente com uma figura chamada “autonomia de gestão”, um complexo mecanismo que permitirá à iniciativa privada se apoderar a infraestrutura escolas. Por meio do programa Escolas ao CIEN (Certificados de Infraestrutura Escolar Nacional) serão assegurados os recursos federais destinados à infraestrutura. Diante disto, a primeira emissão de “bônus educativos” na bolsa de valores alcançou a quantidade de 8.581 milhões de pesos (420,75 milhões de euros).

 

As tensões e o futuro imediato

Ainda que já signifique um negócio de milhares de milhões de pesos para a bolsa de valores, na teoria e no político a reforma educativa tem sido uma grande perda. Atualmente não existe nenhum investigador da área educacional que respalde o fundamento teórico da reforma. No político, de maneira gradual, perde a cada dia seus apoios. A fração da esquerda representada pelo partido MORENA o rechaçou com uma marcha massiva e uma aliança com a Coordenação Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE). O restante dos partidos começa a duvidar, mas enquanto tanto os grupos armados do país, encabeçados pelo EZLN, o EPR e o ERPI, manifestaram sua simpatia pela luta dos professores, chegando inclusive a cancelar suas atividades nos Estados onde a insurgência magisterial tem alta presença (como é o caso do festival Comparte, do EZLN, em Chiapas).

 

Do mesmo modo, no interior do gabinete as tensões aumentam: por um lado, Aurelio Nuño, secretário de Educação Pública, passou de negociador do gabinete a duro e inflexível, enquanto que Osorio Chong, secretário de Governo, colocou a máscara de conciliador para ganhar simpatias e substituir Nuño, mas isto durou menos de uma semana. Eles não pensam na educação nem no futuro das crianças, pensam em 2018 e a candidatura do PRI à presidência.

 

Quais são as opções ante esta situação?

A primeira é uma saída negociada, que é o que desde o princípio buscou a CNTE, que implicaria aceitar a reforma, mas com modificações substanciais quanto ao punitivo do exame, a visão intercultural da reforma e modificações nos procedimentos de autonomia de gestão. A saída negociada debilitaria a ala dura do gabinete e permitiria o surgimento de personagens com habilidades e capacidades para além do mero exercício da força. Pelo lado da CNTE, levaria ao tradicional sacrifício dos dirigentes que levaram a cabo a negociação.

 

A saída não negociada, ou seja, a repressão ao movimento dos professores, acrescentaria mais uma linha ao desprestígio nacional e internacional de Enrique Peña Nieto, mas sobretudo, desataria uma escalada violenta, pois até agora a CNTE conseguiu manter-se como um movimento não violento que executa ações que podem ser classificadas dentro da resistência civil, mas ao ser deslocado como alternativa de interpelação e diálogo, os movimentos e organizações que apostam na confrontação armada se veriam fortalecidos.

 

Disse o secretário de Governo há uns dias: “o tempo se esgotou”, mas provavelmente seja seu tempo como funcionário público, pois pelo que se vê nas barricadas, o tempo da sociedade civil está florescendo. 

 

 

por Leonardo Toledo Garibaldi, jornalista de Chiapas, México

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